ANTONIO AUGUSTO SOARES DE PASSOS

1826-1870

175. O Firmamento

Gloria a Deus! Eis aberto o livro imenso,
o livro do infinito,
onde em mil letras de fulgor intenso
seu nome adoro escrito.
Eis do seu tabernaculo corrida
uma parte do veo misterioso:
desprende as asas, remontando á vida,
alma que ancias pelo eterno goso!
Estrelas que brilhais nessas moradas,
quais são vossos destinos?
Vos sois, vos sois as lampadas sagradas
de seus umbrais divinos;
pululando do seo omnipotente
e sumidas por fim na eternidade,
sois as faiscas do seu carro ardente
ao rolar através da imensidade;
e cada qual de vos um astro encerra,
um sol que apenas vejo,
monarca de outros mundos como a terra
que formam seu cortejo.
Ninguem pode contar-vos: quem podera
esses mundos contar a que dais vida,
escuros para nos, qual nossa esfera
vos é nas trevas da amplidão sumida.
Mas vos perto brilhais, no fundo acesas
do trono soberano:
quem vos ha de seguir nas profundesas
d’ esse infinito oceano?
E quem ha de contar-vos nessas plagas
que os ceos ostentam de brilhante alvura,
lá onde sua mão sostem as vagas
dos sois que um dia romperão na altura.
E tudo outrora na mudez jazia,
nos veos do frio nada;
reinava a noite escura, a luz do dia
era em Deus concentrada.
Ele falou! E as sombras num momento
se dissiparam na amplidão distante;
Ele falou! E o vasto firmamento
seu veo de mundos desfraldou ovante.
E tudo despertou, e tudo gira
imenso em seus fulgores;
e cada mundo é sonorosa lira
cantando os seus louvores.
Cantai, ó mundos que o seu braço impele,
harpas da creação, fachos do dia,
cantai louvor universal Áquele
que vos sustenta e nos espaços guia!
Terra, globo que geras nas entranhas
meu ser, o ser humano,
que es tu com teus vulcões, tuas montanhas
e com teu vasto oceano?
Tu es um grão de area arrebatado
por esse imenso turbilhão dos mundos
em volta do seu trono levantado
do universo nos seos mais profundos.
E tu, homem, que es tu, ente mesquinho
que soberbo te elevas,
buscando sem cessar abrir caminho
por tuas densas trevas?
Que es tu com teus imperios e colossos?
Um atomo sutil, um frouxo alento:
tu vives um instante, e de teus ossos
só restam cinzas que sacode o vento.
Mas ah, tu pensas, e o girar dos orbes
á razão encadeas:
tu pensas, e inspirado em Deus te absorves
na chama das ideas.
Alegra-te, imortal, que esse alto lume
não morre em trevas de um jazigo escasso:
Gloria a Deus que num atomo resume
o pensamento que transcende o espaço!
Caminha, ó rei da terra; se inda es pobre,
conquista aureo destino,
e de seculo em seculo mais nobre
eleva a Deus teu hino!
E tu, ó terra, nos floridos mantos
abriga os filhos que em teu seo geras
e teu canto de amor reune aos cantos
que a Deus se elevam de milhões de esferas.
Dizem que ja sem forças, moribunda,
tu vergas decadente
Ó não! De tanto sol que te circunda
teu sol inda é fulgente:
tu es jovem ainda, a cada passo
tu assistes de um mundo ás agonias
e rolas entretanto nesse espaço
coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai, tu findarás! Alem scintila
hoje um astro brilhante:
amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila
e fenece arquejante.
Quem foi? Quem o apagou? Foi seu alento
que extinguiu essa luz ja fatigada,
foram seculos mil, foi um momento
que a eternidade fez volver ao nada.
Um dia, quem o sabe? Um dia, ao peso
dos anos e ruinas,
tu cairás nesse vulcão aceso
que teu sol denominas;
e teus irmãos tambem, esses planetas
que a mesma vida, a mesma luz inflama,
atraidos enfim, quais borboletas,
cairão como tu na mesma chama.
Entam, ó sol, entam nesse aureo trono
que farás tu ainda,
monarca solitario e em abandono,
com tua gloria finda?
Tu findarás tambem, a fria morte
alcançará teu carro chamejante:
ela te segue e profetisa a sorte
nessas manchas que toldam teu semblante.
Que são elas? Talvez os restos frios
de algum antigo mundo
que inda referve em borbotões sombrios
no teu seo profundo;
talvez; e envolta pouco a pouco a frente
nas cinzas sepulcrais de cada filho,
debaixo deles todos de repente
apagarás teu vacilante brilho.
E as sombras pousarão no vasto imperio
que teu facho alumia;
mas que vale de menos um psalterio
dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras esferas
virão no espaço descantar seu hino,
renovando nos sitios onde imperas
do sol dos sois o resplendor divino.
Gloria a seu nome! Um dia meditando
outro ceo mais perfeito,
o ceo de agora a seu altivo mando
talvez caia desfeito.
Entam mundos, estrelas, sois brilhantes,
qual bando de aguias na amplidão disperso,
chocando-se em destroços fumegantes,
desabará no fundo do universo.
Entam a vida, refluindo ao seo
do foco soberano,
parará, concentrando-se no meo
d’ esse infinito oceano;
e acabando enfim quanto fulgura,
apenas restarão na imensidade
o silencio, aguardando a voz futura,
o trono de Jehova e a eternidade!