ALEXANDRE HERCULANO E ARAUJO

1810-1877

173. A Cruz Mutilada

Amo-te, ó cruz, no vertice firmada
de esplendidas igrejas;
amo-te quando á noite, sobre o campo,
junto ao cipreste alvejas;
amo-te sobre o altar, onde entre incensos
as preces te rodeam;
amo-te quando em prestito festivo
as multidões te hasteam;
amo-te erguido no cruzeiro antigo,
no adro do presbiterio;
quando o morto, impressa no ataude,
guias ao cemiterio;
amo-te, ó cruz, até quando no vale
negrejas triste e só,
nuncia do crime a que deveu a terra
do assassinado o pó;
porem quando mais te amo,
ó cruz do meu Senhor,
é se te encontro á tarde
antes de o sol se pôr,
na clareira da serra
que o arvoredo assombra,
quando á luz que fenece
se estira a tua sombra,
e o dia ultimos raios
com o luar mistura,
e o seu hino da tarde
o pinheiral murmura.
E eu te encontrei num alcantil agreste
meo quebrada, ó cruz. Sósinha estavas,
ao pôr do sol e ao elevar-se a lua
detras do calvo serro. A soledade
não te póde valer contra a mão impia
que te feriu sem dó. As linhas puras
de teu perfil, falhadas, tortuosas,
ó mutilada cruz, falam de um crime,
sacrilegio brutal e ao impio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo
como a sombra de antigo monumento
que o tempo quasi derrocou truncado.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
nossos avós, eu me assentei. Ao longe
do presbiterio rustico mandava
o sino os simples sons pelas quebradas
da cordilheira, anunciando o instante
da Ave Maria, da oração singela
mas solene, mas santa, em que a voz do homem
se mistura nos canticos saudosos
que a natureza envia ao ceo no extremo
raio do sol, passando fugitivo
na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
liberdade e progresso e que te paga
com a injuria e o desprezo e que te inveja
até na solidão o esquecimento!
Foi da ciencia incredula secterio
acaso, ó cruz da serra, o que na face
afrontas te gravou com mão profana?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
na miseria e na dor constante has sido
por bem dezoito seculos: foi esse
por cujo amor surgias qual remorso
nos sonhos do abastado ou do tirano,
bradando esmola a um, piedade ao outro.
Ó cruz, se desde Golgota não foras
simbolo eterno de uma crença eterna,
se a nossa fe em ti fosse mentida,
dos opressos de outrora os livres netos
por sua ingratidão dignos de oprobrio,
se não te amassem, ainda assim seriam;
mas es nuncia do ceo: e eles te insultam,
esquecidos das lagrimas perenes
por trinta gerações, que guarda a campa,
vertidas aos teus pes nos dias torvos
do seu viver de escravidão! Deslumbram-se
de que, se a paz domestica, a pureza
do leito conjugal bruta violencia
não vai contaminar, se a filha virgem
do humilde camponés não é ludibrio
do opulento, do nobre, ó cruz, t’ o devem;
que por ti o cultor de ferteis campos
colhe tranquilo da fatiga o premio,
sem que a voz de um senhor, qual d’antes dura,
lhe diga: É meu, e es meu. A mim deleites,
liberdade, abundancia; a ti, escravo,
o trabalho, a miseria, unido á terra
que o suor dessa fronte fertilisa,
em quanto, em dia de furor ou tedio,
não me apraz com teus restos fecundâ-la.
Quando calada a humanidade ouvia
este atroz blasfemar, tu te elevaste
lá do Oriente, ó cruz, envolta em gloria,
e bradaste tremenda ao forte, ao rico:
Mentira! E o servo alevantou os olhos,
onde a esperança scintilava, a medo,
e viu as faces do senhor retintas
em palidez mortal e errar-lhe a vista
trepida, vaga: a cruz no ceo do Oriente
da liberdade anunciava a vinda.
Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
desgastou no volver de cem combates,
ao ver que enfim o seu pais querido
ja não ousam calcar os pes de estranhos,
vem assentar-se á luz meiga da tarde,
na tarde do viver, junto do teixo
da montanha natal. No fronte calvo
que o sol tostou e que enrugaram anos,
ha um como fulgor, sereno e santo.
Da aldea semi-deus, devem-lhe todos
o teito, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
a mão que os protegeu apertam gratos;
com amorosa timidez os moços
saudam-no qual pai. Nas largas noites
de gelada estação sobre a lareira
nunca lhe falta o cepo incendiado;
sobre a mesa frugal nunca no estio
refrigerante pomo: assim do velho
pelejador os derradeiros dias
derivam para o tumulo suaves,
rodeados de afecto, e quando á terra
a mão do tempo gastador o guia,
sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
flores, lagrimas, bençãos que consolem
do defensor do fraco as cinzas frias.
Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
os gigantes combates dos tiranos,
e venceste. No solo libertado
que pediste? Um retiro no deserto,
um pincaro granitico, açoutado
pelas asas do vento, e enegrecido
por chuvas e por sois. Para ameigar-te
este ar humido e gelido a segure
não foi ferir do bosque o rei; do estio
no ardor canicular nunca disseste:
Dai-me sequer do bravo medronheiro
o desprezado fruto; o teu vestido
era o musgo que tece a mão do inverno
e Deus creou para trajar as rochas.
Filha do ceo, o ceo era teu teito,
teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adornava
coroa viçosa de gentis boninas
e o pedestal te rodeavam preces.
Ficaste em breve só e a voz humana
fez pouco a pouco junto a ti silencio.
Que te importa? As arvores da encosta
curvavam-se a saudar-te, e revoando
as aves vinham circundar-te de hinos.
Afagava-te o raio derradeiro
frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
e esperavas o tumulo. O teu tumulo
devera ser o seo destas serras
quando em genesis novo á voz do Eterno
do orbe ao nucleo fervente que as gerara
elas nas fauces dos volcões decessem.
Entam para essa campa flores, bençãos,
ou de saudade lagrimas vertidas,
qual do velho soldado a lousa pede
não pediras á ingrata raça humana
ao pe de ti no seu sudario envolta.
Este longo esperar do dia extremo
no esquecimento do ermo abandonado
foi duro de sofrer aos teus remidos,
ó redentora cruz! Eras acaso
como um remorso e acusação perene
no teu rochedo alpestre onde te viam
pousar triste e só? Acaso á noite,
quando a procela no pinhal rugia,
criam ouvir-te a voz acusadora
sobrelevar a voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas
e do seu Cristo, do divino mártir,
que a ti, suplicio e afronta, a ti maldita
ergueu, purificou, clamando ao servo
no seu trance final: Ergue-te, escravo!
Es livre, como é pura a cruz da infamia:
ela vil e tu vil, santo, sublime
sereis ante meu Pai: ergue-te, escravo!
Abraça tua irman, segue-a sem susto
no caminho dos seculos; da terra
pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo
trará de tua liberdade o dia.
Eis porque teus irmãos te arrojam pedras
ao perpassar, Ó cruz! Pensam ouvir-te
nos rumores da noite a antiga historia,
recontando do Golgota, lembrando-lhes
que só ao Cristo a liberdade devem
e que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por ele, a pouco e pouco,
tu em fragmentos tombarás do cerro,
simbolo sacrosanto: hão de os humanos
aos pes pisar-te, e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
ficará, ó tremenda acusadora,
sem que as faces lhes tinja a cor do pejo,
sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Cristo o nome passará na terra.
Não! Quando em pó desfeita a cruz divina
deixar de ser perene testemunha
da avita crença, os montes, a espessura,
o mar, a lua, o murmurar da fonte,
da natureza as vagas harmonias
da cruz em nome falarão do Verbo.
Dela no pedestal entam deserto
do deserto no seo, ainda o poeta
virá talvez ao pôr do sol sentar-se,
e a voz da selva lhe dirá que é santo
este rochedo nu e um hino pio
a solidão lhe ensinará e a noite.
Do cantico futuro uma toada
não sintes vir, ó cruz, de alem dos tempos,
da brisa do crepusculo nas asas?
É o porvir que te proclama eterna,
é a voz do poeta a saudar-te.
Montanha do Oriente,
que sobre as nuvens elevando o cume,
divisas logo o sol, surgindo a aurora,
e que lá no Occidente
ultima ves seu radioso lume,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo que descansas
no promontorio nu e solitario,
como atalaia que o Oceano explora,
alheo ás mil mudanças
que o mundo agitam turbulento e vario,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles frondentes,
cuja sombra procura o viandante
fugindo ao sol a prumo que o devora,
nesses dias ardentes
em que o Leão nos ceos passa radiante,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó mato variado,
de rosmaninho e murta entretecido,
de cujas tenues flores se evapora
aroma delicado,
quando es por leve aragem sacudido,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó mar que vais quebrando
rolo apos rolo pela praia fria,
e fremes som de paz consoladora,
dormente murmurando
na caverna maritima sombria,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Ó lua silenciosa,
que em perpetuo volver seguindo a terra,
esparzes tua luz ameigadora
pela serra formosa
e pelos lagos que em seu seo encerra,
em ti minha alma a eterna cruz adora.
Surges, simbolo eterno
no ceo, na terra, no mar,
do forte no expirar,
e do viver no alvor!

174. A Tempestade

Sibila o vento, os torreões de nuvens
pesam nos densos ares;
ruge ao largo a procela e encurva as ondas
pola extensão dos mares:
a imensa vaga ao longe vem correndo
em seu terror envolta,
e de entre as sombras rapidas centelhas
a tempestade solta.
Do sol no ocaso um raio derradeiro
que, apenas fulge, morre,
escapa á nuvem que apressada e espessa
para apagâ-la corre.
Tal nos afaga em sonhos a esperança
ao despertar do dia,
mas no acordar lá vem a conciencia
dizer que ela mentia.
As ondas negro-azues se conglobaram,
serras tornadas são,
contra as quais outras serras que se arqueam
bater, partir-se vão.
Ó tempestade! eu te saudo, ó nume,
da natureza açoite!
Tu guias os vulcões, do mar princesa,
e é tu vestido a noite.
Quando pelos pinhais entre o granizo,
ao susurrar das ramas,
vibrando sustos pavorosa ruges
e assolação derramas,
quem porfiar contigo entam ousara
de gloria e poderio,
tu que fazes gemer pendido o cedro,
turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu por balouçar-me
das nuvens nos castelos
e ver dos ferros meus enfim quebrados
os rebatidos elos!
Eu rodeara entam o globo inteiro,
eu sublevara as aguas,
eu dos vulcões com raios acendera
amortecidas fraguas;
do robusto carvalho e sobro antigo
acurvaria as frontes;
com furacões as areais da Libia
converteria em montes.
Pelo fulgor da lua, lá no Norte,
no polo me assentara
e vira prolongar-se o gelo eterno
que o tempo amontoara.
Ali eu solitario, eu rei da morte,
erguera meu clamor,
e dissera: Sou livre e tenho imperio,
aqui sou eu senhor!
Quem se podera erguer como estas vagas
em turbilhões incertos,
e correr e correr, troando ao longe
nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
a mente presa está,
ergue-se em vão aos ceos, precipitada
rapida em baixo dá.
Ó morte, amiga morte! É sobre as vagas,
entre escarceos erguidos,
que eu te invoco, pedindo-te feneçam
meus dias aborridos:
quebra duras prisões que a natureza
lançou a esta alma ardente,
que ela possa voar por entre os orbes
aos pes do Omnipotente!
Sobre a nao que me estreita a prenhe nuvem
deça e estourando me esmague,
e a grossa proa dos tufões ludibrio
solta sem rumo vague!
Porem não! Dormir deixa os que me cercam
o sono do existir;
deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
nas trevas do porvir.
Doce mãi do repouso, extremo abrigo
de um coração opresso,
que ao ligeiro prazer, á dor cansada
negas no seo acesso,
não despertes, ó não, os que abominam
teu amoroso aspeito,
febricitantes que se abraçam loucos
com seu dorido leito!
Tu que ao misero ris com rir tam meigo,
caluniada morte,
tu que entre os braços teus lhe dás asilo
contra o furor da sorte;
tu que esperas ás portas dos senhores,
do servo ao limiar,
e eterna corres, peregrina, a terra
e as solidões do mar,
deixa, deixa sonhar ventura os homens:
ja filhos teus naceram;
um dia acordarão d’ esses delirios
que tam gratos lhes eram.
E eu que velo na vida e ja não sonho
nem gloria nem ventura,
eu que esgotei tam cedo até as fezes
o calix da amargura;
eu vagabundo e pobre e aos pes calcado
de quanto ha vil no mundo,
santas inspirações morrer sentindo
do coração no fundo,
sem achar no desterro uma harmonia
de alma que a minha entenda,
porque seguir, curvado ante a desgraça,
esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai: qual dobre soa
fragor da tempestade,
psalmo de mortos que retumba ao longe
grito da eternidade!
Pensamento infernal! Fugir cobarde
ante o destino iroso?
Lançar-me envolto em maldições celestes
no abisso tormentoso?
Nunca! Deus pos-me aqui para apurar-me
nas lagrimas da terra:
guardarei minha estancia atribulada
com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
o seu repouso enfim,
e atalaiar o sol de um dia extremo
virá outro apos mim.
Herdarei o morrer: como é suave
bençam de pai querido,
será o despertar, ver meu cadaver,
ver o grilhão partido.
Um consolo entretanto resta ainda
ao pobre velador:
Deus lhe deixou nas trevas da existencia
doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulcro branqueado
por embusteira mão.
Tudo o mais vãos prazeres que só trazem
remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tam meiga
até o amanhecer,
até que suba á patria do repouso
onde não ha morrer.