Agora, as razões pelas quaes eu naufragaria sempre no verso. Si o que estava nas paginas de Amour et Dieu fosse novo, eu poderia, de certo, orgulhar-me do meu pensamento; ainda assim, entretanto, não seria poeta. Não era novo, porém. Tomem-se essas quadras:
Si ninguem tivesse dito o mesmo antes, essa humanidade esperando a adopção de Deus, que é ainda, por emquanto, um suspiro do seu coração, seria o germen de uma seductora philosophia; aquelle trecho, porém, é a traducção, em verso fraco e mal trabalhado, do que Renan mesmo tomára aos allemães e tinha expressado de modo perfeito na mais elegante das prosas. O que me enganava nos meus versos, parecendo-me sonoro e elevado, não pertencia á poesia, pertenceria á eloquencia. Aqui está uma ode á França; é a Alsacia-Lorena que falla á Allemanha:
Mme. Caro, no agradecimento que me manda, escreve: «Os dois braços mutilados levantados para os Céos, acabarão, tenho confiança, por vencer o destino.» Os dois braços mutilados podiam ser os dois joelhos dobrados em oração, os dois pés acorrentados, ou o figado do Prometheu dos Vosges devorado pela aguia negra da Prussia e renascendo sempre. Tudo isto é do dominio da rhetorica e do pamphleto politico: é um libello em hemistichios como a Nemésis de Barthélemy. Nada é mais contrario á poesia do que a emphase, o logar-commum e o pathetico da oratoria. Onde começa o advogado ou o tribuno, acaba o poeta.
O facto é que não possúo a fórma do verso, na qual a idéa se modela por si mesma e donde sáe com o timbre proprio da verdadeira rima, que nenhum artificio nem esforço póde imitar. Isto, por um lado, quanto á pequena poesia, á poesia solta, ao que se póde chamar a musica da poesia. Quanto á grande poesia, á poesia de imaginação e creação, poema, romance, bailada que fosse, para essa eu seria incapaz, além da insufficiencia do talento, pela falta de coragem para habitar a região solitaria dos espiritos creadores, os quaes vivem naturalmente entre figuras tiradas de si mesmos, sem vida propria, automatos da sua intelligencia e da sua vontade, como em um sonho accordado. Nessa altura, onde tudo é ficticio, tudo irreal, tudo phantastico, a poesia tem para mim o terror do adytum da Pythia. Mesmo quando as figuras sejam meigas, suaves, humanas, a creação envolve sempre alguma coisa de mysterioso e terrivel; a completa abstracção, que ella suppõe, da realidade exterior, do mundo dos sentidos, me daria vertigem.
Ha, além da poesia de sentimento e da poesia de creação, outra poesia. O verso é a mais nobre fórma do pensamento, a mais pura crystallisação da idéa, e, como se tem dito, o que não se póde expressar em verso não vale quasi a pena ser conservado. Essa poesia, porém, que engasta as bellas idéas na mais duravel e perfeita da cravações, pertence quasi á especie dos proverbios, em que se condensa e perpetúa a sabedoria humana. Em Homero ella confunde-se com a historia; em Dante com o catholicismo; em Gœthe com a arte e com a sciencia. Essa é do dominio dos mais altos genios.
A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota individual; mas, como eu disse, não encontrei em mim a tecla do verso, cuja resonancia interior não se confunde com a de nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesse recebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasci artista. Acredito ter recebido como escriptor, tudo é relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de poesia, o que tudo junto póde dar, em quem não teve o verso, uma certa medida de prosa rhythmica; mas da arte não recebi sinão a aspiração por ella, a sensação do orgão incompleto e não formado, o pezar de que a natureza me esquecesse no seu côro, o vacuo da inspiração que me falta... Ustedes me entienden. «O artista, disse Novalis, deve querer e poder representar tudo.» Dessa faculdade de representar, de crear a menor representação das coisas,—quanto mais uma realidade mais alta do que a realidade, como queria Gœthe,—fui inteiramente privado. Nem todos os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem todos os artistas têm o dom do verso: a prosa os possúe como a poesia; a mim, porém, não coube em partilha nem o verso nem a arte.
É singular como entre nós se distribue o titulo de artista. Muitas vezes tenho lido e ouvido fallar de Ruy Barbosa como de um artista, pelo modo por que escreve a prosa. No mesmo sentido poder-se-ia chamar a Krupp artista: a fundição é de alguma fórma uma arte, uma arte cyclopica, e de Ruy Barbosa não é exaggerado dizer, pelos blocos de idéas que levanta uns sobre outros e pelos raios que funde, que é verdadeiramente um cyclope intellectual. Mas o artista? Existirá nelle a camada da arte? Si existe, e é bem natural, ainda jaz desconhecida delle mesmo por baixo das superposições da erudição e das leituras. Eu mesmo já insinuei uma vez: ninguem sabe o diamante que elle nos revelaria, si tivesse a coragem de cortar sem piedade a montanha de luz, cuja grandeza tem offuscado a Republica, e de reduzil-a a uma pequena pedra. Aqui está outro, José do Patrocinio, que não é tambem um artista, ainda que em sua prosa se encontre o veio de ouro da poesia, filão, é certo, fugitivo, e que se perde a cada instante na rocha politica. Della poder-se-ia extrahir verdadeira poesia; fazer com as palhetas da sua phrase pelo menos uma imagem, a da loura mãe dos captivos, assim como com o sopro da sua eloquencia de combate se faria um baixo-relevo para um arco de triumpho: o Chant du Depart da abolição. Tambem elle não tem a faculdade do verso, no qual naufragaria como naufragou no romance, porque o seu reflexo intellectual tem a vibração e a rapidez do relampago, e o verso é por natureza diamantino. Por isso mesmo tambem sua prosa, em que por vezes ha o toque da poesia, e quasi o calor do sentimento creador, ainda não pertence á arte, como pertence a de Chateaubriand, a de Renan, por exemplo, porque não é um estylo. Não tem governo, tem apenas medida; reflecte a acção confusa, a agitação perpetua de uma epocha desequilibrada, sem um instante de calma, de eternidade, em sua obra, no todo, genial. Agora outro muito diverso. Haverá quem não sinta a musica innata de Constancio Alves? Este é bem da ordem dos passaros, tem o canto; a prosa delle gorgeia, sobe, trina; no emtanto, si quizesse reduzir a uma obra d’arte a ironia melodiosa que tem em si, que restaria della?
Eu disse que me faltava o dom do verso. O timbre do verso reconhece-se em qualquer quadra. Tome-se Olavo Bilac, por exemplo. Não posso fallar de Luiz Murat, que tem maior voadura de imaginação, porque tenho até hoje respeitado instinctivamente o cháos da sua arte; sinto que ha no seu talento os elementos da poesia, menos a ordem, o principal de todos, mas que, felizmente para elle, se adquire, ao passo que os outros são de herança. Suas fórmas confusas e intricadas parecem-me de muda, e eu o aguardo na epocha em que a mocidade tiver gastado a sua violencia e elle entrar no bosque das Musas levando o silencio e a tranquillidade na alma. «Elle ensinou-me, disse Gœthe fallando de Oeser, que a belleza é simplicidade e repouso, do que se segue que nenhum joven póde tornar-se un mestre.» De Murat esperarei para fallar que primeiro elle encontre o seu Oeser. Tome-se Bilac, porém. Basta lêr a Profissão de Fe em Panoplias, para vêr que o verso nasceu com elle, que não é um esforço, um trabalho, mas a expressão livre, franca, natural do pensamento:
Não me cabe inquirir si o artifice se cingiu sempre em sua obra ás regras do officio, que tão perfeitamente esculpiu; o buril da rima, porém, está em sua mão e ninguem se póde enganar sobre a especie de metal que elle é digno de lavrar.
O facto que eu quería assignalar, é sómente que contrahi em França neste anno de 1873-74 a aspiração de auctor, a qual se desenvolveu ao contacto de grandes espiritos da epocha, que me acolheram como eu podia desejar, especialmente Renan, Scherer, George Sand.
Renan me déra o conselho, que transmitto á nova geração de litteratos, de entregar-me a estudos historicos. Não ha em regra nada mais ingrato, mais futil, do que a producção que o individuo tira toda de si, e é o que acontece quando o talento não tem uma profissão litteraria séria. Ha estudos, como as humanidades, que são apenas a habilitação do espirito para a carreira das lettras; quem os tem póde dizer que possúe a ferramenta do seu officio; além da ferramenta, ha, porém, que escolher o material. O material em que trabalham os nossos homens de lettras, são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou dramaturgos; as leituras, quando são criticos, a propria vida ou impressões, quando são poetas.
O material preferido é, como se vê, todo elle pouco consistente, ephemero, em parte grosseiro, em parte imprestavel ou insufficiente, e assim a producção é quasi toda facil, improvisada, sem trabalho anterior, sem investigações, sem esforço, sem tempo, sem nenhum elemento que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina e a emulação de uma especialidade, que acontece? A intelligencia contráe o habito da dissipação, da indolencia, do parasitismo; o talento relaxa-se, perde todo o peso especifico. Temos por isso uma litteratura desoccupada; o nosso campo litterario é composto de flâneurs. A verdade é que vae augmentando consideravelmente em nosso tempo o que Matthew Arnold traduziu por inaccessibilidade ás idéas, e que esse novo Philistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes litterarios a um só genero de iguarias, o genero nature. O publico, o protector moderno das lettras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de meia-cultura, mesmo em França e na Inglaterra. Aconselhar a jovens brasileiros que se dediquem a estudos historicos desinteressados, é aconselhar-lhes a miseria; mas as leis da intelligencia são inflexiveis e a producção do espirito que não se alimenta sinão de sua propria imaginação, tem que ser cada dia mais frivola e sem valor.
Não me aproveitei do conselho de Renan sinão tarde de mais na vida, quando comecei a preparar a biographia de meu pae, que é uma perspectiva da epocha toda de D. Pedro II. O aviso, porém, ahi fica para os que quizerem desenvolver e aperfeiçoar o talento litterario que possuem, em vez de dispersal-o e nada apurar delle. O conselho não deixou, entretanto, de influir no meu espirito, si não para me disciplinar a mim mesmo, ao menos para me fazer aquilatar o valor do trabalho e da indagação e sentir a inutilidade, a vacuidade do que é puramente pessoal e espontaneo, desde que não seja caracteristico.
Das minhas conversas com Scherer, o que me contagiou foi a sua admiração pelo romance inglez, que parecia ser a litteratura da casa.—Adam Bede, Jane Eyre, etc. Em mim a conquista anglo-saxonia começou por Thackeray, que li então, como já disse, no retiro de Fontainebleau. A respeito dos meus versos, o grande critico manteve esse silencio desanimador dos medicos que não sabem enganar, quando os doentes ingenuos que se fizeram auscultar, querem surprehender e penetrar com perguntas insidiosas a realidade do seu estado.
A febre poetica que se tinha apossado de mim com esse primeiro ensaio de Amour et Dieu, não devia ceder facilmente; eu queria resgatar esse esboço, que me parecia inferior e imperfeito, substituil-o, e uma idéa, que estava em germen em uma de suas poesias, desprendeu-se delle e tomou em meu espirito as proporções extravagantes de um grande drama em verso. Deste fallarei mais tarde. Como se vê, bem pouco do politico militante restava depois dessa primeira viagem á Europa; eu trocára em Pariz e na Italia a ambição politica pela litteraria: voltava cheio de idéas de poesia, arte, historia, litteratura, critica, isto é, com uma espessa camada européa na imaginação, camada impermeavel á politica local, a idéas, preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo o que em politica não pertencesse á esthetica, portanto tambem do republicanismo,—porque a minha esthetica politica tinha começado a tornar-se exclusivamente monarchica.