I
Elementos staticos da Litteratura

Como um producto da actividade social em condições de estabilidade, uma Litteratura só póde ser bem estudada e comprehendida conhecendo-se os elementos staticos, ou de ordem, e dynamicos ou de progresso, de que ella é um dos effeitos complexos. Spencer submettendo os phenomenos sociaes e mentaes á correlação das forças physicas, formúla com clareza esta base critica: «Uma sociedade pouco numerosa, seja qual fôr a superioridade do caracter dos seus membros, não póde desenvolver a mesma somma de acção social como uma que é grande. A producção e a distribuição das mercadorias deve fazer-se em uma escala relativamente pequena. Uma imprensa numerosa, uma litteratura fecunda, uma agitação politica poderosa não lhe são possiveis. A producção das obras de arte e das descobertas scientificas tambem não deve ser excessiva.»[1] Escrevendo a Historia da Litteratura portugueza importa ter sempre presente este ponto de vista, para não attribuir á raça a fraqueza da tradição nacional, a falta de concepção original e de invenção scientifica, a indifferença politica e a incapacidade de um regimen economico. Somos uma nação pequena, sem os estimulos organicos de uma numerosa população, sem o conflicto de classes, e limitada á provocação de um exiguo territorio. Isto se comprova ainda pelo final do pensamento de Spencer: «O que demonstra melhor a correlação das forças sociaes com as forças physicas, por meio das forças vitaes, é a differença das quantidades de actividade que desenvolve uma mesma sociedade conforme os seus membros dispõem de quantidades differentes de força tiradas do mundo exterior.» Assim, a visinhança do oceano Atlantico ao passo que nos differenciou dos hespanhoes, fez dos Portuguezes um povo de navegadores, dando-lhe a iniciativa das descobertas maritimas e condições economicas subsistentes. Os periodos de esplendor litterario ligam-se á influencia d’estes estimulos; surgiram os Quinhentistas, destacando-se então a epopêa mais caracteristica e expressiva da civilisação moderna, os Lusiadas.

Por esta ordem de factos se infere, que ha nas litteraturas manifestações de phenomenos inconscientes e separados ou fóra da acção da vontade do homem. Para bem comprehender a obra do homem, sentida, reflectida ou praticada, convém antes de tudo determinar-lhe o circulo de fatalidade dentro do qual se produz: o impulso atávico da raça, que orienta o sentimento do escriptor ou artista; a tradição, transmittida de seculos, que se torna o thema da elaboração ideal e pela qual a obra do genio realisa a synthese affectiva em uma sociedade; a lingua, como expressão do sentimento individual, que o escriptor não creou, mas que modifica para universalisar estados das consciencias, as mais indefinidas vibrações da sensibilidade e ainda as aspirações latentes de uma edade; por fim a nacionalidade, ou a consciencia da vida collectiva, que tem de exteriorisar-se pela acção historica, objecto das narrativas, das commemorações, dos monumentos, que vão unificando cada geração na mesma continuidade. Applicando pois a segura concepção de Augusto Comte, que divide os phenomenos sociologicos em staticos e dynamicos, á Litteratura como resultante do meio social, poder-se-hão considerar como staticos os factores que preponderam invencivelmente na elaboração esthetica: a raça, a tradição, a lingua, a nacionalidade. O influxo de uma determinada época historica, como transição, já pela decomposição de um regimen passado, já como aspiração a uma ordem nova; e além d’isso, o espirito inventivo das altas individualidades, que nas suas obras servem essa corrente regressiva ou progressiva, constituem perfeitamente a parte dynamica na historia litteraria. Uma tão clara distincção é já uma base segura para a critica scientifica; para o estudo dos phenomenos staticos são subsidiarias a Anthropologia, a Ethnographia, a Glottologia ou Philologia, a Historia geral, e a Sociologia; a comprehensão das obras primas das Litteraturas resulta d’estas relações intimas scientificamente investigadas e conscientemente estabelecidas. Sómente assim, é que a historia da litteratura, embora pertença a um pequeno povo, servirá de verificação das leis psychologicas e sociologicas, conduzindo ao conhecimento definitivo—a sciencia do homem.

§ 1.—A Raça e o Meio

Só muito tarde descobriu o homem, que os actos que elle julgava mais livres, reacções immediatas da sua vontade consciente, eram motivados por influencias a que obedecia sem as conhecer. No mundo physico vê-se isto na pressão atmospherica, em que nos equilibramos. Depois de Vico ter formulado o principio autonomico—o homem é obra de si mesmo,—Herder encetou a philosophia da historia pela descripção physica da terra, como do theatro em que a humanidade tinha de actuar, segundo as variações do scenario. Se as descobertas da astronomia, depois de Galileo, fizeram caducar o erro geocentrico, os estudos historicos e archeologicos desfizeram a illusão anthropocentrica. Como a distribuição das plantas sobre o planeta depende da luz e do calor, tambem a cada modificação na climatologia dão-se no homem modificações profundas na sua organisação; depois de Hippocrates, que lançou as bases da sciencia da Mesologia, Montesquieu foi dos primeiros pensadores que ligou uma importancia séria á influencia dos climas; e por certo a diversidade das raças proveiu de acclimações successivas senão da acção de meios differentes. Blumenbach, na Unidade da Especie humana, considera o negro retinto e o loiro dinamarquez como provindo do mesmo tronco. Uma distancia de gráos modifica as nossas ideias eternas do bello, abre um abysmo entre a Venus de Milo o a Venus hottentote; dá-nos uma glotte mais perfeita e harmoniosa, e a abstracção na linguagem, que facilita e habitua á cogitação. A doçura do ár ambiente, a estabilidade da temperatura, as aguas crystallinas, o céo puro fazem o temperamento sanguineo, como observam Cabanis, Chrichton, Haller, Cullen, Pinel e outros. O temperamento sanguineo dá uma carnação viva, um thorax largo proprio para receber grandes volumes de ár, uma circulação mais forte, de que resulta um augmento de calor distribuido até ás extremas radiculas nervosas: assim, impressões promptas, facilidade de movimentos, synergia revelada por um bem estar descuidado, a graça, a jovialidade espontanea. Eis a organisação do Grego; em um clima brando, suave, em uma natureza risonha, collocado em um justo equilibrio das forças do meio exterior com as do seu organismo, não se sente absorvido como os povos das regiões do oriente, nem provocado na sua individualidade como na rispidez do norte; gosa a vida por todos os póros e guarda uma juventude perpetua, uma voluptuosidade da communicação, na cidade, no ágora, onde o conflicto dos interesses agita as paixões que criam a obra da Arte. A Grecia realisou na civilisação o sentimento do Bello. Outros povos indo-europeus, nas suas diversas paragens revelam outras capacidades, com que se reconhecem na historia; o Romano attingindo a mais clara noção do sentimento do Justo, faz de Roma, no dizer dos antigos jurisconsultos, a patria das leis. Mais alguns gráos para oéste, e os Celtas, aventureiros, sonhadores, attingem a docilidade moral, a dependencia da confraternidade, e são dominados pela ideia religiosa da immortalidade, que os deprime. O Germano, em lucta com a natureza brumosa do norte, de uma robustez excepcional, faz da independencia individualista o seu caracter, e lança-se á invasão do occidente, onde é incorporado pela civilisação romana. No extremo norte da Europa, o Slavo conserva as suas primitivas tendencias mysticas, e assimilando todos os progressos da Civilisação oriental e da occidental aspira á hegemonia futura da humanidade.

Emfim, os innumeros factos em que se observa a influencia dos climas, a transformação dos temperamentos e as hereditariedades das raças, têm-se agrupado por forma que estão lançadas as bases para a systematisação da Geographia moral, como lhe chamou Michelet. A historia da Arte, as creações das Litteraturas, todas as obras em que a alma humana se deixar surprehender em sua espontaneidade emocional, são verdadeiramente elementos d’esta sciencia nova. Todas as vezes que o estylo artificioso, a rhetorica banal ou o servilismo da moda de uma certa época velarem as manifestações francas do espirito, essa litteratura não tem valor, por insignificativa; não reflecte o resultado das ideias religiosas, nem as formas linguisticas, nem as agitações sociaes, nem a synthese das concepções que constituem a civilisação de cada cyclo historico.

Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das sociedades, é talvez mais importante o elemento inconsciente da tradição e do meio, do que a obra propriamente original da individualidade do escriptor. No meio social observam-se a persistencia de certas qualidades transmittidas na especie, e que differenciam os grupos humanos ou raças; as sobrevivencias de costumes, que se conservam automaticamente quando já de todo passaram os estados ou organisações sociaes que os provocaram e com que estavam em harmonia; e as recorrencias, ou renovações d’essas qualidades anteriores e costumes extinctos, quando um certo abalo social desperta em um povo todas as forças do seu instincto de conservação, mantendo-se pelas suas condições staticas. Como expressão da collectividade, a Litteratura reflecte ainda nas obras das mais altas individualidades a impressão d’estas forças latentes, e mesmo as suas concepções ideaes são bellas em todos os tempos, e são comprehendidas pela humanidade em geral, por que derivam d’essas condições staticas. Na Europa não existe uma raça pura de mescla; mas tem-se abusado cynicamente das caracteristicas da raça nos aggregados nacionaes para justificar hostilidades egoistas e anachronicos instinctos guerreiros para exploração de conquistas. Para a comprehensão d’esta influencia das condições staticas nas Litteraturas ou em qualquer outra manifestação humana, basta determinar a lei da recorrencia biologica, tão nitidamente formulada pelo physiologista Muller: «Uma raça nascida da fusão de duas raças, propaga-se pela união com o seu semelhante; ao passo que, quando ella se une com as raças que concorreram para produzil-a, ao fim de muitas gerações torna ao typo de uma d’estas ultimas.» Vemos prevalecer esta lei de regressão, nas populações ibericas: embora se fusionassem com o elemento árico (Celtas, Romanos e Germanos), comtudo tinham a seu favor o maior numero, e em ulteriores invasões com a mestiçagem dos Lybios, Bastados, Alanos, Berberes e Mouros, raça africana branca, fixaram pela recorrencia o seu primitivo typo anthropologico. Broca reconhece tambem que pelo predominio numerico a raça mestiçada tende a regressar, na série das gerações, á raça mãe. Por esta regressão se explicam as differenciações dos caracteres ethnicos dos povos, e portanto todas as fórmas das suas actividades sociaes. Herbert Spencer reconhece que as Litteraturas e as Bellas Artes só existem como resultante d’estas actividades, tornando por isso necessario o conhecimento do que as torna possiveis. Tiveram a intuição d’este principio os humanistas do seculo XVI quando procuravam interpretar as instituições sociaes romanas pelas referencias dos poetas satyricos e comicos de Roma, e Vico interpretava Homero como a synthese dos povos hellenicos, que Wolf applicou methodicamente. Este processo critico é já antigo e acha-se confirmado pelos grandes fundadores da historia como sciencia.

Ao começar a historia da Litteratura grega, Otfried Müller foi um dos primeiros a reconhecer o valor do criterio da raça: «O que é infinitamente mais importante para a historia da cultura intellectual dos Gregos, é o distinguir as raças o os dialectos que se formaram durante a edade a que se deu o nome de heroica por causa da preponderancia que tiveram n’ella as tribus guerreiras, e por que um certo gosto pelas aventurosas emprezas a caracterisa evidentemente. Por este tempo deveria ter começado o contraste entre as raças e os idiomas da Grecia, que exerceu posteriormente uma influencia tão notavel sobre toda a vida civil e intellectual, sobre a poesia, sobre as artes e sobre a litteratura.»[2] Unificando os diversos dialectos da Grecia nos dois ramos Dorio e Jonio, Otfried Müller deduz o duplo caracter da civilisação hellenica, baseada no accordo entre o respeito pela tradição do passado e o espirito progressivo de aperfeiçoamento: «Nos Dorios ... assim como mostram uma predilecção manifesta pelos sons largos, energicos e asperos, que conservam com uma regularidade inflexivel, póde-se naturalissimamente esperar o encontrar entre elles uma disposição a fazer prevalecer até mesmo em toda a organisação da sua vida publica e domestica, o espirito de austeridade e de respeito pelos antigos usos. Os Jonios, pelo contrario, mostram já no seu dialecto uma certa inclinação para alterar as velhas fórmas segundo o gosto e o capricho do momento, e uma tendencia a embellezar e a aperfeiçoar o seu idioma, que contribuiu muito, sem duvida, para que este dialecto, posto que mais novo e derivado, fosse o primeiro cultivado na poesia.»[3] A differenciação entre estes dois elementos existia quando ainda estacionavam na Asia Menor; os Doricos atravessam o Hellesponto e fixam-se nos territorios montanhosos ao norte da peninsula da Grecia; os Jonios occupam as ilhas e as costas do archipelago. As differenciações ethnicas são mantidas pelas condições do territorio: o montanhez é ferrenho nas suas crenças e costumes, e por isso Delphos torna-se a capital religiosa da primeira unidade federativa dos Hellenos, apoderando-se Sparta de uma severa hegemonia. Os habitantes das costas e das ilhas distinguem-se por um caracter de cosmopolitismo e assimilação facil de costumes; o seu deus nacional é maritimo, Poseidon, contraposto a Delios, e Athenas torna-se a capital politica, que realisa pela primeira vez no mundo a liberdade na formação da lei (autonomia) e a egualdade perante a lei (isonomia), que deram ao genio grego o poder creador que o faz dirigir ainda hoje sob o aspecto de renascença a marcha da humanidade.

Estes dois elementos ethnicos, Dorios e Jonios, fusionam-se pela pressão da necessidade, para resistirem aos assaltos dos piratas do Mediterraneo, quando os Phenicios dominavam no mar Egeo; e depois, pelo estimulo de independencia contra as invasões asiaticas. A synthese historica da civilisação da Grecia resume-se nas caracteristicas d’estas duas raças: o elemento dorico prepondera até á guerra da Persia; até ás guerras do Peloponeso predomina o elemento jonico; o esplendor do genio hellenico revela-se na sua unidade, primeiramente nas creações estheticas, e por fim na acção politica da grande época de Alexandre. O antagonismo de Apollo e Poseidon, os caracteres antinomicos de Achilles e Ulysses, as duas epopêas da Iliada e da Odyssea idealisando esses dois typos heroicos, as instituições aristocraticas lacedemonicas, e democraticas da Attica, não podem ser bem comprehendidas sem a discriminação d’estes dois elementos, capitalmente estudados emquanto aos Dorios por Otfried Müller, e por Ernst Curtius emquanto aos Jonios.

Os caracteres da raça persistem através do tempo, cooperando para a sobrevivencia das tradições e dos costumes. Na Grecia moderna, as tradições heroicas e muitos versos das tragedias de Eschylo e de Euripides andam nos estribilhos populares. North Douglas, no Ensaio sobre os Gregos, achou na companhia dos mancebos jonios o semblante e a linguagem dos antigos hellenos: cantavam nas guitarras como os rhapsodos, e ao toque da buzina corriam á conspiração, como no tempo em que reagiram contra a Persia. Este viajante diz, suspirando: «vinte e quatro seculos antes, seriam uns Alcibiades. É ainda hoje popular a Canção das andorinhas, a que alludem os antigos, e Charonte continúa a ser evocado nas pragas supersticiosas.»[4]

A separação que se dá entre os Arias e os Iranios, apparece reflectida nas differenças entre os Gregos e Romanos, embora pertencendo á mesma raça; o genio hellenico foi essencialmente especulativo, o romano extremamente pratico ou activo. A Grecia eleva-se á unidade moral pelo ideal artistico e pela concepção philosophica, Roma faz a unidade politica pela realisação do Direito. Mas apesar d’estas differenças, é pelos caracteres das raças da Italia, que se explica como a civilisação romana foi conjunctamente agricola e guerreira; como no seu direito conservou sempre um constante dualismo (optimo jure e minuto jure); por que motivo cedo abandonou as tradições proprias pela imitação das obras artisticas ou poeticas da Grecia; por que causas se desenvolveram as linguas novo-latinas ou romanicas, e como o genio gaulez chegou a ter importancia na Litteratura latina (Petronio, Ausonio, Rutilio, Sidonio Apollinario, etc.), na época da decadencia.

Antes das migrações pelasgicas que atravessaram os Alpes carnicos o se estabeleceram ao nordeste da peninsula italica, já n’ella existia uma raça autochtone ou população preexistente, a que os Gregos chamaram Opicos (comprehendendo os Oscos ou Volsquos, Marses, Sabinos, Sabelios, Samnitas, Lucanios, Campanios). Eram estes povos dados á agricultura, e á vida pastoral, seguindo alguns as armas, como os Sabinos, os Marsos, os Hirpinos e Samnitas. Vinte seculos antes da nossa éra fixa-se a época do encontro com os emigrantes pelasgicos ou Illyrios (Liburnos, Venetes ou Henetes, das bordas do Adriatico; e Siculos, das costas da Italia e do Latio). Seguindo as costas do mar, entram tambem na Italia por esta mesma época os Ligurios, e Sicanos que se fusionam com os Siculos ou Tyrrhenos. Não admira por tanto que antes da conquista de Tarento, Roma tivesse conhecimento da civilisação da Grecia e tendesse a imital-a, abandonando as tradições oscas, pela preponderancia dos elementos pelasgiscos da Grande-Grecia.

No seculo XIV antes da nossa éra é invadida a Italia septentrional pelo desfiladeiro do Tyrol, pelos Ambrones, Isombres, ou Ombrios, raça gauleza cisalpina. É depois d’esta invasão que começa a lingua osca a tornar-se um meio de unificação social. No seculo XI, antes da éra moderna, dá-se uma terceira invasão dos Rasenas, raça de pequena estatura e grande cabeça, extranha á familia greco-italica, que funda a primeira Confederação, creando a civilisação fundamental da Etruria. A importancia d’este elemento ethnico, resultou da sua similaridade com as populações autochtones da Italia, os Opicos, e por tanto com a separação natural dos elementos extranhos ou Inopes, começa o dualismo da civilisação romana: Os Opes, eram constituidos na vida privada pelos Chefes de Familia a quem competia o Nome proprio, a Justae Nuptiae, o Locuples ou dominio do territorio dos tumulos urbicos, o direito de herdar dos filhos ou Haeres, a compartilha com o pae e com o filho ou Dubnus, e a Divindade estavel da terra, Opulentus (de Opim, a divindade feminina ou a Terra agricultada). Emquanto á vida publica, competia-lhes com o Direito de Propriedade o dominio auctoritario, o levar os Clientes á guerra, concorrer ás magistraturas justas, o direito de vida e morte sobre os filhos e a mulher, o uso do vinho civil Temetum o do pão sagrado Maza, a posse das Res sacra (os Deuses da cidade, Indigetes: da Casa, Penates, e da Familia, Lares e Manes) e os Augurios.

Pelo seu lado os Inopes, formados de Servos, Clientes, Estrangeiros (almas decahidas) não tinham Familia, eram sem nome, tinham o Contubernium ou Injustae Nuptiae, e existiam pelo Patrono. Não tinham propriedade.

Os Chefes de Familia elegeram d’entre si um Rei, unificando esta época do Patriarchado o culto de Saturno e de Cybele; porém, quando se apoiaram na Propriedade e nos Clientes, constituiram-se em Republica aristocratica ou Senado, sendo a unificação social sob o culto de Jupiter e Juno; quando por fim prevaleceram os Clientes pela fórma do Tribunato, e se chega ao Imperio plebiscitario, preponderaram Vulcano e Venus. Tal é a evolução da historia da civilisação dos Romanos, (Ramnes) que unificaram os outros dous elementos Lucerense e Titiense.

A proposito do livro de Noël des Vergers, A Etruria e os Etruscos, escreveu Beulé: «do estudo dos monumentos resalta uma verdade, que será sempre cada dia mais sensivel, e vem a ser, que Roma, apenas fundada, e já augmentada por fórma a poder attrahir a attenção, tornou-se uma cidade etrusca, pela religião, pelas artes, pela civilisação, e preciso é confessal-o, pela conquista. Não é amesquinhar o genio latino o reconhecer que elle recebeu uma educação, soffreu um jugo salutar, e acceitou modelos que viria a exceder. A vitalidade e originalidade da raça latina sobreviveram através d’estas provas; que direi? engrandeceram-se á custa d’ellas.—Roma devia reagir de prompto, absorveu a Etruria, como a Grecia sua mãe, e a sua grandeza não diminuiu por ter conhecido dominadores antes de ter adquirido o imperio do mundo.»[5] A persistencia d’este caracter etrusco, notado por Beulé na civilisação de Roma é o que melhor explica a sua facil incorporação das raças brancas do norte da Africa, dos Iberos da Hespanha e dos Gaulezes, de cuja civilisação rapidamente se apropriaram, a ponto de darem litteratos a Roma.

Roma achou-se collocada entre dois pontos que diversamente actuaram nas suas capacidades e épocas litterarias: ao sul, a Grande-Grecia, d’onde recebeu a cultura hellenica, na poesia, na arte, na philosophia, na eloquencia e na historia: vê-se isso em Livio Andronico, Ennio, Pacuvio, Terencio, Horacio. Ao norte, é na Gallia Cisalpina que desponta o espirito original e universalista da grande raça gauleza; pertencem a esta corrente Cecilio, o comico; Catullo, de Verona; Tito Livio, de Padua; Virgilio, de Mantua; Cornelio Gallus, o amigo de Virgilio, de Frejus; Propercio, de Mevania, na Ombria, bem como Passienus Paullus, e o umbriano Plauto.[6]

O fundo ethnico da população italica, que apesar d’estas duas influencias grega e gauleza ou pre-celtica, não perdeu o seu caracter proprio, chegou a transparecer na litteratura e nos costumes populares de Roma. As Saturae etruscas, representações scenicas ao som da flauta, com mimica e dansa, as Atellanas oscas pondo em scena os aldeãos da Campania, conservaram-se no gosto publico até á época do Imperio. Este genero de farça burlesca era improvisado de momento, por typos conhecidos e vulgarisados na sua caracterisação; e o que é mais para notar é que um tal genero de improvisação dramatica ainda persiste na Italia, na Commedia dell’Arte, e os velhos typos burlescos têm os mesmos representantes na actualidade, como o Maccus (Polichinello), o Pappus (Pantalon), Casnar (Cassandra), Sannio (Zanni), Manducus (Croquemitaine), que continuam a fazer rir o povo com os seus ditos desenvoltos. A comedia improvisada pertence a um fundo ethnico occidental, pois que a encontramos na tradição popular hespanhola nas Encortijadas, e a fórma portugueza conserva-se nos costumes do Brazil no auto do Bumba meu boi. Vê-se portanto, que este fundo ethnico Osco, analogo ao Euske da Hespanha, ao Ausci da Aquitania, é que nos explica a similaridade dos cantos épicos ou Romances no occidente da Europa, como a observaram Nigra, Liebrecht, F. Wolf e R. Köhler; dá-se egual morphologia nos cantos lyricos, Pastorellas, balladas e serranilhas, como observaram Paul Meyer e Mainzer. E se estas fórmas se conservaram através da forte cultura greco-romana implantada nas Gallias e na Hespanha, persistiram tambem os costumes, as superstições, os jogos, que provocavam o seu emprego, assim como as tendencias federalistas mantinham as condições para a differenciação do Latim em dialectos rusticos independentes, que depois se tornaram as linguas romanicas, pelas condições de autonomia nacional.

Dá-se na Litteratura latina o estranho phenomeno de não se encontrar a poesia do povo ou da tradição nos seus poetas; estes, absorvidos pela imitação dos Alexandrinos, ou preocupados com as doutrinas philosophicas da Grecia, obedeceram a uma corrente do gosto que lhes fez perder o sentimento da nacionalidade. Procurando-se o caracter da Poesia latina, não se encontrará nos seus maiores poetas, que se esqueceram das tradições do Latio e abandonaram a metrificação organica da sua lingua, a Accentuação, do verso saturnino, pela Quantidade, dos gregos, exprimindo o sentimento nas mesmas fórmas de Pindaro, de Alceo e Sapho, descrevendo a natureza como a representaram Homero e Hesiodo, e parodiando os conflictos da vida pela adaptação dos typos de Aristophanes e de Menandro na comedia, e de Euripides, na tragedia. Como os actos juridicos dependiam para a sua validade de um certo numero de ritos symbolicos e formulismos tradicionaes, a que os Opicos ligaram os seus privilegios, é por isso que através do dominio absoluto dos rhetoricos em Roma, essas antiqui juris fabulas constituiram na sua Jurisprudencia, como observou luminosamente Vico, na Sciencia Nova, uma severa poesia. A moderna erudição historica e as investigações ethnologicas vão determinando esse fundo anthropologico nas tradições e nos costumes; estão achados os Cantos dos irmãos Arrales, as cantigas a Julio Cesar, a Vigilia de Venus, e numerosos versos a que alludem os escriptores latinos.[7] A Italia antiga revive ou persiste tambem nos costumes, crenças e tradições populares; as excavações de Pompeia mostram que a mulher italiana ainda usa o venetus cuculus, a agulha de aço com que prende os cabellos; o pileus usa-se até em Fondi; os improvisatori de hoje, rodeados pela multidão, procedem como o poeta Stacio em Roma ante o seu auditorio; na alimentação segue-se o mesmo regimen, o prandium ao meio dia; os preceitos das Georgicas ainda vigoram na agricultura, e as cercanias de Roma permanecem desertas, mantendo o aphorismo de Catão na observancia do systema dos prados. Os Condotieri precisam dar largas ao antigo instincto bellicoso do salteador, instincto modificado pelo contracto de associação. Os contos maravilhosos da feiticeira Circe continuam a povoar a imaginação do povo; e como observa Bonstetten, no seu livro O Latio antigo e moderno: «segundo Niebuhr, os romanos de hoje acreditam na existencia da donzella Tarpêa em um poço do Capitolio. Os Marsi curavam mordeduras de serpentes, e os Giravoli dos arredores de Syracusa pretendem hoje cural-as com saliva.» Muitos costumes persistiram mudando-lhes o Christianismo o sentido por uma lenta evolução: os milagres da Medêa são attribuidos pelos napolitanos a San Domenico di Cullino; o templo de Romulo e Remo pertence hoje aos gemeos S. Cosme e Damião; no sitio d’onde se precipitou Anna Perenna, está a capella de S. Anna Petronilla.[8]

As differenciações ethnicas que mantiveram na Italia as fórmas federalistas (lucumonias), accentuam-se no genio esthetico. Cada escóla de Pintura, na Italia, tem caracteres em que apparecem feições locaes, que se succedem fatalmente. O primeiro passo para vencer a rudeza morta da pintura byzantina foi a ideia de aperfeiçoar os baixos-relevos; sente-se aqui a transição da estatua para o quadro. A Toscana, aquella antiga Etruria onde primeiro appareceram as artes e as sciencias na peninsula italica, começou este movimento. Nicoláo Pisano imitou na pintura as figuras em relêvo dos tumulos antigos; vendo mais a fórma material que apalpava do que a linha, cujo ideal procurava, não podia deixar de ser um excellente architecto.[9] A escóla de Roma e de Florença (Raphael, Salvator Rosa) são correctas no desenho; as figuras reproduzidas de um modo severo têm muitas vezes, como nota Michelet, a secura architectural.[10] Apoz a esculptura veiu o mosaico, descoberta da Toscana (do monge Mino da Turita). Á altivez e terror, seguiu-se a graça e a delicadeza; tal o estylo do florentino Cimabue. A escóla da Lombardia eleva-se na pintura á graça (Leonardo de Vinci, Corregio) e ao movimento; a escóla de Napoles descobre os effeitos da luz; a escóla de Veneza não tem rival no colorido (Paulo Veronese, Giorgione, Ticiano) e na faina de uma republica mercantil, que precisa de emoções fortes, esse colorido é vivo e exagerado (Tintoreto, pintando com furia em quadros descommunaes). A escóla de Bolonha pertence a uma época em que acabava a creação inconsciente; formada depois de todas as outras, fixa as regras da technica, e é naturalmente eccletica (os Carraches, Dominiquino, Primatice.)[11] Raça e acção mesologica, nas suas sobrevivencias, e na determinação dos temperamentos individuaes são o verdadeiro criterio para a comprehensão das creações de uma psychologia collectiva. Exemplificámos este facto capital com o exame ethnologico da Grecia e de Roma, que pelo universalismo helleno-italico são ainda hoje a base da Civilisação occidental propagada á Europa pelo genio francez; assim naturalmente ficou esboçado esse elemento classico ou greco-romano que veiu a influir no desenvolvimento das litteraturas modernas. E como a França suscitou em todos os povos da Europa as manifestações do genio poetico pela imitação dos seus cyclos épicos, novellescos, e lyrismo trobadoresco, torna-se tambem importante fixar as caracteristicas de raça nas fórmas da sua Litteratura, apesar de pela propria corrente da civilisação europêa irem-se apagando cada vez mais essas differenças anthropologicas.

A historia da litteratura franceza já foi tratada sob o ponto de vista dos caracteres da raça por Émile Chasles:[12] no typo gaulez synthetisa o genio nacional persistente através de todas as fusões e assimilações historicas com outros povos; no Gallo-romano, descreve a esplendida civilisação meridional, que veiu a produzir a creação do Lyrismo trobadoresco; no Gallo-bretão, as ficções novellescas que encantaram o mundo medieval unindo o espirito christão e cavalheiresco; no Gallo-franko, a unidade politica imposta pelo poder real na lucta dos grandes vassalos, lucta que inspirou o cyclo épico feudal das Canções de Gesta, creadas no norte da França. O encontro das raças produz, como observou Lemcke, um desenvolvimento de poesia; o conflicto da França feudal com a França meridional desenvolve e faz manifestar o genio lyrico nas canções da lingua d’oc, que se propagam pelo meio dia e pelo norte da Europa; a propria Bretanha, antes de entrar na unificação nacional faz a revivescencia dos seus cantos ou lais, que se desenvolvem nos poemas de Merlin, de Arthur e da Tavola redonda. A estes trez elementos que constituiram a unificação da nacionalidade franceza, correspondem no territorio trez regiões climatologicas, agronomicamente bem reconhecidas. Os Celtas e os Frankos, que se fusionaram com o elemento Gaulez não apagaram, apesar da sua supremacia árica, esta raça, que através de todos os tempos synthetisou a feição nacional da França. Se o Gaulez manteve e imprimiu em tudo o seu caracter, é por que além do seu numero tinha attingido uma civilisação superior á dos Celtas e Frankos. O imperador Claudio, que conhecia perfeitamente a Gallia, diz que Roma não póde desprezar a nação que estava unida á civilisação romana pelos costumes, pelas artes, pelas affinidades (moribus, artibus, affinitatibus nobis mixto.) Quaes seriam estas affinidades, para o imperador que nascera em Lyon, senão a similaridade ethnica de uma raça que se estendia por toda a Europa meridional, e que mantinha os mesmos costumes e práticas industriaes. Os Romanos, segundo Diodoro Siculo, davam o nome de Gaulez a todos os povos da França meridional; pela sua parte Polybio já distinguiu o Gaulez das outras populações celticas, raça que se manteve intacta na Aquitania entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha. Broca diz que tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos, cujo typo se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.[13] (Gascões, Vascones e Bascos.) Este elemento iberico, commum á Hespanha, Italia e França meridional, é caracterisado por Jorge Philipps: «no tempo de Cesar, os Iberos possuiam ainda na Gallia a maior parte do territorio situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos; elles se conservaram n’este triangulo, apesar das conquistas dos Ligurios primeiramente, e depois, de um inimigo mais terrivel, a raça Celtica.» Estes factos comprovados pelos modernos anthropologistas explicam-nos a transmissão do lyrismo trobadoresco a todo o occidente da Europa. Chasles d’Héricault, considera os Iberos como repovoadores e civilisadores da Gallia; Émile Chasles, resumindo o estado d’esta questão apresenta o seguinte facto: «Atravessando a Bretanha franceza, notareis com surpreza, em certas aldeias, homens que têm os olhos com a obliquidade dos Mongoes, e por consequencia a arcada zygomatica do extremo Oriente, signal palpavel de uma migração obliterada na historia.»[14] Charrière, na Politique de l’Histoire, acceita a identidade primitiva da raça hispanica e italica, reunindo-se pelo laço natural da Aquitania e pelo meio dia da Gallia; e Petit Radel observou a semelhança de um grande numero de nomes geographicos da Italia e da Hespanha.[15] O typo do africano branco é o que conservou mais puros os caracteres d’esta raça autochtone do Occidente da Europa, anterior ao estabelecimento dos Celtas, e com os quaes se cruzou; Émile Chasles cita um facto, que segundo confessa, faz pensar: «na Edade media um exercito de invasão passou da Africa a Hespanha, e devastou-a até aos Pyreneos. Chegados alli, os Africanos reconheceram immediatamente em um reconcavo da montanha, gente que fallava a mesma lingua que elles; em logar de se baterem fraternisaram em nome de um remoto parentesco que a politica e o tempo tinham obliterado. Eis aqui Berbères, que nos dão uma lição sobre os primordios da historia, e que por ventura fornecerão um novo argumento a M. de Belloguet.»[16] Na sua Ethnogénie gauloise, Belloguet sustenta a anterioridade da civilisação gauleza á celtica, que attribue aos Ligurios. Sobre este fundo ethnico commum á França, Italia e Hespanha, é que as invasões dos Celtas, dos Romanos e Germanos vieram constituir os povos que formaram as modernas nacionalidades depois da queda do Imperio. Competia á França a hegemonia sobre as nacionalidades da Edade media, continuando a grande Civilisação occidental, que em Marselha reflectira a cultura grega, e em Tolosa a cultura romana. Pela região da Aquitania transmittia á Italia e Hespanha o gai saber, a idealisação do lyrismo trobadoresco; pelo elemento celtico espalhava na Inglaterra as tradições do Santo Graal e da Tavola redonda; pelo elemento franko, transmittia á Allemanha o impulso que acordava a inspiração dos seus Minnesaenger. O que vemos pelas condições da raça, confirma-se pela consideração geographica, em que a França tinha naturalmente de exercer uma missão intermediaria entre os novos estados da Europa; escreve Edgar Quinet: «seja qual fôr a diversidade dos instinctos da Europa, tem a França orgãos para apanhar-lhes o caracter. Pelo Meio Dia e golfo de Lyon não toca ella na Italia, a patria de Dante? Do outro lado, os Pyreneos não a ligam como um systema de vertebras ao paiz d’onde surgiram os Calderon, Camões, Miguel Cervantes? Pelas costas da Bretanha não se prende ella intimamente ao corpo inteiro da raça gallica, que deixou a sua feição em todo o genio inglez? Emfim, pelo valle do Rheno, pela Lorena e pela Alsacia, não se une ella ás tradições como ás linguas germanicas, e não lança ella um dos seus ramos mais vivazes ao seio da litteratura allemã?» E assim como a França influiu directamente na cultura europêa por estas condições mesologicas, ellas mesmas facilitavam esse espirito de sociabilidade e prompta assimilação de todos os progressos europeus; é assim, que no seculo XVI o humanismo italiano leva a França ao abandono das tradições medievaes e imitação das obras classicas da Antiguidade; no seculo XVII a Hespanha inspira os seus poetas dramaticos, como Corneille e Molière, e dá-lhe o modelo das novellas picarescas; no seculo XVIII a Inglaterra suscita a actividade do pensamento critico e do encyclopedismo; e no seculo XIX é da Allemanha que recebe a nova corrente de idealisação litteraria do Romantismo, que propagou depois ás litteraturas meridionaes. Quinet, fallando da diversidade das provincias francezas para estas diversas assimilações, conclue: «Resulta d’esta diversidade, que estando em communicação com a Europa inteira, a França não tem a temer uma influencia exclusiva; que o Norte e o Meio Dia se corrigem mutuamente, e que este paiz chamado para tudo comprehender, póde enriquecer-se com cada elemento novo sem se deixar absorver por nenhum.» Onde se conhece esta indemnidade ou originalidade é no chamado genio francez, já notado pelos escriptores da antiguidade, que alludem á sua paixão guerreira e oratoria (Rem militarem aut argute loqui, segundo Catão); tumidissimi, lhe chamam outros, e vê-se pelas referencias de Aristoteles, de Plutarcho, de Sallustio, de Florus, de Tito Livio, de Cicero, de Diodoro Siculo e de Cesar, que as suas qualidades os impressionaram excepcionalmente.

O caracter gaulez, audaz e mobil, com regularidade nos seus caprichos, logico na paixão, preferindo a prosa á poesia, o conto faceto á lenda épica, trocando a palavra abstracta pelo symbolo naturalista e concreto, possuindo-se primeiro do que outrem da verdade das grandes e generosas ideias pelo que ellas têm de prático e de sociavel, adorando a dedicação da amisade e mais ainda o chiste de um bom dito, leviano mas intuitivo no alcance, bom e ao mesmo tempo implacavel na ironia, sensualista e crente na immortalidade, o genio gaulez é sempre a alma d’este eccleticismo intelligente e do sentimento de sociabilidade que caracterisa o francez em toda a parte. Quando o direito universal se exprimia por um symbolismo poetico, a França começava pela linguagem da rasão; quando a Europa jazia sob a arbitrariedade do Feudalismo e dos terrores da Egreja, o burguez ria-se nos Fabliaux, mofando das duas tyrannias temporal e espiritual; a lingua franceza tornou-se de um universalismo extraordinario pelo espirito de sociabilidade, e como dizia Martin de Carrale, no seculo XIII: «la plus delitable à lire et à oir que nulle autre.» É uma lingua vulgarisadora para toda a ordem de factos, cooperando para que a França seja a capital da civilisação, o centro em que palpitam as emoções mais generosas. A litteratura franceza é influenciada por este génio da raça: ora desenvolta e cheia de ironias e ditos de boa sociedade, como em Rabelais, Montaigne, Bonaventure des Periers, Beroalde de Verville, Luiz XI e a rainha de Navarra, La Sale e tantos que continuaram sob o humanismo classico a vêa sarcastica e mordente dos Fabliaux dos seculos XIII e XIV e das Sotties do velho theatro popular; ora pautada, pedante, convencional como no preciosismo, em Racine, Marmontel, Scudery, Delille; mystica, como em Calvino, Francisco de Sales e Fénélon; tumida e emphatica em Victor Hugo. A hegemonia intellectual da Edade media continuou-se pela França na fórma social depois da Revolução, que ella propagou a todos os povos da Europa não tanto com balas como com cantigas. Michelet, que comprehendeu tão lucidamente a hegemonia da França, proclama-a na Introducção á Historia universal: «Toda a solução social ou intellectual fica infecunda para a Europa, até que a França a interprete, traduza, popularise... Ella diz o Verbo da Europa, como a Grecia disse o da Asia.»

Para a comprovação do genio da raça transluzindo nas creações artisticas, ainda apesar do convencionalismo de escóla e dos preconceitos da civilisação, Taine determinou na Historia da Litteratura ingleza duas correntes de inspiração, provenientes dos sangues saxão e normando, caracterisadas nos maiores escriptores. O Saxonio tem o genio tenaz, luctador, vive da incerteza, sorri-lhe a ideia da morte, põe-se em combate com a natureza; a tensão violenta diante da catastrophe é o momento mais bello da sua vida; tem uma mythologia sombria, tradições medonhas, instinctos brutaes. Dos parceis do mar germanico, vem como o alcyão da tormenta accoitar-se na Bretanha, e com os Juttes e os Anglos supplanta pela conquista o elemento celtico. Para esses invasores o céo plumbeo da Inglaterra é uma aurora comparado com a cerração dos mares do norte; são meio hyppopotamos na ferocidade e na voracidade, procurando a alegria ruidosa nas bebidas mais corrosivas. Quando o influxo do Christianismo veiu explorar o instincto supersticioso d’esta raça, substituiu-lhe o terrivel deus Thor que atirava o martello pelos áres, pelo deus dos exercitos que arrojava o raio, e enlevou-a com as lendas tenebrosas da Descida ao Inferno (Tundal e Purgatorio de S. Patricio.) A poesia ingleza, exprimindo esta energia saxonia representa na sua espontaneidade a trilogia satanica, a Duvida, o Mal, o Desespero; é Shakspeare propondo a fórmula dubitativa em Hamlet: To be, or not te be, quando depois da Renascença se dissolvia a synthese theologica da Egreja sem se determinar a synthese humana da consciencia; é Milton, depois da revolução social, divinisando o principio do Mal, Satan, como a libertação de todos os absurdos que desde a Reforma prendia a sociedade e o espirito em um despotico puritanismo, na phrase: Mal, torna-te o meu bem (Evil be then my good) na epopêa do Paraiso perdido; é Byron, levado ao paroxismo do desespero entre uma aristocracia convencional, que não percebe a marcha do tempo moderno, e que o repelle com o desdem de uma mediocridade panurgica; ello abandona a Inglaterra, o vagabundo Child Harold, que divaga pelo occidente á busca do seu ideal da liberdade, indo morrer por ella na Grecia.

A Renascença como o regresso da alma ás fontes da natureza, e as luctas violentas da Reforma suscitaram em Inglaterra a preponderancia d’este veio saxonio, como as fortes torrentes que descarnam os rochedos: Dayton, Greene, Marlow, Ben Johnson são os precursores ou os primeiros productos da corrente que orientou o genio de Shakspeare. E assim como apparecia o drama em Inglaterra, onde as instituições dos homens livres coexistiram sempre com instituições feudaes ou senhoriaes e monarchicas, tambem a complexidade dos interesses burguezes e da moral privada deram logar á creação nova das litteraturas modernas, o Romance, de que são creadores Fielding, Swift, de Föe, Richardson, Goldsmith.

Ao veio saxonio contrapõe-se o genio normando, como exemplifica Taine. Desde os seculos IX e X, que os Normandos infestavam as costas meridionaes da Europa; terriveis como os saxonios, a permanencia nos climas suaves do sul enfraqueceu-lhes a irritabilidade, fel-os brandos, amigos da novidade. A conquista dos Normandos sobre os Saxões foi superficial, por que os vencidos em menos de trez seculos imprimiram a sua feição aos vencedores: o normando conservou apenas as qualidades exteriores dos seus habitos senhoriaes, que differenciam ainda hoje a aristocracia ingleza, ao passo que o franco caracter saxonio se conserva no povo. Os velhos chronistas notaram este antagonismo; diz Roberto de Gloucester: «As gentes da Normandia ainda habitam entre nós, e aqui ficarão para sempre... Os Normandos descendem dos homens de alta cathegoria, que estão n’este paiz, e os homens de baixa condição são filhos dos Saxões.» Antes de Taine, já o historiador Agustin Thierry fundou sobre este conflicto de raças a Historia da conquista de Inglaterra. A litteratura ingleza resente-se da influencia normanda na predilecção da fórma, na imitação dos modelos convencionaes, em um classicismo sem ideia, em um meio termo do bom, em menos espontaneidade e mais estylo; Drydon, Pope, Addisson, Waller, Gray, seguem a moda litteraria, e ainda hoje fazem a predilecção dos espiritos academicos, dos que consideram a litteratura como um nobre ocio, ou uma habil curiosidade. A hombridade saxonia e a cortezania normanda reunindo-se formaram esse temperamento sanguineo ligado a um caracter impassivel; o humour é o estado psychico d’esta fusão, um lampejo de alegria sob um ár taciturno constante, uma jovialidade indecisa como de quem reage contra um mal estar. O humour é o verdadeiro elemento da obra de arte ingleza: Sterne, no Tristan Shandy e Viagem sentimental, Swift, nas Viagens de Gulliver, Fielding, no Tom Jones, Butler, no Cavalleiro de Hudibras, e modernamente Carlyle representam esta fórmula da esthetica ingleza. Em philosophia, tem a audacia critica de Hobbes e de Bolingbroke a par do mais subserviente biblicismo; tem o positivismo de Locke e Hume conjunctamente com o idealismo de Berkeley, e na sciencia procura manter o accordo official entre a velha synthese theologica com as mais audaciosas theorias transformistas, como se observa em Darwin.

Ampliando o criterio ethnologico á litteratura da Allemanha, já alguns criticos observaram as differenciações locaes reflectindo no genio dos escriptores; a Suabia, é a patria do lied, a canção tradicional, do canto que se desenvolve em um esplendido lyrismo; na Franconia, o gosto artistico popular organisa-se nas Meistergesang. Na sua Physiologia dos Escriptores e dos Artistas, Deschanel transcreve as palavras de um critico indicando que Schiller era da Suabia, e Goëthe da Franconia, deduzindo assim a diversidade d’aquelles dois genios que synthetisam toda a litteratura allemã: «O primeiro, como a raça allemanica d’onde provém, raça isempta, altiva, concentrada, democratica, apresenta-nos a irritabilidade dos sentimentos, a vivacidade da imaginação, o liberalismo da rasão; o segundo, em virtude da sua origem, possue a calma, a correcção, a serenidade, a flexibilidade industriosa de um espirito aberto a toda a cultura. Schiller gastou-se prematuramente pela impetuosidade interior; Goëthe, durante a sua longa vida, foi avançando por um progresso insensivel e contínuo para a perfeição.»[17] Apesar do sentimento nacional tender para a unidade politica, ainda assim prevalecem as influencias locaes nas manifestações do espirito allemão; escreve G. Weber: «Debalde se procurará hoje, um centro litterario parecido com aquelles que existiram outr’ora em Saxe e em Thuringe. Berlim permanece a séde da philosophia e das sciencias especulativas; Munich o fóco das bellas-artes e o baluarte do ultramontanismo; Leipzic e Dresde o centro da critica, da arte dramatica e das bellas-letras...»[18] Heinsius, na sua Historia da Litteratura allemã determina-lhe os periodos da evolução sob o aspecto da raça: o gotico, até ao meado do seculo VIII; o franko, até ao advento dos Hohenstaufen no seculo XII; o suabio, periodo dos Minnesinger e da cavalleria exaltada; o rhenano ou saxonio, da erudição e das Universidades, do seculo XIV a XVI; o saxonio, comprehendendo a renascença, as controversias religiosas, os Meistersenger, ou os cantores populares, e a creação da lingua nacional, pela fusão dos dois dialectos principaes por Luthero; o silesio e suisso, em que predomina a influencia franceza da escóla de Opitz, reagindo e vencendo o perstigio das tradições germanicas em Klopstock, que determina a grande época allemã, em que brilha a pleiada dos genios creadores, como Goëthe, Schiller, Bürger, Wieland, Lessing, etc., como uma integração affectiva da Germania. Sobre esta successão, conclue Heinsius: «Observa-se que em cada época, á parte esta ultima, é uma das grandes familias da nação allemã que conduz todas as outras, que preponderou tanto no pensamento como na actividade, nas letras como na vida social, que, finalmente, imprimiu o seu caracter ao resto da nação e a fecundou com o seu genio.»[19]

Não é excessiva a nossa comprovação, ao tratar-se de determinar o caracter da raça, e acção do meio na civilisação e litteratura de Portugal; por que todos esses povos, a começar pela França exerceram uma acção profunda, já na constituição da raça, já nas fórmas da manifestação do genio nacional. Celtas, Romanos, Germanos e Arabes actuaram sobre o fundo persistente das populações hispanicas, que apesar d’isso conservaram as suas tendencias separatistas e as suas differenciações locaes. Nas creações artisticas formadas por individualidades que estão fóra das influencias vulgares, ainda assim se revela esta fatalidade do sangue, e do meio cosmico. Sobre a mais antiga camada anthropologica da peninsula estabeleceram-se os cruzamentos: Hispano-celtico, hispano-romano, hispano-gotico, e hispano-arabe. Vê-se aqui um fundo persistente de população, que as invasões successivas não conseguiram obliterar nas suas mestiçagens.

O que era pois este elemento hispano? Quando as primeiras frotas tyrias aportaram no Mediterraneo, já a peninsula se achava habitada por gente que se considerava autochtone ou filha da propria terra. Bem podiam ter-se esquecido da sua proveniencia, desde que os Pyreneos a defenderam contra a terrivel invasão dos gelos da época glaciaria. Quem era essa raça mysteriosa aqui escondida? Ella achava-se ramificada pelo sul da Italia e tambem pelo meio dia da França, mesmo pelo norte da Africa; chamaram-se os Iberos. Segundo Guilherme Humboldt, o genio iberico é a base da unidade dos povos meridionaes; com os recentes estudos anthropologicos foram-se esclarecendo estas similaridades, e nos estudos comparativos dos costumes e das tradições confirmando pelas analogias ethnicas este sub solo social. Segundo Bergman, o Ibero é a transição da raça amarella para a aríaca; além da Italia e da França, tambem apparece na Inglaterra, e no typo ruivo germanico, constituindo um fundo primordial ou preárico da Europa. Monumentos, superstições, mythos religiosos, recorrencias de costumes, tradições lyricas e heroicas, communs principalmente ao occidente da Europa, explicam esta raça a que na Hespanha se deu o nome de iberica, que os escriptores da antiguidade greco-romana descrevem com uma elevada cultura, com leis e poesia. Nas successivas invasões da peninsula nunca este elemento hispanico foi obliterado; entraram aqui os Celtas gaulezes, deixaram o seu vestigio no onomastico local, venceram as tribus locaes ibericas, mas foram absorvidos por ellas, como os Saxões da Inglaterra vencidos pelos Normandos os assimilaram ao fim de trez seculos. Os Celtiberos nunca puderam ligar-se completamente para a defeza commum, d’onde Guilherme Humboldt conclue mais pela cohabitação do que pela fusão d’estes dois elementos; o Ibero continuou a ser taciturno, e accoutando-se nas montanhas por um instincto defensivo, e o Celta veiu insensivelmente isolando-se para as bandas do mar, para lançar-se á vida aventureira. En Dorel e Esus são os dois deuses d’estas raças, que persistem em muitas das inscripções lapidares da Hespanha. A facilidade de adaptação estava da parte dos Celtas, que tambem na Italia, em França e Inglaterra se unificaram com outros povos preexistentes, conservando a sua delicada sensibilidade poetica. Aqui temos um começo de differenciação na futura raça hispanica ou nacionalidades peninsulares. As esperanças da raça celtica, personificadas na vinda do Rei Arthur, ainda hoje alentam o povo portuguez, que na decadencia da sua grandeza historica compraz-se com o sonho do Quinto Imperio do mundo, em que o desejado Dom Sebastião hade vir aqui formar a ultima grande monarchia; as tradições da velha Atlantida enlevam a imaginação dos portuguezes insulares, que julgam vêl-a nas cerrações em noite de Sam João. Para as regiões centraes e montanhosas confinaram-se os iberos, de que os bascos actuaes, apesar dos seus cruzamentos são ainda um manifesto documento anthropologico; o elemento docil, aventureiro, amoroso, propriamente celtico irradiou pela orla maritima, em uma linha norte sul, vindo por isso os Portuguezes a conservarem o genio celtico, não obstante Herculano affirmar que o portuguez nada tem de commum com os antigos occupadores da peninsula. É pela extensão e diffusão d’este ramo celtico, que se explica a facil adopção do latim nas conquistas romanas, e mais ainda a differenciação dialectal, que produzia as linguas novo-latinas, cuja formação os discipulos de Diez deduzem de simples degenerescencias phoneticas. O facto da adopção de uma linguagem, orgão de uma mais elevada cultura, em nada modificára a população hispanica.

Os Phenicios, que exploraram o Mediterraneo, vieram attrahidos á peninsula pela noticia das suas riquezas metalurgicas; os que já estavam cansados dos errores longinquos, fixaram-se ao norte da Africa onde fundaram Carthago, e d’ali exploraram commercialmente a Hespanha, preferindo o trafico á guerra. Seria esta situação do ramo semita, naturalmente incommunicavel, segura e sem perturbação, se as rivalidades com o poder romano não produzissem a derrota da segunda guerra punica.

Roma repelliu da peninsula o dominio carthaginez; possuindo um energico poder centralisador, começou por imprimir no territorio dos hispanos as suas divisões administrativas e militares. Não dominava pelo numero e cruzamentos, por que Roma não tinha gente sufficiente para a occupação, mas pela vigilancia das suas legiões, e pelo colonato dos povos vagabundos, que se entregavam á sua protecção, é que sustentava a conquista. A concessão do direito italico harmonisava-se com os costumes ibericos. A influencia de Roma é profunda, como elemento civilisador, e de unificação social, mas nulla em quanto á modificação dos caracteres anthropologicos da raça. Sob o seu dominio os hispanos ficaram taes como eram. A lingua latina como universalista, exprimindo o direito e a poesia, dava distincção ao que a fallava; por tanto deu a Hespanha á litteratura romana muitos dos seus melhores escriptores, coincidindo esta actividade com a adopção da religião universalista do Christianismo, que vinha unificar sentimentalmente o Occidente: Seneca, Lucano, Marcial, Prudencio, Draconcio, Sam Damaso, fazem brilhar a lingua de Cicero na época de uma decadencia que se sustentou com a vitalidade provincial. O verso latino, que na época de esplendor desprezava a accentuação natural pela quantidade, á imitação da poetica grega, voltou nos primitivos hymnos da Egreja, compostos por Sam Damaso, á simplicidade do verso saturnino, ao octosyllabo popular. Estavam achadas as bases da poesia moderna, do lyrismo das novas linguas, a accentuação e a rima, que mesmo nos hymnos da Egreja dão á expressão latina uma belleza incomparavel. A Egreja e o Imperio romano imprimem aos povos da peninsula uma unidade politica e moral, deixando esse germen da cultura erudita, que se sobrepõe ás tradições populares sem comtudo ellas se extinguirem. A Egreja, depois da queda do Imperio, mantém na sua liturgia a lingua latina, e os Reis germanicos reataram a tradição imperial, conservando a lex romana e o seu processo nos tribunaes: estas mesmas causas cooperam para a unidade da civilisação do Occidente.

As invasões germanicas, communs á Italia (Ostrogodos e Lombardos), á França (Frankos e Borguinhões), á Inglaterra (Saxões) e á Hespanha (Visigodos e Suevos), determinam uma certa similaridade das instituições modernas, cujas relações com as instituições gregas e romanas foram achadas por Freemann como provenientes de um fundo commum árico. Mas a invasão germanica da Hespanha, embora numerosa, não alterou o typo anthropologico da população iberica. Assim como os Lombardos, no clima quente da Italia ao fim de um seculo estavam extinctos, por egual causa os Visigodos seriam lentamente eliminados em Hespanha; ao fim de dois seculos já não puderam resistir a uma pequena incursão de Arabes. Comtudo, a invasão germanica deixou elementos que foram apropriados pela povoação hispanica, como vamos vêr. Os Godos aqui em contacto com a organisação civil e politica romana conformaram-se com ella; e a sua aristocracia ou classe guerreira, chegou a esquecer a mythologia de Odin pelo polytheismo social romano; imitou os Codigos romanos, principalmente o theodosiano, excluindo do seu direito a banda pastoral e agricola, a quem deixava o costume ou lei consuetudinaria do Estatuto territorial, conservando exclusivamente para si o estatuto pessoal; esqueceu-se do culto da mulher, de que falla Tacito, e adoptou os costumes dos harens asiaticos; em religião, abandonaram a doutrina da humanidade de Jesus, tornaram-se orthodoxos por corrupção, e desprezaram completamente as suas tradições poeticas. D’esta ruina falla o profundo Jacob Grimm: «As tradições goticas, tão bellas, tão numerosas, aniquilaram-se na maior parte, e não se avalia o alcance d’esta perda; pelo que nos deixou Jornandes se poderá julgar a importancia das origens mais antigas e mais ricas, que existiam no seu tempo.»[20] Grimm explica esta ruina pela influencia da reacção catholica: «A historia trata os Godos com severidade por causa de terem abraçado o arianismo e combatido a orthodoxia;»—«o christianismo triumphante arruinou-lhes os monumentos do passado, prescrevendo como um dever o abandono dos velhos costumes, e o desprezo de todas as tradições do paganismo.» Estas tradições conservaram-se nas camadas populares da banda agricola e pastoral, como o symbolismo juridico. Muitas das lendas germanicas se acham implantadas, confundidas com as nossas lendas portuguezas: as lendas de Nossa Senhora da Nazareth, salvando Fuas Roupinho,[21] da Roussada de Bemfica, contada por Fernão Lopes,[22] o estratagema do Alcaide do castello de Faria,[23] a de Geraldo sem Pavor,[24] de Gaia,[25] da Náo Catherineta,[26] são provenientes d’este fundo dos lites ou colonos decahidos da condição de homens-livres. Nas superstições populares prohibidas pelas Constituições dos Bispados, vem apontada a Camisa de Soccorro, costume privativamente germanico.[27] No Direito portuguez consuetudinario, as Cartas de Foral encerram numerosos symbolos germanicos, embora o mechanismo dos Concelhos tire as suas designações de nomes arabes.[28] Porém, esta camada popular dos lites, era formada do colonato admittido pelos Romanos, de Alanos e outras tribus que acompanharam as invasões sem serem propriamente germanicas; pertenciam a esse fundo que já vimos identificado com o elemento iberico. Não admira pois o facto, citado por Émile Chasles, que na invasão dos Arabes, os Berberes fallassem e se entendessem com povoações acantonadas nos valles (Cagots, Mauregatos), por isso que pertenciam a esse elemento iberico ou hispanico. Quando se deu a reconquista visigotica ainda a aristocracia quiz conservar no Codigo Visigotico os seus privilegios, mas não foi isso possivel diante do desenvolvimento da população das cidades, que era hispanica.

Com a invasão dos Arabes, embora a peninsula fosse fundamentalmente revolvida e até certo ponto as duas civilisações se penetrassem, nem por isso o elemento semita alterou os caracteres anthropologicos da população iberica. Assim como os Romanos, nas suas conquistas formavam o grosso das suas legiões com povos barbaros, tambem os Germanos trouxeram nas suas bandas guerreiras tribus que lhes eram extranhas (Alanos, Gelas, Seythas), e os Arabes occuparam a peninsula hispanica quasi que com exercito de Berberes. Os dominadores conservaram-se sempre estranhos ou incommunicaveis com os povos conquistados; o estipendiario, o mercenario, o aventureiro trazidos na corrente da conquista é que se misturavam entre o povo e conviviam em uma crescente mestiçagem. O Proconsul romano, o Conde germanico, e o Emir arabe consideravam barbaros a sociedade e o paiz que governavam, e fechavam-se nos seus costumes aristocraticos, e nos seus privilegios excepcionaes; pelo contrario os elementos do colonato romano, dos lites germanicos, que se haviam confundido na persistente população hispanica, e dos mouros trazidos pela invasão e ulteriores conflictos do dominio dos Arabes, vieram a constituir a gente sedentaria das villas e cidades, a que já no seculo XII se dava o nome de Mosarabes. Esta designação é preciosa, por que denominando o fundo anthropologico da raça hispanica ou iberica, exprime a influencia exterior ou a acção do contacto com a civilisação dos Arabes; segundo Pascoal de Gayangos, Must’ariba significa o que imita o viver dos Arabes. Bastava a profunda tolerancia politica e religiosa dos Arabes, e o modo como garantiram a existencia e a propriedade ás populações sedentarias, mediante um leve imposto de capitação, para os seus costumes provocarem interesse. Mas estas relações entre o povo conquistado e o Arabe não foram descriptas com verdade pelos chronistas ecclesiasticos; do seculo VII em diante não cessaram de retratar com as côres mais sinistras o quadro da invasão arabe; representam razzias sangrentas, desolação geral, ruina dos templos, ausencia de toda a cultura litteraria; para elles entre a Cruz e o Crescente existe um abysmo, de odio eterno, irreconciliavel, de morte; as duas raças, arabe e germanica, repellem-se com uma antithese absoluta. Para os escriptores ecclesiasticos e chronistas contemporaneos é esse eterno antagonismo que faz com que a aristocracia visigoda se refugie nas montanhas das Asturias abandonando as populações sedentarias ao invasor arabe, e é que o obriga passado o primeiro espanto a ir reconquistando a palmos o solo patrio. Odio politico, repugnancia entre as duas religiões, aversão á diversidade de linguas e costumes, era quanto bastava para communicar entranhado ardor á cruzada permanente que terminou na conquista de Granada.

Triste erro da paixão patriotica e religiosa dos chronistas, que não quizeram relatar como a população sedentaria, colonos romanos, lites germanicos, sob o regimen de tolerancia dos Arabes, acceitaram a convivencia com os mouros ou berberes, e vieram do seculo VII ao seculo XI a formar d’esse complexo elemento hispanico ou iberico um povo livre. No onomastico popular acham-se os nomes godos ligados com os arabes (ex. Venegas e Viegas = Ibn-Egas); acham-se nos divertimentos e cantos populares os nomes dos instrumentos musicos e dos generos poeticos, (quitara, serranilha, leila, lenga-lenga); os sacerdotes christãos têm nomes arabes, e escrevem em caracteres arabes ou aljamia. Quando começou a reconquista pela aristocracia goda, este elemento popular ou propriamente nacional estava já tão desenvolvido nas suas relações civis e economicas, que não foi possivel restaurar as velhas e atrazadas instituições germanicas, artificialmente e capciosamente regulamentadas no chamado Codigo Visigotico. É esta população que recebeu o nome de Muztarabe, como se acha em um documento de 1101, de Affonso VI; no poema de Gonzalo de Berceo, Milagros de la Virgen, já se dá a essa collectividade o nome de Mozarabia, em contraposição á classe culta ou Clerezia; o nome é vulgar no castelhano Mozarabe, no valenciano Moçarab, Moçab, e no portuguez Mosarabe. Este dualismo entre um povo livre, que se vae constituir em nacionalidades, e uma aristocracia atrazada que vae ser submettida pelo poder real, acha-se perfeitamente representado no typo épico do Cid, como observou judiciosamente D. Agustin Duran: «Ha um Cid monarchico, popular, religioso e aventureiro; ha outro aristocratico, feudal, cavalheiresco e devoto; porém nunca se confundem no principio politico que representam. O Cid feudal e devoto acha-se sómente idealisado na Chronica rimada e em alguns romances tirados d’ella; o Cid monarchico, popular, santo e cavalheiresco está formado no Poema publicado por Sanchez, nas Chronicas latinas e castelhanas, e provavelmente nos cantares que n’ellas se citam, ou que convertidos em prosa se inseriram no texto, e nos romances velhos que restam, ou em antigos compostos posteriormente no seculo XVI, quando predominavam o espirito cavalheiresco e os costumes palacianos. Este Cid, que se oppõe ao Cid dos senhores, é o que triumphou das ideias feudaes, é a verdadeira figura popular que a escripta e a tradição nos legaram, condemnando ao olvido a do seu antagonista; é a que caracterisa em todas as épocas a idiosincrasia nacional, a necessidade de conquistar a unidade de territorio e das leis, a de acabar com a anarchia que impedia a reconquista do paiz contra os Arabes. Este é o Cid, que, como o povo, se ligava aos monarchas para libertar-se da oppressão dos senhores; mas que, ao mesmo tempo, vencido de outra tyrannia que podia empecer a liberdade, ao passo que acatava e fortalecia os reis, lhos fallava severa linguagem de verdade, obrigando-os a respeitar a lei da opinião.»[29] A poesia popular fez aqui a synthese da creação da sociedade civil na alliança da burguezia com a realeza.

Foi tambem com o nome de Mosarabes que Alexandre Herculano designou a população da Extremadura e da Beira antes da constituição da nacionalidade portugueza: «os habitantes da capital da antiga Luzitania eram principalmente Mosarabes...»[30] E: «na Beira, o mosarabismo devia caracterisar mais profundamente a população, do que ao norte do Douro...»[31] Mosarabia e Mosarabismo, significa com todo o rigor historico, ethnico e anthropologico a raça hispanica ou iberica, tendo incorporado em si todos os elementos celticos, colonato romano, lites germanicos, tribus maurescas ou berbericas, vindo sob a tolerancia arabe a constituir a nova povoação livre que se transforma de classes servas no povo das nacionalidades peninsulares. A designação é restricta á época arabe, como exprimindo uma unificação ou integração social; creadas as nacionalidades, esqueceu-se o nome de Mosarabia, prevalecendo o separatismo nos nomes de Gallegos, Portuguezes, Aragonezes, Leonezes, Navarros, Castelhanos, etc. Mais tarde o nome de Mosarabe revivesceu com um sentido puramente religioso, para designar aquellas povoações, que em contacto com os Arabes souberam conservar intacta a fé e o culto christão; tal é o sentido com que se encontra em uma comedia citada por Ticknor.[32] Este dualismo da Mosarabia e Clerezia, indica em que elemento ethnico se devem procurar os caracteres psychologicos e os themas tradicionaes das creações artisticas, e por que via as correntes da erudição grega e romana exerceram por vezes uma obnubilação na phantasia dos escriptores peninsulares. Quando estas populações christãs foram reconquistadas, o laço religioso é que as unificava, porém os costumes imitavam a cultura arabe, subordinando-se aos novos senhores pela identidade da fé; no acaso da guerra, se tornavam a cahir no dominio sarraceno, eram tratadas com mais brandura. No seculo X o terreno comprehendido sob o titulo de Minho, Traz os Montes e Beira-Alta era extremamente povoado, o que não teria sido possivel se tivesse sido occupado simplesmente por christãos asturo-leonezes. Os territorios do Douro e do Mondego já por este tempo apresentavam grande numero de granjas, casaes, villares e povoas. Sob as phrases do latim tabellionico dos diplomas, como notou Herculano, sente-se palpitar uma população livre, que se fará reconhecer mais tarde. A contar do seculo IX encontram-se nos contractos celebrados entre estas differentes sociedades nomes goticos e romanos amalgamados em agnome e cognome com os nomes arabes; presbyteros e diaconos assignam-se com nomes mussulmanos, e ás vezes filhos e irmãos entre si diversamente chamados com nomes arabes e goticos. Pelo que, conclue Herculano: «Não é evidentemente esta confusão de denominações a imagem da assimilação, que, salva a differença do culto e da jurisprudencia civil, se operára lentamente entre os sarracenos e os hispanogodos sujeitos ao seu dominio?»[33] Na magistratura civil, os nomes dos varios cargos tinham tambem designações arabes; na segurança da sua erudição, concluiu Herculano: «O resultado definitivo de todos estes factos, devia de ser, no começo da monarchia a preponderancia do elemento mosarabe entre as classes inferiores, ao passo que entre a nobreza preponderava forçosamente a raça asturo-leoneza.»[34] De facto na Extremadura, Alemtejo e Algarve, depois da separação de Portugal de Leão, ficaram vivendo os mouros forros com a sua independencia garantida pelos Foraes e pela immunidade da communa. Assim se fortificava esse elemento mosarabe nas classes inferiores, onde se crearam as manifestações artisticas, principalmente architectonicas, e se conservaram as tradições poeticas, ou Aravias. Esta influencia poetica dos Arabes acordou a imaginação popular; pelos Arabes da Hespanha se implantaram na Europa os contos orientaes do Hitopadeça, do Pantchatantra e do Calila e Dimna; foram esses themas novellescos vulgarisados pelos arabes que vieram fortalecer o instincto da liberdade burgueza, e que foram estimular a creação romanesca no Decameron de Boccacio, nos Contos de Sassetti, nas Notte piacevoli de Streparole, nas graciosas narrativas das litteraturas romanicas.

Este dualismo, que Herculano tambem observou entre as classes inferiores ou mosarabes e a aristocratica ou asturo-leoneza, reflecte-se no antagonismo entre as autonomias nacionaes, ou individualismo dos estados peninsulares, e a obliteração de todos esses caracteres por um espirito abstracto de unitarismo, conservado da acção imperial romana, gotica e arabe, que a organisação tambem unitaria da Egreja veiu fortificar na aristocracia e na realeza, que ao caminhar para a dictadura se separou do povo. Era este espirito de unidade que fazia com que os reis e aristocratas christãos se entendessem por vezes com os emires e kalifas; na batalha de Zalaka trinta mil sarracenos combatiam sob as bandeiras christãs do rei de Castella e Leão, ao passo que os cavalleiros christãos coadjuvavam as hostes do almoravide Iussuf; Affonso VI, no enlevo dos seus amores por Zaida, queria pôr no throno o filho da sevilhana que estremecia; em Portugal tambem vêmos D. Affonso Henriques fazer uma alliança com Iben-Kasi. O ideal da unificação manifestou-se na creação do kalifado de Cordova, e na reconstituição da unidade visigotica, nas luctas de Castella, Navarra e Aragão. Alheio a todas as ambições creou-se um povo vivendo por si e para si, que emquanto manteve os seus separatismos naturaes, ou pequenos estados, chegou a exercer uma acção immensa na Civilisação occidental. É este caracter ethnico, que o nome de mosarabe exprime tão perfeitamente, que deve ser procurado nas creações dos povos peninsulares differenciados pelas condições do territorio.