FERNAM ALVAREZ DO ORIENTE

1540?-1595?

144. Amor e Morte

Obrando amor, mas em meu dano forte,
só nele quis mostrar potencia rara,
em não querer que a mão do fado avara
um dia me outorgasse alegre sorte.
Da Parca dura assim temi que o corte
com a vida a fe da alma me acabara;
mas ah que é semrazão injusta e clara
que o que começa amor acaba a morte!
E como a pena que me traz cansado
tem feito na alma eterna eterno assento,
estou num triste mas seguro estado:
que se amor não der fim ao meu tormento,
nem fortuna remedio a meu cuidado,
nem morte mudará meu pensamento.

145. Florimonte

Armada de aspereza, minha estrela
a nova dor me leva e me encaminha,
mas se uma gloria vi perder-se asinha
foi por quem a perdi gloria perdê-la.
Sucede nova dor, nova querela
á liberdade que gosado tinha:
não sei remedio dar á magua minha,
e quem lh’ o pode dar não sabe dela.
Que alivio logo em tormento espero
se a que m’ o causa na alma não o sente
senam se o ve nos olhos com que o vejo?
Porem, ah doce amor, eu antes quero
passar convosco a vida descontente
que contente vivir sem meu desejo.