GARCIA DE RESENDE

c. 1470-1536

90. Trovas á morte de D. Inés de Castro

Qual será o coraçam
tam cru e sem piedade
que lhe nam cause paixam
uma tam fera crueldade
e morte tam sem razam?
Triste de mim inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fe, amor
ao principe meu senhor,
me mataram cruamente.
A minha desaventura,
nam contente d’ acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tanta altura
para d’ alto derribar-me,
que se me matara alguem
antes de ter tanto bem
em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera,
nem me chorara ninguem.
Eu era moça menina,
por nome dona Inés
de Crasto, e de tal doutrina
e vertudes que era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dâ-la ninguem a mim,
foi-m’ o principe olhar
por seu nojo e minha fim.
Começou-m’ a desejar,
trabalhou por me servir,
fortuna foi ordenar
dous corações conformar,
a uma vontade vir.
Conheceo-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que triste pos nele.
Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama,
pos nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui fremosa dama.
Por m’ estas obras pagar
nunca jamais quis casar,
polo qual aconselhado
foi el rei qu’ era forçado
polo seu de me matar.
Estava muito acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida:
estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra d’ assessego,
polos campos de Mondego
cavaleiros vi asomar.
Como as cousas que ham de ser
logo dam no coraçam,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
Estes ornes onde irão?
E tanto que preguntei:
soube logo que era el rei.
Quando o vi tam apressado,
meu coraçam trespassado
foi que nunca mais falei.
E quando vi que decia,
saí á porta da sala,
devinhando o que queria;
com gram choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala;
meus filhos pos derredor
de mim com gram omildade,
mui cortada de temor,
lhe disse: Avei, senhor,
desta triste piedade.
Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer,
metei nisso bem a mão,
que é de fraco coraçam
sem porque matar molher;
quanto mais a mim (que dam
culpa nam sendo razam)
por ser mãi dos inocentes
qu’ ante vos estam presentes,
os quais vossos netos sam.
E tem tam pouca idade
que se nam forem criados
de mim, só com saudade
em sua gram orfandade
morrerão desemparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisso vossa alteza,
e tambem, senhor, olhai,
pois do principe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza!
Lembre-vos o grand’ amor
que me vosso filho tem,
e que sentirá gram dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem;
que s’ algum erro fizera
fora bem que padecera
e qu’ estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixam ouvera.
Mas pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
nam quebrantar vossa lei,
que, se moiro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade;
avei dó, senhor, de mim,
nam me deis tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade!
El rei, vendo como estava,
ouve de mim compaixam,
e vio o que nam oulhava,
qu’ eu a ele nam errava
nem fizera traiçam.
E vendo quam de verdade
tive amor e lealdade
ao principe, cuja sam,
póde mais a piedade
que a determinaçam.
Que se m’ ele defendera
que seu filho nam amasse
e lh’ eu nam obedecera,
entam com razam podera
dar-m’ a morte qu’ ordenasse;
mas vendo que nenhum’ ora
des que naci ategora
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou
foi pola porta fora,
com seu rosto lagrimoso,
c’ o proposito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um d’ aqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
detras dele mui irado
estas palavras dizia:
Senhor, vossa piedade
é dina de reprender,
pois que sem necessidade
mudaram vossa vontade
lagrimas d’ uma molher.
E quereis qu’ abarregado,
com filhos como casado,
esté, senhor, vosso filho:
de vos mais me maravilho
que dele, qu’ é namorado.
Se a logo nam matais
nam sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tam cedo vos mudais
do conselho qu’ era avido.
Olhai quam justa querela
tendes, pois por amor dela
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos:
vos, senhor, descansareis
e a vos e a nos dareis
paz para duzentos anos.
O principe casará,
filhos de bençam terá,
será fora de pecado:
que agora seja anojado,
amenham lh’ esquecerá!
E ouvindo seu dizer
el rei ficou mui torvado
por se em tais extremos ver
e que avia de fazer
ou um ou outro forçado.
Desejava dar-me vida
por lhe nam ter merecida
a morte nem nenhum mal,
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod’ esta culpa
e que tanto o apertava,
disse a aquel que bradava:
Minha tençam me desculpa;
se o vos quereis fazer
fazei-o sem m’ o dizer,
qu’ eu nisso nam mando nada
nem vejo a essa coitada
porque deva de morrer.
Dous cavaleiros irosos
que tais palavras lh’ ouviram,
mui crús e nam piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram
com as espadas na mão:
m’ atravessam o coraçam,
a confissam me tolheram.
Este é o galhardam
que meus amores me deram.