SOROR MARIA DO CEO

1658-1753?

155. Dorotea a Teofilo

D. Adonde vas, o Filo sem ventura,
dize, por este campo descuidado?
T. Vou por aí a zombar de teu cuidado
quando te vejo nessa prisão dura.
D. Ó praza a Deus te piques entre as flores
porque saibas quais são os meus amores.
Adonde vas, pastor sem mais sentido
que o de não ser amante nem amado?
T. A ser na liberdade bem ganhado
só por não ser nas flores bem perdido.
D. Ó praza a Deus que aches entre as rosas
flores ferinas, setas amorosas.
Adonde vas, me dize, e sabe antes
que te murmura aquela fonte pura.
T. Vou a não ter mais fe nesta verdura
que a que ensinam as rosas inconstantes.
D. Ó praza a Deus te digam as boninas
os misterios da fe por rosas trinas.
Adonde vas, pastor sem lealdade,
como quem seu delito não recea?
T. Ao som que me faz uma cadea
vou a cantar de minha liberdade.
D. Ó praza a Deus, pois ouço tal despreso,
que nas silvas das rosas fiques preso.
Adonde vas sem afeição de vida
quando um a vida quer para o que ama?
T. Vou por aí donde a sorte me chama,
a querer só a vida para a vida.
D. Ó praza a Deus te encontre o lobo forte,
dando-te á dura vida doce morte.
Adonde vas, se estrelas superiores
a amar te chamam pelas flores belas?
T. Vou só por desmentir essas estrelas
a pisar vingativo nessas flores.
D. Ó praza a Deus que aches nelas certo
não o aspid dormido, amor desperto!