GIL VICENTE

c. 1470-c. 1540.

91. Dom Duardos e Flerida

Era pelo mes de Abril, de Maio antes um dia,
quando lirios e rosas mostram mais alegria,
e a noite mais serena que fazer no ceo podia,
quando a formosa infanta Flerida ja se partia;
e na horta de seu padre entre as arvores dizia:
Com Deus vos ficade, flores, que ereis minha alegria:
vou-me a terras estrangeiras, pois lá ventura me guia.
E se meu pai me buscar, pai que tanto queria,
digam-lhe que amor me leva, que eu por vontade nam ia;
mas tanto teimou comigo que me venceu co’ a porfia.
Triste nam sei onde vou e ninguem m’ o dizia.
Ali fala Dom Duardos: Nam choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra mais claras aguas havia,
e mais formosos jardins e flores de mais valia.
Tereis trezentas donzelas de alta genealogia;
de prata sam os palacios para vossa senhoria,
de esmeraldas e jacintos, e ouro fino da Turquia,
com letreiros esmaltados que a minha vida se lia,
contando das vivas dores que me destes nesse dia
quando com Primaleam fortemente combatia:
mataste-me vos, senhora, que eu a ele nam temia.
Suas lagrimas enxuga Florida que isto ouvia.
Ja se foram ás galeras que Dom Duardos havia,
cincoenta eram por conta, todas vam em companhia.
Ao som do doce remar a princesa adormecia
nos braços de Dom Duardos que tam bem a merecia.
Saibam quantos sam nacidas sentença que nam varia:
Contra a morte e contra amor que ninguem nam tem valia.

92. Cossante

Um amigo que eu havia
mançanas d’ ouro m’ envia.
Garrido amor!
Um amigo que eu amava
mançanas d’ ouro me manda.
Garrido amor!
Mançanas d’ ouro m’ envia:
a milhor era partida.
Garrido amor!
[Mançanas d’ ouro me manda:
a milhor era quebrada.
Garrido amor!]

93. Cantiga

Branca estais e colorada,
Virgem sagrada!
Em Belem, vila do amor,
da rosa naceo a flor.
Virgem sagrada!
Em Belem, vila do amar,
naceo a rosa do rosal.
Virgem sagrada!
Da rosa naceo a flor,
Jesus Nosso Salvador.
Virgem sagrada!
Naceo a rosa do rosal,
Deus e homem natural.
Virgem sagrada!

94. Cantiga de amigo

Donde vindes, filha,
branca e colorida?
De lá venho, madre,
de ribas de um rio:
achei meus amores
num rosal florido.
Florido, minha filha,
branca e colorida.
De lá venho, madre,
de ribas de um alto:
achei meus amores
num rosal granado.
Granado, minha filha,
branca e colorida.

95. Cossante

Canas do amor, canas,
Canas do amor.
Polo longo de um rio
canaval está florido,
Canas do amor.
[Polo longo de um vado
canaval está granado,
Canas do amor.]

96. Cantiga

Tirai os olhos de mim,
minha vida e meu descanso,
que me estais namorando.
Os vossos olhos, senhora,
senhora da formosura,
por cada momento de hora
dão mil anos de tristura,
temo de nam ter ventura.
Vida, nam m’ estais olhando,
que me estais namorando.

97. Esparsa

Asuidade na molher
mata o coraçam e alma,
porque momento nam acalma
a tormenta que tiver.
Que tu, se te vas de mi,
verás outras formosuras,
falas e ouves doçuras;
mas eu nam vejo sem ti
senam cousas muito escuras.

98. Serranilha

A serra é alta, fria e nevosa:
vi venir serrana gentil, graciosa.
Vi venir serrana gentil, graciosa,
cheguei-me a ela com gran cortesia.
Chegui-me a ela de gran cortesia.
Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?
Disse-lhe: Senhora, quereis companhia?
Disse-me: Escudeiro, segui vossa via.

99. Romance

Remando vam remadores
barca de grande alegria,
o patrão que a guiava
Filho de Deus se dizia,
anjos eram os remeiros
que remavam a porfia;
estandarte d’ esperança:
ó quam bem que parecia!
O masto de fortaleza
como cristal reluzia;
a vela com fe cosida
todo o mundo esclarecia.
A ribeira mui serena
que nenhum vento bolia.

100. Vilancete

Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
tambem as verduras;
adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas!
Ribeiras crecidas,
louvai nas alturas
Deus das criaturas!
Louvai, arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado
nestas verduras
o Deus das alturas!