Creio em ti, Deus, a fe viva
de minha alma a ti se eleva;
es—o que es não sei: deriva
meu ser do teu, luz e treva
em que indistintas se envolve
este espirito agitado,
de ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
pelo sopro criador,
tudo o mais o ha de tragar:
só vive de eterno ardor
o que está sempre a aspirar
ao infinito de onde veio.
Beleza es tu, luz es tu,
verdade es tu só. Não creio
senão em ti. O olho nu
do homem não ve na terra
mais que a duvida, a incerteza,
a forma que engana e erra:
essencia, a real beleza,
o puro amor, o prazer
que não fatiga e não gasta
só por ti os pode ver
o que inspirado se afasta,
ignoto Deus, das ronceiras
vulgares turbas, despidos
das cousas vans e grosseiras,
sua alma, razão, sentidos,
a ti se dão, em ti vida
e por ti vida tem. Eu consagrado
a teu altar me prostro e a combatida
existencia aqui ponho, aqui votado
fica este livro, confessão sincera
da alma que em ti voou e em ti só espera.