Ja nace o belo dia,
principio do verão formoso e brando,
que com nova alegria
estam denunciando
as aves namoradas,
dos floridos raminhos penduradas,
Ja abre a bela Aurora
com nova luz as portas do Oriente
e mostra a linda Flora
o prado mais contente,
vestido de boninas
aljofradas de gotas cristalinas.
Ja o sol mais formoso
está ferindo as aguas prateadas,
e Zefiro queixoso
ora as mostra encrespadas
á vista dos penedos,
ora sobre elas move os arvoredos.
De reluzente area
se mostra mais formosa a rica praia,
cuja riba se arrea
do alamo e da faia,
do freixo e do salgueiro,
do ulmo, da aveleira e do loureiro.
Ja com rumor profundo
não soa o Lis nos montes seus vizinhos,
antes no claro fundo
mostra os alvos seixinhos
e os peixes que nas veas
deixam tremendo a sombra nas areas.
Ja sem nuvens medonhas
se mostra o ceo vestido de outras cores,
ja se ouvem as sanfonhas
e frautas dos pastores
que vão guiando o gado
pela fragosa serra e pelo prado.
Ja nas largas campinas
e nas verdes decidas dos outeiros
ao som das sanfoninas
cantam os ovelheiros,
em quanto os gados pacem
as mimosas ervinhas que renacem.
Sobre a tenra verdura
agora os cabritinhos vão saltando,
e sobre a fonte pura
passa a noite cantando
o rouxinol suave
com saudoso acento agudo e grave.
Diana mais formosa
sem ventos sobre as aguas aparece,
e faz que a noite airosa
tam clara resplandece
á vista das estrelas
que se envergonha o sol de inveja delas.
Tudo nesta mudança
tambem de novo cobra novo estado,
qual em sua esperança
e qual em seu cuidado
acha contentamento,
qual milhora na vida o pensamento.