Comprehende-se que os latinistas ecclesiasticos condemnassem a forma dramatica conservada tradicionalmente nas classes populares; nas obras de Isidoro de Sevilha, lê-se: «O theatro é um verdadeiro prostibulo, porque terminados os Jogos, ali se prostram as meretrizes...» (Etym., l. 18 e 39.) Continúa o erudito bispo hispalense: «Entram os histriões nos espectaculos com a face coberta, pintam o rosto de azul e de roxo sem se esquecerem dos demais arrebiques; e levando ás vezes por simulacro um lenço sujo e manchado de varias côres, untam com elle todo o pescoço e mãos de grêda para egualar a côr da careta e enganar a multidão emquanto se representam as farças; umas vezes apparecem em figura de homem, outras de mulher; ora tosquiados, ora com grande cabelleira; umas vezes de velha, outras do virgem, e em todos os aspectos, com diversa edade e sexo, a fim de enganarem o povo emquanto representam.» Recommendando como se devem cantar os psalmos, o bispo prohibe que a voz tenha effeitos theatraes. D’este texto se deprehende a existencia do theatro popular na baixa Edade media, e que apezar de todas as condemnações da Egreja persistiu nas fórmas elementares dos Jogos dialogados, e Dansas figuradas.

Do theatro primitivo da peninsula iberica falla Marcial: antiqua patria theatra (Epigr., IV, 55) referindo-se a um scenario natural em um valle, a que concorria a gente de Rigas, ou como diz um glosador lendo Ripas: «quod prisci juxta ripas ederent spectacula...» A estes theatros naturaes alludo Juvenal (Sat. III, p. 172) em relação á Italia, herbosa theatra. A Dansa guerreira dos Gallegos acompanhada de canto, descripta por Silio Italico (Pun., III, 353), ainda nos apparece na Dansa dos Espingardeiros, e as Dansas coreadas religiosas dos Celtiberos, persistiram até ao seculo XVIII nas procissões portuguezas. Da mesma fórma diz D. Juaquin Costa, a quem seguimos aqui: «Los Dances[63], con sus representaciones scenicas, ora historicas, ora religiosas, ora pastoriles, como, por ejemplo, el Baile de la inconstancia, de Benabarre, la Marisca, de Ainsa, la Pastorada, de la Fueba, etc, que son una verdadera juris continuatio del teatro indigena, conservado mas tenazmente que en ninguna otra region, en los escondidos valles del Pireneo, tanto en la vertiente española (Aragon) como en la franceza.»

A fórma improvisada do theatro acha-se tambem na tradição portugueza conservada no Brazil, e usada nas festas chamadas Reinados e Cheganças. Celso de Magalhães viu representar na Bahia o Auto dos Marujos, e descreve-o assim: «Um grupo vestido á maruja conduzia um pequeno navio armado de ponto em branco, com velas de seda e cordame de linha, montado sobre quatro rodas, embandeirado em arco e puchado por rodas. Cantavam versos da Náo Catherineta, Fado do marujo e lupas (cantigas de levantar ferro). Outro grupo apparecia mascarado. Na frente um individuo montava um cavallo de pasta vistosamente ajaezado do galões falsos e fazia-o dansar ao som da musica e do canto aspero e acompanhado de pandeiros e pratos.» E Roméro acrescenta: «Depois fingem uma lucta, vão coser o panno, no fim do que ha o episodio do Gageiro, cantando-se os versos da Náo Catherineta...»[64] São muito curiosos os especimens d’este genero, como Os Marujos, os Mouros, o Cavallo Marinho,[65] conservados na antiga colonisação brazileira. Nas aldeias ainda hoje se conservam dansas dialogadas hieraticas, elemento consuetudinario a que Gil Vicente deu a fórma litteraria.

O primeiro vestigio theatral que nos apparece é a representação mimica, de que a Sicilia era o fóco que mais sortia Roma; é o Arremedilho do jogral Bon-Amis, coadjuvado por outro a que se chamava Acompaniado. É provavel que Bon-Amis seja já nome comico, como o de bonifrate. Foram depois regulamentados os costumes do Tamo, ou das festas do casamento (Epithalamio) a que pertenciam os Jueyos de cortijo na Andalusia. O uso popular dos Clamores e Endexas dos mortos era tambem dramatico, havendo banquetes sobre as sepulturas. A parte representada acha-se nas cantigas com Voz e Côro acompanhadas de dansa, sobre a sepultura do Condestavel, pela paschoa florida; os banquetes ainda ha muito pouco tempo deixaram de usar-se nos cemiterios de Lisboa. Estes ritos eram tambem usados pelos Belgas sob o nome de Dadsila ou festim sobre a sepultura das pessoas cuja memoria era cara; o touro, o bode eram as victimas regularmente immoladas; na primitiva egreja conservou-se este costume, como se vê pela recommendação de Santo Agostinho acerca d’esses banquetes: «Non sint sumptuosae.»

Muitos dos elementos dramaticos dos costumes populares foram incorporados na grande festa de Corpus Christi; D. João II, para celebrar a victoria da batalha do Toro, mandou organisar a Procissão em que figuravam os officios com os jogos que lhes eram peculiares e emblematicos. No Regimento da procissão, dado por D. João III, encontram-se esses rudimentos tradicionaes: «Dois Diabos, e a representação da Dama e Galante; dois Diabos e um Princepe; o Gigante e o Anjo.» Da figuração do Sam Jorge matando o Dragão para salvar a Donzella que ia ser devorada, vemos a persistencia no alto Minho com o nome de Santa Coca como parte obrigada da procissão. Nos costumes actuaes, na procissão do Carmo em Vianna, figurava o Rei da Mourama, e entre lôas á Virgem jogavam-se as mais desbragadas chufas á mourisma; a Dansa dos Pretos em Arcozello da Serra, na festa da Senhora da Assumpção, em que crianças de nove a dez annos em trajo de negrinhos fingem de escravos, e queixam-se á Senhora com ditos pela maior parte indecentissimos para os libertar. A Dansa das Donzellas consta de um côro de meninas, que pedem para ser baptisadas ao Anjo que as acompanha, e elle exhorta-as em um monologo final, dando-lhes o baptismo. A Dansa dos Espingardeiros,[66] é um thema inspirado pela resistencia nacional contra a absorpção castelhana; consta de oito ou dez rapazes, marchando ao som de tambores, divididos em dois bandos, simulando o exercito castelhano e o portuguez; postam-se diante uns dos outros, vão parlamentarios lançar os ditos, trava-se o combate, e vence o general portuguez, que concede a vida ao inimigo depois de lhe ajoelhar aos pés. Além d’estes themas ha outros ligados aos trabalhos do campo ou da industria, como o Enterro das Séstas, as Malhadas do centeio e as Azeitoneiras; e os divertimentos domesticos, taes como o Jogo da Condessa, o da Almolina, o de Villão do cabo, em que ha dialogos e movimento scenico.

O typo nacional do gracioso da comedia popular era designado o Ratinho, que Miguel Leitão diz ser tomado do caracter broma dos moradores da aldeia de Rates. Gil Vicente que teve perfeito conhecimento de todos estes elementos tradicionaes, allude ao typo comico nacional:

Muitos ratinhos vão lá
De cá da serra a ganhar;
E lá os vemos cantar,
E bailar bem como cá. (II, 443.)
E no mais triste ratinho
S’enxergava uma alegria
Que agora não tem caminho. (II, 417.)
Ratinho és de má casta (II, 211.)
E deixas lavrar ratinhos (ib., 220.)
Que eu era ratinho, senhor. (ib., 237.)

Todos os que seguiram as fórmas estabelecidas por Gil Vicente aproveitaram-se d’este typo do Ratinho, como António Prestes e o Chiado. Muitos d’estes costumes populares foram condemnados nas Constituições dos Bispados, principalmente os Autos, Colloquios e Lapinhas, nas trez grandes festas a que o povo deu relevo com as figurações dramaticas—o Natal, os Reis e a Paixão. Era a grande trilogia, em que o povo continuava a sua creação poetica depois de terminado o cyclo de formação dos Evangelhos apocryphos. O trabalho de Gil Vicente, como se deprehende da tragicomedia do Triumpho de Inverno, foi rehabilitar pela litteratura as tradições populares, condemnadas pela Egreja, e este esforço do genio foi para a época da Renascença como o de Garrett, na restauração do theatro portuguez, na época do Romantismo.

Profundos accidentes historicos separaram da unidade politica portugueza paizes que pela lingua e tradição pertencem ainda a um mesmo todo moral. Pelo estudo d’estes documentos ethnicos se reconstitue a indole de um povo; por isso dizia Gregorovius: «As leis, as instituições, separam, mas a lingua, na qual o povo falla e canta, é um elemento de aproximação; ahi se encontra o que os latinos chamavam indoles

A tradição nacional e popular, verdadeiro germen de toda a efflorescencia artistica, e que era a base de todas as creações originaes das litteraturas da Edade media, achou-se depois do seculo XII abandonada ou combatida pelo prestigio da Antiguidade preferida pelos eruditos latino-ecclesiasticos. Formada n’este começo da grande crise da dissolução catholico-feudal, a nacionalidade portugueza foi desviada das sympathias da Tradição; a separação dos interesses e gosto da classe popular, ou a praça, e da aristocracia e alto clero, ou a côrte, torna-se um caracter commum ás recentes nacionalidades europêas, e exprime-se claramente esse antagonismo nas Litteraturas novo latinas.

Em Portugal encontramos este antagonismo reflectindo-se na Religião pelo abandono do culto mosarabe ou Egreja nacional substituido pelo catholicismo romano; no Direito, pela absorpção das instituições locaes ou autonomia foraleira na codificação real das Ordenações: na Arte, como a architectura especialmente, e a poesia, pela imitação dos modelos classicos.

As fórmas cultuaes e crenças religiosas no meio de uma população que tendia a unificar-se politicamente era um esboço de integração affectiva. Tal foi o christianismo durante a occupação arabe. O godo lite ou aldius, meio lembrado do seu velho culto odinico, abraçára o Christianismo pelo que elle tinha de sentimental; não comprehendia as abstracções dos mysterios dogmaticos, e seguiu por instincto natural a doutrina de Ario: acreditava na humanidade de Jesus, e repugnava-lhe a consubstanciação e a sempiternidade do Verbo. É n’este ponto que se dá a dissidencia entre a classe popular e a sociedade aristocratica convertida ao catholicismo romano sob Rekáredo. As crenças, usos e tradições populares são combatidas pelo clero como superstições, e começa a preponderancia do clero na sociedade politica, predominando os Bispos nas Côrtes, nos conflictos dynasticos e em todas as fórmas de intolerancia.

Para o godo ao contacto com o arabe dominador, era a religião de seus paes o sentimento mais energico e vital; adoptára a cultura, os costumes, em parte a linguagem do vencedor, pelos cruzamentos ajuntára ao instincto de independencia das raças do norte a paixão meridional, mas permanecera sempre hispano-godo no seu afferro ao christianismo. O culto dos mosarabes deve considerar-se como uma fórma pura do Christianismo independente da Egreja de Roma, viciada pelo intuito da auctoridade temporal a que ambicionava. Como a Egreja da Bretanha e da França, que se attribuiam uma origem proto-cathedrica, a Egreja hispanica ou mosarabe considerava-se fundada expressamente por um Apostolo; procurava derivar a sua origem da missão immediata do apostolo Sam Thiago; não tinha por tanto de reconhecer a supremacia papal. No culto mosarabe o christianismo achava-se desligado das affectadas fórmas liturgicas; não existia n’elle a confissão auricular, com que o catholicismo romano adquiriu o imperio nas consciencias; na sagração não se partia a hostia; o povo tomava parte nos officios ecclesiasticos com as suas Prosas e Sequencias, fecundando com a emoção religiosa a sua sensibilidade poetica e animando a abstracção; a linguagem vulgar era a que se empregava nas cerimonias liturgicas, com exclusão completa do latim, costume que determinou ainda nos seculos XII e XIII as traducções vernaculas do Velho e Novo Testamento e de alguns hymnos da Egreja. O catholicismo romano reconheceu os perigos que para a sua disciplina tinha a simplicidade do culto mosarabe, e combateu-o de frente, apoiando-se no poder real para o extinguir completamente na peninsula. O christianismo-mosarabe tinha a riqueza do sentimento poetico de uma forte raça; Roma banindo-o com as censuras dos seus legados, impunha-lhe uma religião cuja força não residia na santidade da crença, mas na auctoridade do padre. Quando Affonso o Sabio escrevia a Historia geral de Hespanha, existiam apenas seis egrejas em Toledo do culto mosarabe; a lucta continuou-se lenta e insensivel a ponto de, no tempo do Cardeal Ximenez, restar sómente uma capella em que se celebrava pelo missal mosarabico; era uma opulencia cardinalesca conservada não como crença, mas com o intuito archeologico de uma tradição da Egreja primitiva. É tambem como lembrança historica, que na sua Cronica falla o rei Affonso o Sabio: «Depoys que a cidade de Toledo foy metida em poder dos mouros per preytesia ... todos aquelles que hy quyzesem vyver so o senhoryo dos mouros era contheudo no trauto que tevessen sua ley, e vivessem segundo o que ela mandasse e ouvessem clerigos de myssa e bispos e outras ordeens. Estes christaãos teveram das entom ataagora ho officio de Santo Ysidro e de San Leamdre. E oie em dia o mantem seys Igrejas em Toledo, e chamansse os crerygos d’estas Igrejas moçarves. E vyverom os christãos de ssuum com os mouros e so seu poder teendo sua ley e guardandoa ataa o tempo dos Almoades que começaram em tempo do emperador dom Afonso no tempo que era dom biuam arcebispo de Toledo.»[67]

D’este missal e breviario composto por ordem do Concilio toledano em 633 para uso geral da egreja de Hespanha, falla o bispo D. Rodrigo da Cunha, referindo-se á hostilidade com que era combatido o mosarabismo: «D’este Missal e Breviario usaram muitos annos as egrejas de Hespanha, por confirmação da sé apostolica, que por varias vezes os approvou, pretendendo seus legados o contrario, como se póde vêr em Ambrosio de Morales.» (Lib. 12, c. 19.)[68]

Desde que o catholicismo imperou absolutamente na peninsula, o povo não tornou a crêr, mas a temer, submisso pelos Autos de fé ante o terror dos inquizidores; o christianismo que fôra sob o dominio dos arabes um consolo, tornára-se no tempo dos reis catholicos um pezadello.

Quando a fé era sentida, a sua exaltação e fervor inspirava as obras de arte; por isso, escrevia Herculano ácerca da população mosarabe: «cuja especial influencia na organisação da monarchia portugueza não tem sido apreciada.»[69] Sob a emoção ingenua do christianismo, ella cria as fórmas da architectura das bellas cathedraes, e a fixação do seu direito no estatuto territorial. Se a população mosarabe tem sido desconhecida na organisação politica da nacionalidade, mesmo para o historiador que descreveu essa influencia, mais desconhecido foi o seu genio artistico manifestado na Arte. Os grandes terrores do fim do mundo despertaram o fervor da fundação de templos por toda a Europa no seculo X; foi quando a immobilidade pezada do acanhado estylo byzantino, de origem erudita, se quebrou para sempre para dar logar a esplendidas creações ogivaes. Os christãos que viviam por toda a peninsula em contacto com os sarracenos, obedeceram a esse impulso, e deram começo ás grandes cathedraes pela tolerancia illustrada dos invasores. Quer do norte da França (Ars francigena) como hoje se reconhece, ou da Allemanha, o gotico ogival só entrou na peninsula quando ia na sua phase secundaria; os Mosarabes ao construirem os seus templos reformaram a sombria architectura byzantina, tiraram-lhe o aspecto de refugio e deram-lhe a largueza da futura assembleia politica. Fundada ao lado da mesquita arabe, a egreja imitava naturalmente a elegancia da architectura oriental, n’esta efflorescencia do ornato, apparentemente caprichoso, mas dominado por uma lei geometrica constante. Os escriptores coévos da invasão, ao fallarem da reedificação dos templos accusam essa elegancia arabe; tal é o documento apresentado por Herculano: «quicquid novo cultu in antiquis basilicis splendebat, fuerat que, temporibus arabum, rudi formationi adjectum.»[70] Nas antigas basilicas resplandeciam os ornatos accrescentados no tempo dos arabes á rude fabrica; assim interpreta Herculano esse texto, pela rudeza da architectura visigotica comparada com o esplendor da architectura arabe. Mais tarde, quando pela reacção neo-gotica os arabes foram submettidos, os cativos eram obrigados a trabalhar nas construcções dos mosteiros, obliterando-se os ultimos restos do byzantinismo. Sousa Loureiro, director da Academia de Bellas Artes em 1843, dizia dos primeiros monumentos architectonicos de Portugal, como Santa Cruz de Coimbra, Sam Vicente de Fóra e Alcobaça: «N’estes edificios não ha o estylo gotico d’aquelle tempo; nem o estylo arabe da Hespanha no seculo XI se reconhece ali; tem um typo, um caracter luzitano, porque a Luzitania existiu sempre como uma região, como uma nação, como um povo particular e separado da união geral, mesmo no tempo que a Hespanha foi successivamente invadida por potencias estrangeiras...»[71] E considerando anteriores á monarchia, a fundação da capella de Nossa Senhora da Oliveira, de Guimarães, e de Santa Maria de Almacave, de Lamego, classifica-as juntamente com as egrejas de Santa Maria de Tarquere e Santa Cruz de Coimbra como luzitanas, cuja architectura é ainda bastante simples.

Se alguma feição luzitana apparece na cathedral antiga é simplesmente a reunião do gotico-byzantino com o estylo arabe, por effeito dos mouros cativos e alvenéres que trabalhavam então nas construcções; e a fusão da raça goda e sarracena produzindo essa nova população mosarabe, com o seu direito proprio nos Foraes e Concelhos, com o seu culto religioso proto-cathédrico, com uma poesia lyrica e narrativa fecunda, que se authentica nos Cancioneiros e Romanceiros, tambem formou uma architectura nova, pondo em accordo na egreja christã o byzantino-gotico com a arte arabe. Escrevia o Conde do Raczynscky com a sua alta competencia: «Os Portuguezes, no meu entender, deixaram provas do seu gosto constante pelas obras de architectura. A perfeição dos seus monumentos, sob o ponto de vista da execução, bem prova que esta arte era verdadeiramente nacional.» E accrescenta: «Uma circumstancia que prova mais fortemente ainda, que a architectura, mesmo nas épocas mais remotas, devia até um certo ponto ser filha do paiz, é a perfeição com que a pedra foi sempre trabalhada e esculpturada aqui, e o gosto, a nitidez com que todos os ornamentos foram e são ainda hoje executados.»[72]

Sustentando a prioridade da civilisação hispanica em frente do dominio arabe, escreve Simonet em relação á architectura dos Arabes em Hespanha: «que a maior parte das construcções que se levaram a cabo sob o seu dominio, tanto em Hespanha, como na Africa e no Oriente, foram obra de artifices christãos e indigenas, ora Mosarabes, ora Mulladies, ora captivos.»[73] Em uma nota fundamenta o asserto com o facto citado pelo historiador arabe Annowairi, que Abderahman III, ao tratar as pazes com os christãos do norte da peninsula exigiu doze mil operarios para lhe construirem o alcazar de Medina Azzahrá. Este mesmo trabalho dos operarios christãos se nota nas construcções arabes do Egypto, como observou Stanley Lane Pool.[74] O historiador tunesino Ibn Jaldon, considera que a perfeição das artes na Hespanha sarracenica era devida a uma tradição da edade visigotica; Simonet recuando-a até á edade romana, accrescenta: «Semelhante tradição deveram transmittil-a os indigenas; assim os Mosarabes, que conservaram a sua fé christã e com ella os mais elementos da sua civilisação, como os Mulladies, isto é, os hespanhoes renegados, que ao arabisarem-se e fazer-se mussulmanos mantiveram da sua antiga cultura hispano-romana tudo aquillo que era compativel com o islamismo, e ainda uma não pequena parte do espirito christão e nacional.»[75]

Este elemento indigena ou hispanico vem citado nos poemas e leis antigas com o nome de Mosarabe; nos cantos populares ha uma referencia importante aos Mulladies, sob o nome de Malados:

Eu sou filha de um malado
Da maior malatararia.
Homem que me a mim tocar
Malato se tornaria.

O desprezo que se ligava a este nome não era por nenhuma doença asquerosa, mas pela degradação de terem renegado a religião christã. E esta classe era tanto ou mais importante do que a dos Mosarabes; era maior o seu numero, mais intelligente e activa essa população, possuindo em si mais familias nobres, e pela sua preponderancia tomavam parte entre todas as discordias dos Arabes desde a segunda metade do seculo IX, como o observam Dozy e Simonet.[76] Muitos Mosarabes se tornaram Mulladies, especialmente em Granada, para se eximirem aos fortes tributos, e principalmente a gente dos campos: «la poblacion agricola, que aqui abundaba mucho, merced á la feracidad del suelo, aprovachándo-se de las franquezas y beneficios que la ley mahometana concede á los islamizados habia logrado por este medio conseguir su libertad y librarse del odioso impuesto de la capitacion.»[77] A maior parte da população de Granada no principio do seculo XIV, como o affirmam Zurita e Marianna, eram Mulladies. É pois este fundo de população hispanica, que se conservou inalteravel entre os dominadores Arabes, e a que se deu o nome de Mosarabes e Mulladies, que persiste nas suas tradições tanto poeticas como artisticas. Arte mosarabe, como chama Garret á Architectura, Epopêas mosarabes, como chamámos aos Romanceiros, são designações verdadeiras emquanto d’este elemento persistente sob a dominação arabe se transita para o reconhecimento da população iberica.

O nome que deve ter esta architectura, filha do genio do povo portuguez, não seremos nós que o imporemos; tomamos a designação que lhe deu um poeta que teve mais do que ninguem a intuição das cousas bellas, e que suppria a falta de sciencia por um tino raro e gosto aprimoradissimo; escrevia Garret: «E aqui a proposito, por que se não hade adoptar na nossa Peninsula esta designação de mosarabe para caracterisar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da Meia Edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos e de uma luxuosa elegancia.»[78] O portuguez tem o genio architectonico; o artista Roquemont reconheceu-lhe essa capacidade ingenita. É a influencia exterior da natureza que fez este povo architecto, como o fez tambem navegador. O norte de Portugal abunda em excellente pedra para construcções grandiosas, tem o granito duro para as fórmas eternas; de facto é ao norte de Portugal aonde se encontram os primeiros e mais venerandos trabalhos de architectura, não tão delicados como os rendilhados lavores da pedra calcárea do sul, mas em maior numero e em todas as edades como productos de uma necessidade vital. Este genio artistico acha-se reflectido na technologia do povo, apresentando uma riqueza de vocabulos ainda na linguagem do mais humilde alvenér.

As Constituições apostolicas mandavam que a Egreja fosse edificada em fórma de uma náo (ad instar navis) voltada para o Oriente. Comprehendeu Portugal o symbolismo no sentimento aventureiro e maritimo com que no seu christianismo transpoz os mares, no meio das invasões dos Turcos na Europa, levando a Fé e o Imperio ao Oriente, sem se preoccupar com o antagonismo das Duas Espadas. Foi Portugal o unico povo que soube fazer a mirifica alliança da Architectura e do sentimento maritimo; e emquanto se inspirava da simplicidade evangelica, propriamente mosarabe, este povo era creador, edificava a Batalha e Belem, que já não pôde acabar depois que o catholicismo romano, pela repressão do Concilio de Trento, mandado observar em Portugal como lei vigente, e pela acção dirigente dos Jesuitas na instrucção e na politica, levou este povo a uma esterilidade de morte, a uma indifferença diante da perda da sua autonomia.

Participando da fecundidade germanica e da sensibilidade do arabe, o mosarabe mostrou a espontaneidade do seu genio creador, além da Religião e da Arte, tambem no Direito. N’este campo a depressão é exercida pela monarchia na sua absorpção temporal, fazendo em quanto á vontade o que a Egreja fez em relação á consciencia. Para o Mosarabe o direito não era uma imitação dos Codigos romanos, como o Codigo visigotico privativo da classe aristocratica; não era uma fórmula ambiciosa da theocracia imposta nos Concilios nacionaes; era a realidade da vida prática em uma fórma consuetudinaria e não escripta; a lei em vez de ser uma prohibição validada com penas atrozes era uma garantia commum, mantida pela consciencia, sanccionada pela transmissão tradicional.

No momento em que o godo não pertencente á banda guerreira, e que decahira na condição do lite, se viu desassombrado da nobreza que se refugiou nas Asturias, ficou entregue á liberdade franca tolerada pelos invasores e foi reconstituindo as suas primitivas instituições livres. É por isso que o Symbolismo germanico dos codigos barbaros floresceu de novo; o Mallum antigo, ao ár livre, ou á sombra da arvore secular torna-se a assembleia, o Malhom, em que se allega o costume; a individualidade germanica reapparece na prova dos Juratores; as cerimonias juridicas supprem a magestade das fórmulas abstractas romanas; a prova faz-se pelo Ordalio, perante o testemunho da natureza, pelo Duello judiciario; a pena é a banição da terra, o Wargus, sem tecto, lar, nem agua. Todos estes caracteres são privativos do Direito dos mosarabes, que vigorou sem ser escripto no periodo da tolerancia arabe, e que ainda transparecem nos textos escriptos das Cartas de Foral, quando a restauração senhorial e o poder monarchico procuraram submetter ou alliarem a si, conforme os tempos, esse elemento popular, que constitue as nacionalidades peninsulares. Nunca os Foraes poderão ser comprehendidos senão como a antithese do Codigo visigotico. O momento em que este direito começou a ter fórma escripta coincide com o da formação do Terceiro estado na Europa; em nenhuma legislação se proclama com mais clareza a independencia do trabalho, a liberdade territorial, a remissão do homem por contribuições ou resgate do colono. Quem se lembrou de vêr nos Foraes uma liberalidade régia? Os jurisconsultos que seguiram este erro eram romanistas, ou melhor cesáreos, que ignoravam as instituições da Edade media e a organisação da sociedade portugueza. Mas a vida local que exigia estes Codigos foi extincta diante da lei geral das Ordenações, redigidas pelos jurisconsultos romanistas ao serviço da auctoridade monarchica. Já no seculo XVI e quando a dictadura monarchica tendia para o egoismo dynastico, a pretexto de reformar as palavras obsoletas dos Foraes e do reduzir as moedas antigas ao dinheiro corrente, o rei D. Manoel substituiu esses textos, tirando-lhes as garantias e deixando-lhes a contribuição ou prestação do fôro. Desnaturou-se a propriedade com a fórma romana da Emphyteose. As descobertas favoreceram o centralismo da capital e da côrte; as liberdades locaes decahiram, e o povo já depremido pela intolerancia do catholicismo, deixou desde a reforma manoelina esquecer as suas tradições juridicas, o seu energico symbolismo, e alheio aos interesses publicos, alheio ficou á occupação castelhana.

O povo portuguez ainda hoje allude nos cantos tradicionaes aos costumes do tempo das Cartas de Foral; o estado de Malado é lembrado no romance da Filha do rei de França; a Sylvaninha, como mulher é desherdada pelo pae, segundo o costume germanico; o adulterio é castigado com a pena de fogo, no Dom Claros de alem-mar; a expulsão do fidalgo do burgo, como nos Foraes do Porto, Coimbra e Santarem, subsiste no romance do Santa Iria. Os romances ou Aravias alludem ao instrumento a que são cantados, a quitára arabe; é tambem pela influencia bondosa da mulher, segundo o costume arabe, que o prisioneiro Virgilios recobra a liberdade; vê-se em tudo isto a alliança do genio germanico e arabe. A bella e sentidissima efflorescencia dos Romances sacros, ou ao divino, em que o Velho e Novo Testamentos se acham dramatisados com a maior audacia, sem attenções pela versão canonica, que outra origem tem na rhapsodia popular da peninsula se não uma origem arabe? É do genio arabe que lhe veiu esta liberdade da creação poetica, que tambem por egual impulso apparece em velhos poemas provençaes: «É em arabe que se encontram os primeiros exemplos d’estas falsificações romanescas das narrativas venerandas da Biblia e do Novo Testamento.»[79]

Sobre o elemento vital da Edade media a tradição das raças, que actuavam no desabrochar das instituições sociaes e da poesia, prevaleceu o principio da auctoridade, em quanto á consciencia religiosa pelo canonismo catholico, em quanto á liberdade pelos codigos monarchicos, e em quanto ao ideal pelo prurido da erudição classica. A decadencia do culto ou rito mosarabe coincide com a extinção das garantias foraleiras; no mesmo seculo em que entrava em Portugal a legislação imperial romana, que renascia nas Universidades, triumphava tambem o rito romano. Dom Diniz ressuscita os direitos imperiaes com o ensino das leis romanas na sua nascente Universidade, ao mesmo tempo que admittia o rito da Egreja de Roma na sua Capella. Applicavam-se as Leis de Partidas; e o povo era excluido da participação da liturgia. O papa Eugenio IV impoz-nos o rito romano, que Dom João II e Dom Manoel acceitaram; e com as Ordenações manoelinas acabaram os ultimos restos da vida das instituições locaes. Para completar esta obra da cretinisação de um povo, Dom João III deu entrada em Portugal á Inquisição com o seu queimadeiro, distrahindo a multidão fanatisada com os espectaculos de cannibalismo, e entregou as intelligencias á perversão do ensino jesuitico. Gil Vicente conheceu este primeiro golpe na tristeza das cantigas do povo: «Todas tem som lamentado—carregado de fadigas—longe do tempo passado.» Camões sentiu esse segundo golpe já reflectido no estado geral da nação: «De uma austera, apagada e vil tristeza.»

Para fazer revivescer o genio mosarabe ou nacional, era preciso descobrir-lhe a sua tradição em uma poesia tantos seculos obliterada sob o desdem dos eruditos que a julgavam desprezivel, pela Egreja, que a perseguia pelas Constituições dos Bispados e pelos Indices expurgatorios; e ao mesmo tempo a sua liberdade e autonomia, debaixo de um unitarismo politico que a monarchia parodiava copiando o direito imperial romano. O renascimento dos dialectos peninsulares e o estudo das tradições são o prenuncio de uma vindoura revindicação.

§ 3.—A Linguagem oral e escripta

O que distingue a obra litteraria original, da Tradição que é do dominio de todos, é o cunho da individualidade, o caracter. É por isso que um thema commum, como se observa com a fabula, póde ser original, recebendo successivamente a fórma litteraria de Esopo, de Phedro ou de Lafontaine. O mesmo acontece com a lingua nacional, que é fallada por todas as classes, destacando-se a feição individual do escriptor que lhe imprime o seu estylo. A linguagem, que é um phenomeno natural e social independente da intervenção directa do individuo, torna-se pela expressão esthetica a materia prima da elaboração das Litteraturas; e o estylo, que tanto destaca um escriptor de outro escriptor, conserva, como diz Fontenelle, son tour d’ésprit de cada seculo, apezar da supremacia do genio individual.

Ha na creação da linguagem dois trabalhos, o da espontaneidade oral, em que apparecem os elementos radicaes que se transformam por meio de themas e flexões até constituirem a palavra, e uma fixação pela escripta, que vae systematisando e regularisando o apparelho grammatologico. Se a lingua não é escripta, tende a uma exuberancia synonymica e dispersão dialectal; se o seu uso escripto começa prematuramente, cáe em uma immobilidade de fórmas definitivas, que não avançam para se não quebrar a regularidade constituida. É sobretudo o facto historico da nacionalidade e da sua cultura, que actúam na fórma escripta da linguagem, imprimindo-lhe pela concentração das energias associativas em uma capital um typo linguistico, que se impõe e prevalece sobre as differenciações dialectaes. A linguagem oral continúa no seu originario poder de creação, mas apoia-se principalmente na auctoridade conservadora do passado, e mantém fórmas do Archaismo no vocabulario, no vocalismo e construcções populares; a linguagem escripta, exprimindo necessidades do espirito amplia os seus meios de expressão pelo Neologismo, abandonando fórmas desconnexas do vulgo para sustentar uma determinada regularidade. São variadissimas as relações entre estas duas funcções oral e escripta da linguagem; se se separam completamente uma da outra, a linguagem fallada torna-se um patois variavel de burgo para burgo, e a fórma escripta obedece a um aperfeiçoamento racional e artificioso, ficando privativa da classe culta, como aconteceu com o sanskrito e com o latim classico; se porém as duas fórmas de expressão se aproximam e se fecundam mutuamente, os escriptores encontrarão na linguagem do povo bellos elementos para enriquecerem o estylo com modismos pittorescos (como acontece com a obra esthetica em relação ás tradições anonymas), e o povo fallará com a perfeição da cultura social que reflecte, como se viu com o predominio do dialecto attico na Grecia. Em Portugal a separação da linguagem oral da escripta, deu-se desde que por effeito da corrente da civilisação preponderou a cultura latino-ecclesiastica, e chegou a ponto tal essa differenciação, que os velhos documentos juridicos tiveram de ser traduzidos para leitura nova em tempo de Dom João II; porém, desde os fins do seculo XVI até hoje tem-se operado a identificação entre estes dois modos de linguagem, e o poema de Camões é lido e entendido geralmente como se fosse escripto na actualidade.

Da observação d’este facto de transformação progressiva que exerce a escripta na linguagem, resultam explicações essenciaes de grandes phenomenos linguisticos accusados na historia. É assim que sendo a Linguagem congenita com a Raça, apparece muitas vezes o caracter da linguagem em contradicção com os dados anthropologicos, como notou Paul Broca. Basta a linguagem ser a consequencia de um estado elevado de civilisação, para ser facilmente admittida por um povo mais atrazado em relação áquelle que o absorveu ou subjugou. Vê-se que a linguagem é um importantissimo documento de paleontologia ethnica, mas um inseguro recurso para as classificações anthropologicas. Pelo desenvolvimento escripto do Latim na sua vasta legislação civil e administrativa, e continuado pelo catholicismo nas constituições apostolicas e doutrinação moral, tinha forçosamente esta lingua de dominar sobre as vastas populações prevalecendo sobre os dialectos celticos da Italia, das Gallias e da Hespanha, vulgarisando por meio da sua legislação uma linguagem cultivada artificialmente por escriptores barbaros, gaulezes, hispanicos e italiotas. Foi este facto que deu origem ao erro de se imaginar que as Linguas romanicas tinham sido formadas pela corrupção do Latim em uma vulgaria, como normas rusticas ou sermo pedestris. O uso do Latim entre os povos do occidente foi um artificio, uma educação, a ponto das provincias da Africa, Hespanha, Gallias e Italia cisalpina darem magnificos escriptores a Roma. Vêmos em Osca fundar Sertorio um centro de estudos classicos; continuam em Roma a litteratura latina os cordovezes Sextilio Henna, Lucano, Porcio Latro, os dois Senecas, Anneo Mella; os gaditanos Cornelio Balbo e Columella, Marcial, natural de Calatayud e o rhetorico Quintiliano, natural de Calahorra; á Hespanha pertencem os escriptores Claudio Apollinario, Felix, Marco Licinio, Pomponio Mela, Lucio de Tuy, Allio Januario, Cordio Sinforo, Silio Italico, Floro e Julio Higino, os imperadores Trajano e Adriano. Tambem a propagação do christianismo no segundo seculo, pelo emprego do latim na liturgia, fez que a classe sacerdotal concentrasse uma certa cultura e se imitassem as fórmas do Latim urbano; e ainda no ultimo seculo do Imperio empregavam o latim classico na litteratura ecclesiastica os bispos, Osio, de Cordova, Paciano e Olympio, de Barcelona, Gregorio Betico, de Granada, Potamio, de Lisboa, o papa S. Damaso, Dextro, Juvenco, Idacio, Paulo Osorio, Prudencio, Elpidio. É escusado ampliar este ponto de vista com escriptores latinos da França; egual phenomeno se dera com o grego transformado no dialecto commum, que os padres da Egreja, os Chrysostomos e os Basilios empregavam com o esmero de reproduzirem ou restaurarem o puro atticismo. Por certo que a lingua latina não penetrou nas populações sertanejas, os Pagi e Vici, as aldêas e os concelhos, para ahi se corromper. A par da Lingua latina existia a linguagem oral com riquezas proprias e differenças da fórma escripta. É essa lingua oral o fundo primitivo, que no Occidente constituiu o ramo complexo denominado no seu syncretismo, por Schleicher, Lingua Greco-Itala-Celtica, contrapondo-se no norte da Europa o outro ramo Slavo-Tudesco. Não admira, que ao destacar-se o Latim dos dialectos italicos pela fórma escripta e pela preponderancia historica, muitos dos seus elementos superiores fossem facilmente assimilados pelas populações occidentaes que recebiam o impulso da civilisação romana; o mesmo se póde inferir sobre a apropriação de elementos das linguas germanicas na França, Italia e Hespanha. Desde que se descobriu a unidade das linguas áricas ou indo-europêas, melhor se comprehende esta linguagem, de que se destacou o Latim classico, que coexistiu com as linguas falladas em todo o Occidente.

Esta coexistencia e duplicidade encontra-se expressa na designação de Latino e Ladino, contrapondo-se a Romance. São abundantes os trechos francezes, castelhanos o portuguezes, em que o termo Latino significa o espirito culto, o que falla bem, o arguto e ardiloso; romance significava a linguagem popular, a que se falla de visinho a visinho, como diz Berceo, a tradição oral, e já em épocas adiantadas da historia, o vernaculo ou nacional. Esta lingua syncretica estava diffundida em uma infinidade de dialectos, que foram desapparecendo á medida que a lingua escripta, pela absorpção nacional, se foi impondo ao uso das povoações ruraes. Raynouard cahira na illusão da unidade plena d’este fundo linguistico, chamando-lhe Lingua romance, e fazendo derivar da sua dissolução durante a Edade media as novas linguas meridionaes.

A coexistencia da linguagem oral com o Latim classico ou escripto acha-se notada no vocabulario pelos proprios escriptores latinos, taes como Festus, Vegecio, Palladio, Ennio, Terencio, Pacuvio, Lucrecio, Varrão, Aulo Gellio, Plauto, Columella, Cicero, Suetonio, Apuleio, Theodosio, Justiniano, Plinio, Vitruvio, Celso, Lactancio e todos os Padres da Egreja e escriptores latinos das provincias conquistadas. Ao passo que nas Gallias ás fórmas litterarias urbs, iter, os, hebdoma, osculare, se sobrepunham as fórmas vulgares ville, voyage, bouche, semaine, baiser, as quaes egualmente prevaleceram na Hispania, vêmos tambem na peninsula prevalecerem sobre os vocabulos latinos esses outros vulgares Burgo, Batalha, Camisa, Carregar, Cabana, Cafua e muitissimos outros apontados por Isidoro de Sevilha, nas suas Etymologias. Poder-se-ha contrapôr um vasto vocabulario da linguagem oral ao vocabulario classico latino, mas não é esse phenomeno ainda o que explica a formação das Linguas romanicas; o processo organico ou formativo operou-se intimamente, avançando essa lingua oral para a expressão analytica, que é verdadeiramente um progresso; e quando Plauto ou Cicero, e muitos escriptores classicos esclareceram os casos com preposições, ou as fórmas verbaes com auxiliares, não se deve entender que transigiam com a futura decadencia do latim, mas que sentiam a necessidade do processo analytico. Desde que o latim escripto deixou de exercer uma missão social pela queda do Imperio, e pelas invasões germanicas no Occidente, essas linguagens falladas na Italia, nas Gallias e na Hespanha, sem a disciplina imposta pelos cultos, procederam na transformação em que iam, desenvolvendo as fórmas analyticas e periphrasticas. Olhou-se mesmo com certo desdem para o Latim classico: no quarto Concilio de Carthago, no IV seculo, prohibiu-se a leitura dos livros profanos, que eram latinos; o papa Gregorio Magno, desprezava intencionalmente o emprego dos casos, dizia elle para não submetter as palavras divinas ás regras de Donato. A importancia das linguagens vulgares era tal, que em 230 Alexandre Severo promulgou uma lei permittindo fazer-se ou redigir-se fideicommissos n’ellas. Não era pois uma decadencia, que trazia essas linguas á fórma escripta. O proprio clero catholico, como se vê pela auctoridade de Licinio, bispo de Carthagena, e de Gregorio de Tours, tinha cahido em um certo analphabetismo, relaxando-se assim a preponderancia exclusiva do latim escripto. As linguas falladas, que tinham existencia propria, avançaram quando os fócos nacionaes as impulsionaram, e sem se moldarem no latim chegaram á accentuação e á rima, a uma fórma de poesia nova, a que o proprio Latim foi submettido na hymnologia da Egreja. Vê-se quanto é absurdo explicar a formação das linguas romanicas por meio de degenerações phoneticas operadas no vocabulario do latim classico. As modificações do vocalismo e consonantismo romanico são as mesmas que dominam todo o organismo das linguas indo-europêas, de que ellas são um producto.

Combatendo a theoria da escóla philologica que deriva as linguas e os dialectos romanicos immediatamente do Latim, já em quanto á estructura e mesmo ao vocabulario por processos de modificações phoneticas, Gubernatis oppõe-lhe os seguintes factos historicos: «porque é que os Romanos tendo penetrado na Grecia mais do que na Hespanha, não fizeram fallar latim aos gregos, como querem que o fizeram aos hespanhoes?—Porque é que uma colonia militar romana que occupou poucos seculos a Engadina, devia introduzir entre os Alpes suissos o dialecto latino, ao passo que numerosas colonias romanas fixadas na Illyria não conseguiram submetter os Slavos ao Romanismo?—Por que é que os Italianos da Italia superior fallando o Celtico, e os povos da França fallando Celtico, e os Bretãos fallando Celtico, o Celtico desapparece da Italia e quasi inteiramente da França, e sobrevive na Bretanha? e comtudo, os Romanos não occuparam certos remotos valles alpinos, certas provincias remotas da França, tanto como tinham occupado a Bretanha.»[80] Gubernatis reconhece a grande importancia do latim escripto e das leis promulgadas em latim pelo Imperio sobre os dialectos dos povos occidentaes, mas estabelece como principio historico que essas linguas vulgares não derivaram do latim, coexistiram com elle como irmãs: «contemporaneamente ao latim fallado em Hespanha e França, na Italia pela pluralidade das gentes pertencentes á mesma raça que os Latinos; Roma tendo predominado, a lingua romana prevaleceu e exerceu aquella mesma influencia que agora vêmos exercer-se da lingua italiana sobre os dialectos italianos, dos quaes o fundo é sempre italico...» E procurando o typo d’esta linguagem dos povos occidentaes, exemplifica: «De facto, quem de Genova se metter em viagem pelos Pyreneos, as variedades da linguagem modificam-se com um modo tão progressivo e espontaneo, que os dialectos da França meridional ficam como laço natural entre os da Italia e da Iberia, onde se os Bascos dominaram foram com o andar do tempo reduzidos como os Celtas...» E conclue: «Se não existisse um fundo italico nas populações e na sua linguagem, Roma teria triumphado com o seu latim no valle do Pó, provavelmente da mesma maneira negativa com que triumphou na Grecia e na Bretanha.»[81]

Como se vê, esta doutrina vae de encontro á escóla de Diez, que deriva as linguas romanicas do latim, principalmente por processos de degenerescencia phonetica, embora sustente ao mesmo tempo que ellas não provieram de um latim corrompido, mas sim de um latim vulgar coexistente com o latim escripto: «Ao lado do latim litterario, existia effectivamente uma lingua latina correntemente fallada, que os Legionarios e colonos levaram para a Iberia, para as Gallias, para a Dacia. Foi esta lingua popular que se transformou lentamente, tornando-se aqui o Hespanhol, ali o Francez, além o Roumenio, do mesmo modo que em Italia se tornou o Italiano.»[82]

É verdadeiramente maravilhosa esta explicação do metamorphismo do Latim vulgar, identificando-se nos seus resultados com os d’essa outra theoria tão combatida de Raynouard, da Lingoa Romance, cuja unidade quebrada produzira as linguas modernas meridionaes.[83] Nas linguas romanicas operou-se um trabalho de transformação de progresso, e não de decadencia; se o Latim como lingua flexional é synthetico na sua expressão, estas tornam-se essencialmente analyticas, pelo desprezo das flexões casuaes, e pela simplificação da Conjugação pelos verbos auxiliares. Alguma cousa de fecundo se passou n’esse periodo de elaboração analytica, tal como a substituição da quantidade pelo accento, que conduziu as linguas modernas á creação da mais bella poesia, e á construcção syntactica directa, actuando na nitidez do pensamento. A quantidade, ou o prolongamento ou abreviação do som vocalico de uma syllaba, liga-se á origem primitiva da raiz, breve na sua formação, longa, na sua derivação; o accento é o ponto de apoio em uma syllaba dominante, quando modificações profundas se operam na palavra por meio de flexões e de suffixos, para exprimirem varios pensamentos, mas sempre conservando a ideia primaria. Como observam Weil e Benloew, nas linguas mais antigas predomina a quantidade, que domina e determina o accento, ao passo que nas que mais avançam para a civilisação o accento prevalece sobre a quantidade.[84]

O predominio da accentuação representa historicamente o prevalecimento do espirito logico actuando sobre todas as fórmas da linguagem, como conclue Benloew, dominando a sua ordem ou disposição e a sua versificação.

O velho Latim anterior (treze seculos antes da nossa éra) ao Latim classico, só differia d’este em ter diphtongos, que o litterario reduziu a vogaes simples;[85] vê-se pois que o chamado latim vulgar não estava em decadencia, e se se differenciou do latim tornando-se analytico é por que avançava para uma expressão logica. Mesmo nos escriptores classicos apparecem preposições junto dos casos, e vozes de auxiliares simplificando fórmas verbaes, no periodo do esplendor de Roma. A lingua latina, empregada na Jurisprudencia e nos Editos administrativos, tornou-se quasi hieratica ou sacramental: Uti lingua nuncupassit ita jus esto; e a sua versificação retrogradou para a quantidade. Os outros povos occidentaes eram vivos e progrediam, sem precisarem do estimulo da conquista romana; estavam no periodo da accentuação, e foi esse o principio fundamental das Linguas chamadas romanicas, por meio do qual adaptaram ao seu vocabulario palavras latinas, celticas, germanicas e arabes com um rigor inalteravel como uma lei natural: a persistencia do accento tonico.

A primeira condição para o estudo scientifico das Linguas romanicas foi a descoberta da unidade das Linguas indo-europêas, de cuja filiação se veiu a descobrir uma grammatica geral a esse grupo de linguas; successivamente a analyse comparativa dos seus sons e fórmas, o consequentemente o mesmo methodo proseguido no exame dos seus varios dialectos e derivações.

A unidade linguistica indo-europêa foi entrevista em 1786 por William Jones, e em 1808, Schlegel formulava com toda a nitidez essa intuição: «O antigo indiano, sanskrito, isto é, culto ou perfeito, designado Gronthon, quer dizer, escripto ou dos livros, tem grandissima affinidade com a lingua grega, com a latina, com a germanica e persa. A semelhança consiste não tanto no grande numero de vozes communs a esta lingua, mas principalmente no que pertence á intima estructura e á grammatica. Não se trata de uma concordancia casual, que possa explicar-se por mestiçagem de povos: é concordancia organica, que denuncia uma origem commum.» A comprovação d’este ponto de vista produziu uma revolução scientifica, na creação da Glottologia, da Mythographia e no criterio da Historia, por um conhecimento mais profundo das civilisações áricas.

Começou a ser estudada esta familia linguistica no seu conjuncto, e pela applicação dos novos methodos por Jacob Grimm á Grammatica allemã, começada em 1819, descobriu este erudito genial a lei das modificações e equivalencia dos sons nas linguas germanicas, Umlaut e Ablaut, que constituem o desenvolvimento historico da lingua allemã. Os sons modificam-se em uma escala constante, de fortes, brandos e aspirados, de modo que na situação em que se fixaram pela fórma escripta as palavras, se póde deduzir qual seria a sua fórma anterior. Esta grande lei, que torna a Phonetica uma sciencia natural, applicou-se a um exame mais vasto e verificou-se que dirigia todas as linguas indo-europêas. Existe hoje reduzida a quadro essa escala de sons no sanskrito, zend, grego, latim, erse, esclavonio, lithuanio, gotico e alto-medio allemão. É maravilhoso o resultado da sua applicação ao vocabulario indo-europeu, e as deducções das mutuas similaridades para a chronologia da sua formação, e para a recomposição da lingua árica,[86] de que ellas por circumstancias sociaes e historicas se differenciaram.

Esta lei da permutação dos sons foi tambem applicada ás linguas romanicas tomando por ponto de partida o Latim, e seguindo as suas modificações no Italiano, Valachio, Hespanhol, Portuguez, Provençal e Francez; é a continuação do phenomeno que se patentêa nas linguas flexionaes indo-europêas. Não são pois na sua formação moderna uma decomposição, mas um processo reconstructivo, em que pela modificação de certos sons deixam de ser notadas fórmas que vão desapparecendo.

Foi em 1816 que Bopp, na sua Theoria da Conjugação, estabeleceu o processo da analyse da palavra, tomando o Verbo como aquella que na sua fórma fundamental agrupava a maior somma de differenças desinenciaes, taes como as flexões pessoaes, temporaes, numeraes e modaes. Foi por este processo que chegou a determinar as raizes attributivas, a isolar as raizes pronominaes, a achar a formação dos themas, em volta dos quaes pelos suffixos, prefixos, affixos e infixos se organisa esse corpo complexo e adiantadissimo da palavra. A exposição completa d’este methodo constitue na sua applicação o assombroso trabalho da Grammatica geral das Linguas indo-europêas.

Levada a sciencia da Glottologia a esta perfeição, foi depois o methodo applicado por Frederico Diez á familia das Linguas romanicas, organisando tambem a sua grammatica comparativa. Cahiram por terra as theorias imaginosas de Maffei, Ciampi, Aldrete, Court de Gebelin, La Tour d’Auvergue, Raynouard e Ribeiro dos Santos, formadas a proposito de cada uma das linguas romanicas isoladamente. Pelo estudo dos documentos litterarios provençaes, é que em 1827, Frederico Diez, no seu livro Da Poesia dos Trovadores, lançou as bases da philologia romanica, que depois systematisou na Grammatica das Linguas romanicas, publicada de 1836 a 1844. Tomando o Latim como ponto de partida, por ser escripto ao tempo em que as linguas romanicas ainda eram oraes, determina-lhes as modificações dos seus sons e particularidades prosodicas, as suas similhanças morphologicas, e a identidade syntaxica.

No exame dos sons, chega-se á lei fundamental das linguas romanicas: A persistencia do accento tonico ou vogal accentuada. Mil accidentes podem obliterar o vocabulo, como acontece sendo fallado por boccas estrangeiras, e n’este caso estão os vocabularios romanicos que soffreram a influencia dos povos germanicos, arabes e ainda de eruditos greco-romanos; porém a vogal accentuada conserva-se inalteravel, como o eixo em que se apoia a palavra. É á custa d’esta segurança, que a palavra se abrevia no uso, perdendo uma grande parte do seu corpo. Exemplifiquemos: Episcopus, Bispo; Ecclipse, Cris; Dominus, Dono, Dom; Presbyterus, Preste (ainda em Arcipreste) Prètre; Ungula, Unha; Quadragesima, Carême; Genuculum, Joelho; Rotundus, Rond.

Forçosamente, uma lei phonetica assim tão exclusiva deveria actuar no desprezo pelas inflexões da quantidade, e pelo abandono das flexões casuaes, e da grande variedade das desinencias verbaes. Foi a consequencia d’essa outra lei phonetica das linguas romanicas: A suppressão das vogaes breves não accentuadas. N’este processo a palavra tende a contrahir-se, como em Trifolium (trèfle, trevo), mas tambem se duplica, conservando-se inconscientemente a fórma do caso obliquo, como em Pulvis (pó) e Pulverem (pólvora), Index (endes e indice).

A terceira lei phonetica fundamental é a da: Queda de certas consoantes mediaes, a qual tambem actuou na fórma contrahida das palavras nas linguas romanicas, sendo essa usura referente á sua chronologia. Sirva de exemplo o adverbio Semeptissimus; no provençal encontra-se na fórma semetessme, na lingua d’oc metesme; no italiano medesimo; em lingua d’oc, medesme, meseyme, meisme; no portuguez antigo, medes, meesmo, e em francez même. Com certeza estas contracções mais ou menos intensas representam um trabalho de usura, ligado a causas historicas e sociaes.

Todos os outros sons consonantaes, quer sejam iniciaes ou mediaes, soffrem modificações especiaes em cada uma das linguas romanicas, e é isto o que as differencia umas das outras, por isso que a glotte de cada um d’esses povos não emitte os mesmos sons. Em quanto ao systema vocalico, tambem por elle se fixam as differenças na familia romanica:

«Na vocalisação do hespanhol (sc. castelhano) acha-se muitas vezes o A puro, em quanto que o U, que recebeu do latim, é em geral attenuado e mudado em O; d’este modo a lingua recebeu o caracter de uma lingua artificial, e as durezas são substituidas por sons mais euphonicos. Depois do A, ou antes concorrentemente com elle, o O é a vogal que mais caracterisa o hespanhol.—A lingua franceza, pelo emprego exagerado da vogal E, renunciou á custa da sua euphonia á vocalisação latina; é sobretudo uma lingua artificial, admiravelmente propria para a conversação, mas em geral pouco propria para a poesia, por que a vogal intermediaria E que intervem a cada instante prejudica a vocalisação pura, e além d’isso nunca produz uma elevação e um abaixamento completos. Quanto ao Italiano, de todas as linguas romanicas é a que guardou mais harmonia, por que sustenta a elevação e o abaixamento produzido por A e por U transformado em O pela intervenção do I agudo.»[87]

Na vocalisação da lingua gallega Helfferich e de Clermont, acham o emprego do U, exemplificando com um documento de 1255; em que vem as palavras cunuzuda, tudos, escritu, julgadigu, razues, consellu, buus, etc.[88] Tambem na sua these da Origem da Lingua portugueza, Soromenho nota o mesmo caracter: «No norte de Portugal, na provincia de Entre Douro e Minho, predomina o U na terminação dos nomes. N’um só documento de 936 encontramos reirigu, agru, conclusu, ipsu, dublatu, tolinu, sasarigu, ermegildu, fagildu, sesuldo[89] D’Ovidio observa tambem no portuguez «que o e e o finaes não accentuados pronunciam-se como i e u, como no nosso dialecto calabrez, siculo, leccez, sardo meridional e septentrional, e ainda, quanto ao u, sardo central, corso, genovez, com outros dialectos sardo-italicos.»[90]

Aqui temos já uma caracteristica que assimila as duas linguas congenitas o Gallego e o Portuguez, que tanto se differenciaram por causas historicas. A lingua portugueza não é um dialecto do castelhano, como se julgou inscientificamente, é um organismo autonomo como a sua nacionalidade; faltam-lhe os sons castelhanos c palatal, a spirante guttural tenue j e g, o que influe na maior suavidade da pronunciação portugueza, e possue sons que faltam ao castelhano, como o s doce, o sh e o sg (ex.: rosa, campos, jaspe) e distingue com uma grande delicadeza, que se reflecte nas vozes verbaes, as vogaes fechadas a, e, o das abertas (andamos, andámos), e possue as vogaes nasaes.

Em toda a Europa meridional, as linguas romanicas receberam a fórma escripta, e a disciplina grammatical pela circumstancia da formação das novas nacionalidades; mas a par do Francez (dialecto da ilha de Paris), do Italiano (o toscano), do Hespanhol (o castelhano), do Portuguez (destacando-se do gallego), subsistiram numerosos dialectos, muitos dos quaes conservam preciosos vestigios archaicos de fórmas que revelam o processo formativo. Na Hespanha esses dialectos representam pela sua vitalidade invencivel o vigor dos organismos nacionaes, que ainda luctam através de todas as imposições do centralismo politico.

Mas se a vida historica ou nacional actuou pela fórma escripta no desenvolvimento das linguas romanicas, nem por isso a parte oral deixou de cooperar no seu vocabulario. O estudo do lexico, não se faz simplesmente para determinar os elementos contributivos dos varios povos celticos, latinos, germanicos e arabes, que occuparam o occidente, onde se formaram as linguas romanicas; elle apresenta-nos esse phenomeno do Polymorphismo, em que as leis phoneticas determinam o desdobramento ou duplicidade de palavras, que vão exprimir uma riqueza ideologica. Assim, quando de Plano pelo processo phonetico popular se fez chão e lhano, adquirimos novos vocabulos para designar outras relações materiaes e moraes. São uma das grandes riquezas das linguas romanicas essas Derivações divergentes, que se produzem por varias causas: já como resto da declinação conservada no caso obliquo, como Serpe e Serpente, Chantre e Cantor, Animal, Almalho e Alimaria, Pyrame e Pyramide, Calix e Calice; já pela fórma dupla do participio, como Matado, Morto, Confessado, Confesso, Teudo, Tido; já pela apropriação phonetica vulgar, como Cadencia e Chança, Calido e Caldo, Clave e Chave, Palacio e Paço, Glandula e Landra, Decano e Deão. Muitas vezes regressa-se a uma fórma litteraria, pela necessidade de um neologismo scientifico, como: Amendoa e Amygdala; Coitar e Cuidar, Cogitar; Obra e Opera; Conselho e Concilio; outras vezes pela differença de significação ou semeiologia, como: Tradição e Traição, Bodega e Botica (de Apotheca), Rêlha e Regra, Macula e Malha, Medula e Meolo; algumas vezes por abreviação popular, como: Cem e Cento, São e Santo, Gram e Grande, Tão e Tanto, Galam e Galante, Rol, Rolo e Rótulo.

N’este processo de abreviação popular toca-se um phenomeno de origem etymologica, quando a palavra é a contracção de uma phrase, como em Bacharel, que é uma abreviação de Bas chevallier (d’onde no velho francez Bacheleur); como em Freguez, contracção de Filius ecclesiae (d’onde a fórma Feligres). A palavra Sengo e Senga, significando intelligente, astuto, experimentado, a que na linguagem popular corresponde, lá dizia a velha; é, como observa Diez, a fórma Senectus do latim vulgar, modificada no castelhano em Senecho (senechas, no Canc. de Baena, e no anexim castelhano: Al buen callar llaman Sancho) e Sengo nos autos populares portuguezes do seculo XVI.

Ao mesmo processo de divergencia obedecem os nomes proprios, como vêmos em Benedicto, Benito, Beneyto, Bieito, Benoit, Bento e Vieito; em Didacus, Thiago, Iago, Diogo; em Dominicus, Domingos, Mingo e Mengo.

Frederico Diez considera os varios elementos ethnicos que cooperaram para a creação das linguas romanicas; fallando do germanico, diz que este systema do linguas: «não soffreu nenhuma perturbação essencial do seu organismo; o grupo romanico escapou quasi completamente á influencia da grammatica allemã. Não se póde negar, que haja na formação das suas palavras algumas derivações e composições germanicas, achando-se tambem vestigios germanicos na syntaxe; porém estas particularidades perdem-se na totalidade da lingua.»[91] Se a lingua popular resistiu, manteve-se a par, e por ultimo se impoz ao Latim classico, como não havia de resistir aos incoherentes dialectos germanicos? O proprio Diez reconhece que a sua influencia era insufficiente para differenciarem entre si as diversas linguas romanicas.

O elemento arabe nas linguas romanicas manifesta-se tambem no vocabulario, mas sem influencia directa no regimen phonetico ou morphologico; tem sido esse elemento estudado em quanto á Italia por Narducci, em relação á França por Marcel Devic, em relação a Portugal por Fr. João de Sousa, por Dozy e Engelmann, e em relação á Hespanha por Yanguas e Simonet. Os Arabes representavam uma aristocracia militar incommunicavel; as communicações da população hispanica fizeram-se entre Berberes e Mouros, e a Aravia era um dialecto indistincto tanto de romanico como de arabe com que se entendiam com elles os Mosarabes e os Mulladies, isto é, os que se conservaram christãos e os que apostataram. Quando se pôde examinar nas linguas peninsulares as palavras arabes, escriptas nos documentos mais antigos, reconheceu-se que eram palavras romanicas modificadas pelos arabes e recebidas d’elles por segunda via. E o que se verifica na Architectura arabe, o caracter dos operarios mosarabes, tambem se observa na linguagem, que exprimia a riqueza de uma civilisação de que os arabes se apropriaram. Tal tem sido a revindicação laboriosamente fundamentada por Simonet. A civilisação occidental não teve por unico fóco Roma; e se ella se lhe impoz pelas Gallias e pela Hispania, tambem se impoz aos Arabes como se vae reconhecendo. Um certo sentido pejorativo se ligava a grande numero de palavras arabes, taes como o nome de Caschich, dado ao sacerdote christão, e que é uma interjeição popular Cachicha! com que se exprime a repugnancia pela porcaria; Azambrado, Madraço, Léria, exprimem tambem ideias de chasco e descompostura em contraposição ao seu sentido natural; a injuria Safardana era o titulo de gloria dos Judeus de Hespanha que a si se chamam Sephardin, para se distinguirem dos outros elementos da raça. Devem apparecer nomes arabes designativos de funcções sociaes, cargos administrativos, da mesma fórma que das palavras germanicas apparecem os termos que designam instituições feudaes e material de guerra.

Na longa lucta da reconquista, as povoações sedentarias ficavam indifferentes á sorte das batalhas; os Mulladies voltavam ao seu culto primitivo, e a Aravia, que os Mosarabes fallavam eram os dialectos vulgares ou Ladinha christenga, que em breve se iam desenvolver como linguas nacionaes. A designação de Aravia passava a significar o cantar-romance, que veiu a servir de primeiro elemento tradicional da historia.

Se causas sociaes profundas, como a dissolução do Imperio romano e invasões germanicas, actuaram no desenvolvimento dos dialectos ou Linguas romanicas, eguaes causas, como o fim das invasões dos Saxões do norte da Europa e o combate successivo contra o dominio dos Arabes no sul, determinaram a estabilidade necessaria para o estabelecimento de novas nacionalidades, em que as Linguas romanicas attingiram a sua fórma e perfeição litteraria.

Essas linguas, assimilando por uma fórma viva elementos latinos, germanicos, gregos e arabes, tornam-se orgãos importantes para a continuação da Civilisação occidental, de que cada nação foi um activo factor, cabendo durante toda a Edade media essa hegemonia á França.

Na peninsula hispanica a constituição das novas nacionalidades depois da reconquista christã está intimamente ligada aos seus dialectos; aquelles territorios que alcançaram autonomia ou que a souberam sustentar desenvolveram com a cultura litteraria os seus dialectos locaes. Muitas d’essas nacionalidades, como a Galliza, a Catalunha e Aragão foram incorporadas na unidade politica de Castella, mas o seu espirito autonomista ou regionalista sobreviveu e luctou sempre com a vitalidade dos seus dialectos gallego, catalão, aragonez, contra o uso official do castelhano. No Poema de Alexandre e no Poema do Cid esboçam-se as fórmas linguisticas que se fixam no castelhano; nos poemas de Gonzalo de Berceo, em que se reflecte a influencia dos trovadores, destaca-se já a feição peculiar do catalão; o rei Affonso o Sabio escrevendo a prosa em castelhano, prefere de um modo exclusivo o gallego para a poesia.

A cultura litteraria da região gallega que escapára ás invasões arabes, fez com que essa lingua fosse muito cedo escripta, de modo que ella conserva ainda hoje fórmas archaicas já modificadas no portuguez, ou que em Portugal ficaram plebeismos. A lingua gallega e a portugueza constituem um grupo homogeneo, que tenderia a unificar-se em um centro nacional, se o territorio da Galliza até ao Mondego ou até ao Tejo se não desmembrasse pela creação de dois Condados; mas conservariam sempre differenças dialectaes, como se vê no gallego septemtrional e no meridional. A lingua portugueza, como observa Diez, tem caracteres originaes proprios. Conforme porém os centros de cultura preponderassem, assim seria exercida a influencia, do gallego sobre o portuguez, como primeiramente se deu, ou do portuguez sobre o gallego, como se vê impresso na lingua.

A primitiva unidade territorial já fôra reconhecida pelos geographos antigos; Strabão chamava Gallaicos aos Luzitanos. Quando o Marquez de Santillana considerava os gallegos e portuguezes os primeiros que exerceram na Hespanha a arte de trovar, mal sabia que essa região pertencia áquelle elemento ethnico que creou o lyrismo trobadoresco. Desde 863 existia a Galliza como um Condado independente, luctando fortemente pela sua autonomia contra a annexação leoneza em 885, que desfez ao fim de vinte e cinco annos, e vindo por ultimo a cahir na unificação dos outros estados peninsulares, abafada a revolta separatista de 981. Bastava esta energia social para que a Lingua se desenvolvesse; deu-se o facto; tinha uma côrte, e ahi se educára Affonso o Sabio, que nas Cantigas de Nossa Senhora empregou a lingua que melhor lhe exprimia os seus sentimentos. Forçosamente a lingua gallega devia actuar nas fórmas do portuguez, que ainda não tinha uso litterario. E esse cunho gallego, como o pronome che por te, douche por dou-te, chegou a reflectir-se nos escriptores portuguezes dramaticos do seculo XVI.

Quando, porém, Affonso VI desmembrou da Galliza o Condado de Portugal, que em breve tempo se tornou um estado livre, a lingua portugueza começou a ter um desenvolvimento proprio, devido a esta circumstancia, por que incorporada a Galliza desde 1073 na unidade castelhana, Portugal foi estendendo o seu dominio para o sul, abrangendo as populações mosarabes da Beira, e recebendo uma certa cultura dos bispos francezes chamados para as dioceses recem-estabelecidas. Na marcha successiva da organisação da nacionalidade portugueza, a sua côrte torna-se um centro de convergencia de trovadores occitanicos, e por seu turno a lingua portugueza actúa sobre o gallego. Em grande parte o vocabulario portuguez é egual ao gallego mascarado com ortographia castelhana; mas a situação politica da Galliza, entre Portugal autonomo e Castella, de que é uma provincia, reflecte-se fundamentalmente na sua lingua. Exemplificando: soubo, analogo ao portuguez soube, muda o e em o pela influencia do supo castelhano; o mesmo nas palavras derivadas com o suffixo em ouro no portuguez, que o gallego conserva em oiro (sumidoiro, dobadoira), modificado pela influencia do castelhano, sumidero, devanadera. D’Ovidio synthetisa esta dupla influencia sobre a lingua gallega nos nomes dos dias da semana, parte tirados do castelhano como lunes (lues), martes, e parte do portuguez, como corta feira (quarta-feira). A lingua gallega conserva, além das suas fórmas originaes, outras archaicas do portuguez e mesmo populares nas nossas provincias; estes phenomenos ajudam a penetrar o processo de formação da lingua portugueza supprindo a falta de documentos. Desde Fernando o Magno o territorio portucalense formava parte da Galliza, cujas fronteiras em 1065 se estendiam até ao Mondego, e depois de 1093 até ao Tejo, apoz a tomada de Santarem, Lisboa e Cintra. A vinda dos cavalleiros frankos á peninsula, que ajudaram o monarcha leonez na batalha de Zalaka em 1086, influiu no acto de desmembração de Portugal, por que as cidades livres ou Behetrias esparsas n’este territorio e a sua situação na proximidade do mar, provocavam á creação d’esse organismo nacional. Á medida que a vida de côrte actuava no desenvolvimento da lingua portugueza, a paixão pela poesia trobadoresca forçava a imitar essas novas fórmas lyricas, apropriando-se de elementos provençaes, e creando um dialecto em parte artificial, o galleziano, em que versejavam todos os jograes que vinham a Portugal de Aragão, Valencia, Castella, Galliza e mesmo do Béarn. Certos provençalismos e italianismos dos antigos Cancioneiros portuguezes são consequencia de uma necessidade do artificio prosódico. Pela situação da Galliza como provincia submissa, a lingua gallega deixou de ser escripta, cahindo assim com o tempo na espontaneidade popular, e na sua immobilidade archaica. Muitas das suas palavras alteraram-se por metateses negligentes, como drento (dentro), prubico (publico), prove (pobre); a sua conjugação conserva certos tempos já transformados no portuguez, como: Falades (fallaes), faledes (falleis), falariades (fallarieis). Em consequencia da actividade de um organismo politico nacionalista, o portuguez torna-se escripto, e este facto determina o processo de um constante neologismo no seu lexico, já pelas traducções latinas das obras ecclesiasticas, já pela cultura juridica das escólas, já pela communicação dos poemas e novellas francezas, e pela fórma escripta foi continuamente a separar-se da corrente popular ou das fórmas vulgares, por um excesso tal que chegou a ser reconhecido.