MANUEL MARIA DE BARBOSA DU BOCAGE

1765-1805

162. Á lamentavel catastrofe de D. Inés de Castro

Da triste, bela Inés inda os clamores
andas, echo chorosa, repetindo;
inda aos piedosos ceos andas pedindo
justiça contra os impios matadores;
ouvem-se ainda na Fonte dos Amores
de quando em quando as naiades carpindo;
e o Mondego, no caso reflectindo,
rompe irado as barreiras, alaga as flores;
inda altos hinos o universo entoa
a Pedro, que da morta formosura
convosco, amores, ao sepulcro voa.
Milagre de beleza e de ternura!
Abre, dece, olha, geme, abraça e coroa
a malfadada Inés na sepultura.

163. Despedidas ao Tejo

Não mais, Ó Tejo meu formoso e brando,
á margem fertil de gentis verdores,
terás d’ alta Ulissea um dos cantores
suspiros no aureo metro modulando:
rindo não mais verá, não mais brincando
por entre as ninfas e por entre as flores
o coro divinal de nus amores,
dos zefiros azuis o afavel bando.
Com a frente ja sem mirto e ja sem louro
o arrebata de rojo a mão da sorte
ao clima salutar e á margem de ouro:
ei-lo em fraguas de horror, sem luz, sem norte;
soa de aqui, de ali piado agouro:
sois vos, desterro eterno, ermos da morte!

164. Contraste entre a vida campestre e a das cidades

Nos campos o vilão sem sustos passa,
inquieto na corte o nobre mora:
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas cousas vans que o mundo adora,
este, ó cega ambição, mil vezes chora
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no eburneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palacio majestuoso:
se has de ser cortesão e desgraçado
antes ser camponez e venturoso!

165. Á decadencia do imperio portugués na Asia

Por terra jaz o emporio do Oriente
que do rigido Afonso o ferro, o raio
ao gram filho ganhou do gram sabaio,
envergonhando o deus armipotente;
Caiu Goa, terror antigamente
do naire vão, do perfido malaio,
de barbaras nações! Ah que desmaio
apaga o marcio ardor da lusa gente?
Ó seculos de herois! Dias de gloria!
Varões excelsos que a pesar da morte
viveis na tradição, viveis na historia!
Albuquerque terrivel, Castro forte,
Meneses, e outros mil, vossa memoria
vinga as injurias que nos faz a sorte.

166. Contrição

Meu ser evaporei na lide insana
do tropel das paixões que me arrastava:
Ah cego, eu cria; ah misero, eu sonhava
em mim quasi imortal a essencia humana!
De que inumeros sois a mente ufana
existencia falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
ao mal que a vida em sua orgia dana:
prazeres, socios meus e meus tiranos,
esta alma que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus! Ó Deus! Quando a morte á luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos:
saiba morrer o que viver não soube!