DIOGO BERNARDEZ

c. 1530-c. 1600

138. Soneto

Da branca neve e da vermelha rosa
o ceo de tal maneira derramou
no vosso rosto as cores que deixou
a rosa da manhã mais vergonhosa.
Os cabelos, de amor prisão formosa,
não d’ ouro, que ouro fino despresou,
mas dos raios do sol vo-los dourou,
do que Cintia tambem anda invejosa.
Um resplandor ardente mas suave
está nos vossos olhos derramando
que o claro deixa escuro, o escuro aclara;
a doce fala, o riso doce e grave
entre rubis e perlas lampejando
não tem comparação por cousa rara.

139. Soneto

Se toda a vida nossa é desafio,
se sobre nada tem seu fundamento,
que descuido é este meu? que errado intento?
Que pretendo? que espero? em que me fio?
Ó vida humana, folha em seco estio
levada pelo ar de qualquer vento,
Ó flor de primavera num momento
chamuscada do sol, murcha do frio!
Quando cuido no tempo atras passado
o que passei m’ espanta, o por vir temo,
no presente não sei que m’ embaraça.
Mas ainda que de ti tam alongado,
ordena tu que torne, ó Pai supremo,
este prodigo filho á tua graça!

140. Soneto

Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu quando vos tinha
que vos visse tornadas tam asinha
em tam compridos dias de tormento!
Aquelas torres que fundei no vento
o vento m’ as levou que as sostinha:
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vans fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece,
tudo possivel faz, tudo assegura,
mas logo no milhor desaparece.
Ó cegueira tamanha! Ó desventura!
Por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura!

141. Egloga

Cantava Alcido um dia ao som das aguas
do Lima que mais brando ali corria,
dizem que por ouvir suas doces maguas.
Sobre um curvo penedio que pendia
por cima da corrente vagarosa,
se me não lembra mal, assi dizia:
Silvia, nestes meus olhos mais formosa
que o sol de dia, que de noite a lua,
não digo lirio ja, não digo rosa,
que flor não cria o vale que da tua
formosura não tenha grande inveja:
se tam formosa es, como es tam crua?
Porque despresas, Silvia, quem deseja
mais o teu gosto só que a propria vida?
Porque t’ escondes onde te não veja?
Nem sempre no bosque espesso escondida
a mansa cerva está posta em seguro,
nem sempre em raso campo é ofendida.
Vem, Silvia, ja ver neste cristal puro
teu brando parecer d’ aqui de cima
deste penedo, menos que ti duro.
Porque fazes, cruel, tam pouca estima
desta fresca ribeira, destas flores
que mansamente rega o manso Lima?
Aqui as doces aves seus amores
de um ramo em outro ramo vão cantando,
aqui se veste o campo de mil cores,
d’ aqui donde por ti estou chamando
no fundo deste pego os negros peixes
e os brancos seixos estarás contando.
Ou te queixes de mim ou te não queixes,
ou branda ou sempre irosa me respondas,
este fresco lugar, Silvia, não deixes.
Uma sombria lapa em que te escondas
do sol te mostrarei, dormirás nela
ao som do murmurar das roucas ondas:
em tanto do teu gado serei vela
e juntamente te estarei tecendo
de branca madresilva uma capela.
D’ ali indo o sol ja menos ardendo,
ao longo deste rio nos iremos,
ora uma flor, ora outra flor colhendo.
Os olhos pelo campo estenderemos,
o saudoso melro de uma banda
e o doce rouxinol d’ outra ouviremos.
Silvia soando irá na lira branda,
soará Silvia na montanha dura,
que sua dureza com teu nome abranda.
Des que deixei de ver tua formosura
ja o sol tres vezes alumiou a terra
e outras tantas a deixou escura.
Qualquer lugar que em si te esconde e encerra
nunca o verei sem dor, nunca sem magua,
ou seja campo ou bosque ou vale ou serra.
Achei de duas rolas nesta fragua
os tenros filhos sobre um freixo antigo
que tem suas raizes dentro na agua.
Saltou a nossa Filis ja comigo
com dadivas e rogos que lh’ os desse:
Não trabalhes em vão, Filis, lhe digo.
Tam corrida se foi que se soubesse
onde eles ora estam, tenho por certo
que m’ os furtasse logo se podesse;
mas não os pode ver senam de perto,
que, alem do freixo estar de agua cercado,
de uma verde parreira está coberto.
Silvia, teus hão de ser, perde o cuidado,
eu os vigiarei até que venhas
milhor do que vigio este meu gado.
E qual fruta haverá que tu não tenhas,
que se crie em mimosa e culta planta
ou na dura que nace em duras brenhas?
Inda que tua crueza seja tanta,
descanso me será qualquer trabalho,
que tudo vence amor, tudo quebranta.
As douradas maçãs no mesmo galho,
doces e roxas uvas pela fria
colherei para ti cheas de orvalho.
Isto todo a seu tempo te daria
e outras cousas mais, com que t’espero
ha tantos dias ja, de dia em dia,
que não abranda amor teu peito fero,
bem fero e bem cruel mas bem formoso,
pois sabe quanto peno e quanto quero.
Mil vezes meu esprito saudoso
de mim se parte e deixa o corpo frio,
do que deseja mais mais duvidoso.
Mil vezes de mil lagrimas um rio
banhando vai a face descorada,
outras tantas se falo desvario.
De leves sombras fica salteada
esta alma que lá trazes não sei onde,
nos teus formosos olhos pendurada,
quando chamo por ti, que me responde
a mesma voz na vale onde em vão grito,
cuido que outrem te chama e que s’ esconde.
Ali com nova força, novo esprito,
com ira vou buscando quem nomea
teu doce nome no meu peito escrito.
Se com suave som brando menea
um leve e brando vento a folha leve,
se fere a onda crespa a branca area,
ouvir-te me parece. Ah gosto breve!
Eis este engano passa, eis n’ outro caio:
quem enganos de amor estranhar deve?
Quando em bosque escuro um claro raio
por entre a basta rama resplandece,
ali me enlevo todo, ali desmaio:
dos teus serenos olhos me parece
aquela viva luz que se me nega,
em cuja ausencia o sol se m’ escurece.
Envolto em laços d’ outro amor m’ entrega,
aquele imaginar sempre sobejo
ali vista me dá, ali me cega.
Que planta posso ver, que pedra vejo,
que lirio ou que rosa ou neve ou fogo
onde te não figure o meu desejo?
Amor anda de mim fazendo jogo;
tu, Silvia, muito mais, pois te não movem
tantas lagrimas tristes, tanto rogo.
Tuas frias entranhas inda provem,
porem mais brandamente, as chamas vivas
que nestas minhas de contino chovem.
Porque foges de mim, porque m’ esquivas?
que não ha cousa aqui que não te aguarde,
té aguas deste rio fugitivas?
Se tu viesses, Silvia, inda esta tarde
verias lá no mar nuves rosadas
por entre as quais o sol mais brando arde,
verias destas humidas moradas
sair as brancas ninfas saudosas
de mil alegres flores coroadas,
e qual de roxos lirios, qual de rosas
esmaltaria teu puro e crespo ouro,
tam ledas de te ver quanto invejosas.
E eu veria os olhos por que moiro,
veria esse coroado e alvo rosto,
da maior formosura o mor tesouro.
Se todo meu prazer, todo meu gosto
depende de ti só que vas fugindo,
não ves em qual estremo me tens posto?
Não ves que vai a magua consumindo
a vida em duvidosas esperanças?
Ah doudo Alcido! Silvia está-se rindo,
e tu de chamar Silvia inda não cansas!