Eis nos torna a nacer o ano formoso,
zefiro brando e doce primavera,
eis o campo cheiroso,
eis cinge o verde louro ja a nova hera.
Ja do ar caido gera
o cristalino orvalho ervas e flores;
as Graças e os Amores,
coroados de alegria,
em doce companhia
de ninfas e pastores ao som brando
doces versos de amor vão revesando.
Apos a branda deusa do terceiro
ceo, que triunfando vai de Apolo e Marte,
e entre eles o frecheiro
o seu doce fogo onde quer reparte;
fogem de toda parte
nuvens, a neve ao sol té entam dura
se converte em brandura,
e da alta e fria serra
caindo rega a terra
agua ja clara, a cujo som adormece
toda fera serpente, e o mirto crece.
Renace o mundo e torna á forma nova
do seu dia primeiro, o sol mais puro
sua luz nos renova
e afugentando vai o inverno escuro.
O monte calvo e duro,
o vale d’ antes triste, o turvo rio,
ar tempestuoso e frio,
os tornam graciosos
aqueles amorosos
olhos de Venus, faces de Cupido,
criando em toda parte um Chipre, um Gnido.
Ja deixa o fogo o lavrador, ja o gado,
da longa prisão solto, corre e salta,
roendo o verde prado,
nem agua clara nem verdura falta.
Eis tira da arvore alta
ou Progne com seu ninho ou Philomena
Titiro, e inda sem pena
cria a tenra ave ledo,
por esperar que cedo
do seu formoso dom Cloris vencida
não sofrerá ser dele em vão seguida.
Agora nos tambem nos coroemos,
ó claro Antonio, de hera, mirto e louro,
e mil odes cantemos
a branda Venus, mil a Apoio louro,
que com seu raio de ouro
a escura nuvem do teu peito aclara.
Ah quanto suspirara!
Ah como desfazendo
em tenro pranto e erguendo
os olhos a ti, Phebo, Nise triste
chamar ó sol, ó sol com magua ouviste!
Olho claro do ceo, vida do mundo,
luz que a lua e estrelas alumias,
o movedor segundo
de quantas cousas cá na terra crias,
crespo Apolo que os dias
trazes formosos e as douradas horas,
lá desse alto onde moras
com tua luz clara e santa
que o mao Saturno espanta,
torna a Antonio e conserva a luz primeira,
do puro sangue a cor e a força inteira.
Os mais brandos licores, suaves çumos
das mais saudaveis plantas busca, e colhe
os mais cheirosos fumos
que Arabia em si, em si Saba recolhe,
faze que onde quer que olhe
o teu bom Sá, prazer e riso e canto
veja! Ah Phebo, a quem tanto
teu claro lume adora,
e ao Douro que inda chora
do seu passado medo a viva magua,
não negues a um sã vida, a outro clara agua!
A vida foge como ao sol a sombra,
quem poder viva em quanto uma hora tarda,
hora que espanta e assombra,
nem escusa recebe ou ponto aguarda.
Quem sua vida guarda
para outro dia? Quem no leve vento
faz firme fundamento?
Anda o ceo, volve o ano,
mostrando o desengano
desta vida inconstante e enfim mortal,
de bens escassa, prodiga em mal.
Ó meu bom Sá, em quanto nos defende
a vida breve largas esperanças,
tu ledo o spirito estende
por honestos prazeres, sans lembranças,
livre das vans mudanças
em que andam os mais em sorte ao vento postos
com os inconstantes rostos:
lá sempre um, sempre inteiro,
seguindo o verdadeiro
caminho, que o alto ceo te chama e guia,
contente vive o ano, o mes e o dia.