E o exercito contrario entra rugindo
Na villa, que as suas portas lhe franqueia:
Rasteiro corre o incendio e surdamente
O custoso edificio ataca e mina.
Eis que a chamma roaz amostra as fendas
Das portas que se abrasão; descortina
O torvo olhar do vencedor—apenas—
Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!
Urros de frenesi, de dôr, de raiva
Escutão dos que, ás subitas colhidos,
Contra os muros em brasa se arremeção;
Dos que, perdido o tino, intentão loucos
Achar a salvação, e a morte encontrão.
Lá dentro confusão, silencio fóra!
São carrascos aqui, victimas dentro.
Geme o travejamento, estrala a pedra,
Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,
E o fumo ennegrecido se ennovella
Co’o vertice sublime os céos roçando.
Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,
Como ignea columna que da terra
Hiante rebentasse,—tal se eleva,
Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce
A labareda portentosa; e baixa,
E desce á terra, e o edificio enrola,
E o sorve inteiro, qual se forão vagas
Que a dura rocha do alicerce abalão,
Que a enlação, como a prêa,—e ao fundo pégo
Levão, deixando o mar branco d’espuma.
No horror da noite, sibilando os ventos,
Lingoas pyramidaes do atroz incendio,
Fumosas pelas ruas estalando,
Tingem da côr do inferno a côr da noite,
Tingem da côr do sangue a côr do inferno!
—O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.