XXIII
PASSAGEM PELA POLITICA

Ah! o que não recebi nesses annos de lucta pelos escravos! Como os sacrificios que por vezes inspirei, eram maiores que os meus! Eu tinha a fama, a palavra, a carreira politica... É certo que não tive outras recompensas, mas essas eram as mais bellas para um moço, nesse tempo avido de nomeada e das sensações do triumpho. Era o meu nome que sahia victorioso das urnas numa dessas eleições que electrisavam os espiritos liberaes de todo o paiz, que me traziam de longe as bençãos dos velhos quakers da Anti-Slavery Society, e até uma vez os votos de Gladstone... Aquelles, porém, que concorriam para a victoria desappareciam na lista anonyma dos esquecidos... Seus nomes, mesmo os principaes, não echoavam fóra da provincia... Só, dentre elles, José Mariano era conhecido de todo o paiz e reputado o arbitro eleitoral do Recife. Quem conhecia, porém, a Antonio Carlos Ferreira da Silva, então simples guarda-livros em uma casa do Recife, que no emtanto fez todas as minhas eleições abolicionistas? A verdade é que era elle o espirito que movia tudo em meu favor; sem elle tudo teria corrido em outra direcção... Essa é a melhor prova do caracter espontaneo, natural, popular, das minhas eleições do Recife, o ter bastado para fazel-as um homem como elle, sincero, dedicado, intelligente, leal, habil, todo coração e enthusiasmo sob uma mascara de frieza e misanthropia, mas sem posição, sem fortuna, sem status politico, sem ligação de partido, simples abolicionista, nunca apparecendo em publico, e, além do mais, republicano confesso... Essa circumstancia só por si mostra bem a sinceridade, a humildade, a ingenuidade de todo esse movimento de 1884-1888. Esse foi o meu paranympho... Os muitos que trouxeram o seu valioso concurso para o successo da causa commum, ou para meu triumpho pessoal, como aconteceu com tantos, comprehenderão o meu sentimento quando ainda uma vez revelo o segredo da minha relação com o Recife, dizendo que Antonio Carlos, que nada era e nada quiz ser, foi o verdadeiro auctor della... Não esqueço ninguem, a começar por Dantas, que me fez quasi forçadamente seguir para o Norte a pleitear um dos districtos da provincia; não esqueço de certo o dr. Ermirio Coutinho e o dr. Joaquim Francisco Cavalcanti, de cuja dupla renuncia resultou a minha inesperada eleição pelo Quinto districto, uma semana depois de annullarem o meu diploma pelo Primeiro, passe eleitoral que surprehendeu a todos na Camara e em que Antonio Carlos foi grandemente ajudado pelo seu amigo dr. Coimbra. Tambem não esqueço José Mariano, cuja lealdade para commigo foi perfeita em circumstancias que poriam á prova a emulação e a susceptibilidade de outro espirito, capaz de inveja ou de ciumes; nem a suave physionomia, um puro Carlo Dolce, da sua meiga e amorosa D. Olegarinha, tão cedo esvaecida, a qual nas vesperas da minha eleição, que José Mariano fizera delle, contra o Ministro do Imperio, fez empenhar joias suas para o custeio da lucta, o que só vim a saber no dia seguinte, quando o partido as resgatou e lh’as foi levar... Não esqueço ninguem, nenhum dos chefes e centuriões liberaes, Costa Ribeiro, João Teixeira, Barros Rego, o Silva da Magdalena, Faustino de Brito, os Rochas do Peres: seria preciso citar cem, duzentos... Nenhum tambem desse grupo de abolicionistas, que me recebeu com Antonio Carlos: Barros Sobrinho, João Ramos, Gomes de Mattos, João Barbalho, Numa Pompilio, João de Oliveira, Martins Junior, todos elles; não esqueço os brilhantes artigos de tantos jornalistas distinctos, sobre todos Maciel Pinheiro, o amigo de Castro Alves, austero, rutilante, genial, figura que lembra o traço velazquiano, ao mesmo tempo sombrio e luminoso. E são esses sómente os primeiros nomes que me vieram á penna. Outros, muitos outros, estão egualmente presentes ao meu espirito como Annibal Falcão e Souza Pinto, então os chefes intellectuaes da mocidade.

Duvido ter eu tido maior revelação, ou impressão exterior que ficasse actuando sobre mim de modo mais permanente, do que essas eleições de 1884 a 1887,—a de 1889, posso dizer, feita a abolição, não me interessava quasi. Ellas puzeram-me em contacto directo com a parte mais necessitada da população e em mais de uma morada de pobre tive uma lição de coisas tão pungente e tão suggestiva sobre o desinteresse dos que nada possuem, que a só lembrança do que vi terá sempre sobre mim o poder o effeito de um exame de consciencia... Eu visitava os eleitores, de casa em casa, batendo em algumas ruas a todas as portas... A pobreza de alguns desses interiores e a intensidade da religião politica alimentada nelles fez-me por vezes desistir de ir mais longe... Doia vêr o quanto custava a essa gente credula a sua devoção politica. Diversos desses episodios gravaram-se-me no coração. Uma vez, por exemplo, entrei na casa de um operario, empregado em um dos Arsenaes, para pedir-lhe o voto. Chamava-se Jararaca, mas só tinha de terrivel o nome. Estava prompto a votar por mim, tinha sympathia pela causa, disse-me elle; mas votando, era demittido, perdia o pão da familia; tinha recebido a chapa de caixão (uma cedula marcada com um segundo nome, que servia de signal), e si ella não apparecesse na urna, sua sorte estava liquidada no mesmo instante. «Olhe, sr. doutor», disse-me elle, mostrando-me quatro pequenos, que me olhavam com indifferença, na mais perfeita inconsciencia de que se tratava delles mesmos, de quem no dia seguinte lhes daria de comer... E depois, voltando-se para uma creancinha, deitada sobre os buracos de um antigo canapé desmantelado: «Ainda em cima, minha mulher ha dois mezes achou essa creança deante da nossa porta, quasi morrendo de fome, roida pelas formigas, e hoje é mais um filho que temos!» «No emtanto, estou prompto a votar pelo senhor, recomeçava elle, cedendo á sua tentação liberal, si o senhor me trouxer um pedido do brigadeiro Floriano Peixoto.» Esse foi talvez o primeiro florianista do paiz... «Póde vir por telegramma... Elle está no engenho, nas Alagôas... E o que elle me pedir, custe o que custar, eu não deixo de fazer... Telegraphe a elle...» «Não, não é preciso, respondi-lhe, vote como quer o Governo, não deixe de levar a sua chapa de caixão... não arrisque á fome toda essa gentinha que está me olhando... Ha de vir tempo em que o senhor poderá votar por mim livremente; até lá, é como si o tivesse feito... Não devo dar-lhe um pretexto para fazer o que quer, invocando a intervenção do seu protector...» E sahi, instando com a mulher, supplicando, com medo que elle se arrependesse e fosse votar em mim.

Em outras casas o chefe da familia estava sem emprego havia annos por causa de um voto dado ao partido da opposição; a pobreza era completa, quasi a miseria, mas todos alli tinham o orgulho de soffrer por sua lealdade ao partido... E como entre os liberaes, entre os conservadores. Eram coherentes na miseria, na privação de tudo... Esse espectaculo seria de certo animador no mais alto gráu para o optimista desinteressado; este julgaria ter descoberto o refugio da verdadeira natureza humana escondida; para o candidato, porém, de cuja causa se tratava, era terrivelmente pungente surprehender assim a agonia da dignidade... Posso dizer, quanto a mim, eu não teria ousado ser mais um dia pretendente a um posto que custava tanto soffrimento, si não fosse para servir a causa de outros ainda mais infelizes do que essas victimas da altivez do pobre, da paixão e illusão politica do povo. Hoje, quem sabe, eu não teria talvez em nenhum caso a força, a coragem de insinuar aos bons, aos credulos, aos ingenuos, sacrificios pessoaes dessa ordem em favor de uma causa que não fosse directamente delles. Faria com todos o que fiz com o bom Jararaca: aconselharia que não sacrificassem os seus... Mas a lucta pela justiça é isso mesmo, é o sacrificio de gerações inteiras pelo direito ás vezes de um só, para resgatar a injustiça feita a um opprimido, talvez um estranho. De certo, não tenho remorsos nem me arrependo... Pessoalmente nenhum lucro tirei de todas as abnegações que vieram a mim; não capitalisei o soffrimento de tantos desinteressados... Consola-me nada ter tirado da abolição sinão o gozo de algumas impressões de tribuna e de nomeada, que foram apenas uma expansão como qualquer outra da mocidade... Graças a Deus, favor este inestimavel, nenhum lucro material, directo ou indirecto, me resultou nunca das idéas que me seduziram e com as quaes seduzi a outros...

Mas, ainda uma vez, o que recebi foi incalculavel. Só Deus mesmo, que vê os soffrimentos que se escondem e cujo orgulho é passarem invisiveis no meio da multidão, póde fazer tal conta. Sou um captivo do Recife. Ninguem que não tenha acompanhado um dos candidatos, de casa em casa, das areias do Brum aos canaes dos Afogados, durante a campanha da abolição, póde avaliar o que custou áquelles bairros de população densa, vivendo na mais completa destituição de tudo, o acolhimento que me deram. Para chegar á Camara tive os hombros dos que não tinham de seu sinão o trabalho de suas mãos e que se arriscavam, carregados de familia, a vêr fechar-se-lhes no dia seguinte a officina, a ser despedidos, despejados, depois de me terem dado o voto... O que me fica de todo esse episodio, o unico de minha carreira politica, é um sentimento acabrunhador de fallencia... Meu unico activo é a gratidão. O passivo é illimitado... Foram milhares os que me offereceram tudo o que tinham, isto é, como nada tinham, o que eram, o que podiam ser, e posso dizer que o acceitei em nome dos escravos. Muitos ter-se-ão levantado outra vez e seguido seu caminho pelas estradas abertas desde então, mas que todas parecem conduzir á mesma miragem que abrasa o horizonte. Terão ido, ou irão indo, coitados, de illusão em illusão, de desprendimento em desprendimento, de lealdade em lealdade... Não importa. O facto para mim dominante é que em um momento da minha vida pedi e acceitei o sacrificio absoluto de muitos pela causa que eu defendia... De certo, foi a mais nobre, a mais augusta das causas; mas o facto é que eu era alli o representante della, que em grande parte a dedicação, o sacrificio era por mim, como era meu o triumpho, minha a carreira, meu o futuro politico...


A impressão que me ficou da politica, excepto esse quadro doloroso do sacrificio ingenuo dos simples, dos bons, dos que soffrem, pelos que se elevam, posso dizer que me lembra um jardim encantado do Oriente, onde tudo eram fórmas enganadoras de existencias petrificadas, immobilisadas, á espera da palavra que as libertasse; onde a rosa que nunca desbotava exprimia a presença occulta de uma paixão que não queria perjurar-se; onde o marmore alabastrino das fontes significava o corpo immaculado de que vertia continuo o sangue puro dos martyrios do amor e da verdade; onde os rouxinóes que cantavam, eram pares de amantes a quem era defeso procurarem-se sob a fórma humana... Tudo alli estava suspenso, transportado a outra escala do ser, a outra ordem de sensibilidade e de affectos... Era o mesmo facto, mas com differente aspiração, differente consciencia, differente vontade, e para o qual por isso mesmo o tempo não corria, como no sonho... A scena politica foi tambem para mim um puro encantamento... Sob a apparencia de partidos, ministerios, Camaras, de todo o systema a que presidia com as suas longas barbas niveas o velho de S. Christovão, o genio brasileiro tinha encarnado e disfarçado o drama de lagrimas e esperanças que se estava representando no inconsciente nacional, e á geração do meu tempo coube penetrar no vasto simulacro no momento em que o signal, o toque redemptor, ia ser dado, e todo elle desabar para apparecer em seu logar a realidade humana, de repente chamada á vida, restituida á liberdade e ao movimento... Por isso não trouxe da politica nenhuma decepção, nenhum amargor, nenhum resentimento... Atravessei por ella durante a metamorphose.