A abolição teria sido uma obra de outro alcance moral, si tivesse sido feita do altar, pregada do pulpito, proseguida de geração em geração pelo clero e pelos educadores da consciencia. Infelizmente, o espirito revolucionario teve que executar em poucos annos uma tarefa que havia sido desprezada durante um seculo. Uma grande reforma social, para ser agradavel a Deus, exige que a alma do proprio operario seja purificada em primeiro logar. São essas as primicias que elle disputa e que lhe pertencem. A differença é grande, mesmo para as emprezas mais justas e mais bellas, si as levamos por deante com espirito de verdadeira caridade christã, ou si não empregamos nellas sinão essa especie de estimulo pessoal a que em moral leiga se chama amor da humanidade. O reformador não vencerá completamente pela copia de justiça que a sua idéa contenha; o resultado da victoria depende do gráu de caridade que inspirar a germinação. A politica é a arte de escolher as sementes; a religião, a de lhes preparar o terreno.
O movimento contra a escravidão no Brasil foi um movimento de caracter humanitario e social antes que religioso; não teve por isso a profundeza moral da corrente que se formou, por exemplo, entre os abolicionistas da Nova-Inglaterra. Era um partido composto de elementos heterogeneos, capazes de destruir um estado social levantado sobre o privilegio e a injustiça, mas não de projectar sobre outras bases o futuro edificio. A realisação da sua obra parava assim naturalmente na suppressão do captiveiro; seu triumpho podia ser seguido, e o foi, de accidentes politicos, até de revoluções, mas não de medidas sociaes complementares em beneficio dos libertados, nem de um grande impulso interior, de renovação da consciencia publica, da expansão dos nobres instinctos sopitados. A liberdade por si só é fecunda, e sobre os destroços da escravidão refar-se-ha com o tempo uma sociedade mais unida, de idéas mais largas, e é possivel que esta proclame seus creadores aquelles que não fizeram mais do que interromper a oppressão que presidia aos antigos nascimentos, os gemidos que assignalavam no Brasil o apparecer de mais uma camada social. A verdade porém, é que a corrente abolicionista parou no dia mesmo da abolição e no dia seguinte refluia.
Durante a campanha abolicionista, em uma das eleições em que fui candidato, um escravo, que parecia feliz, suicidou-se em uma fazenda de Cantagallo. Contou-me uma senhora da familia, annos depois, que perguntado no momento da morte por que attentára contra si, si tinha alguma queixa, elle respondera ao senhor que não, que pensou em matar-se sómente porque eu não tinha sido eleito deputado... Tenho convicção de que a raça negra por um plebiscito sincero e verdadeiro teria desistido de sua liberdade para poupar o menor desgosto aos que se interessavam por ella, e que no fundo, quando ella pensa na madrugada de 15 de novembro, lamenta ainda um pouco o seu 13 de maio. Não se poderia estar em contacto com tanta generosidade e dedicação sem lhe ter um pouco adquirido a marca. Desde a dynastia, que tinha um throno a offerecer, ninguem que tenha tomado parte em sua libertação, o lastimará nunca. Não se lastima a emancipação de uma raça, a transformação immediata do destino de um milhão e meio de vidas humanas com todas as perspectivas que a liberdade abre deante das futuras gerações. Não ha raças ingratas. «Senhor Rebouças, dizia a Princeza Imperial a bordo do Alagoas, que os levava juntos para o exilio, si houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltariamos para libertal-os.»
Ah! de certo o throno cahiu e muita coisa seguiu-se que me podia fazer pensar hoje com algum travo nesses annos de perfeita illusão... mas não, devia ser assim mesmo... As consequencias, os desvios, as aberrações, estranhas e alheias, não pódem alterar a perfeita belleza de uma obra completa, não destróem mais o rhythmo de um cyclo encerrado... No dia em que a Princeza Imperial se decidiu ao seu grande golpe de humanidade, sabia tudo o que arriscava. A raça que ia libertar não tinha para lhe dar sinão o seu sangue, e ella não o quereria nunca para cimentar o throno de seu filho... A classe proprietaria ameaçava passar-se toda para a Republica, seu pae parecia estar moribundo em Milão, era provavel a mudança de reinado durante a crise, e ella não hesitou; uma voz interior disse-lhe que desempenhasse sua missão, a voz divina que se faz ouvir sempre que um grande dever tem que ser cumprido ou um grande sacrificio que ser acceito. Si a monarchia pudesse sobreviver á abolição, esta seria o seu apanagio; si succumbisse, seria o seu testamento. Quando se tem, sobretudo uma mulher, a faculdade de fazer um grande bem universal, como era a emancipação, não se deve parar deante de presagios; o dever é entregar-se inteiramente nas mãos de Deus. E quem sabe... A impressão quando se olha da altura da posteridade, da historia, é que o papel nacional da dynastia tinha sido bello demais para durar ininterruptamente... Não ha tão extensos espaços de felicidade nas coisas humanas; o surto prolongando-se traria a queda desastrosa. Essa dynastia teve só tres nomes. O fundador fez a independencia do joven paiz americano, desintegrando a velha monarchia européa de que era herdeiro; seu filho encontra aos quinze annos o Imperio enfraquecido pela anarchia, rasgando-se pela ponta do Rio Grande, e funda a unidade nacional sobre tão fortes bases que a guerra do Paraguay, experimentando-a, deixou-a á prova de qualquer pressão interna ou externa, e faz tudo isso sem tocar nas liberdades politicas do paiz que durante cincoenta annos são para elle um noli me tangere... Por ultimo, sua filha renuncia virtualmente o throno para apressar a libertação dos ultimos escravos... Cada reinado, contando a ultima regencia da Princeza como um embryão de reinado, é uma nova coroação nacional: o primeiro, a do Estado; o segundo, a da nação; o terceiro, a do povo... A columna assim está perfeita e egual: a base, o fuste, o capitel. A tendencia do meu espirito é collocar-se no ponto de vista definitivo... Deste o 15 de novembro não é uma queda, é uma assumpção... É a ordem do destino para que a dynastia brasileira fosse arrebatada, antes de começar o seu declinio, antes de correr o risco de esquecer a sua tradição.
De certo o exilio de Imperador foi triste, mas tambem foi o que deu á sua figura a majestade que hoje a reveste... Não, não ha assim nada que me faça olhar para a phase em que militei na politica com outro sentimento que não seja o de uma perfeita gratidão... Não devo á dynastia nenhuma reparação; não lhe armei uma cilada; na humilde parte que me coube, o que fiz foi acenar-lhe com a gloria, com a immortalidade, com a perfeição do seu traço na historia... Ninguem póde affirmar que desprezando a abolição ella se teria mantido, ou que não teria degenerado... A abolição em todo o caso era o seu dever, e ella recolheu a gloria do acto; deu-nos quitação...
Que seria feito na historia da lenda monarchica brasileira si no mesmo dia se tivesse proclamado a Republica e a Abolição? Gratidão infinita pelo 13 de maio, isso, sim, lhe devo e deverei sempre; nunca, porém reparação de um damno que não causei...