Os presos contam os dias,
mil anos por cada dia;
mas os meus sem alegria
como os contarei eu,
verdadeiro amor meu,
a quem por meu bem conheço?
Pois como preso padeço,
e como a quem vos nam ve,
mal, cuja dor se nam crê,
de prisam e de ausencia,
pois sem pecar penitencia
faço detras de uma grade.
Meus olhos de escuridade
ja nam vem, estam mortais;
mas para que era ver mais
des que vos eles nam viram,
des que de vos se espediram?
Bem se enxerga nos danos
que estou preso ha cinco anos,
afora os que hei de estar
passando em desejar
o tempo que vos nam vejo.
Vede que fe de desejo
em que lugar me acompanha:
nunca se viu fe tamanha,
nem tam mal agradecida!
Nam quis Deus que a minha vida
fosse para mais que isto,
ainda que em vos ter visto
nam naci em vão, senhora,
que a vida é de uma hora,
este bem será eterno;
que, quer esté no inferno,
quer esté no paraiso,
nunca me verão diviso
d’ aqueste tamanho bem.
E nam vos diga ninguem
que o mal que me tendes feito
me faz ter outro respeito,
inda que fora razam;
mas nam quer o coraçam
pelo muito que vos quer:
e sempre isto ha de ser
em quanto eu vivo for.
Que verdade e que amor
para se nam ter em muito!
E quam pouco é o fruto
que dele tenho tirado!
Quem lançasse o meu cuidado
onde o nam visse mais,
pois lembranças tam mortais
traz a minha fantasia
que basta uma de um dia
para me os meus tirar!
Nele vos vi eu chorar,
e nele chorei tambem,
derradeiro do meu bem
e primeiro do meu mal.
Nada, senhora, me val,
nam sei em que me sostenho:
pois que vos escrito tenho,
porque nam vejo resposta?
Quem vos pos no que estais posta?
Que palavras vos disseram
que mais que a razam poderam
que ja entre nos posemos?
Cuidai quanto nos quisemos,
e nam vos possa mudar
dizer que vos podem dar
outrem que tem mais que eu.
Pode ser, nam nego eu;
mas bem vos posso afirmar
que nam podereis achar
outrem que vos tanto queira.
Olhai que á derradeira
riqueza nam tira dor;
pois antre ela e o amor
qual é mais para estimar
deve ser bem de julgar.
Mas conquanto isto digo
mal acabarei comigo,
senhora, que possa ser
mudar-se vosso querer
por nenhuns outros quereres,
esquecendo os prazeres
do nosso tempo passado
que me faz tam esforçado
que em quanto a meu cuidar
a terra me nam gosar,
ninguem gosará de vos
senam meus cuidados sós,
que em vossa contemplaçam
os tempos gastando vam
como se fosseis presente,
como no tempo milhor.
E se isto ante vos for
que me pos a escrever,
querei, senhora, entender
que tinha que dizer mais;
mas lembraram-me os sinais
vossos e olhos formosos,
e os meus de saudosos
lembrando-se que vos viram
com lagrimas me impediram
poder pôr mais por escrito.
Baste o que tenho dito
para haver por galardam
tres regras de vossa mão;
para resposta das quais,
senhora, fique o mais
que aqui escrever devera
se o escrever podera.