—Sim, demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convem partir, e já!
—Que novos males
Nos resta de soffrer?—que novas dores,
Que outro fado pior Tupan nos guarda?
—As setas da afflicção já se esgotárão,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.
—Mas tu tremes!
—Talvez do afan da caça...
—Oh filho caro!
Um quê mysterioso aqui me falla,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupan que nos afflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!...—
E com mão tremula, incerta
Procura o filho, tateando as trevas
Da sua noite lugubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéa fatal correu-lhe á mente....
Do filho os membros gelidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo:—foge, volta,
Encontra sob as mãos o duro craneo,
Despido então do natural ornato!....
Recúa afflicto e pavido, cobrindo
Ás mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porêm mais clara,
D’aquelle exicio grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Elle o via; elle o tinha alli presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dôr passada, a previsão futura
E o presente tão negro, alli os tinha;
Alli no coração se concentrava,
Era n’um ponto só, mas era a morte!