ANONIMO

83. A Nao Catharineta

Lá vem a nao Catharineta que tem muito que contar:
ouvide agora, senhores, uma historia de pasmar.
Passava mais de ano e dia que iam na volta do mar:
ja nam tinham que comer, ja nam tinham que manjar.
Deitaram sola de môlho para o outro dia jantar,
mas a sola era tam rija que a nam poderam tragar.
Deitaram sorte a ventura qual se havia de matar:
logo foi cair a sorte no capitam general.
«Sobe, sobe, marujinho, aquele mastro real:
ve se ves terras de Espanha, as praias de Portugal.»
«Nam vejo terras de Espanha nem praias de Portugal,
vejo sete espadas nuas que estam para te matar.»
«Acima, acima, gageiro, acima ao tope real,
olha se enxergas Espanha, areas de Portugal.»
«Alviçaras, capitam, meu capitam general!
ja vejo terras de Espanha, areas de Portugal;
mais enxergo tres meninas debaixo de um laranjal,
uma sentada a coser outra na roca a fiar,
a mais formosa de todas está no meio a chorar.»
«Todas tres sam minhas filhas, ó quem m’ as dera abraçar!
A mais formosa de todas contigo a hei de casar.»
«A vossa filha nam quero, que vos custou a criar.»
«Dar-te-hei tanto dinheiro que o nam possas contar.»
«Nam quero vosso dinheiro, pois vos custou a ganhar.»
«Dou-te o meu cavalo branco, que nunca houve outro igual.»
«Guardai o vosso cavalo, que vos custou a ensinar.»
«Dar-te-hei a nao Catharineta para nela navegar.»
«Nam quero a nao Catharineta, que a nam sei governar.»
«Que queres tu, meu gageiro, que alviçaras te hei de dar?»
«Capitam, quero a tua alma para comigo levar.»
«Renego de ti, demonio, que me estavas a atentar:
a minha alma é só de Deus, o corpo dou eu ao mar.»
Tomou-o um anjo nos braços, nam o deixou afogar,
deu um estoiro o demonio, acalmaram vento e mar,
e á noite a nao Catharineta estava em terra a virar.

84. O Conde Ninho.

Vai o Conde, o Conde Ninho, seu cavalo vai banhar:
em quanto o cavalo bebe cantou um lindo cantar:
«Bebe, bebe, meu cavalo, que Deus te ha de livrar
dos trabalhos deste mundo e das areas do mar.»
«Esperta, ó bela princesa, escuta um lindo cantar:
ou sam os anjos no ceo ou as sereas no mar.»
«Nam sam os anjos do ceo nem as sereas do mar,
é o Conde, o Conde Ninho, que comigo quer casar.»
«Se ele quer casar contigo eu o mandarei matar.»
«Quando lhe deres a morte manda-me a mim degolar:
que a mim me enterrem á porta, a ele ao pe do altar.»
Morreu um e morreu outro, ja lá vam a enterrar:
d’ um nacera um pinheirinho, do outro um lindo pinheiral.
Creceu um e creceu outro, as pontas foram juntar,
que quando el rei ia á missa nam o deixavam passar;
pelo que el rei maldito logo os mandava cortar.
D’ um correra leite puro e do outro sangue real,
fugira d’ um uma pomba e do outro um pombo trocal:
sentava-se el rei á mesa, no hombro lhe iam pousar.
Mal haja tanto querer, mal haja tanto amar:
nem na vida nem na morte nunca os pude separar!

85. Santa Iria

Estando eu á janela, com a minha almofada,
minha agulha de ouro, meu dedal de prata,
passa um cavaleiro, pedia pousada.
Meu pai lh’ a negou: quanto me custava!
Ja vem vindo a noite, é tam só a estrada:
Senhor pai, nam digam tal da nossa casa,
que a um cavaleiro que pede pousada
se fecha esta porta á noite cerrada.
Roguei e pedi, muito lhe pesava,
mas eu tanto fiz que por fim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, ele se lavava;
pos-lhe uma toalha, nela se limpava;
poucas as palavras, que mal me falava,
mas eu bem senti que ele me mirava.
Fui erguir os olhos, mal os levantava,
os seus olhos lindos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
a cama lhe fiz, nela se deitava;
dei-lhe as boas noites, nam me replicava:
tam má cortesia nunca a vi usada!
Lá por mea noite, que eu me sufocava,
sinto que me levam com a boca tapada,
levam me a cavalo, levam me abraçada,
correndo, correndo sempre á desfilada.
Sem abrir os olhos vi quem me roubava;
calei-me e chorei, ele nam falava.
D’ alí muito longe que me preguntava:
eu na minha terra como me chamava?
Chamava-me Iria, Iria a fidalga,
por aqui agora Iria a cansada.
Andando, andando, toda a noite andava,
lá por madrugada que me atentava,
horas esquecidas que por mim lutava:
nem força nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange, alí me matava,
abriu uma cova onde me enterrava.
No fim de sete anos passa o cavaleiro,
uma linda ermida viu naquele outeiro.
«Minha Santa Iria, meu amor primeiro,
se me perdoares serei teu romeiro.»
«Perdoar nam te hei de, ladrão carniceiro,
que me degolaste que nem um carneiro.»

86. Branca Flor e Flores

Á guerra, á guerra, moirinhos, quero uma cristam cativa!
Uns vam pelo mar abaixo, outros pela terra acima,
tragam-me uma cristam cativa que é para a nossa rainha.
Uns vam pelo mar abaixo, outros pela terra acima;
os que foram mar abaixo nam encontraram cativa,
os que foram terra acima tiveram milhor atina:
deram com o Conde Flores que vinha de romaria,
vinha lá de Santiago, Santiago de Galiza;
mataram o Conde Flores, a condessa vai cativa;
mal que o soube a rainha ao caminho lhe saia.
«Venha embora, a minha escrava, boa seja a sua vinda!
Aqui lhe entrego estas chaves da dispensa e da cosinha,
que me nam fio de moiras que me nam deem bruxaria.»
«Aceito as chaves, senhora, por grande desdita minha,
hontem condessa jurada, hoje moça da cosinha.»
A rainha está pejada, a escrava tambem o vinha:
quis a boa ou má fortuna que ambas parissem num dia.
Filho varão teve a escrava e uma filha a rainha;
mas as perras das comadres, para ganharem alviçaras,
deram á rainha o filho e á escrava deram a filha.
«Filha minha da minha alma, com que te baptisaría?
As lagrimas dos meus olhos te sirvam de agua bendita.
Chamar-te-ei Branca Rosa, Branca Flor de Alexandria,
que assim se chamava d’antes uma irman que eu tinha.
Cativaram-na os moiros dia de Pascoa Florida,
quando andava a apanhar rosas num rosal que meu pai tinha.»
Estas lastimas choradas veis la rainha que ouvia,
e co’ as lagrimas nos olhos muito depressa acudía:
«Criadas, minhas criadas, regalem-me esta cativa,
que se nam fora de cama eu é que a regalaria.»
Mal se alevanta a rainha vai-se ter com a cativa:
«Como estás, ó minha escrava, como está a tua filha?»
«A filha boa, senhora; eu como molher parida.»
«Se estiveras em tua terra que nome lhe chamarias?»
«Chamava-lhe Branca Rosa, Branca Flor de Alexandria,
que assim se chamava d’antes uma irman que eu tinha:
cativaram-na os moiros dia de Pascoa Florida
quando andava a apanhar rosas num rosal que meu pai tinha.»
«Se visses a tua irman tu nam a conhecerias?»
«Assim eu a vira nua da cintura para acima,
debaixo do peito esquerdo um lunar preto ela tinha.»
«Ai triste de mim, coitada! ai triste de mim mofina!
mandei buscar uma escrava, trazem-me uma irman minha!»
Nam sam passados tres dias morre a filha da rainha,
chorava a Condessa Flores como quem por sua a tinha,
porem mais chorava a mãi, que o coração lh’ o dizia.
Deram á lingua as criadas, soube-se o que sucedia,
a mãi com o filho nos braços cuidou morrer de alegria.
Nam sam passadas tres horas uma á outra dizia:
«Quem se vira em Portugal, terra que Deus bendizia!»
Juntaram muita riqueza de ouro e de pedraria,
uma noite abençoada fugiram da moiraria.
Foram ter á sua terra, terra de Santa Maria,
meteram-se num mosteiro, ambas professam num dia.

87. Manhaninha de S. João

Manhaninha de S. João, pela manhan de alvorada,
Jesus Christo se passea ao redor da fonte clara;
por sua boca dizia, por sua boca falava:
«Esta agua fica benta e a fonte fica sagrada.»
Ouviu a filha de el rei d’ altas torres donde estava,
vestiu suas meias de seda, calçou sapatos de prata,
pegou em cantaro de ouro, á fonte foi buscar agua.
Lá no meo do caminho com a Virgem se encontrava,
atreveu-se e perguntou-lhe se havia de ser casada.
«Casadinha haveis de ser, muito bem afortunada;
tres filhos haveis de ter, todos de capa e espada;
um será bispo em Roma, outro cardeal em Braga,
o mais novo deles todos servo da Virgem sagrada.»
Ditosa da donzelinha que á fonte foi buscar agua!