D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

1608-1666

153. Soneto

Quantas vezes conheço o meu cuidado
e contemplo na duvida que o espera,
tantas e muitas mais dele quisera
antes ser despedido que enganado.
Torno a cuidar depois que inda apartado
quem me assegura a mi que o estivera,
se para sempre amar sempre é uma era,
para sempre temer sempre um estado?
Ja propos de passar o mundo a esmo
pois no tempo, lugar, fe, gosto e morte
a fraude é certa e nunca conhecida.
Vos que sabeis de mi mais do que eu mesmo
ensinai-me a viver com minha sorte,
fareis de todo vossas sorte e vida.

154. Responde a um amigo que mandava preguntar a vida que fazia na sua prisão.

Casinha despresivel, mal forrada,
treva lá dentro mais que inferno escura,
porta só para entrar, logo fechada,
cama que é potro, mesa destroncada,
pulga que por picar faz matadura,
cão só para agourar, rato que fura,
candea nem com os dedos atiçada;
grilhão que vos asusta eternamente,
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;
sem amor, sem amigo, sem parente;
quem mais se doi de vos diz: Coitadinho!
Tal vida levo: santo prol me faça!