«Faltava ainda explicar o mais difficil, a mais intima, a mais nobre, a mais séria porção do genio hespanhol; coube esta ao grande Corneille. Potencia de paixão, do pensamento, de combinação, eis o que elle pediu ao theatro de Hespanha.—Las Mocedades del Cid transformadas fornecem-lhe a mais bella tragedia moderna. Um drama pseudonymo de Alarcon transforma-o em uma comedia de costumes.»[181] «O Menteur é uma obra prima de bom senso, de arranjo e de imitação. Corneille não quiz mais do que isso. Descobriu a fonte hespanhola, e fez brotar a comedia de caracter.» E na marcha do seu estudo Philarète Chasles chega a affirmar: «O nosso theatro contém mais de duzentos dramas que vieram de Hespanha. As obras de Montfleury, de Scarron, outr’ora tão popular, de Dufresny, mesmo de Destouches, algumas de Molière, tem uma origem hespanhola.»[182]

Philarète Chasles, caracterisa a influencia do theatro hespanhol em França, depois de alludir ás imitações de Corneille no Polyeucte e no Cid: «Racine escapa á influencia hespanhola; n’elle só se encontra sob a fórma de galanteria e de elegancia. Depois da morte de Racine, Lagrange-Chancel e Crébillon succedem-lhe, mediocres fabricantes de intrigas hespanholas. Os Timocrates e os Rhadamisto, que abriram a senda ao melodrama moderno, vieram-nos de Hespanha. Foram Lope, Alarcon, Tirso de Molina, que crearam para nosso uso esta architectura cheia de escadas secretas, gabinetes occultos, pavilhões mysteriosos, retiros para galanteadores, balcões para escalar, e muros faceis de saltar, todo este material que ainda se não abandonou. O mais insignificante vaudeville de intriga que se representa na Europa ainda agora é uma creação da Hespanha.»[183] E caracterisando esta força creadora do genio hespanhol, accrescenta Philarète Chasles: «O enredo hespanhol encontra-se em todos os theatros do mundo. Em Veneza, Roma, Paris, Londres, San Petersburgo, Vienna, New-York, Don Juan, o Cid, o Menteur, o Matrimonio secreto, antigos caprichos de alguns poetas de Madrid, sustentam-se obstinadamente, tal é a vida dramatica n’estas invenções.—Ao primeiro relance, Calderon, Alarcon, Roxas e Tirso são um mesmo poeta; os mil dramas hespanhóes que do seculo XVI ao XVII brotaram d’esta fonte, parecem-se e são gémeos. Para reconhecer o cunho das variedades de talento que os dictaram, é preciso reparar bem de perto; a originalidade d’estas obras é a originalidade de um povo, não a de um homem; o talento especial do poeta como que se sacrificou e perdeu no genio dominante da multidão.»[184]

Sobre a litteratura ingleza, especialmente no theatro é que o genio hespanhol irradiou a sua intensa paixão, a ponto de por um effeito reflexo os dramas inglezes de origem hespanhola popularisarem-se sobre a scena franceza. É pois absurdo attribuir á Hespanha a perversão do gosto do estylo euphuista propagado á Inglaterra.

A influencia da Litteratura hespanhola em Inglaterra, facto manifesto em Shakspeare e nos poetas dramaticos, tem sido confundida com esse phenomeno de perversão do estylo metaphorico chamado o Culteranismo. Esta epidemia litteraria, tão caracteristica dos poetas e prosadores do seculo XVII, teve em Inglaterra o nome de Euphuismo, nome tomado do titulo de uma obra do seu propagador John Lyly. Bem examinadas as origens do euphuismo, vê-se que este estylo entrou em voga na Inglaterra no meado do seculo XVI, na prosa de George Petty, imitador dos italianos, como tambem o implantou Philip Sidney, seguindo-o todos aquelles que tentavam reproduzir o petrarchismo, como Thomas Wyatt, Surrey e Spenser. O requinte na expressão do sentimento levava á linguagem amaneirada, ás antitheses, ás aliterações, e póde-se considerar, segundo Morly, que n’este meio é que se desenvolveu o euphuismo. Lyly imitou Petty, e seguidamente os italianos, a Petrarcha directamente na sua Galathea, e a Surrey especialmente. Embora o gosto do euphuismo seja menos dominante nas poesias de Lyly do que nas suas novellas, e tenda a ser abandonado em outras composições, comtudo mantiveram-n’o outros escriptores, como Rich, Nash, Green, Lodge, o que revela uma influencia mais profunda e não pessoal. É pois absurdo attribuir á Hespanha esta perversão do gosto na litteratura ingleza, já derivando-a da imitação do estylo de Guevara, como o imaginou Laudmann, já de Gongora como anachronicamente o indicou Hillebrand. A imitação da poesia italiana em Inglaterra começou com Chaucer, e esse gosto propagou-se até Shakspeare; e emquanto em Inglaterra degenerava o estylo no emprego de paronomasias simples, de aliterações alternadas, de antitheses parallelas e cadencias rythmicas, tambem em Hespanha essa mesma influencia degenerava segundo o genio peninsular em hyperboles phantasticas, em atrevidas metaphoras e tropos inchados. Assim o Euphuismo e Culteranismo sem serem eguaes, nem derivarem um do outro, identificaram-se facilmente, produzindo esse engano nos criticos.[185] Não é nas aberrações do estylo litterario que se deve procurar a influencia hespanhola na litteratura ingleza, mas sim nos themas fundamentaes e nos processos da idealisação artistica; e a acção exercida sobre as litteraturas da Italia e da França ajuda a comprehender quanto ella suscitou nobremente o genio esthetico na Inglaterra.

No seculo XVII Portugal estava incorporado na unidade castelhana; não existia como organismo nacional, e pelas manifestações da sua litteratura não se poderia prevêr a revolução autonomica de 1640. Esse impulso veiu de fóra; a liberdade de Portugal era um dos córtes do plano de Richelieu contra a Casa de Austria. Na litteratura portugueza os principaes poetas, como D. Francisco Manoel de Mello escrevem em castelhano: e uma grande parte das Comedias famosas do theatro hespanhol são compostas por portuguezes. Parece que mentalmente, ou nos dominios da intelligencia Portugal e Hespanha formavam uma mesma civilisação. O uso do castelhano pelos escriptores portuguezes no seculo XVII não era um symptoma de depressão do sentimento nacional; já no seculo XV os poetas portuguezes palacianos enriqueceram os Cancioneiros de Hespanha; na época quinhentista Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões escreveram em castelhano grande parte das suas poesias. No Catalogo razonado de Escriptores portuguezes que escreveram em castelhano, colligido pelo Dr. Garcia Perez, é extraordinario o numero que ahi se encontra, como revelando uma certa unidade de civilisação iberica. O genio portuguez cooperou para o esplendor da litteratura hespanhola, quando aquella nação decahia sob o despotismo da Casa de Austria. Por via da paixão de Jorge de Monte-mór actuou sobre o gosto das allegorias pastoraes na Europa, com a Diana; com a Historia da Guerra da Catalunha de D. Francisco Manoel de Mello, appresentava a norma realista para os modernos historiadores. Estavamos sob o jugo politico, mas em plena egualdade mental; o genio portuguez communicou á Hespanha a paixão, o elemento vivo que mais longe levou o seu influxo litterario. As causas da decadencia da Hespanha foram as mesmas que actuaram em Portugal, aggravada porém a nossa situação por um factor deprimente—a alliança ingleza com todos os seus tratados diplomaticos.

c) O ARCADISMO E A REACÇÃO PROTO-ROMANTICA

(Hegemonia da Inglaterra)

As liberdades da elocução poetica, tanto na Italia, França, Inglaterra, Hespanha e Portugal, que foram designadas pelo nome de Culteranismo, e pelo de Seiscentismo por predominarem no gosto do seculo XVII, não devem ser consideradas como uma degenerescencia das Litteraturas meridionaes, mas como um esforço espontaneo de renovação desordenada e mal comprehendida. A imitação da Antiguidade com que as Academias poeticas chamadas Arcadias procuraram reagir contra essa corrente de uma intemperança rhetorica, era injustificavel, por que nos poetas classicos encontravam-se exemplos para justificar os maiores absurdos e os laboriosos artificios do estylo culto. Verney, nas cartas sobre o Verdadeiro methodo de estudar, analysando todos esses destemperos das rimas forçadas, dos labyrintos, acrosticos, anagrammas, chronogrammas, equivocos, eccos, usados na litteratura hespanhola e portugueza, cita fórmas analogas nos escriptores gregos e latinos. As Arcadias restringiram os modelos classicos a um pequeno numero de poetas, como Theocritico, Virgilio e Horacio; e contra os rasgos da imaginação expressos pela linguagem figurada, impuzeram-se um estylo rasoavel, frio, de um bom senso prosaico, sem emoção, nem colorido. O esforço para a manutenção das normas classicas, começou no proprio seculo XVII, com a auctoridade implacavel de Boileau em França, e com o estabelecimento da Arcadia de Roma, em 1690, fundada por Crescimbeni e Gravina, academia poetica que se tornou o typo de todas as Arcadias que encheram quasi todo o seculo XVIII. O pseudo-classicismo francez, propagado pelo perstigio dos grandes escriptores do seculo XVII, identifica-se com o Arcadismo, em que o espirito de erudição procurava transformar as academias culteranistas.

Mas no seculo XVII o conflicto entre as duas escholas tomou um aspecto consciente na celebre Querella dos Antigos e Modernos, suscitada por Charles Pérrault. Tratava-se de saber se a civilisação moderna tinha recursos mais ricos e fecundos do que a antiga, e se no meio de uma mais activa e delicada sociabilidade, com sentimentos mais humanos, não havia logar para uma idealisação tão bella nas artes e na poesia, como a da sociedade greco-romana. Pérrault sustentava que sim, e mostrava-se deslumbrado pelo esplendor da côrte de Luiz XIV; Boileau, reconhecendo esse esplendor como digno da éra de Périeles e de Augusto, cahia no contrasenso de proclamar a primasia da antiguidade, vindo a final a transigir com o seu antagonista.

Operára-se pela generalisação das ideias philosophicas do Cartesianismo uma forte corrente contra o formalismo da Scholastica, libertando o criterio e dando-lhe a audacia com que actúa no espirito do seculo XVIII; reflectiu-se essa situação mental tambem nas doutrinas litterarias, suscitando a ruidosa mas significativa Querella dos Antigos e Modernos, e determinando o abandono da Poetica de Aristoteles. Escrevia o barão Taylor para uma sessão do Congresso historico de 1840: «A mesma reacção que se opéra contra a antiguidade philosophica, não tarda a manifestar-se contra a antiguidade litteraria, e a Poetica de Aristoteles é atacada com tanta vivacidade como a Logica. Pérrault, Lamothe e Fontenelle são os campeões das ideias modernas, e ouso dizel-o, appresentaram melhor a fórmula romantica, do que a eschola actual, do que o proprio Chateaubriand, que quiz fechar a Litteratura no cyclo christão.» [186] Desde que as ideias e os sentimentos da civilisação moderna são evidentemente mais verdadeiros e humanos, são essas ideias e sentimentos que devem ser universalisados na arte e na litteratura, que com taes elementos não podem ficar inferiores ás obras primas antigas. Apezar d’este impulso resultante da Querella dos Antigos a Modernos, na primeira metade do seculo XVIII prevaleceu a admiração exclusiva pelas obras classicas greco-romanas, a imitação reflectida ou pautada d’esses modelos, e a preoccupação de um purismo de linguagem e primor de estylo, que em vez de exprimir sentimentos visava a seguir as convenções e a obter os applausos academicos. Um esforço para derivar a idealisação poetica da realidade da vida moderna começou pela generosa tentativa dos Romancistas inglezes; a liberdade politica e philosophica da Inglaterra, affirmadas nas suas duas fecundas revoluções do seculo XVII, deram-lhe essa plena hegemonia que exerceu pela sua influencia na França sobre a Europa do seculo XVIII. As ideias com que Montesquieu leva a insurreição aos espiritos no Espirito das Leis foram recebidas de Inglaterra, como a audacia das Lettres persanes nos apparece cultivada na associação de livres-pensadores do Club de l’entresol, em que dominava Bolingbroke. Tambem pela emigração na Inglaterra alcançou Voltaire a comprehensão mais clara da sua missão negativista. O romance da vida intima ou domestica, como o fundou Richardson, veiu mostrar ao genio francez a fórma definitiva, que elle só tem a aperfeiçoar; e as tragedias de Shakspeare, máo grado os protestos academicos, revelaram uma esthetica nova, em que a verdade da paixão prevalece sobre a fórma transitoria, que se torna bella e mesmo profundamente philosophica por essa verdade.

Na grande crise social que vae fazer a sua explosão nos fins do seculo XVIII, os litteratos foram os instrumentos de uma propaganda das ideias philosophicas do negativismo revolucionario. Mas, não conseguiram vencer a rhetorica; o Arcadismo, mantinha-se n’esse deploravel aspecto incolôr das obras litterarias que se não referiam á sociedade viva, á época, á nação, mas esboçavam abstractas entidades, umas vezes segundo os moldes consagrados pelas Academias, outras vezes com a intenção de servir ou de combater as aspirações revolucionarias. A litteratura protegida pelas côrtes do seculo XVIII, para evitar os perigos da liberdade, fechava-se na disciplina do arcadismo. Como a falta de sentimento imprimia aos poetas uma fórma apagada e sem colorido, elles procuravam mascarar a futilidade ou inutilidade dos seus versos tornando-os rasoaveis, compondo poemas didacticos ou scientificos. Taine caracterisa magistralmente o caracter incolôr da litteratura: «No seculo XVIII não é proprio o figurar a cousa viva, o individuo real, tal como existe effectivamente na natureza e na historia, isto é, como um conjuncto indefinido, como um rico tecido, como um organismo completo de caracteres e de particularidades sobrepostas, entremeadas e coordenadas. Falta-lhe a capacidade para recebel-as e para contel-as. Affasta-as o mais que póde, tanto, que por fim não conserva senão um extracto mesquinho, um residuo evaporado, um nome quasi ôco, em summa, o que se chama uma inane abstracção.—Por toda a parte a seiva está esgotada, e em logar de plantas florescentes, só se deparam flores de papel pintado. Tantos poemas sérios desde a Henriada de Voltaire até aos Mezes de Roucher ou á Imaginação de Delille, que é tudo isso senão trechos de rhetorica guarnecidos de rimas? Percorrei as immensas tragedias e comedias de que Grimm e Colé nos dão o extracto mortuario, mesmo as boas peças de Voltaire e de Crébillon, mais tarde a dos auctores que estiveram em voga, Du Belloy, La Harpe, Ducis, Marie Chénier: eloquencia, arte, situações, bellos versos, tudo isso têm, excepto homens; os personagens não passam de mannequins bem adestrados, e as mais das vezos trombetas pelas quaes o auctor lança ao publico as suas declamações. Gregos, Romanos, Cavalleiros da Edade media, Turcos, Arabes, Peruvianos, Guebros, Byzantinos, pertencem todos á mesma mechanica discursiva. E o publico não se encommoda; não tem o sentimento historico; admitte que o homem é em toda a parte o mesmo, e consagra pela admiração os Incas de Marmontel, o Gonzalve e as Novellas de Florian...»[187] E mostrando o mesmo aspecto incolôr nas obras dos historiadores: «O Grego antigo, o christão dos primeiros seculos, o conquistador germanico, o homem feudal, o arabe de Mahomet, o allemão, o inglez da Renascença, o puritano, apparecem nos seus livros com pouca differença das suas estampas e dos seus frontispicios, com algumas differenças de trajo, mas com os mesmos corpos, as mesmas caras, a mesma physionomia, attenuados, apagados, decentes, accommodados ás conveniencias. A imaginação sympathica pela qual o escriptor se transporta a outrem, e reproduz em si um systema de habitos e de paixões contrarias ás suas, é o talento que mais falta ao seculo XVIII.»[188] Comparando o romance francez com o romance inglez, Taine conclue pela surprehendente superioridade de Foë, Richardson, Fielding, Smollett, Sterne e Goldsmith até Miss Burney e Miss Austen, e diz: «eu conheço a Inglaterra do seculo XVIII; eu vejo clergyman, gentishomens do campo, rendeiros, estalajadeiros, marinheiros, gente de todas as condições, infimas e elevadas;... tenho nas mãos uma série de biographias circumstanciadas e precisas, um quadro completo, de mil scenas, da sociedade inteira, o mais amplo montão de informações para me guiarem quando eu quizer fazer a historia d’este mundo extincto. Se, em seguida, leio a série correspondente dos romancistas francezes, Crébillon filho, Rousseau, Marmontel, Laclos, Rétif de la Bretonne, Louvet, M.me de Staël, M.me de Genlis, e os outros, comprehendendo Mercier e até M.me Cottin, quasi que não tenho notas a tomar;... vejo modos delicados, mimos, galanterias, velhacarias, dissertações de sociedade, e aqui está tudo.»[189] Pela fórma do romance é que a Inglaterra exerceu tambem a hegemonia litteraria no seculo XVIII, determinando em França essa tentativa de idealisação da realidade, ou o Proto-Romantismo, e na Allemanha, depois da Guerra dos Sete annos, o impulso que a levou a idealisar as suas tradições nacionaes, e a abrir a época da renovação das Litteraturas modernas no seculo XIX ou o Romantismo.

Quando se fundou a Arcadia de Roma para corrigir os exageros do estylo marinista, oppuzeram os seus associados outros exageros, simulando ingenuidades pastoris, resuscitando as allegorias buccolicas que desde Sanazzaro se propagaram entre os eruditos; reuniam-se no monte Janiculo, chamando á sala das sessões Bosque Parrasio, e tomando nomes poeticos de pastores gregos, das eclogas de Theocrito ou de Virgilio. Os Papas, Reis, cardeaes, bispos e magistrados honravam-se em pertencer á Arcadia; Dom João V, que teve n’esse gremio pastoral o nome de Albano, mandou-lhe construir em Roma um palacio para as suas sessões. A Arcadia, que se propagára a todas as cidades da Italia, tambem teve em Portugal o seu rebento. Mas aqui, a lucta contra o elemento seiscentista foi porfiosa, por que as Academias ou Tertulias litterarias eram os baluartes do Culteranismo. Do gosto dominante, escrevia Verney: «Geralmente entendem, que o compôr bem consiste em dizer subtilezas e inventar cousas que a ninguem occorressem...»[190] E sob a influencia da litteratura castelhana: «Envergonham-se de poetisar em portuguez, e têm por peccado mortal ou cousa pouco decorosa fazel-o na dita lingua.» Por este mesmo tempo estava a moda das Academias arcadicas no seu maior fervor em Hespanha, como affirma Valderrábano no prefacio ao poema Angelo-machia: «Entretinham-se os saráos fazendo relações, trechos de comedias, cantando ao fandango xácaras de valentões, e recitavam-se poesias burlescas. Tudo cessou de quarenta annos a esta parte, (1786) e mais vale que se não renovem, a não ser com melhor cultura e melhor influxo nos costumes.»[191] Era tambem ardente este prurido arcadico em Portugal, como o confessa o bispo Cenaculo, no seu estudo As Letras na Ordem Terceira de Sam Francisco: «Ainda durava o seculo das Academias. A duração era effeito dos bons principios, e tambem por que o caracter da nação é o do monarcha. Sendo paixão de el-rei D. João V aquelle genero de estudos, por que passava quatro e cinco horas continuadas n’esta lição, para este fim dispoz uma união de academicos escolhidos, que competissem com o grande merito do seu assumpto, qual era a historia da patria. Espalhou-se pela monarchia este calor: os paroxismos vieram-lhe da desordem em que poz o reino o Terremoto de cincoenta e cinco. Mas d’antes, nas casas particulares, nos conventos de religiosos, e por outras maneiras se ajuntavam a cada passo, não só os letrados, mas tambem os que tanto pretendiam, tratando com diligencia os assumptos.—Nos mesmos claustros achei praticada aquella curiosidade. Nos dias do P. Fr. Joaquim (de Santa Clara) sendo collegial, elle o fomentava em o nosso Collegio de Coimbra, com sociedade de bons amigos, e no Collegio de S. Thomaz e de S. Jeronymo. Admittiram-se os contemporaneos habeis, sendo todos collegiaes, e que foram depois professores ou doutores em a Universidade, e prelados maiores das suas Ordens e alguns bispos.»[192] No seculo XVIII, como o sentia o bispo Cenaculo, o caracter do monarcha era o da nação: D. João V já se não penalisava de não poder trocar a corôa de rei pela cugula de Inquisidor, mas acceitava para maior perstigio da soberania o papel de pastor-arcade; elle amava o canto-chão, e assim como importava da Italia os productos da arte rococo para ornamentar a sua côrte, chamava tambem o veneziano Frei Jorge para ensinar o funebre canto-chão em Sam José de Ribamar. O sentimento da nacionalidade apagava-se, e bem preciso era o entoar o canto mortuario sobre o paroxismo de um povo. Á imitação dos monarchas do seculo XVIII, D. João V tinha por modelos Luiz XV e Leopoldo na sensualidade e na prodigalidade. Gastando quatro e cinco horas em tertulias academicas, bocejava ouvindo a conferencia dos ministros, que interrompia de vez em quando para saber quanto rendia a caixa das almas, como nol-o pinta Alexandre de Gusmão; de noite refocilava-se com as freiras do beato harem de Odivellas, como o descreve o bispo de Gram-Pará. A censura litteraria era exercida pelo cardeal Cunha, que mandava riscar dos repertorios os prognosticos de trovoadas e chuvas.

Em uma nação em que a vida toda se reconcentrava na côrte, em volta do rei e dos seus aulicos favoritos, a influencia franceza tinha de ser preponderante, por que a França era então considerada como o modelo da elegancia e do gosto. Esta influencia franceza na litteratura manifesta-se como uma reacção do purismo pseudo-classico contra o Culteranismo, ou a influencia hespanhola. D. João V tomava como seu figurino Luiz XV com a sua côrte sensual e sumptuosa. Os fidalgos portuguezes começaram a ter nos seus jardins fontes feitas por Bernin, como se usava em França; Mafra era um arremedo de Versailles, e as Aguas-Livres um despique com o Aqueducto de Maintenon. O Conde da Ericeira mantinha relações de amisade com o chefe do pseudo-classicismo francez, o austero Boileau, e traduzia-lhe a sua Poetica para nos dar um codigo de bom gosto. Boileau agradeceu-lhe em uma carta (é a XIV.a) tamanha consagração. Francisco de Pina e Mello imita as Odes sacras de João Baptista Rousseau; Verney, proclamava o Telemaco de Fénélon «uma Epopêa das mais bem feitas e escriptas que tem apparecido.»[193] A Athalia de Racine era traduzida por Candido Lusitano, e o Lutrin, imitado no Hyssope de Cruz e Silva. A fundação da Academia de Historia portuguesa, em 9 de Dezembro de 1720, fôra iniciada pelo Conde da Ericeira no seu palacio da Annunciada «por emulação dos Scientes de França» como se lê em uma Oração panegyrica. É curiosa a transformação das Academias culteranistas do seculo XVII nas arcádicas do seculo XVIII, aproximando-se do classicismo francez. Assim, a Academia dos Generosos, iniciada pelo trinchante-mór de Dom João IV, mantendo-se de 1647 até 1668, é renovada em 1684, e por seu filho D. Luiz da Cunha, continuando até 1693, é disfarçada com o titulo de Conferencias discretas, com que celebrava as suas sessões de 1696 a 1699 em casa do Conde da Ericeira; e n’esse mesmo palacio durante quatorze annos (1714 a 1728) se confundiu com a Academia dos Anonymos, refundindo-se a final na Academia de Historia portuguesa, com caracter particular em 1717, e official depois de 4 de Novembro de 1720. Assim a divisa da Academia dos Generosos: Non extinguetur, com o emblema de uma vela accesa, tornava-se uma realidade, por que n’estas renovações transmittia sempre o gosto do Culteranismo. O antigo secretario da Academia dos Generosos, Manuel Telles da Silva, funda em 1747 a Sociedade dos Occultos, com o fim da transformação do gosto litterario. Existiu até 1755 em que foi dispersada pela tremenda catastrophe do terremoto de Lisboa, e só veiu a reconstituir-se em 11 de Março de 1756 com o titulo definitivo de Arcadia Ulyssiponense, datando as suas conferencias do Monte Ménalo (á imitação do Parrasio, da de Roma.) Quando morreu D. João V, o protector das sociedades arcádicas, celebraram-lhe a memoria as Academias dos Escolhidos, dos Anonymos, dos Applicados e dos Occultos, que funccionavam em Lisboa. Foi contra esta forte corrente culteranista que luctou a Arcadia Ulyssiponense, mas com aquella frieza sensata e incolôr do classicismo francez. A poesia culteranista impunha-se, por que, como o confessa Verney: «a sua contextura é tão facil, que por máo que seja o poeta sempre acerta com ellas. A Decima, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lyrico, Quartetos puros e de pé-quebrado, Tercetos, etc., nada mais pedem que a naturalidade do conceito e expressão...»[194] A Arcadia dispendeu a sua energia em questões banaes, propondo a imitação dos Quinhentistas e as regras do emprego dos archaismos e neologismos da linguagem. Sob a pressão material e moral do absolutismo monarchico e do intolerantismo catholico, a auctoridade academica veiu acabar de deprimir os espiritos, e a poesia degradou-se na obscenidade, como se vê nos versos de Caetano da Silva Souto Mayor (o Camões do Rocio), de Antonio Lobo de Carvalho (o Diogenes da Madragoa), nos de Filinto e de Bocage.

No emtanto, sente-se no meio d’esta linguagem falta de expressão emocional o influxo da poesia ingleza em Garção, apezar do seu horacianismo, e em José Anastacio da Cunha. Entre as obras de Garção encontra-se a «Traducção de uns versos inglezes feitos a um grande pintor[195] E da ode A uns annos de uma senhora ingleza, se deprehende qual a sua convivencia, e ensejo de familiaridade com as obras dos poetas inglezes. José Anastacio da Cunha traduziu a Oração universal, de Pope, um dos fundamentos com que o agarrou a Inquisição de Coimbra em 1778; no seu processo do Santo Officio se lê, que era muito amigo do brigadeiro Ferrier «escossez de nação, protestante, o qual lhe pedia traduzisse algumas peças e versos de alguns livros francezes e inglezes, que elle fazia em verso portuguez...» No sequestro que a Inquisição de Coimbra fez dos seus Livros, vem enumerados muitos livros inglezes.[196]

A superioridade das poesias lyricas de José Anastacio da Cunha sobre todas as dos seus contemporaneos explica-se por esses modelos que o conduziram á realidade e á expressão natural e simples da paixão. O pseudo-classicismo reconhecendo a sua inutilidade, cultivava a poesia didactica, pondo em poemas os estudos scientificos tão predilectos do seculo XVIII, ou propagando tambem em tragedias racinianas as doutrinas revolucionarias do criticismo encyclopedista. Póde-se considerar como a ultima phase do Arcadismo, que a Revolução franceza, apezar das grandes paixões postas em conflagração, não conseguiu desviar da sua inalteravel rhetorica. É certo, que em França, pelo mesmo negativismo critico, se operava uma libertação da auctoridade classica e das tradições medievaes, e se proclamava o individualismo humano e o regresso á natureza. É esta corrente proto-romantica franceza, que vae reflectir-se na Allemanha, acordando o espirito dos creadores d’aquella grande litteratura; Lessing imita Diderot no theatro, Goëthe admira o creador do Neveu de Rameau, Wieland reelabora as Gestas francezas, Schiller desenvolve a Tragedia philosophica com intuitos revolucionarios, e o proprio Kant confessa-se fecundado pelas ideias individualistas de Rousseau. Os emigrantes francezes, por occasião da revogação do Edito de Nantes, tinham levado para a Allemanha o impulso da civilisação moderna; era inevitavel a preponderancia do pseudo-classicismo francez. Interrompeu-se essa imitação, quando a Allemanha, suscitada pelo conhecimento da Litteratura ingleza, comprehendeu o valor das suas antigas tradições nacionaes. O rompimento com a cansada imitação da França só podia começar em uma nação forte pela raça e pela riqueza das suas tradições, para fundar a sua Litteratura na idealisação d’ellas. Foi um trabalho consciente. Por occasião da Guerra dos Sete annos a Allemanha separou-se da imitação franceza, e a leitura dos antigos poetas inglezes revelou-lhe que fóra das normas do classicismo francez existiam outras fórmas artisticas mais coloridas e bellas. Lessing, na Dramaturgia, funda a nova prosa allemã e derrue as theorias dos tragicos francezes; a côrte de Weimar, sob o influxo pacifico da regencia de Anna Amelia de Bronswick, agrupa essa pleiada de genios creadores, de que Goëthe era o chefe. Os irmãos Grimm encetam os seus vastos estudos sobre a lingua, a mythologia, o direito, as velhas epopêas e os contos populares da Allemanha; e sobre estes elementos da Patria germanica, resplandece uma nova litteratura, que se torna uma das mais opulentas do seculo. O Romantismo, para os povos do Occidente foi o regresso ás suas tradições da Edade media, não comprehendidas, desprezadas e esquecidas desde a Renascença, pelo prurido da imitação classica sob a protecção official monarchica. Desde então o movimento das Litteraturas romanicas se resume n’este impulso da Litteratura allemã, revelando as fontes organicas de toda a elaboração esthetica.[197]

§ 3.—O Romantismo

(HEGEMONIA DA ALLEMANHA)

Os espiritos mais eminentes do seculo XVIII previram a crise violenta, que a decadencia das instituições politicas provocava, e que as revoltas da consciencia iam apressando. A Revolução franceza foi essa explosão temporal de um movimento, que desde o seculo XII procurava um novo equilibrio; movimento complicado pelo longo esforço negativista de decomposição, e pela incerteza de uma base positiva para a reconstrucção de uma outra synthese humana. A queda dos Jesuitas fôra o resultado da final decomposição do poder espiritual do regimen catholico; e a execução da realeza, na pessoa do desgraçado Luiz XVI, era a transformação do poder temporal, que desde as bandas guerras germanicas, e dos privilegios das classes aristocraticas, se fôra concentrando na dictadura monarchica. Devera seguir-se um forte trabalho de reconstrucção sobre as ruinas do regimen catholico-feudal; a Convenção comprehendeu genialmente o seu destino, e esboçou o poder espiritual com as grandes reformas pedagogicas, e o poder temporal com a substituição provisoria da Republica-democratica. Na complicação dos acontecimentos esta marcha foi perturbada; o poder espiritual desvairado pela metaphysica deista de Robespierre facilmente regressou a uma reacção neo-catholica; e o poder temporal, envolvido nas guerras defensivas e no delirio do terror, foi cahir nas mãos de um aventureiro militar, que com o nome de Consul e de Imperador esgotou a França com uma orgia de guerras sangrentas, que levou a Europa a colligar-se e a fazer a restauração da monarchia. Eis a série de factos que na sua inconsequencia se accumularam na transição do seculo revolucionario para o seculo XIX; a nova edade continuou a antiga lucta, porém com menos clareza. Com rasão considerava De Maistre o nosso seculo como um prolongamento do seculo XVIII. Não se avançou mais no trabalho da construcção da nova synthese; estabeleceu-se a hypocrisia systematica das contemporisações e dos partidos medios (juste milieu); as Cartas-outorgadas e o regimen monarchico-representativo foram a sophismação do poder temporal; da mesma fórma a religião de estado e o subsidio official a todas as desconnexas especialidades scientificas corrompeu o poder espiritual em uma espantosa pedantocracia.

N’esta angustiosa crise, que esterelisou o seculo XIX, que deixará na historia a marca da sua incapacidade para a construcção da synthese definitiva, as Litteraturas reflectiram todos estes abalos de um regimen decahido, e da comprehensão de um ideal superior. Representaram a melancholia e o estado de desalento dos espiritos; deram expressão aos sentimentos que se compraziam em evocar o passado, que procurava restaurar o seu antigo dominio; espalharam os protestos de revolta dos genios insubmissos, e lisongearam o gosto banal de uma burguezia cordata. Todas estas manifestações eram a revelação dos caracteres de uma nova época litteraria: chamou-se-lhe o Romantismo. Veiu da Allemanha esta designação, como viera o exemplo de sympathia pelas tradições da Edade media. Na renovação das Litteraturas romanicas competiu á Allemanha a hegemonia, nos começos do seculo, como resultante da solidariedade da civilisação europêa; e essa acção ligava-se á diversidade que n’este longo periodo de lucta se estabelecera entre o regimen catholico-monarchico e o aristocratico-protestante, dos povos romanicos e germanicos.

Considerando como uma base da Sociologia o estudar a civilisação em todos estes povos que conjunctamente participaram do movimento da Europa occidental, na Italia, França, Inglaterra, Allemanha e Hespanha, estabelece Comte: «Estas cinco grandes nações podem ser consideradas como tendo constituido depois da primeira metade da Edade media, apezar de immensas diversidades, um povo unico reunido sob o regimen catholico e feudal e sujeito a todas as transformações successivas que este regimen provocava consequentemente.»[198] No estudo das Litteraturas modernas torna-se indispensavel este criterio; embora o genio nacional tenda a individualisar-se e a manter o separatismo patriotico como um estimulo de inspiração, é nas Litteraturas que se observa a hegemonia esthetica que cada nação europêa foi exercendo uma após uma sobre o conjuncto das outras, creando assim uma verdadeira solidariedade sentimental na civilisação do occidente. Comte fez sentir o valor d’esta successão hegemonica: «Ainda que a arte tenha sido accusada de fomentar antipathias nacionaes, em virtude da sua incorporação no desenvolvimento proprio de cada população, ella tem, sem duvida, actuado com mais energia em sentido contrario, aproximando as nações, pela viva predilecção universal que as obras primas estheticas suscitavam para o povo que as produzia. Cada uma das bellas-artes teve o seu modo especial de excitar a sympathia universal da Europa e de auxiliar a communicação mutua; mas a influencia mais geral e a mais efficaz, sob este aspecto, pertence á poesia, que obrigou ao estudo das linguas estrangeiras, sem o qual as diversas obras primas não teriam sido apreciaveis.»[199]

Na crise systematica da revolução occidental, a começar do seculo XVI, as capacidades estheticas revelam-se diversamente entre os povos catholicos e os protestantes. Com o catholicismo prepondera a monarchia com a sua absorvente dictadura temporal, apoderando-se das Litteraturas por uma exagerada protecção official, pela instituição de academias destinadas a subordinar a inspiração individual a regras rhetoricas, manietando pela auctoridade do gosto ou dos modelos consagrados todos os impulsos de originalidade. Nada satisfazia melhor este plano do que a imitação da antiguidade classica; e de facto o prolongado perstigio da poesia do polytheismo greco-romano durou com o perstigio das monarchias absolutas, e soffreu a sua reacção depois da explosão revolucionaria. Com o protestantismo preponderou o elemento aristocratico, a quem era sympathico o ideal cavalheiresco do individualismo heroico; e as naturezas artisticas, sem outro apoio mais do que a espontaneidade da sua vocação e a sympathia popular, não perderam completamente a originalidade, por que se não afastaram de todo da Edade media. É por isso que a Inglaterra exerce no seculo XVIII uma influencia sugestiva no pseudo-classicismo francez, e que no seculo XIX a Allemanha actúa nas Litteraturas occidentaes revocando-as pelo exemplo ás suas fontes tradicionaes da Edade media. Nem de outra fórma se explica como o Protestantismo tão anti-poetico pôde exercer uma influencia renovadora; não renegára completamente a Edade media. Comte observou esta differença, concluindo quanto uma verdadeira theoria do progresso humano póde esclarecer o estudo do desenvolvimento historico da arte: «Dos dois modos politicos, o monarchico-catholico e o aristocratico-protestante, o primeiro era mais favoravel á arte do que o outro. Comprehende-se facilmente que a arte recebesse um impulso mais homogeneo e mais completo de um poder mais central e mais elevado, cujo ascendente protector devia incorporar bastantemente a animação contínua de todas as bellas-artes ao systema geral da politica moderna. Assim vêmos os governos monarchicos fundarem Academias poeticas ou artisticas, (Arcadismo) as quaes, primeiramente instituidas na Italia, adquiriram immediatamente em França, sob Richelieu e sob Luiz XIV uma importancia superior. No modo aristocratico e protestante, ao contrario, a preponderancia da força local entregava as bellas-artes ao penivel e insufficiente recurso das protecções particulares, nas povoações em que o protestantismo tendia a neutralisar a educação esthetica começada na Edade media.—A dictadura monarchica em França devia de ter repugnancia pelas recordações da Edade media, em que a realeza era tão fraca e a aristocracia tão poderosa;... Em Inglaterra ao contrario, em que o systema feudal estava menos alterado, as sympathias as mais geraes voltavam-se para as recordações da Edade-media, o que explica a popularidade que teve a sua representação pelo grande Shakspeare.»[200]

a) REHABILITAÇÃO DA EDADE-MEDIA

Uma das causas da incoherencia mental do seculo XVIII fôra o desconhecimento da continuidade historica; no seu negativismo religioso e politico desprezou completamente a Edade media; Helvetius e Raynal chamavam-lhe esteril barbarie, e edade de trevas sem nome. Comprehende-se que a Allemanha feudal, reagindo contra a influencia litteraria da França, procurasse nas tradições heroicas ou cavalheirescas da Edade media elementos sympathicos para a idealisação poetica de espiritos reflexivos. O nacionalismo levava a achar as fontes organicas da sua elaboração artistica. O mesmo espirito feudal, na Inglaterra, comprazia-se com a representação de uma existencia cavalheiresca, que Walter Scott reconstruia pacientemente e com esmero na portentosa série dos seus romances historicos. Em França este regresso á Edade media não se deu por um intuito artistico; determinou-o um fim politico. O conde José de Maistre, servindo a causa da restauração neo-catholica, tratou de estabelecer a solidariedade historica da Edade media com o presente. Nada percebia do progresso humano depois do christianismo, como o previra Condorcet, porém via com lucidez a continuidade do passado nos seus elementos conservantistas. Foi esta incapacidade que provocou a lucta entre Classicos e Romanticos, que rompeu em 1818; n’essa lucta revelava-se a antinomia de doutrinas. Os Classicos, que eram voltairianos, que continuavam sob a Restauração o ideal republicano, ou como academicos se conciliavam com a monarchia liberal, sustentavam o predominio absoluto dos modelos greco-romanos. Os Romanticos, começaram por servir a reacção catholica, e para isso é que Chateaubriand idealisou a Edade media no Genio do Christianismo; sendo renovadores na litteratura, caíam no contrasenso de cooperarem para o retrocesso da consciencia. A esta phase religiosa chamou-se o Romantismo emmanuelico, sendo os seus principaes vultos depois de Chateaubriand, Lamartine, Alfred de Vigny e Soumet.

Mas a Edade media não fôra sómente catholica; fôra feudal e cavalheiresca. Sob este aspecto começou a apparecer como um mundo ignorado, rico de formosos symbolos e de uma sociabilidade altamente dramatica; desenvolve-se então o romance historico sobre os typos de Walter Scott, e o drama de sensação, pelo gosto de Schiller. É então que apparece Victor Hugo com a Notre Dame e os Burgraves. Na Edade media tambem luctaram pela liberdade as Classes servas, que chegaram a constituir o terceiro Estado, que triumphou com a Revolução; foi esse o campo do Romantismo liberal, que foi achar a sua disciplina na renovação dos estudos historicos por Agostinho Thierry, Guizot, Michelet, Barante, etc.

Assim como a palavra Romance designa a fórma a mais original e caracteristica das Litteraturas modernas, em que se idealisa o elemento domestico desconhecido na arte antiga, tambem a palavra Romantismo é uma feliz denominação de uma edade ou phase das Litteraturas modernas em que ellas reataram a continuidade com a Edade media, onde se elaboraram todos os germens tradicionaes das raças incorporadas pela civilisação romanica. Nenhuma expressão poderia achar-se mais significativa, por que na diversidade das nações europêas tem implicita a ideia da sua unidade, tantas vezes e tão calamitosamente obliterada na historia. Nas Conversas com Eckermann, Goëthe conta: «A determinação de poesia classica e de poesia romantica, que n’este momento circula pelo mundo, e que causa tantas discussões e dissensões, partiu, quanto ao fundo, de mim e de Schiller. Eu adoptára para a poesia o processo objectivo, o unico que me parecia bom, Schiller, que pelo contrario, procedia de um modo inteiramente subjectivo, julgou o seu methodo melhor, e foi para se defender contra mim que elle escreveu o Tratado da Poesia ingenua e da Poesia sentimental. (1795.) Os Schlegel apoderaram-se d’esta distincção para a levarem mais longe, de sorte que presentemente estendeu-se pelo mundo todo.» Á maneira da Querella dos Antigos e Modernos, levantou-se a polemica entre Classicos e Romanticos, avançando para uma melhor comprehensão historica de cada Litteratura, ambas bellas nas suas differenças estheticas. Segundo Schiller, para os gregos a poesia é uma imitação da realidade quanto possivel, tendendo para a verdade; o poeta moderno ou sentimental reproduz a sua propria impressão idealisando-a como realidade. Mas esta distincção, sendo aliás fundamental é incompleta, por que a objectividade pertence a todas as épocas de espontaneidade irreflectida, o que se repete nas Gestas da Edade media; e a subjectividade caracterisa as épocas em que ha um intenso trabalho mental, critico e reflectido. A revolução occidental do seculo XII ao XIX foi na sua maior parte mental, metaphysica, critica e negativista; bastava esta intensa subjectividade para caracterisar as Litteraturas creadas n’esta longa instabilidade. Comte viu mais claro o problema; distinguiu as Litteraturas antigas pela idealisação da vida publica (as Epopêas, as Tragedias, os Córos e Odes triumphaes), e as Litteraturas modernas pela idealisação da vida domestica, como se vê nos Romances e na Comedia molieresca, creados apezar de todas as correntes contrarias a uma natural evolução esthetica. N’esta longa crise revolucionaria, o completo abandono do sentimento sem intervenção social deixou manifestar-se o individualismo em revolta; é este elemento pessoal que apparece na arte moderna de uma fórma original e extraordinaria, dando logar ás expansões de um esplendido lyrismo.

b) O ULTRA-ROMANTISMO

Os Classicos e Romanticos já se não entendiam entre si, chegando os sectarios das normas do gosto greco-romano ou academico, a pedirem a intervenção do governo contra os quebrantadores das regras litterarias; os romanticos achavam n’este titulo um apódo de desprezo com que os queriam ferir, e renegavam-o com desdem. Assim, em 1824, lamentava Victor Hugo que empregassem o nome de Romantico sem definirem o termo, explorando «um certo vago indefinivel que lhe redobrava o horror.» E por fim, quando uma pleiada fecunda de talentos exprimia nas fórmas litterarias os sentimentos modernos, ainda Victor Hugo, em 1830, se felicitava de que «estes miseraveis termos de questiunculas tivessem cahido no abysmo...» Tambem Garrett no seu poema Camões repellia de si a imputação de romantico, e Herculano considerava essa lucta como a dos antigos Nominalistas; este seguia o romantismo emmanuelico idealisando a saudade pela vida monachal, e Garrett seguia o romantismo liberal, como o declara no Arco de Sant’Anna. Mas se estes dois chefes não comprehenderam a lucta dos Classicos e Romanticos, tiveram a intuição da missão da nova edade litteraria; Garrett avançou para o estudo das tradições nacionaes no Romanceiro, e Herculano fixou-se no estudo das instituições da Edade media portugueza, a que elle chamou Historia de Portugal. O que era definitivamente o Romantismo, que ninguem sabia explicar, viu-o lucidamente M.me de Staël, destacando as duas edades, a classica «que precedeu o estabelecimento da religião christã» e a que se lhe seguiu, isto é, todos os germens tradicionaes das novas nacionalidades do Occidente unificadas sob o regimen catholico-feudal da Edade media até aos tempos modernos. O regresso a estas origens communs das Litteraturas romanicas é que é o facto capital da transformação esthetica do seculo XIX. A paixão pela Edade media tornou-se uma monomania; era facil de reproduzir os seus symbolos caracteristicos e de simular os seus conflictos de classes, em dramas e romances. A representação exclusiva da Edade media, á falta de objectividade, levou ao exagero da phrase, a emphase rhetorica, produzindo um estylo chamado o Ultra-Romantismo. A subjectividade fôra tambem considerada como um caracteristico das litteraturas modernas, e n’essa parte parece ainda reconhecer-se a hegemonia allemã.

No decurso da longa edade revolucionaria, primeiramente mental e depois social, houve o interregno do sentimento, deixado á espontaneidade da sua concordia natural. No seculo XVIII irrompeu esta nova força, primeiramente na fórma de philanthropia, inspirando reformas a favor das classes soffredoras; veiu a passividade emocional diante da natureza, a sensibilidade idyllica, tornou-se moda a voluptuosidade da melancholia, até se chegar á sensiblerie das lagrimas, ao desalento da vida e ao pessimismo. A grande actividade mental do seculo, que tudo analysou, conduzia a um exagerado subjectivismo, e as commoções da explosão temporal foram determinar nas fórmas da arte moderna a expressão da sentimentalidade acordada n’essa crise. A alma humana carecia de consolos, e a musica entrou na sua phase de expressão em Haydn, Mozart, Beethoven, Weber e Cimarosa. A Poesia saíu do allegorico e deslavado arcadismo para tornar-se pessoal, e traduzir este estado morbido do sentimentalismo melancholico. N’este meio social e moral, é que appareceu na Allemanha o wertherismo, não creado por Goëthe na sua novella de Werther, mas de que esta narrativa de uma paixão vaporosa e fatal que leva ao suicidio foi um resultado. Em França, este mesmo contagio de tristeza ou o obermanismo teve o evangelho no Oberman de Sénancourt e no René de Chateaubriand. Na Inglaterra choram-se as Noites elegiacas do Dr. Young, e surgem depois os poetas Lakistas cantando os luares, os nevoeiros, os crepusculos da tarde, todas as emoções tenues da alma; Wordsworth inspirava-se de um platonismo religioso e animava cada cousa com entidade moral; Southey e Wilson completavam a pleiada dos poetas visinhos dos lagos de Westmoreland e de Cumberland, para quem a poesia era um pantheismo christão, uma somnolencia de extasis, uma bonança mystica no meio da grande derrocada do regimen theologico-feudal do fim do seculo XVIII.[201]

No renascimento esthetico do seculo actual reapparecia o elemento pessoal da Arte, que estivera abafado sob a imitação das obras classicas; consequentemente resoava um lyrismo novo, subjectivo, affinado pelo estado das almas em uma éra perturbada que começava. Na Allemanha, Novalis tirava novos accentos d’esse sentimento vago e indeterminado da melancholia; a existencia tornava-se uma nostalgia e saudade da outra vida; o tumulo, os goivos dos cemiterios, a solidão, os dobres funerarios, a cruz do ermo eram os symbolos sympathicos do lyrismo que mais aggravava esta doença das almas ingenuas e sensiveis. Os poetas tomavam a sério o pezo imaginario da sua angustia, declamavam ao vento as suas elegias plangentes, e muitas vezes expiravam minados por consumpção nostalgica irremediavel. Em França, Lamartine propagou esta sentimentalidade larmoyante dando-lhe uma uncção religiosa; e Millevoye, com menos talento abandonou-se como Novalis ao seu desgosto intimo, cahindo em um languor sem remedio. A paixão pelo genio melancholico estendeu-se por toda a parte pela impressão dos poemas de Ossian, inventados por Macpherson; as sombras dos guerreiros vagando na cerração dos promontorios, os eccos da harpa bardica perdidos nos banquetes estridentes, as lembranças dolorosas das tribus extinctas, um mixto de objectividade homerica com a subjectividade das lamentações e dos psalmos biblicos (em um syncretismo consciente) tornavam o genero agradavel e suggestivo.

Transitou-se assim para o lyrismo religioso ou emmanuelico, como uma reacção contra a incredulidade do seculo encyclopedista, contra o philosophismo que devastára os espiritos. O Lyrismo portuguez estava esterilisado pelas imitações arcádicas; o proprio Garrett ainda se chamava Jonio Duriense, e Castilho chamava-se Mémnide Egynense, na Arcadia de Roma.

A emigração politica é que nos revelou o Romantismo; emquanto Garrett e Herculano comiam o pão do exilio, acompanharam o movimento litterario que se operava em volta d’elles. Garrett comprehendeu que o renascimento da vida politica da nacionalidade carecia da base affectiva da litteratura e das tradições, e Herculano do conhecimento da sua historia. A feição do Lyrismo iniciado por estes renovadores foi a que predominava nas outras litteraturas, melancholica e emmanuelica. Garrett foi completamente elegiaco, e de um subjectivismo exagerado no poema narrativo Camões; invoca a saudade, o gosto amargo, o pungir delicioso que lhe repassa os imos seios da alma, em uma especie de obermanismo, e já no fim da vida ficou fiel a essa emoção nas Folhas cahidas, o principal modelo do nosso lyrismo. Herculano foi tambem sentimental, mas pela rigidez do seu temperamento não podendo conciliar-se com a sensiblerie lamartiniana, pendeu para a emoção religiosa, e tomou por modelo Klopstock; na Harpa do crente, destacam-se a Semana santa, a Cruz mutilada, a Arrabida, como um protesto a favor do christianismo medieval, que Chateaubriand tentára revivescer pela arte e José de Maistre esclarecer pela continuidade historica, que a Revolução quebrára.

A feição da sentimentalidade nostalgica, affinada pelos Lakistas, pela melancholia de Novalis e pelo desalento de Millevoye, teve em Portugal já tardiamente o seu representante em Soares de Passos; são-lhe sympathicos os poemas de Ossian, as balladas do norte e as Harmonias de Lamartine.

O seculo XIX, na sua instabilidade politica e ausencia de uma doutrina philosophica aggravada pela fragmentação das especialidades scientificas, continuava o seculo XVIII no insurreccionismo dos espiritos. Os que não cahiam na passividade revoltavam-se; o Lyrismo reflectiu este estado emocional, que levava á concepção pessimista do universo, como em Leopardi, ou ao imperio absoluto do mal, como o satanismo de Byron. O immortal poeta contrapõe ao mundo a sua individualidade, que representa no Child Harold, no Don Juan, no Manfredo, mas sente em volta de si um vacuo moral que lhe annulla a intelligencia capaz de abranger o infinito, e um coração puro em que podia accolher o universo. Tem o atheismo na cabeça e a aspiração religiosa no intimo da alma, mas vê-se forçado pelo meio deleterio ambiente ao sarcasmo, á ironia, á blasphemia. O seu ideal, como o de Shelley, sendo apto para trazer a concordia ás almas e revelar-lhes a synthese affectiva humana, é deturpado em uma missão negativa. Comte definiu de uma fórma nitidissima o genio e a missão de Byron: «O mais eminente poeta do nosso seculo, o grande Byron, que até hoje, tem a seu modo melhor do que ninguem presentido a verdadeira natureza geral da existencia moderna, simultaneamente mental e moral, tentou espontaneamente e sósinho esta audaciosa regeneração poetica, unico desfecho da Arte actual. Sem duvida, a sã philosophia não estava então ainda bastante avançada para permittir ao seu genio o apprecial-a sufficientemente, na nossa situação fundamental, além do aspecto puramente negativo, que elle, apezar de tudo, soube admiravelmente idealisar... Mas, o profundo merito das suas immortaes composições e o seu immenso successo immediato, apezar das vãs antipathias nacionaes, entre todas as populações cultas, tornaram já irrecusavel quer a potencia poetica privativa da nova sociabilidade, quer a tendencia universal para uma tal renovação.»[202] N’esta orientação esthetica seguia Shelley, desviado da sua obra por uma morte desastrosa. A parte negativa do genio de Byron é que foi seguida por outros lyricos, segundo os seus caracteres nacionaes; pelo allemão Henri Heine, no humour e launa, e em Alfred de Musset por um alcoolismo com que se sobreexcita, como o phantastico Foë. Falhos de uma concepção geral, os Lyricos modernos esgotaram-se reproduzindo a nota negativa de Byron. Em Portugal repercutiram-se estas cambiantes, como se vê nos Sonetos de Anthero, confessando elle mesmo que tem um pouco de Heine; no Lyrismo brazileiro prevaleceu o mussetismo, pela mesma fórma desgraçada da dissipação da vida, como se observa em Alvares de Azevedo e Castro Alves.

A poesia lyrica do Romantismo esgotou-se em uma exagerada subjectividade; o elemento pessoal da arte não encontrava caracteres nem concepções, na invasão das mediocridades. Os poetas lyricos modernos preoccuparam-se de um modo exclusivo da fórma, antepondo a expressão á concepção, ou o parnasismo. A facilidade da acquisição da technica desvairou os talentos subalternos. No estado actual dos espiritos e na crise por que está passando a consciencia moderna para fundar e universalisar a sua nova synthese, a Poesia soffre tambem os effeitos d’esta instabilidade moral. Compete aos poetas dignamente modernos empregar todo o seu poder de expressão em dar universalidade ás concepções positivas, para que se criem assim os novos costumes estaveis, elementos de idealisação para a Arte pura. Os poetas que cultivam exclusivamente a expressão, sacrificando-se ao preconceito da arte pela arte, abdicam de uma missão social, chegando por isso raras vezes a despertar a sympathia social. Quando idealisam com elevação sentimentos eternos e humanos, como o amor, ainda conseguem ser lidos; mas ha n’este sentimento um personalismo que amesquinha a emoção, e que reduz a obra de arte a uma confidencia que nos é indifferente. M.me Ackermann formulou em poucas palavras a orientação do poeta moderno: «Fazer poesia subjectiva é uma disposição doentia... É em nome da natureza, é sobretudo em nome da humanidade, que é precisa a voz. Estas fontes de inspiração são as unicas verdadeiramente profundas e inexauriveis.» Restabelecida a continuidade historica da Edade media, estava conciliado o mundo romantico com o classico, e logicamente se segue o conhecimento de uma mesma Humanidade. É esse sêr ideal e real que tem de ser idealisado em todas as manifestações artisticas, cooperando a formação segura de uma Philosophia da Historia com a idealisação simultanea de uma Poesia da Historia.

c) DISCIPLINA CRITICA E PHILOSOPHICA

Depois de estabelecidas as bases criticas dos poemas homericos, por Vico, e amplamente comprovadas por Wolf, veiu a comprehensão dos cantos nacionaes e o reconhecimento da sua importancia scientifica. Notou-se que o homem assim como formava os seus systemas de linguagem e de mythos religiosos independente dos grammaticos e dos theologos, tambem antes dos litteratos soubera manter a tradição e dar fórma aos sentimentos que realisaram a unificação das nacionalidades. Em 1794, a descoberta da collectividade homerica por Wolf, coincidia com a manifestação da consciencia de um povo na Revolução franceza. A eloquencia dos factos justificava a concepção especulativa do philosopho; nas modernas revoluções da Europa, a poesia continuou a manifestar-se como o grito da liberdade: a Marseillaise, de Rouget de l’Isle, exaltava as multidões; as estrophes de Krasinski e de Miçkievich convulsionavam os estudantes da Polonia; os hymnos de Poetefi ajudavam a causa da emancipação da Hungria; os hymnos de Riego e da Maria da Fonte atacavam o despotismo que deixava cahir a mascara da hypocrisia liberal. Conheceu-se que a alma popular tinha a sua poesia, e que era accessivel a esse encanto. Esta descoberta affirma-se pelas descobertas da critica e da philologia; estudaram-se os cantos gaëlicos e as narrativas do Mabinogion, na Inglaterra, foram achadas as Canções de Gesta da França, reproduziram-se os Niebelungen, da Allemanha, e os Romanceiros da Hespanha. A archeologia, a linguistica, a mythographia, a critica da arte, a philosophia, cooperavam para darem novas bases á sciencia da Historia, determinando o que ha de verdade nas tradições. Jacob Grimm, dominado por esta sympathia percorre a Allemanha, e no decurso de dez annos explora a rica mina das tradições dos povos germanicos. E o que elle fazia como erudito genial, os poetas tentaram como artistas reconstruindo pelo sentimento as edades passadas. Uhland, na Allemanha, foi o poeta que mais trabalhou para a comprehensão da alma popular; chamavam-lhe por isso o ultimo trovador; a sua imaginação de fada repovoava os castellos em ruinas, reconstituindo as lendas dos solares extinctos pelas vagas tradições locaes. Era um propheta do passado prégando o amor da Edade media. Nas suas balladas acha-se a mesma consagração das Côrtes de Amor, ainda os peregrinos voltam desconhecidos da Terra Santa e cantam ao sopé dos castellos o lai plangitivo do ausente; o cavalleiro errante é ainda impellido pelo sentimento do amor e da justiça; na Cathedral continúa vibrando o sino que toca á revolta, e ainda lá dentro nascem os amores immaculados dos petrarchistas. O cantico de uma edade que passou torna-se no seu plectro uma aspiração da liberdade moderna.

Na Inglaterra Lockart, guiado por Walter Scott, traduzia os romances hespanhóes, que Jacob Grimm tambem reproduzia na Silva de Romances viejos. A sympathia da tradição iniciava a unificação dos povos; pelo estudo das origens da Divina Commedia e do Decameron se viu como todas as raças da Europa contribuiram com o syncretismo das tradições medievaes para a elaboração das obras primas litterarias. O Fausto, de Goëthe, era essa tradição restricta, illuminada por um pensamento philosophico e universalisando um estado da consciencia humana enganada pelas noções absolutas da metaphysica com que fôra seduzida; a salvação do doutor vem da tolerancia da relatividade.

Só muito tarde é que chegou a Portugal a necessidade de saber se eramos um povo vivo, ou, o que valia o mesmo, se possuiamos uma poesia tradicional; Garrett regressára da primeira emigração de 1823, e tendo assistido na Inglaterra á impressão provocada pelas publicações de Ellis, Percy, Rodd e outros collectores, veiu aqui encetar essas pesquizas. Retocou os cantos populares ao gosto de Uhland e de Percy, misturando com as dezaseis rhapsodias achadas nas lareiras da provincia as suas composições litterarias da Adosinda e Miragaia. O criterio d’estes estudos, empregado pelos irmãos Grimm, é que prevaleceu, e trabalhando já n’este periodo de disciplina scientifica fomos levados do estudo dos Foraes para a investigação dos Romanceiros. Raiou-nos uma luz nova: o que parecia rudeza era o documento de um estado social extincto, ou de uma raça; o que parecia imagem sem sentido era um symbolo foraleiro do periodo hispano-germanico, conservado nos costumes pela persistencia do elemento mosarabe; o que se affigurava um erro grammatical era um archaismo de linguagem; o que parecia um fragmento obliterado era um episodio abreviado de uma Gesta carlingia ou de uma novella arthuriana. Assim comprehendemos a inerrancia das tradições populares, que proclamára Jacob Grimm.

A Edade media foi no seu conjuncto estudada scientificamente em todas as suas manifestações; as novas linguas romanicas, os rudimentos litterarios épicos, lyricos e dramaticos, as creações artisticas e a sumptuaria, as instituições civis e religiosas, as luctas de classes sociaes, o feudalismo, as jurandas, as communas e a realeza, a persistencia das instituições romanas através do dominio dos invasores germanicos, a constituição das nacionalidades, os conflictos doutrinarios das escholas philosophicas e da theologia, tudo se tornou objecto de numerosas monographias historicas, que deram logar ao conhecimento pleno d’esta moderna antiguidade. O Ultra-Romantismo dissolveu-se diante da seriedade da sciencia. Qual seria então a marcha das Litteraturas, quando melhor se conhecia o seu berço organico da Edade media? Infelizmente a marcha social da Europa estacionou no seu trabalho de reorganisação nos expedientes aventurosos da transição parlamentarista; em quanto á parte mental, a falta de opiniões definitivas e sua versatilidade não deixou crear caracteres dignos e costumes estaveis, por tanto, as Litteraturas resentiram-se d’esta situação deploravel. Gastaram-se vivos esforços em renovar as fórmas litterarias reproduzindo a realidade no Naturalismo, mas as obras primas não conseguiram cativar a sympathia popular. Faltava-lhes um ideal, e esse não póde ser senão a fórma esthetica da grande synthese philosophica para a qual a humanidade tende. Notando a insufficiencia da Arte e das Litteraturas modernas, Comte formulou nitidamente as condições necessarias para a sua renovação final: «As bellas-artes, destinadas á multidão, devem com effeito, pela sua natureza sentir a indispensavel necessidade de se apoiarem sobre um systema conveniente de opiniões familiares e communs, cuja preponderancia prévia é egualmente indispensavel para produzir e para gosar, a fim de preparar suficientemente entre o interprete activo e o espectador passivo esta harmonia moral que d’ante mão dispõe um a secundar espontaneamente os meios de expressão empregados pelo outro, e sem a qual nenhuma obra de arte conseguiria ser plenamente efficaz, mesmo sob o ponto de vista individual, e, com mais forte rasão sob o aspecto social. É a deficiencia de uma tal condição, rarissimamente preenchida na arte moderna, o que basta para explicar o pouco effeito real de tantas obras primas, concebidas sem fé e apreciadas sem convicção, e que, apezar do seu eminente merito, não podem excitar em nós senão impressões geraes inherentes ás leis geraes da natureza humana; de sorte que d’aqui resulta quasi sempre uma influencia muito abstracta e consequentemente pouco popular.»[203] O atrazo mental na reconstrucção da synthese humana, contrasta com a dispersão de energias em especialidades scientificas verdadeiramente inuteis, e com a falsa direcção das intelligencias desprovidas dos sentimentos que fecundam os nobres caracteres. É ás Litteraturas que compete o irem adiante, dando disciplina aos sentimentos, e acordando-lhes o ideal que tem andado confundido em indefinidas aspirações. Os mais difficeis problemas da reorganisação social só podem ser resolvidos affectivamente; assim se operou no christianismo na transição da Edade media. Servindo este destino, as Litteraturas desenvolvidas sobre concepções sympathicas, que tendem a tornar-se estaveis, reatarão essa mutualidade perdida, essa antiga collaboração entre o poeta que idealisa e a multidão que se impressiona.