Quanto o sol mais se abaixava,
Tanto mais alto gemia
Aquella moira mimosa,
Que as suas magoas carpia:
He hora que espalha enlevos
A hora do fim do dia!
O passaro então das ramas,
Louvor a nosso Senhor!
Ultimo vôo desprega
E hum doce grito de amor;
Nas pennas esconde o bico,
Nem teme o visgo tredor.
As froles do sol viuvas
Definhão, só de tristura:
O mar soluçando geme,
Mais alto a fonte murmura,
Reina o silencio que falla,
Bafeja a doce frescura.
«Vistes vós meo bem amado,
(Dizia a filha d’Allah)
«Vistes vós meo bem amado,
«O meo senhor Mustaphá!
«Se o vistes, dizei-me onde!
«Por alma vossa, onde está?
«A noite o deixou fechado
«Portas a dentro do harem:
«Sorvia aquelles perfumes,
«Que lá d’Arabia nos vem;
«Trajava os reais vestidos,
«Que lhe cahião tão bem.
«Já era sobre-manhã
«Quando de mi se apartou;
«Seo negro corsel d’Arabia
«D’um pulo só cavalgou,
«E o sol que vinha raiando
«Lá na montanha o topou.
«Vio daly seos bons guerreiros,
«Em alas promptos estão;
«De fronte mal enxergava
«O troço do rey christão;
«Disse o crente musulmano:
«Allah m’os trouxe, meos são!
«Allah! lhes grita o guerreiro,
«Respondem-lhe os seos: Allah!
«Gritão Christãos: Sam Tiago!
«E o meo senhor Mustaphá
«Desceo então da montanha,
«Que nunca mais subirá.
«Desceo elle da montanha
«Qual rocha descommunal,
«D’agudo cimo tombando,
«Arrazando o pinheiral;
«Mas a rocha em fundo valle
«Faz-se pedaços, em mal!
“Desceo elle ao fundo valle,
“Como o tufão queimador;
“Polos christãos inimigos
“Cortou sem pena e sem dôr;
“Raio d’esforço na guerra
“Foy Mustaphá, meo Senhor!
“Mas o vento do deserto
“Depois de médas formar
“Das areias que agglomera,
“Onde he que vai acabar?
“Mafoma e Allah que mo digão,
“Que eu não sei senão chorar!
“Allah quebrou teo orgulho,
“Meo bom senhor Mustaphá!
“Allah quebrou teo orgulho,
“Mas quando se acabará
“Vida que Vives de escravo,
“Vida que levas tam má?
“Doces Huris do Propheta,
“Lá do palacio de Allah,
“Olhavão cá pera baixo
“Só pera ver Mustaphá!
“Guerreiro não foi como elle,
“Como elle ninguem será.
«De ser elle o meo amado,
«Ai que já fui bem feliz!
«De ser elle o meo amado
«Tinhão-me inveja as huris:
«Ora não ha quem m’inveje!
«Foy Allah que assim o quiz.
«Ora não ha quem m’inveje!
«Tenho no peito afflicção;
«Escrava sou d’hum escravo,
«Escravo d’hum vil christão!
«Mesquinha, que ainda o amo;
«Trago-o aqui no coração!»
Então pera junto della
Cheguei-me sem ser sentido;
Fallei-lhe em som cavernoso,
Medonho e baixo no ouvido:
¿Por que assi amas o escravo?
Disse eu, do meo mal vencido.
Foy certo o esprito malvado
Quem pera ally me arrastou,
Quem nos meos castos ouvidos
Palavras tais derramou,
Quem aos pés da moça moira
O velho padre acurvou.
Era elle quem nos meos hombros
Pezava co’o pezo seo,
Quando a moita espavorida
Do vasto leito se ergueo:
Vendo-me ally de giolhos,
Baixou de medrosa o véo.
O véo baixou de corrida,
Mas antes seos olhos vi;
Aquelles olhos fermosos
Lavar-me o rosto senti,
Tocar-me no fundo d’alma,
Tirar-me todo de mi.
Luz que vi d’aquelles olhos!
Ora bem se me afigura
A lua rasgando as trevas
Em meio de noite escura:
Vi Diana, a caçadora,
N’aquella hardida postura.