Quando no fim do seculo XII se constituiu independente o estado de Portugal, terminava o periodo fecundo da Edade media, em que foram elaboradas as condições para a existencia e desenvolvimento das sociedades modernas: Estavam unificadas as raças, que desde o seculo V até ao seculo VII se encontraram, em invasões e occupações territoriaes; differenciadas as classes, as guerras defensivas e o trabalho industrial tinham garantido a estabilidade das cidades com os seus codigos locaes, esboços para a constituição das nacionalidades europêas; realisada a creação popular das linguas romanicas, e o seu emprego na elaboração esthetica das tradições epicas das Gestas feudaes e das canções lyricas dos trovadores ocitanicos; florescia a architectura ogival, e o Catholicismo e o Feudalismo mantinham a nova ordem pela unanimidade da crença sob o Poder espiritual, e pela dependencia ou subserviencia ao Poder temporal.
Com a nacionalidade portugueza cooperam no seu desenvolvimento moral, economico e politico todas essas manifestações que imprimiram uma certa unidade nos povos europeus sob o regimen catholico-feudal. As diversas raças peninsulares integraram-se em um typo de população mosarabe; os dialectos romanicos definem-se nas formas vulgares em que o galleziano se aperfeiçôa no uso popular e palaciano das canções trobadorescas; as cidades livres ou behetrias redigem os seus codigos locaes ou Cartas de Foral; erigem-se os bellos templos gothicos, e compartilha-se do enthuziasmo da guerra defensiva das Cruzadas, tanto no territorio hispanico como nas expedições de ultra-mar.
Porém do seculo XII em diante, começa a grande crise da Revolução Occidental, pela dissidencia dos espiritos contra a unanimidade do Poder espiritual da Egreja, e das luctas da liberdade civil contra o Poder temporal do Feudalismo. Quando as linguas romanicas estavam aptas para fixarem a idealisação esthetica dos interesses da sociedade medieval, deu-se a instabilidade dos sentimentos e o negativismo dos pensamentos. As Litteraturas romanicas resentiram-se d’esta perturbação, que se prolonga até hoje e ainda actúa sobre ellas; durante os primeiros trez seculos da crise, do XIII ao XV, desconheceram mais ou menos completamente a Antiguidade classica, e os themas poeticos da Edade media foram tratados sem respeito, preponderando o genio sarcastico nas satyras, nos fabliaux, nos cantos farsis, nas parodias, nas comedias, e até na epopêa, como o Renard, e a faulse Geste. No seculo XVI, esta revolta ataca a ideia religiosa, na Reforma; e pelo enthuziasmo dos Humanistas diante das litteraturas classicas da civilisação polytheica greco-romana, a Edade media é desprezada como uma época barbara, e as Litteraturas romanicas exercem-se na imitação erudita, separando-se os escriptores da cooperação com o povo; aggrava-se esta situação deprimente com a influencia geral do pseudo-classicismo francez no seculo XVII e XVIII, e sómente no periodo do Romantismo, no primeiro quartel do seculo XIX é que as Litteraturas modernas foram revocadas á idealisação das suas origens pela rehabilitação e pelo estudo scientifico da Edade media.
Como todas as outras Litteraturas romanicas a portugueza acompanha esta longa crise social e mental, em que o sentimento ficou sem disciplina; através das mais artificiosas canções amorosas dos trovadores destacam-se as satyras e as coplas obscenas; por seu turno a auctoridade classica impõe-se á imitação dos escriptores, que abandonam com desdem as tradições nacionaes e populares, chegando a idealisação poetica a ser um producto frivolo para a distracção pessoal nas Academias e Tertulias.
A historia da Litteratura portugueza só póde ser feita scientificamente pelo processo comparativo, e collocando-a no quadro das Litteraturas novo-latinas; sob este aspecto não é menos fecunda, nem menos original do que as outras congeneres, embora se manifestasse depois de todas ellas e reflectisse todas as suas influencias pela solidariedade com a civilisação europêa.
A creação da Historia litteraria é muito recente; foi entrevista por Bacon no seculo XVII, e só depois dos trabalhos materiaes da bibliographia, e pela renovação dos estudos historicos n’este seculo, é que se conseguiu deduzir da obra litteraria a psychologia do que a sentiu, e a relação com o meio social em que foi sentida. Nenhum facto do espirito satisfaz tão bem este processo como a Litteratura; os factos da vida politica ou das emoções religiosas, das instituições sociaes e das descobertas progressivas, são sempre motivados por paixões bastante violentas, com consequencias imprevistas, e por isso não explicam tão claramente o homem como as creações estheticas produzidas por sentimentos desinteressados, por uma espontaneidade especifica de inspiração, por meio de themas tradicionaes que conduzem a uma unidade sympathica. Quem escrever uma Historia litteraria, tem, diante da série das obras de arte, de deduzir o genio e caracter intimo do povo que as produziu, e sobretudo de pôr em relevo as circumstancias exteriores que lhes deram origem; é um processo philosophico desenvolvendo-se conjunctamente com a investigação historica.
No estudo da Litteratura portugueza chegamos por um esforço individual a este resultado, tão lucidamente formulado por J. Jacques Ampère: Se a Litteratura não é uma declamação vã, se é uma sciencia, então entra no dominio da philosophia e da historia. São pois a Philosophia da Litteratura e a Historia da Litteratura duas partes da sciencia litteraria. Fóra d’isto não ha senão minucias da critica de detalhe e alarde de logares communs. Ampère recommenda que se comece pela Historia litteraria, porque: «Da historia comparada das Artes e da Litteratura em todos os povos, é que deve resultar a Philosophia da Litteratura e da Arte.» De facto os estudos da historia da Litteratura da Grecia, revelam-nos que a Tradição é sempre o elemento organico e o thema elaborado conscientemente pelas mais altas idealisações individuaes; bem como as fórmas universaes das Litteraturas, o Lyrismo, a Epopêa e o Drama têm uma correlação intima com as phases psychologicas da humanidade na sua representação objectiva e na sua reacção subjectiva. Todo o grupo das Litteraturas romanicas está cabalmente historiado, e pela luz do methodo comparativo chega-se aos caracteristicos da sua unidade e similaridade de evolução, como observaram Frederico Schlegel e Comte, na lucta do espirito novo elaborando as tradições medievaes nos rudes dialectos que se hão de tornar linguas nacionaes, reagindo contra o perstigio das obras classicas da antiguidade impostas á imitação pelos eruditos e pela admiração incondicional dos monumentos antigos. Goëthe presentiu que o conhecimento de todas as litteraturas levará ás novas fórmas de uma inspiração universalista; e Comte, prevendo o termo da grande revolução occidental que se prolonga do seculo XII ao XIX, liga á edade normal da humanidade as novas idealisações que darão ao sentimento a preponderancia social e moral de uma Synthese affectiva.
Pela marcha dos estudos accumulados póde já preceder a Philosophia da Litteratura á Historia da Litteratura, como a luz que melhor fará comprehender a complexidade de innumeros factos concretos, que tendem sem esse criterio a perder-se na curiosidade esteril. Tal o intuito d’esta introducção ou theoria da historia.