Portugal occupa na peninsula hispanica uma faixa norte a sul, na orla occidental: d’aqui a grande variedade da sua climatologia, das suas producções agricolas, e das capacidades e caracteres individuaes dos seus habitantes. Foi esta a causa immediata da actividade social que o levou á desmembração da unidade asturo-leoneza, e que sem fronteiras naturaes, separou Portugal profundamente dos outros estados hispanicos. Além d’esta situação, que em muitas cousas torna Portugal comparavel ás peninsulas da Italia e da Grecia, o solo do paiz é bastante accidentado, influindo pelas altitudes na variação do clima de provincia para provincia; a visinhança do mar, ou as grandes montanhas e os valles profundos tornam o clima ora desegual, ora desabrido, como na Beira, Minho e Traz os Montes, apresentando as vegetações das zonas frias na Serra da Estrella e no Gerez, e o algodoeiro das zonas quentes no Algarve. A florescencia indica esta instabilidade: os cereaes recolhem-se um mez mais cedo na Extremadura e Alemtejo do que em Traz os Montes, em Trancoso, na Guarda, em Almeida e no Sabugal; o pecegueiro, o damasqueiro e a cerejeira florescem em Chaves em Janeiro, em Montalegre em Dezembro, e em Coimbra nos principios de Fevereiro. As duas primaveras que o anno apresenta em Fevereiro e Outubro, são alternadas, a primeira de calor e chuva em todos os trez mezes de duração, a segunda é precedida de trez mezes de calma ardente e falta de agua até ao equinocio, em que começam as chuvas torrenciaes. Cada provincia apresenta caracteres differentes; nos districtos mais elevados das provincias do norte, as neves mantêm na estação calmosa a frescura da atmosphera, tornando as noites frias mesmo nos ardores do verão. O Minho é a mais pequena de todas as provincias e a mais florescente em agricultura, em commercio e industria; aqui a actividade do homem venceu o terreno esteril tornando-o fecundo; ha mais densidade de população, mais fartura, mais desenvolvimento moral e iniciativa. Na Beira, o systema agricola dos pousios não deixa á terra a largueza da sua producção, que diminue cada vez mais com a extensão dos baldios para pastagens; a falta de communicações conservou por muito tempo o povo em uma rudeza e fanatismo invencivel. Traz-os-Montes é uma provincia montanhosa, fria em extremo no inverno, abrasada pelas calmas no verão, em rasão dos grandes montes que a fecham; tem immensos baldios, contando mais de dez leguas abandonadas desde a raia de Hespanha até ás proximidades de Barca d’Alva; alli o homem participa do caracter energico que lhe dá a natureza, é contrabandista. Na rica Extremadura, é mais geral a miseria da população solitaria e ignorante, explorando o solo feracissimo com rotinas caducas. O Alemtejo é a provincia mais extensa, mais fertil e a mais despovoada; a fecundidade do solo fez o habitante indolente; ama de preferencia o ser guardador de gado, a vida de campino; o seu desleixo tem empobrecido a provincia por não procurarem agua. O clima do Algarve é amenissimo, uberrimo o terreno, mas desprezado; não conhecem os habitantes as vantagens das florestas e vão sendo invadidos pelos areaes; a vegetação é tropical, como a bananeira, a palmeira, a cana de assucar; amendoaes, alfarrobaes e figueiraes florescem luxuriantes, mas os rios e as barras vão-se tornando incommunicaveis pela indolencia dos povos.[35]
Perturbações subitas da atmosphera levam á formação do temperamento bilioso, que como observa Stendhal torna as impressões violentas, e as ideias mais absolutas mas inconstantes;[36] a agitação e o mal estar permanente provocam-no á actividade. Diz Stendhal: «O bilioso melancolico, variedade tão commum em Hespanha e Portugal, e no Japão, parece-me o temperamento da desgraça em todas as suas fórmas.»[37] E exemplificando este temperamento pelos typos tão caracteristicos de Domingos de Gusmão, Carlos V, Cromwel, podemos equiparar-lhes os portuguezes Pedro I, Dom João II, Affonso de Albuquerque, Fernão Mendes Pinto, Sá de Miranda, Ruy de Pina, Damião de Goes, typos austeros e atormentados. Para o melancolico o amor é sempre um negocio sério, como observa Stendhal; e que sômos aos olhos da Europa, senão um povo de apaixonados? Quem tem os mais exaltados poetas do amor, como Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, Camões, Rodrigues Lobo, Garrett, João de Deus? Uma lenda de amor deu a primeira tragedia nas litteraturas da Europa, a Castro, de Ferreira; o amor é uma fatalidade invencivel, como se vê nas Cartas da Religiosa portugueza, e torna contagioso o suicidio na mocidade e nas classes populares.
A visinhança do mar imprimiu a estas energias uma acção commum, que tornou Portugal um dos principaes factores da historia: a exploração do Mar Tenebroso, a circumducção do globo, e a idealisação de uma das mais bellas Epopêas da humanidade.
Ha no caracter portuguez uma certa sympathia pela novidade, uma facil assimilação de todos os progressos ou estrangeirismo; foi esta qualidade, tão mal comprehendida, que fez do genio jonio o elemento fecundo e activo da civilisação hellenica. É esta tendencia progressiva que reserva a Portugal uma missão hegemonica na futura federação dos Estados peninsulares.
Com a marcha da civilisação humana as raças vão naturalmente unificando-se, e, como observa Comte, só virão a conservarem as suas qualidades e caracteres differenciaes as raças branca, amarella e negra. A successão e distribuição das raças da Europa, segundo as modernas investigações da anthropologia, apresentam uma quasi completa similaridade; na corrente da historia, uma mesma cultura greco-latina, uma mesma religião catholica, accordando as consciencias, os mesmos elementos sociaes desenvolvendo as instituições civis e politicas, concorreram activamente para esta solidariedade humana que já merece o nome de Republica occidental. D’estes antecedentes, e do contacto sempre crescente dos povos europeus no sentido industrial e economico, resulta a influencia mutua que todos elles exercem entre si, conduzindo para a acção commum.
Os Francezes, Italianos, Hespanhoes e Portuguezes formam perante a civilisação um mesmo povo; as mesmas raças invadiram os seus territorios e ahi se fixaram fusionando-se. O elemento iberico assimila e unifica em si o romano, o celta, os ramos germanico, franko, lombardo e gotico e por fim o arabe. A creação das linguas romanicas proveiu mais da persistencia dos caracteres communs dos povos conquistados pelos romanos do que da decomposição do latim litterario. Uma mesma tradição, formada da decadencia dos seus polytheismos serve de assumpto para essa nova linguagem; o jogral cantando de terra em terra faz-se entender por toda a parte mudando a accentuação das palavras, chega a empregar ao mesmo tempo varios dialectos, como no Descort; uma mesma lingua, o latim, presta os seus moldes de construcção syntaxica a esta diversidade de dialectos, dos quaes os mais desenvolvidos se tornarão linguas nacionaes; uma mesma poesia, a canção trobadoresca, alegra a mudez dos castellos, irradia do Meio Dia da França, cultiva-se nos principados da Italia, em Aragão, na região gallecia ao norte de Portugal. A arte da poesia ou do gai saber ramifica-se, imprimindo uma unidade sympathica aos povos novo-latinos. As mesmas lendas épicas seduzem a imaginação d’estes povos: Carlos Magno, o centro heroico das Gestas, combate nos romances os Sarracenos; os Hespanhoes celebram a sua derrota em Roncesvalles na pessoa de Roland; os Italianos ferem-no na vileza e degradação do filho e dão o nome de ciarlatani (de Carlos) aos troveiros que celebram os seus feitos nas praças publicas: em Portugal apparecem os vestigios meio apagados do Cyclo carlingio, trazido pela passagem dos Cruzados que ajudaram a conquista de Lisboa.
As mesmas commoções politicas succederam na Europa meridional; o impeto revolucionario era contagioso, e o grito da liberdade popular repetia-se por todas as cidades da Italia, servindo aquellas que primeiro alcançavam a independencia, de typo para a exigencia de futuras garantias. Por toda a parte o alto clero se oppoz á revolução communal, em que se creavam as condições do terceiro estado. As Chartes e Coutumes serviam de typo para as povoações que procuravam organisar-se; em Hespanha as Cartas pueblas e os Fueros, em Portugal as Cartas de Foral, foram consequencia d’esta corrente a que depois da reconquista obedeceu a liberalidade régia. Os Foraes de Salamanca, Avila e Zamora foram o typo geral que os povos reclamavam como segurança das suas garantias, subsistindo em Portugal os typos de Salamanca, Santarem e Evora.
As lendas da credulidade religiosa foram por todo o Occidente as mesmas, com egual intensidade e fervor: na Italia, França, Hespanha e em Portugal campêam as Cathedraes goticas, bellas como noivas préstes a receberem a visita do amado. Sente-se o mesmo sarcasmo nos contos decameronicos e nos fabliaux, que pintam a vida domestica burgueza e a defendem; espalha-se o mesmo terror nas lendas da Dansa da Morte, da Descida aos Infernos, do Judeu errante, dos semeadores das pestes, da condemnação do livre exame, equiparado ao pacto demoniaco como no Milagre de Teophilo, e ainda no panico do fim do mundo fixado para o anno mil.
A consanguinidade dos povos latinos é evidente; pelo processo da fixação do poder monarchico, egoismo das familias dynasticas e abuso da dictadura, foi-se estabelecendo a separação d’estes povos com as mais insuperaveis fronteiras de bastardia politica. Esta antinomia, como observa João Müller, explica dez seculos de guerras na Europa. Foram as Litteraturas modernas, no seu periodo medieval que conservaram o instincto d’esta confraternidade apagada; serão ellas os principaes orgãos, na sua futura idealisação universalista, que hão de tornar consciente este espirito de occidentalidade.
§ 2.—A Tradição e os Costumes
De todas as raças que se encontraram na Peninsula hispanica, assim como ficaram vestigios dos seus caracteres anthropologicos, que se imprimem persistentemente na população actual, tambem se conservaram disposições ethnicas, que se transmittem na prática dos costumes e no automatismo das Tradições. Esta physionomia organica e moral do passado revela-se ás primeiras observações, e muitas vezes a intelligencia dos dizeres dos antigos geographos quando descrevem os povos peninsulares, comprehende-se melhor fazendo a comparação com os habitos do presente.[38]
Conforme as raças que occuparam a Hispania se foram mestiçando, accumularam-se tambem as Tradições poeticas, coexistindo por modo que ainda hoje se póde determinar o que provém de uma origem iberica, celtica, phenicia, romana, germanica ou arabe. O syncretismo d’estes elementos resultava da obliteração dos caracteres nacionaes; por que o facto da unificação politica da Peninsula foi sempre um esforço artificial, voluntario, mas impotente, sem que, sob o imperio romano, germanico ou kalifado arabe se conseguisse fundar a synthese organica de todos estes povos em um substractum de nação. Existem tradições ibericas, que não exprimem um sentimento nacional; como existem tradições celticas que não attingiram tambem esta alta expressão social. Se as tradições germanicas ou arabes chegaram a revelar essa consciencia superior de uma raça, perderam o sentimento nacional n’este syncretismo determinado pela successão de tantos povos já de caracter mongoloide ou allophylo, já de caracter semita e árico.
As nacionalidades peninsulares, como a portugueza, por exemplo, são posteriores a este grande residuo de tradições ethnicas: e a sua constituição é devida a um impulso individual, ao heroismo e ambição de um chefe; mas este esforço seria esteril se não aproveitasse as condições immanentes, que existiam nas populações que se confederavam espontaneamente nas suas Behetrias. Diante d’isto facil foi o equivoco de um historiador qualquer de attribuir a formação da nacionalidade portugueza á vontade de homens que se impuzeram á multidão inconsciente. Se D. Affonso Henriques e os reis que lhe succederam até D. Affonso III, não dessem cohesão ás cidades livres do Condado portucalense, jurando elles proprios as suas garantias em Cartas de Foral, não teriam conseguido apoiar o seu poder real sobre populações autonomistas, que assim se submetteram a uma unificação nacional. Em uma carta de Alexandre Herculano vimos uma allusão a essa theoria historica de nação-consciencia, que elle refuta com simplicidade dizendo, que no seculo XII já os Portuguezes chamavam com desdem aos hespanhoes estrangeiros. E Fernão de Oliveira, tambem notava, sem o saber explicar, como é que os Portuguezes acceitaram a fórmula castelhana El-Rei para designarem uma instituição politica que não tinham, por que viviam por si, nas suas cidades confederadas. Quando esta união se conheceu pela primeira vez proficua nas batalhas do Salado e de Aljubarrota, e nas expedições maritimas do Atlantico, foi então que a collectividade portugueza pulsou com o sentimento de Patria; é n’este activo periodo, que abrange os fins do seculo XIV e todo o seculo XV, que as tradições peninsulares, persistentes e sobreviventes de um longo passado, se adaptam á expressão do sentimento nacional. Assim, vetustas tradições do cyclo da Odyssea mediterranea, como a dos errores de Ulysses e do regresso do heroe, tomam o aspecto nacional das navegações portuguezas nos romances da Náo Catherineta e da Bella Infanta. O povo canta o seu heroe nacional na idealisação do Condestavel Nun’Alvares, e lamenta como em um novo Iálemos a morte do princepe Dom Affonso. As vagas tradições phenicias das Ilhas encantadas servem-lhe para estimular a audacia nas expedições maritimas pelo Mar Tenebroso; e as lendas celticas da ilha dos heroes, da phantastica Avalon, servem para guardar a esperança do vingador da nacionalidade extincta, o desejado e popular Dom Sebastião. Aqui vêmos como se faz a apropriação ao organismo nacional e historico d’esse residuo de tradições de todas as proveniencias ethnicas persistentes na peninsula hispanica. E n’este ponto de vista está implicita uma certa similaridade de fórmas lyricas, épicas e dramaticas em todos os povos do occidente da Europa em que entraram os mesmos elementos da raça, facto já anteriormente notado por alguns philologos e ethnologistas em quanto a Portugal, Hespanha, França, Italia e Grecia moderna. É pois esta a primeira base para o estudo comparativo das Tradições, resultando das suas similaridades nas fórmas lyricas, épicas, novellescas e dramaticas a reconstrucção de uma manifesta occidentalidade.
Depois d’esta coordenação fundamental, em que os povos meridionaes não se plagiam mas são simplesmente conservadores inconscientes, apparecem os rudimentos em que pela aggremiação territorial se iam estabelecendo os esboços de nacionalidades. As Tradições e cantos populares do Minho (norte de Portugal) completam-se pelo estudo simultaneo e comparativo das Tradições da Região Asturo-Galecio-Portugueza, substractum de uma nacionalidade que se definia na orla maritima de oéste, que chegou a abranger a Beira. Ao sul de Portugal esboça-se um outro rudimento social apagado na historia, mas persistente nas Tradições da Região Extremenha-Betico-Algarvia. No percurso historico da nacionalidade portugueza, a expansão colonial começa quando a Tradição se tornava a expressão do sentimento de Patria; os cantos tradicionaes fixaram-se n’esses varios centros de persistencia ethnica, os Archipelagos da Madeira e dos Açores, e modificaram-se segundo os elementos da população nos outros fócos coloniaes da Africa, Brazil e India.
Quando um povo entra na vida historica, assimilando os progressos realisados na humanidade e contribuindo para a civilisação com a energia ou tendencias novas que distinguem a sua raça, a este impulso dynamico corresponde a manifestação d’essa outra força statica, a Tradição, que no meio de todas as transformações hade ser o vinculo moral e affectivo da nacionalidade. A Tradição torna-se muitas vezes um estimulo de actividade, como se vê na Grecia quando reagiu contra a Persia; e então, como primeira revelação da unidade d’esse povo, o amor das tradições provoca elaborações individuaes conscientes, que pelo seu intuito esthetico constituem o phenomeno sociologico da Litteratura. Só merece o nome de Litteratura, tomada sob este aspecto, a série das creações sentimentaes e intellectuaes por onde o gráo de consciencia que esse povo tem do seu individualismo nacional chegar a ser expresso. Todos os povos que tiverem caracteres de raça bem accentuados, que a par de uma marcha historica importante não tiverem obliterado as suas relações com um passado tradicional, que ao facto da nacionalidade ligaram um ideal de liberdade na esphera civil, politica e philosophica, esses povos devem possuir uma Litteratura original e fecunda, servindo ao mesmo tempo para patentear o seu nivel moral e para annunciar a aspiração que ás vezes leva seculos a ser effectuada. Sob um tal aspecto não existem Litteraturas mais ou menos perfeitas, por que productos reflexos do meio social, o seu estado é um documento immediato; se se moldam por typos de convenção, a que as academias chamam classicos, se a obra do escriptor consiste em uma paciente imitação e é produzida sem intuito de communicação com o povo, a sua esterilidade está revelando que a nacionalidade se conserva em uma aggregação sem destino, e que causas intimas a atacam nas suas condições organicas. Estas são as bases positivas da critica de qualquer litteratura; procurar se as obras se conformam com os preceitos rhetoricos, ou se se aproximam do typo abstracto do Bello pelo confronto com as realisações artisticas da Grecia, estes dous processos são os que ainda seguem os obcecados habitos escholares do humanismo jesuitico, e os que levados por miragens metaphysicas dão a phrases sem sentido o nome de syntheses.
A Litteratura é objecto de uma sciencia concreta, que se presta á deducção de leis geraes da Sociologia; estabelecer a relação entre as concepções individuaes ou dynamicas, e os elementos staticos da Raça e da Tradição é o processo por meio do qual se chega á determinação do caracter nacional de uma litteratura. O criterio da filiação pertence rigorosamente á historia; por isso a Historia da Litteratura assenta sobre esta phylogenia da Raça e da Tradição como modificadores de todas as concepções individuaes. Só por uma tal connexão é que essas obras podem ser bem sentidas e bem comprehendidas. A Historia da Litteratura é este processo em que se procura descobrir pela realisação que nos apresenta, a vitalidade da raça, a consciencia da nacionalidade, e até que ponto estas duas forças naturaes estiveram em harmonia ou antinomia com a civilisação.
O estudo comparativo das Litteraturas levou a determinar um certo numero de fórmas, por assim dizer universaes, que são a Epopêa, o Lyrismo e o Drama; a sua universalidade deriva de estados psychologicos communs, bem como a successão do seu desenvolvimento resulta das transformações do meio social, onde muitas vezes se conservam os elementos tradicionaes que serviram de thema ás obras e concepções sentimentaes das individualidades superiores. Remontar pela critica das obras primas do genio a esses elementos inconscientes da Tradição, relacional-as com as exigencias moraes da sociedade cujas aspirações exprimem, eis o processo da historia completo nos seus fins de disciplina critica e de synthese.
Estas fórmas litterarias têm uma origem commum humana, n’esse poder mental de personificar em mythos e de communicar a emoção pelo equivalente da imagem, ou intuição das analogias. Ao trabalho da personificação, que se acha plenamente desenvolvido nos Mythos religiosos, segue-se uma degenerescencia provocada pela especulação abstracta dos dogmas, e em grande parte é d’essa degeneração popular dos mythos que se formaram as Epopêas antigas ou anonymas. As analogias das imagens serviram para fixar o modo de expressão do sentimento em um periodo em que o impressionado não podia ainda julgar a sensação emotiva; assim o Lyrismo foi tambem descriptivo, e simultaneo com a Epopêa, tendo egualmente uma base de transmissão tradicional; taes foram os typos hymnicos e dithyrambicos, e na Europa Occidental as Pastorellas e Balladas.
O apparecimento do Drama é tradicionalmente bem caracterisado; nascido tambem de actos ritualisticos, desenvolve-se com as condições que emancipam as classes medias ou burguezas, quando ha egualdade civil, interesses geraes, collisões de deveres, conflictos de ambições, quando existe um consensus moral por onde se afferem os actos das personalidades. Nenhuma fórma da arte ou da Litteratura se cria por méra curiosidade; corresponde sempre a um estado psychologico, á necessidade de uma expressão e communicação de sentimento.
Seguiremos esta divisão natural de todas as Litteraturas, derivando cada uma d’estas fórmas dos seus germens tradicionaes, determinando assim o que ha de organico em manifestações tão complexas que se julgou terem sido creadas arbitrariamente.
a) DAS FÓRMAS LYRICAS
A relação entre a Epopêa e um fundo tradicional foi muito cedo achada pelos philologos e é uma base positiva da critica; porém não era procurada essa relação com o Lyrismo por se attribuir o seu desenvolvimento ao ideal do sentimento resultante do maior progresso social, e da elaboração subjectiva de um estado do passividade consciente que se discute. Antes do sentimento pessoal existiu o sentimento da collectividade, expresso em fórmas consagradas nas festas do trabalho, como labutação da lavoura, dos rebanhos e do mar, e nos factos da vida domestica, como nascimentos, casamentos e enterros, ou mesmo na vida publica. O sentimento pessoal servia-se d’essas fórmas tradicionaes, adaptando-as á expressão consciente e voluntaria de uma situação particular; é assim que se destaca do fundo tradicional a obra litteraria, a qual para ser bem comprehendida precisa ser aproximada da sua origem. Os cantos hymnicos, que apparecem nas religiões primitivas, embora se immobilisassem na fórma do dithyrambo, ou a successão de imagens representando sempre a mesma ideia, conservam o typo tradicional do Lyrismo: essa ideia unica repete-se como apoio rythmico, é o estribilho, refrem ou retornello, correspondendo a esta cadencia estrophica o parallelismo. Assim despontou o lyrismo egypcio, e se vê seguir o mesmo desenvolvimento nas canções accádicas e chinezas, e o que hoje traz embaraçados os criticos, ainda se observa nas Pastorellas do occidente da Europa.
Para comprehender a poesia lyrica portugueza é necessario determinar-lhe scientificamente as suas bases tradicionaes; ellas nos explicarão a sua originalidade e vigor, e estabelecerão as relações com as correntes litterarias da Europa, caracterisando assim pela connexão historica as épocas e influencias cultas que actuaram sobre a sua manifestação. Já pessoal e psychologicamente descriptiva, a fórma lyrica reflecte o estado intellectual do que canta; o poeta é conhecido, causam interesse os pequenos successos da sua vida, as aventuras, os triumphos, os desalentos pessoaes. Isto influe sobre as fórmas em que se quer mostrar perito, sabedor de todos os segredos da arte (gai saber); a construcção da estrophe torna-se a preoccupação exclusiva; inventa o metro caprichoso, acha as rimas novas, cruza-as, encadeia-as; taes foram os Trovadores, que pela relação com os jograes, nunca se esqueceram completamente dos elementos vitaes da tradição originaria, que depois imitaram artisticamente.
Outras vezes o poeta faz da fórma lyrica o meio de analyse da sua paixão, torna o sentimento uma casuistica, desenvolve a imagem até á allegoria, convertendo o seu estado emocional em uma synthese philosophica; taes foram os Petrarchistas, que não podem ser bem avaliados quando separados dos Trovadores. A imitação material em que o lyrismo foi applicado a descrever todos os accidentes insignificantes de uma vida mediocre, motivou esses productos morbidos das Academias litterarias (Culteranismo, Arcadismo) contra os quaes reagiu a renovação do Romantismo, que começou pela revivescencia das tradições medievaes, e depois da vaga melancholia chegou á expressão synthetica de uma emoção consciente e universal.
Na poesia trobadoresca, o lyrismo provençal conservou as suas origens tradicionaes em um elemento popular commum tanto ás pastorellas italianas, como ás balladas francezas, como ás serranilhas gallegas, portuguezas, valencianas e castelhanas, que chegaram a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos e litterarios. Este facto encerra um grande problema, que tem preoccupado os mais atilados criticos: que não é na Provença que se hade determinar o ponto de irradiação do Lyrismo das litteraturas modernas, mas em um facto de persistencia ethnica, que se poderá definir pela observação da área que facilitou a sua propagação do sul da França á Italia meridional e ao norte da Hespanha. Analysando algumas canções portuguezas extrahidas por Ernesto Monaci do grande Cancioneiro da Vaticana, o romanista Paul Meyer, observando as analogias com antigas balladas provençaes, concluiu que ellas não provieram de uma imitação directa, mas: «foram concebidas segundo um typo tradicional, que devera ter sido commum a diversas populações romanicas, sem que se possa determinar em qual d’ellas fôra creado.»[39]
Aqui temos proposto o problema com toda a nitidez, e a que julgamos ter dado uma solução definitiva, sobretudo auxiliado pelo criterio ethnico. Para isso descemos das fórmas conhecidas pela via litteraria até ás suas relações com os costumes populares, e d’estes até ao centro ethnico da irradiação.
O lyrismo trobadoresco manifestou-se pela fórma escripta ou provençal na zona gallo-romana; no sul da França o elemento gaulez não soffreu uma transformação organica, como no norte em prezença do vigoroso elemento franko. O romano preoccupado com a ideia da unificação administrativa dominava mas não absorvia, impunha fórmas governativas mas não assimilava as populações; a sua organisação municipal, pelas autonomias locaes, não atacava a essencia da nacionalidade gauleza, ainda que a forçava a uma certa unidade civil. Segundo Diodoro Siculo, os romanos davam o nome de gaulez a todos os povos que entraram na França meridional; já Polybio separava os Celtas dos Gaulezes, antes das confirmações decisivas da Anthropologia.
No sul da França conservaram-se tradições, cuja existencia se determina pelas prohibições canonicas dos bispos, desde o seculo V; taes eram os cantos acompanhados de dansa, a que deram o nome erudito de Balismalia ou Vallemachia (a bailata ou balada) com o caracter satyrico, que reappareceu nas sirventes; taes eram os desafios poeticos com processos de casuistica sentimental, como os Puy, que se desenvolvem nas Côrtes de Amor; taes eram os cantares de Alvoradas e Serenadas, de que os trovadores fizeram generos litterarios; e ainda a caracteristica da composição poetica especialmente pelas mulheres. Esses cantos eram oraes; não tinham importancia no gosto dos latinistas para merecerem ser escriptos; e mesmo esses costumes, de que formavam parte, eram condemnados pela Egreja, e eram risiveis ante o viver dos castellos senhoriaes.
Identica persistencia das fórmas poeticas se encontra em Italia, com a mesma similaridade tradicional, como observou Costantino Nigra. E assim como o sul da França se distingue da França do norte ou feudal pelo exclusivismo das fórmas lyricas, tambem na Italia, segundo Gregorovius, faltam as tradições épicas; conservam-se ali os Voceros, os Triboli, ou Lamenti, analogos ás Endechas dos mortos na peninsula hispanica, e aos Aurusta do Béarn, e Arrirajo das Vascongadas. Os costumes estão indicando um elemento ethnico commum. Na sua entrada na Europa os Celtas encontraram uma raça de cabellos pretos, com que mais ou menos se fusionaram, conservada por longo tempo intacta na Aquitania, em uma região comprehendida entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha; já nos referimos á observação de Paulo Broca: «Tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos que se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.» É n’este triangulo situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos, que essa raça, que se estendeu pela Italia e pela Hespanha, se confinou, como observa Jorge Philipps, resistindo á invasão celtica.
O problema proposto por Paul Meyer, quanto á communhão lyrica das diversas populações romanicas, não póde ser explicado como propoz Nigra, pela raça celtica, e muito menos pelo elemento franko, como entendem Jeanroy e Gaston Páris. A realidade está na persistencia d’esse elemento iberico na Aquitania, á qual pertenceu tambem a Galliza; a propagação do lyrismo para a Italia e Sicilia torna-se tambem um facto natural de revivescencia. O sul da França teve condições historicas para esta iniciativa: «Onde quer que a conquista sobrepoz uma raça a outra, acontece que o vencido por fim retoma os seus direitos. É o genio da raça primitiva que retoma pouco a pouco a dianteira. A Gallia soffreu o duplo dominio do Romano e do Franko; ella recebeu a substancia das duas raças: mas o velho fundo gaulez prevaleceu em ultimo logar, e a França não chegou ao supremo gráo da sua energia nacional se não no dia em que o Gaulez absorveu o Romano e o Sicambro.»[40] Esse lyrismo corresponde a uma certa estabilidade na vida pastoral e agricola, que nem o Ligurio ou Celta maritimo conhecia, nem o Celta nomada podia acceitar. Com o seu profundo senso artistico, Montaigne conheceu o valor esthetico das canções populares da Gasconha, a que chamou Villanelles[41]; a que os italianos chamam Villoti, e que Miguel Leitão de Andrada, no fim do seculo XVI chamava Villanellas para designar as fórmas do lyrismo popular portuguez.
Esta persistencia do lyrismo tradicional no sul da França impuzera-se aos trovadores, como vemos em Ramon Vidal, dizendo nas Les rasos de trobar: «la parladura franceza est plus avinenz a far romans et pasturettas, mas cella de Lemosin val mais per far vers e cansons e sirventes.» O trovador indicava aqui um genero popular em contraposição com as fórmas artisticas que outros trovadores iam destacando e individualisando; por que os primeiros trovadores revelaram-se adstrictos ás fórmas populares, como vêmos em Cercamons, «joglars de Gascoigna, e trobet vers e pastoretas a la usanza antiga.» O discipulo d’este trovador, Marcabrun, em duas pastorellas que compoz, já elabora o typo tradicional com um intuito de satyra moral e social. O typo tradicional, abandonado ao povo, não foi totalmente esquecido pelos trovadores subjectivistas, por que ainda foi seguido por Cadenet e Gui de Usiel, que fazem a transição de Marcabrun para Giraud de Riquier.
A ausencia do criterio ethnico é que fez com que Wackernagel e Brakelmann attribuissem a origem tradicional da pastorella ao norte da França, quando ella pertence a este fundo da população occidental que occupou a França, a Italia e a Hespanha antes da invasão celtica. Esta mesma insufficiencia fez com que Jeanroy considerasse ironicamente as investigações sobre este campo como litteratura pre-historica! Como se a tradição pertencesse ás épocas historicas.
As investigações sobre as origens cio lyrismo tradicional feitas na Italia por d’Ancona, levam a precisar este fundo anthropologico occidental. Observando as fórmas do Contrasto de Cielo d’Alcamo, poeta siciliano do seculo XIII, analogas aos themas e estructura francezas, d’Ancona quer que ellas derivem do antigo carmen amebeum, que se conservou na Sicilia; e conclue: «os antigos historiadores nos asseguram que esta fórma teve origem na Sicilia, que ella é devida primitivamente aos pastores sicilianos. Saíndo dos nossos valles e montanhas, ella se nobilitou, um pouco tarde talvez, nas mãos de Theocrito e de Virgilio; mas ella permaneceu na sua simplicidade nativa propriamente do povo da Sicilia, no qual se perpetuou com o dom da improvisação.» A ilha da Sicilia foi o ponto de juncção das raças brancas do norte da Africa com as da orla europêa mediterranea; a persistencia d’esse fundo lyrico impressionou Theocrito e Virgilio, como os themas da Gasconha ou da Aquitania impressionaram os Trovadores e os levaram á imitação. Reconhecendo as relações do Contrasto italiano com as fórmas francezas, escreve Jeanroy: «mas nós nos guardamos de sustentar que este genero fosse exclusivamente francez, da mesma maneira que não podemos conceder a M. d’Ancona que elle fosse propriamente siciliano; deve ser effectivamente uma propriedade commum de todo o territorio romanico.»[42] «Ainda mesmo que houvesse já Contrasti na Sicilia no tempo de Atheneu e de Diodoro, não nos auctorisava isto de modo algum a crêr que elles fossem originarios da Sicilia.—É essa uma fórma, que longe de ser exclusivamente siciliana, se acha na poesia popular de um grande numero de povos.»[43] E mostra como longe da Sicilia esta fórma lyrica tradicional é seguida pelas aldeãs de Ferrara nas Romanellas, em Portugal nos Desafios á desgarrada, e nos Dayemans da Lorena.
Mas estendendo mais o campo da observação, é um caracteristico commum a este lyrismo tradicional o ser a canção amorosa composta e cantada pela mulher. Nos cantos populares da Galliza a mulher conserva o costume que vêmos nas serranas e pastoras do Cancioneiro trobadoresco da Vaticana. Já o erudito Sarmiento, nas Memorias para la Historia de la Poesia española, escrevia: «he observado que en Galicia las mugeres no solo son poetisas, sino tambien músicas naturales.—En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mugeres con los hombres; y es por que ellas componen las coplas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los tonos ó ayres à que las han de cantar, sin tener idea de arte musico.»[44] É ainda este o costume do Minho;[45] o caracter da lyrica de elaboração feminina determina-lhe a sua mais alta antiguidade; escreve Jeanroy, apesar de ter receio da litteratura pre-historica: «W. Scherer, em uma muito instructiva noticia, citou um grande numero de factos que o provavam: desde o seculo X, a canção de mulher existia na Allemanha, como o mostra uma pequena peça latina d’essa época; as canções servias são ordinariamente collocadas na bocca de uma rapariga, e Talvj pensa que são realmente as raparigas que as compõem; peças analogas se acham na Islandia, na Russia, na China, nas Kabylas, e em muitas tribus selvagens. A attribuição das canções a uma mulher, é por consequencia uma feição commum á nossa antiga lyrica popular e a muitas outras.»[46] Por este exame de Scherer, encontramos sempre este caracter do lyrismo tradicional entre povos em que persiste o elemento mongoloide (como a Servia, a Russia, as Kabylas, a China, notando-se tambem que entre os Germanos se fusionou o Geta.) E continuando a citação: «Scherer faz notar, que o parallelismo mais ou menos rigorosamente seguido entre a descripção de algum objecto natural e a pintura da paixão se encontra em um grande numero de poesias populares, particularmente entre os Servios, os Allemães, os Malaios, os Chinezes. A poesia slava, sobretudo, abunda n’este genero em uma infinidade de especimens, dos quaes alguns têm impresso o cunho da mais alta, da mais bella poesia, etc.»[47] É por consequencia um processo logico o procurar estas origens do Lyrismo na raça branca, não árica nem semita, que precedeu ou occupou a Europa antes dos Celtas; o centro ethnico da Aquitania como ponto de irradiação do Lyrismo, levou-nos á investigação apparentemente aventurosa: as fórmas tradicionaes communs á Italia, Provença, Galliza, Catalunha e Portugal, (populações romanicas que não lhes deram origem), têm um typo perfeitamente egual ao das Canções accádicas, descobertas e traduzidas pelos modernos assyriologos, e são na sua estructura semelhantes ás canções chinezas do Chi King, traduzidas pela fórma homeometrica, homeostrophica e homeorythmica por Legge. D’aqui a inferencia sobre o estado moral e relações anteriores d’esse typo iberico conservado mais puro na Aquitania. O desenvolvimento da poesia provençal fôra attribuido á influencia dos Arabes no lyrismo do Occidente; mas a poesia lyrica dos povos semitas, como o provam os estudos assyriologicos, foi produzida pela imitação da poesia dos Accads. Reconhecida esta demonstração, comprehende-se como, apparecendo na poesia arabe a fórma da Pastorella, esse grande ramo semita viesse estimular a revivescencia de uma tradição, que se extinguia entre a transmissão oral das camadas populares. Como relacionar esse fundo occidental ou iberico com os povos accádicos? Esse é o problema a que conduzem todas as similaridades do Lyrismo tradicional; a elle respondeu Roisel no seu livro Les Atlantes, mostrando como a civilisação da Chaldêa foi iniciada por navegadores atlanticos da raça branca primitiva e autochtone da Europa.[48] Comprehende-se como os cantos arabes fossem communs entre o povo hespanhol e portuguez; nos versos do Arcipreste de Hita ainda vem enumerada a lista dos instrumentos musicos para os cantares arabicos, e em Gil Vicente ha uma referencia a uma canção arabe Calbi arabin. No Cancioneiro da Vaticana existe uma canção trobadoresca com o estrebilho Lelia vai Lelia, que dava nome a um genero lyrico tão popular e persistente nos costumes, que Philippe II prohibia que se cantassem as Leilas arabes. A designação com que no seculo XV se conhecia esta fórma tradicional da Pastorella era a de Serranilha, da palavra arabe serra. Na poesia moderna do povo da Galliza persiste este genero na fórma da Muiñeira; e em Portugal tornou a communicar-se aos escriptores como Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões, tomando a fórma litteraria das Modinhas brazileiras, especialmente nas Lyras de Gonzaga. Determinada, pois, esta base tradicional, temos a disciplina critica para conhecer o desenvolvimento do Lyrismo trobadoresco, e successivamonte da sua transformação italiana do dolce stil nuovo, e imitação geral nas Litteraturas romanicas da Renascença até ao Romantismo.
b) DAS FÓRMAS ÉPICAS
Nas composições poeticas tradicionaes distinguem-se o genero lyrico ou subjectivo, e o genero narrativo ou épico, essencialmente objectivo. Observando esta distincção nas Origens da Poesia lyrica em França, escreve Jeanroy: «Os differentes criticos estrangeiros que se têm occupado respectivamente da historia da sua poesia, MM. Bartoli, d’Ancona, Scherer, Richard M.-Meyer, Braga, entre outros, sustentam unanimemente a opinião que estas ultimas (as narrativas) constituem o fundo original da sua poesia. Sendo nos trez paizes esta parte identica ou muito analoga, elles não podem egualmente ter rasão. Nós tentaremos demonstrar que estão egualmente em erro, e que n’isso em que vêem uma emanação espontanea do genio nacional, importa vêr uma imitação de toda uma poesia franceza hoje perdida.»[49] Mas referindo-se aos themas tradicionaes d’esses cantos narrativos, Jeanroy presente um fundo ethnico que não é propriamente francez: «Nós demonstraremos bem que estes themas não são exclusivamente italianos, allemães, portuguezes; mas demonstraremos nós por isso que elles são exclusivamente francezes? Não; e seria uma pretenção evidentemente excessiva. Queremos só fixar um ponto, e vem a ser, que as peças estrangeiras consideradas como autochtones, devem, na sua fórma actual alguns dos seus traços á imitação franceza, que ellas não lhe escapam, como se tem dito. Mas, será certo que o assumpto mesmo tenha sido importado da França, que o thema nos pertença tão bem como a fórma que o revestiu? Não. É mesmo mais que provavel que, se a nossa poesia achou tanto enthuziasmo no estrangeiro, é por que ella ali encontrava assumptos analogos aos seus, e que o terreno estava como que preparado para receber a communidade de certas tradições poeticas. Bem longo de affirmar que estes themas são exclusivamente francezes, nós não ousamos sustentar que elles sejam exclusivamente romanicos.»[50] Não andavamos em erro quando localisámos as nossas investigações no fundo anthropologico persistente na Europa, de que o elemento iberico, eusk e gaulez na Italia, França e Hespanha, e o elemento getico e seythico na Allemanha, conduzem a uma unidade de tradição poetica.
É incalculavel a extensão e profundidade da tradição popular hispanica d’onde se tem colligido desde o seculo XIII até hoje esses pequenos cantos narrativos, verdadeiros rudimentos de uma Epopêa cyclica que não chegou á elaboração, como as Gestas germanicas. Esses cantos aproveitados por Affonso o Sabio como elemento historico para a Cronica general de España, explorados pelos impressores do seculo XV, estudados e colligidos com amor desde o principio d’este seculo, constituem o vasto campo do Romanceiro, que se deve considerar o elemento poetico mais rico das Litteraturas peninsulares. A tradição apparece por vezes commum a Portugal e Hespanha; outras vezes os paradigmas encontram-se em França, na Italia, e na Grecia moderna, o que revela uma fonte primordial. Nos Romances peninsulares ou meridionaes, encontram-se costumes de uma sociedade barbara, como na Sylvana e Rico-Franco, vive-se em estado de guerra, e a lei é a vontade irrefreiavel de um só.
D’onde provém essas tradições? Nada se encontra semelhante na civilisação romana; mesmo entre as colonias mais romanisadas, como a Italia, a poesia tradicional narrativa é pouco profunda.[51] Se os dialectos romanicos se desenvolveram pela acção dos Romanos, os costumes e as tradições são mais antigos, devem ser procurados em um sub-solo ethnico; os dialectos romanicos servindo de expressão e unificação d’esses elementos, contêm as indoles, como os proprios romanos lhes chamavam, mas cuja natureza não é romana.
Os recentes estudos accádicos e assyriologicos, e as conclusões da anthropologia e ethnogenia peninsulares, dão auctoridade ás palavras de Strabão, que consignava a existencia de poemas heroicos entre os Turdetanos, de mais de seis mil annos do antiguidade. As inscripções lapidares encerram tambem os nomes de muitos deuses ibericos; e as superstições comparadas com as do magismo accádico, espalham uma grande luz sobre a ethnologia iberica. A persistencia do typo iberico na Peninsula, quer pelas migrações do norte, como se vê pela Aquitania, quer pelo sul, como se comprova pelos Berberes, acha-se confirmada pelas differenças cephalicas representadas nos dois typos bascos francez e hespanhol. Por tanto o estudo da poesia tradicional narrativa da Peninsula deve fixar-se n’este fundo ethnico iberico, remontando essas camadas de civilisação até á constituição das suas nacionalidades. Como o estudo dos cantos lyricos feito comparativamente leva a achar nas Serranilhas gallezianas e Pastorellas francezas um typo commum ás populações romanicas, o estudo dos cantos épicos, ou Romanceiros, deve seguir egual methodo, que conduz aos mesmos resultados, como observaram Nigra, Wolf, Köhler e Liebrecht.
Do elemento iberico.—Os cantos heroicos peninsulares foram chamados Romances pelos eruditos, por considerarem os dialectos em que eram cantados como despreziveis em comparação com a lingua e cultura latina; ainda no seculo XVII romancista era o homem sem cultura litteraria ou scientifica. O povo, porém, chamou-lhes Aravia, e mais geralmente Estoria; a primeira designação é vulgar em algumas das ilhas dos Açores, e contém um sentido que nos leva ao intimo do problema: a Aravia significou um dialecto vulgar das classes que estavam em contacto com os Arabes ou propriamente com Berberes; esta classe sendo constituida com as populações hispanicas preexistentes á invasão arabe, facilmente assimilou a si o elemento mauresco determinando a revivescencia do typo iberico. Para os eruditos do seculo XV e XVI, a Aravia é a linguagem corrupta com que christãos e arabes se entendiam, é uma especie de giria não escripta, e a propria designação de um canto do povo. Mem Moniz, que esteve no seculo XII no cêrco de Santarem: «sabia fallar mui bem a aravia.» E Gil Vicente, nos seus Autos: «Que linguagem é essa tal?—Ui! e elle falla aravia.» Quando no fim do seculo XVI o P.e Fernão Guerreiro, na phrase «entoar uma aravia» a empregou no sentido de canto, já era usada pelo povo nas colonias portuguezas dos Açores, e nas colonias hespanholas do Perú, depois que a cultura latina atacou a originalidade nacional. Na propaganda catholica, os missionarios hespanhoes introduziram na toada dos cantos peruanos os romances castelhanos ao divino. Prescott, na Historia da Conquista do Perú, fallando dos troveiros peruanos chamados Haraveques, como os que registavam os annaes d’essa extraordinaria civilisação, diz: «D’esta maneira formou-se um corpo de poesias tradicionaes semelhantes ás balladas inglezas e hespanholas, pelas quaes o nome de um chefe barbaro, que teria desapparecido á falta de historiador, chegou á posteridade por causa de uma melodia rustica.»[52]
Esta relação notada por Prescott entre os Yaravis peruanos e as balladas inglezas e hespanholas é tanto mais importante, quanto pelos estudos ibericos se sabe da correlação entre a Peninsula e as ilhas Cassiterides ou Inglaterra. Do mesmo fóco atlantico que iniciou a civilisacão dos Accads na Chaldêa, partiu o impulso das civilisações rudimentares da America. Continúa Prescott, fundado na auctoridade de Garcilasso no Commentario real: «A palavra haraveque significa inventor, auctor, e no seu titulo e nas suas funcções este poeta menestrel póde-nos lembrar o trouvère normando.» A funcção do menestrel saxonico que cantava á meza dos princepes, dos feitos e batalhas reaes: «era em parte exercida pelos Haraveques, que escolhiam os incidentes os mais brilhantes para assumpto das suas canções e balladas, que se cantavam nas festas reaes á mesa dos Incas.» Dos cantos populares do Perú, escreve o moderno viajante Paul Marcroy: «Estas composições chamadas Yaravis ... foram a principio cantos de victoria, odes, dithyrambos destinados a celebrar o triumpho das armas dos Incas, suas qualidades particulares e seu poderio. Com o andar do tempo tomaram fórmas mais variadas, e cantaram o amor, a natureza e as flores.» E em nota accrescenta, definindo a palavra Yaravi: «Litteralmente, cantos tristes. Os Yaravis são hoje simples romances, cuja musica é sempre escripta em tom menor e com um movimento lento. Cantam-se com acompanhamento de guitarra.»[53] Tanto o Yaravi, como a Aravia açoriana, ou o romance peninsular ainda hoje são acompanhados á quitara arabe, ou á guitarra actual, e entre os Arabes, os Ravi eram os narradores. Dá-se aqui o mesmo influxo de revivescencia tradicional no Occidente ao contacto da civilisação arabe, como se notou nos cantos lyricos por essa influencia da poesia accádica no lyrismo semita. A parte communicativa da raça arabe na invasão da Peninsula eram os mouros, cruzamento do Arabe com o Berber, coadjuvando assim a regressão mais pronunciada ao typo iberico. A origem dos cantos epicos occidentaes tem sido já procurada n’este sub-sólo social de uma raça não árica; Liebrecht encontra paradigmas do romance Donzella que vae á guerra nos cantos chinezes, e Lange acha nos poemas homericos inclusas tradições mongolicas. Strabão referindo-se ás tradições de Troya no occidente da Europa, allude a cantos narrativos na Italia e na Hespanha, que em vez de se diffundirem dos poemas homericos foram unificados n’elles: «Não só na Italia se conservam passagens d’essas historias, senão tambem na Iberia, existem mil vestigios de taes expedições, assim como da guerra de Troya.»[54] As tradições argonauticas que se crearam nas primitivas expedições atlanticas, é que foram depois incorporar-se nos poemas odyssaicos, circumscrevendo-se ás expedições mediterraneas ou jonicas.[55]
No velho romanceiro peninsular ainda se encontram fórmas que revelam o primitivo modo de recitação coral, em que a rima masculina e feminina, grave e aguda, se alternam em um canto amebeo. Na tradição asturiana dá-se a este genero o nome de cantos de estavillar (do typo Ay! un galan d’esta villa.) É ainda vulgar na Finlandia esta fórma de recitação das runas, como observa Léozon le Duc. A rima do canto No figueiral figueiredo é um vestigio precioso d’esta perdida estructura poetica, que tanto nos aproxima da origem das tradições épicas peninsulares.[56]
Do elemento germanico.—Nas invasões germanicas na Peninsula, foram os Visigodos os que preponderaram, submettendo os outros ramos á unidade nacional. Da grande familia germanica foi o Godo o que deixou menos vestigios de tradições poeticas, apesar das immensas riquezas lendares de que se serviram Jornandes, Paulo Diacono e Saxo Grammatico nas suas historias. A causa d’esta obliteração, segundo Jacob Grimm, foi por ter o godo adoptado o arianismo, soffrendo depois os renhidos combates ou repressões do catholicismo; comprova-se isto com o Borguinhão, que tambem era sectario do arianismo, e cujas tradições épicas se perderam. Ao godo da banda guerreira, que veiu a formar a aristocracia feudal, fascinado pela civilisação romana, facil lhe foi despojar-se das suas crenças e tradições; a banda agricola e pastoral, que pela decadencia dos homens livres veiu a constituir a classe dos lite (lendes, lazzi) e dos Vassu, com a fusão com o colonato romano e assimilação do elemento mauresco, formou esse rudimento de povo, que avançou para o estabelecimento da liberdade civil e foi conhecido pelo nome de Mosarabe. Entre esta grande classe que sacudiu a servidão, é que se conservou pela sua situação atrazada aquillo que mais se apodéra da alma humana, os Symbolos, as Superstições, os Costumes, emfim, a tradição poetica até aos seus mais inconscientes vestigios.
Em nenhum povo da Europa, como notou Reyscher, apparece a conservação dos Symbolos como na familia germanica; comprovámol-o no symbolismo juridico do direito consuetudinario das Cartas de Foral exigidas ou concedidas ás povoações mosarabes. Estudada esta efflorescencia dos Symbolos juridicos,[57] por elles fomos levados a comprehender a importancia tradicional dos Romanceiros.
Raro será o romance popular portuguez que não contenha um symbolo germanico francamente expresso, mesmo com a ingenuidade de quem já o não comprehende. Enumeremos alguns dos mais profundos: no romance de Gerinaldo, o rei deixa o punhal collocado entre sua filha e o pagem que dorme com ella, como o signal de que ha entre elles a distancia inaccessivel de classe; depois de perdoar ao pagem e de o casar com sua filha dá-lhe a egualdade pela cerimonia de sental-o comsigo á meza. No romance insulano Flores e Ventos apparece a penalidade germanica do banido completamente desenhada, negando-se-lhe tecto, lar e agua, tal como nos Foraes portuguezes; isto mesmo se encontra no romance castelhano de Lanzarote del Lago, em que os criminosos chegam a transformar-se em cães e veados, especies de Wargus. No romance portuguez de Clarinda ha a pena de fogo para o adulterio da mulher, como no Codigo visigotico. No romance da Infantina ha a condição do servo germanico notada com o nome de malato, como se encontra nos documentos juridicos. O symbolo do cabello atado, como signal de mulher casada, e em cabello (mancipia in capillo, da fórmula foraleira) conserva-se nos anexins: «Moça em cabello não m’a louves companheiro.»
Passemos ás superstições: o culto do carvalho sagrado Ygdrasill, debaixo do qual se celebrava a assembléa juridica dos homens livres germanicos, é a carvalheira á porta da egreja, debaixo da qual julgavam os homens-bons dos Foraes; é esse mesmo roble em que está a donzella encantada, a Infantina dos romances hespanhoes o portuguezes, tendo além d’isso a particularidade do tanque de agua fria, que é a fonte de Urda. Esta mesma tradição encontra-se em muitas terras de Portugal, que tem carvalhos consagrados ao pé de poços de aguas santas. O symbolo não comprehendido torna-se superstição, como o Wargus, o banido que era equiparado ao lobo nocturno, e que ficou para o nosso povo o lobishomem.[58]
Nos costumes populares portuguezes temos a Cavalgada furiosa na fórma da Corrida do porco preto, em Braga; e Wodam, no Homem das ervas, das festas de maio. Ainda que as festas populares de S. João, Maias e Natal, vestigios polytheistas do Combate do Verão e do Inverno, sejam anteriores ás tradições germanicas, comtudo a sua persistencia entre o povo mostra-nos que o rigorismo catholico e a cultura romana pouco actuaram n’este ponto entre os Mosarabes.
A palavra Rima, significando a composição poetica em geral, é empregada n’este sentido pelo Chanceller Ayala, que em versos de lingua vulgar diz: «mi tiempo passar, En fazer rimos...» Tambem no seculo XV chamava D. Duarte Rymanço á fórma que melhor se decorava por causa da rima. Parece que o termo de romance, referindo-se á linguagem vulgar se identificou com o rimance, que segundo a origem germanica designava a tradição poetica. Nas fórmas poeticas conservou-se tambem a aliteração, que com a rima constituem a poetica dos povos do norte. Nos anexins populares é frequente a aliteração, como: Gota a gota, o mar se esgota.—Vento e ventura, pouco dura, etc.
Dos themas poeticos germanicos parece-nos pertencer ao typo scandinavo de Sigurd, o romance: Eu bem quizera senhora, etc. A vida historica da raça germanica começou no seculo V; n’este periodo ella cria uma fórma poetica, breve, narrativa, cantando os feitos bellicos e a independencia individual, adaptando-se aos successos novos, correndo de bocca em bocca, sempre anonyma, com interesse immediato, dando vida a todos os dialectos e animando as tribus á invasão. Tacito falla d’esta ordem de poemas, a que os medievistas, fundados em um texto de Oderico Vital deram o nome de Cantilenas. D’este typo rudimentar, que pela aggregação cyclica formou as Epopêas feudaes ou Gestas, além de outros especimens, existe desde 1812 em que se descobriu, a magnifica cantilena de Hildebrand e Hadebrand. Não temos hoje as cantilenas goticas da Peninsula, posto que sua efflorescencia poetica appareça em symbolos e superstições populares. Á designação de Chacone, tanto em Portugal e Hespanha, como em Italia e França, por onde se estendeu a occupação germanica, corresponde esse costume primitivo da raça, em que os cegos, principalmente entre os Lombardos, eram os que diziam as Cantilenas heroicas, como Ludgero e Bernlef o frisio; chamaram-se por isso Chiecone. Nas raças germanicas entraram populações scythicas, como colonos e servos, e era costume entre os scythas cegar os escravos (Herodot., IV, 2); cegar era synonimo de escravisar, e filho de cego significava propriamente escravo. Eram esses os cantores narrativos, dos quaes escreve Ozanam: «No seculo XVIII via-se ainda nas aldeias pagãs da Frise, cegos e mendigos ganharem o seu pão recitando nos ajuntamentos de aldeãos—as aventuras do tempo antigo, e os combates dos velhos reis.»[59] Isto explica a persistencia do genero da Chiecone, pelo sentido do poeta identificado no de cego, como em Cieco d’Ascoli, Cieco de Ferrara. Homens cultos e aristocraticos, como o Marquez de Santillana, no seculo XV, tinham por infimos e despreziveis os que tratavam romances vulgares. O nome de Chacoula é ainda designativo de canto popular no Alemtejo.
As Cantilenas germanicas, antes do seculo IX, decaíam por falta de importancia historica; estava terminado o periodo das invasões. O que se dava no ramo mais vigoroso da familia germanica, com mais intensidade deveria dar-se entre os Godos, por causa da reacção do catholicismo fortalecido com a cultura romana. As Cantilenas germanicas, logo que appareceu o vulto de Carlos Magno receberam um novo interesse, uma actualidade devida á transformação social, ou fixidez em que entravam os estados da Europa; emquanto esta acção não chegou a Portugal, a Cantilena gotica não se perdeu completamente. Nem do outro modo se explica a existencia dos cantares historicos de que se serviu Affonso o Sabio na sua Chronica. Alguns d’esses typos se recompõem nos versos da Cronica rimada do Cid; no Cancioneiro da Vaticana acha-se um romance: Desfiar enviarom, assignado por João Ayras, que nos aproxima do typo da Cantilena. O romance de Don Favila, colligido da tradição popular na Republica Argentina, é uma prova d’esta elaboração poetica anterior aos cantares da Gesta.[60] O romance do Figueiral figueiredo, que Miguel Leitão ouvira a uma velha de muita edade no ultimo quartel do seculo XVI, pelo seu conteúdo, é um vestigio da Cantilena, que se ia apagando, da mesma fórma que os romances se modernisaram no seculo XVI.
Depois que a poesia dos jograes e trouvères se espalhou pelo Occidente, o que por colonias francezas, casamentos de princepes e romarias provocadas pelas santificações locaes, se tornaram as communicações affectivas mais directas entre os diversos povos, as Cantilenas, que haviam recebido pelo genio gallo-franko uma transformação profunda, formando as grandes Canções de Gesta, vieram já em uma época historica fecundar as Aravias, que conservaram sempre a fórma breve e anonyma, que se continua no Romance popular. Na antiga poesia hespanhola falla-se na Maestria de França; em Portugal achamos empregado o titulo de Gesta em uma composição satyrica em verso alexandrino por D. Affonso Lopes de Baião, imitando a neuma tradicional dos recitadores. A palavra Francias designou os contos facetos dos Fabliaux, em parte derivados de cantos poeticos, como vêmos ainda na poesia popular da Madeira, no romance do Boi Rabil, que é um conto na Gesta Romanorum.
Transformação erudita do Romance popular.—Cansados de esgotar os innumeros artificios do lyrismo trobadoresco, que em Portugal se manteve por todo o seculo XV, os cavalleiros, condemnados pela organisação social em que a Realeza caminhava para o predominio da dictadura monarchica, a viverem a vida parasita de cortezãos e a divertirem os serões do paço, lançaram-se á imitação dos cantos populares; as fórmas lyricas subsistem nos Cantares d’Amigo, nos cancioneiros aristocraticos, mas as fórmas narrativas não se conservaram com o mesmo esmero. Affonso Sabio só admittia que esses cantos fossem de feitos de armas; e mais tarde o Marquez de Santillana condemnava-os ao desprezo pela inferioridade da sua origem. Mas no seculo XV os Romances conseguiram vencer esse desdem dos latinistas e aristocratas. O que havia de profundamente humano e pittoresco n’esses cantos tradicionaes, em que o mosarabe alludia ainda aos seus Symbolos já sem os comprehender por extranhos á legislação codificada, não deixou de impressionar os Poetas palacianos. D. João Manoel adoptára esses cantares-romances, e impuzera-se a moda; a rainha D. Joanna, filha do rei Dom Duarte, casada com Henrique IV de Castella, pedia aos cavalleiros da sua côrte que lhe glosassem Romances, como o que começa: Nunca fue pena mayor, tambem glosado em Portugal por Pedro Homem, estribeiro-mór, e referido em Gil Vicente. Garcia de Resende tambem glosou o romance Tiempo bueno, Sá de Miranda e Gil Vicente, o romance da Bella mal maridada. Colligindo-se todas as referencias a romances velhos nos escriptores quinhentistas, vê-se a sua vivissima vulgarisação oral, antes da primeira collecção formada e impressa em Sevilha em 1551.
Quando no seculo XV a erudição latina tomou um ascendente no gosto, fazendo decahir os elementos medievaes das litteraturas, os dialectos populares chamados romance continuaram a empregar-se na poesia popular, vindo este nome a designar esta fórma épica tradicional. Bernardim Ribeiro usa-o com este duplo sentido: «não soube inteiramente mais que por um cantar-romance, que d’aquelle tempo ficou.» E em um verso do Cancioneiro geral: «mais ande cantar romance.» (t. III, 358.) O povo ficou empregando a palavra Estoria no mesmo sentido de narrativa poetica, como a usava Fernão Lopes no sentido de tradição, e que Bernardim Ribeiro emprega: «ouvi-a já então contar a meu pae por estoria.» Quando a erudição, para variar as fórmas poeticas, teve de contrafazer a poesia popular narrativa no seculo XV, perdeu a noção da sua origem, e mais ainda a sua comprehensão. A fecundidade do povo, que se fixa entre o seculo XII e XIV, acabou em resultado da extincção das liberdades locaes ou foraleiras pela dictadura monarchica, e com a liberdade de consciencia pela intolerancia catholica a pretexto de combater a Reforma. Ambos estes poderes fizeram reviver e prevalecer a cultura latina nas letras o na politica.
A reacção clerical contra a Reforma, matava a alegria entre o povo; os romances sacros ou ao divino foram considerados peccados de bocca, como anteriormente o dissera o rei D. Duarte, e os Indices Expurgatorios de 1564, 1581, 1597 e 1624 condemnaram com excommunhões todos os romances populares em geral. Gil Vicente consigna essa depressão de tristeza produzida pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal, quando no Auto do Triumpho do Inverno, diz ser: «Jeremias o nosso tamborileiro.» Os romances populares foram parodiados ridiculamente, e a sua fórma applicada ás narrativas historicas, recebeu fórma litteraria em Lorenzo de Sepulveda, Lasso de La Vega, Timoneda, Juan de la Cueva, em Hespanha, e em Portugal por Gil Vicente, Jorge Ferreira e Balthazar Dias, que traduziu na Imperatriz Porcina as lendas de Crescencia, tiradas do Speculum historiale de Beauvais.
No fim do seculo XVI os romances populares reflectiram o estado da sociedade civil: estava acabada a cavalleria, e como as Gestas feudaes tinham caído na faulse Geste, ou idealisação dos traidores, assim os Romances celebraram os facinoras e contrabandistas, os Valentones, os Guapos e os Xaques. Appareceu o genero meio popular meio litterario das Xácaras ou Xacarandinas, metrificadas por Quevedo e entre nós egualmente seguido por Dom Francisco Manoel de Mello, que falla d’este genero: «um rascão musico, que a poder de rácaras e seguidilhas a trazia martelada (a uma escrava da casa).» Imitaram-se tambem os romances mouriscos e granadinos em um monotono prurido litterario, dissolvendo-se por fim no gosto allegorico e subjectivo. D’aqui em diante a poesia épica do povo perde-se totalmente: a dominação castelhana, obscurantismo religioso, restauração bragantina, tudo conspirou para fazer esquecer-se a tradição nacional, a ponto de chegarmos a ser conhecidos na Europa como o povo mais escravisado e embrutecido, como o referiu o P.e Theodoro de Almeida na Oração inaugural da Academia das Sciencias em 1779. Só muito tarde, na renovação das Litteraturas pelo Romantismo é que se tornou a achar este veio riquissimo da Tradição.
c) DAS FÓRMAS DRAMATICAS
Como manifestação da vida social o theatro attingiu nas civilisações antigas e nas raças vigorosas o caracter de uma instituição. O Drama, a fórma de arte em que o homem apresenta a consciencia da sua personalidade, comprehendeu primitivamente elementos do Lyrismo e da Epopêa; as mais vetustas composições dramaticas começam pelo Côro, puramente lyrico, d’onde se destaca um personagem que narra incidentalmente; mas a necessidade de figurar e desenvolver as tradições épicas, de as tornar vivas diante da multidão, reduziu o Côro á rubrica explicativa, á decoração material, vindo o dialogo dos personagens (de persona, a mascara com que o som da voz era reforçado) a constituir a tragedia. Deu-se isto na Grecia de um modo natural e logico, por que ali o theatro tomou o caracter de uma instituição nacional. O theatro indiano derivou-se tambem da Epopêa. E assim como nas civilisações rudimentares o theatro é uma continuação dos actos liturgicos, como o Mitote, no Mexico, os Ludi, nas festas christãs, os Mysterios francezes, as Reprezentazioni italianas, na Edade media, em nossos dias repete-se este processo generativo, em que dos côros lyricos e elegiacos sobre as desgraças da familia de Oly, entre os Persas modernos, se formam os grandes dramas chamados taziéhs, a que a multidão assiste com fervor commentando pela acção scenica as doutrinas do Babysmo.
Recebe o theatro a importancia de instituição quando se torna para um povo a sua satisfação moral, uma fórma de protesto, uma manifestação da—opinião publica. É por isso que o theatro attinge a sua maior vitalidade nas épocas burguezas. Os dogmas religiosos e civicos foram pela primeira vez discutidos n’esse tribunal, como se vê pelas tragedias de Eschylo e pelas comedias de Aristophanes; assim foi tambem comprehendido na fórma hieratica da Edade media, em que o Velho e o Novo Testamento eram postos em acção debaixo das abobadas da Cathedral popular; em que os actos respeitaveis da Bazilica eram parodiados pela Bazoche, nas farças mordentes em que os papas e os reis figuravam no conflicto dos dois poderes. O renascimento das fórmas classicas greco-romanas veiu desviar esta creação das Litteraturas romanicas dos seus germens organicos ou tradicionaes. Esses germens tinham vigor bastante para efflorescerem, se não tivessem apparecido outros meios mais faceis para manifestar-se a Opinião publica, taes como a Imprensa.
Assim como as fórmas do Lyrismo e da Epopêa apresentam nos povos meridionaes a persistencia de typos tradicionaes que se ligam a uma communhão ethnica de raça, tambem existiu uma forma de Drama, com egual origem, e que ainda persiste nos costumes populares na Italia, Hespanha e Portugal. Os criticos não comprehenderam ainda o seu valor; mas esse typo dramatico hade merecer o interesse dos eruditos como a Pastorella e o Romance. Já vimos que a antiga raça italica tinha a comedia mimica e improvisada das Atellanas oscas, com os seus personagens typicos e invariaveis o Macus, o Pappus, o Casnar, o Sannio, o Manducus. Esta fórma pertencia evidentemente a essa raça que constituiu o fundo popular das nações occidentaes: na Italia resistiu sempre aos dramas classicos ou litterarios, em todas as épocas, com o nome de Commedia dell’Arte, e de Commedia a soggeto. O assumpto era previamente definido, o canevaccio, os dialogos é que eram improvisados em scena pelos typos immutaveis de Arlechino, Brighella, Zanni, Pantalone, Truffaldino e Dottore. Emquanto a comedia litteraria ou sostenuta se mostrava sem interesse, o povo preferia a comedia improvisada, na qual os varios dialectos da Italia se unificavam, por isso que eram empregados pelos diversos typos comicos segundo os caracteres que representavam. A linguagem dialectal fornecia as vivas graças e chascos que ha sempre de terra para terra; e as mascaras tinham a expressão dos traços provinciaes. Quando fallava o typo amoroso, empregava a lingua culta da Toscana; se era o pae tyranno, era o dialecto de Bolonha; se conversavam a criada ladina ou serigaita com o criado dialogavam em bergamasco. Em Gil Vicente tambem se encontra esta necessidade de mudarem de linguagem os seus typos, chegando a dizer que—o castelhano é bom para fingir, e empregando por vezes o cigano e o creoulo.
A vitalidade da commedia dell’Arte resistiu ás reformas do gosto dramatico tentadas por Goldoni no seculo XVIII, e chegou a influir no desenvolvimento do theatro francez; os antigos typos apresentam novos nomes, como Scaramouche, Scapin, Tartaglia, e chamava-se commedia a braccio, pela gesticulação exagerada. Quando Goldoni tentou a comedia do género menandrino, os actores não se queriam sujeitar ao estudo de papeis definidos, e o publico preferiu a improvisação dos representantes, que ás vezes pelos seus repentes felizes adquiriam uma grande celebridade, a ponto de Biancolelli receber de Luiz XIV o tratamento de amigo, e Cecchini cartas de nobreza pelo imperador Mathias.[61]
Este mesmo genero improvisado encontra-se em Andalusia, com o nome de Juegos de cortijo, usados ao terminar os trabalhos das colheitas, e especialmente nas bodas. Lafuente y Alcantara, no prologo do seu Cancioneiro popular descreve esta forma da Encortijada, e dá alguns themas comicos, eguaes ás Atellanas oscas e ás commedias dell’Arte: «Começa este jogo por uma especie de introducção ou scena preliminar, reduzida a um breve dialogo que hade terminar com algum chiste, já mettendo a ridiculo qualquer dos presentes com allusões grotescas, ou simplesmente algum conceito mais ou menos opportuno, ou alguma sandice inesperada. Chama-se a isto entrada de juego, e geralmente não tem connexão alguma com a scena que se representa depois. Nesta ultima só é premeditado e convencionado o assumpto principal e o desenlace; o dialogo e demais incidentes são improvisados pelos actores.»[62] Lafuente y Alcantara apresenta alguns dos themas usuaes, quasi sempre descambando nas facecias desenvoltas, como o Juego del galan, e o del Jalapago, e del Licenciado.