JOÃO DE DEUS RAMOS NOGUEIRA

1830-1896

176. A Vida

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir aos degraos do tumulo decendo.
Em se ela anuviando, em a não vendo,
ja se me a luz de tudo anuviava:
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gemea da minha e ingenua e pura
como os anjos do ceo, se o não sonharam,
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura.
Não sei se me voou, se me a levaram,
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram.
Ah, quando no seu colo reclinado,
colo mais puro e candido que arminho,
como abelha na flor do rosmaninho,
osculava seu labio perfumado;
quando á luz dos seus olhos, que era vê-los
e enfeitiçar-se a alma em graça tanta,
lia na sua boca a biblia santa
escrita em letra cor dos seus cabelos;
quando a sua mãosinha, pondo um dedo
em seus labios de rosa pouco aberta,
como timida pomba sempre alerta,
me impunha ora silencio, ora segredo;
quando como a alveola, delicada
e linda como a flor que haja mais linda,
passava como o cisne ou como ainda,
antes do sol raiar, nuvem dourada;
quando em balsamo de alma piedosa
ungia as mãos da suplice indigencia,
como a nuvem nas mãos da Providencia
uma lagrima estila em flor sequiosa;
quando a cruz do colar do seu pescoço
estendendo-me os braços, como estende
o simbolo de amor que as almas prende
me dizia—o que ás mais dizer não ouço;
quando, se negra nuvem me espalhava
por sobre o coração algum desgosto,
conchegando-me ao seu candido rosto
no perfume de um riso a dissipava;
quando o ouro da trança ao vento dando
e a neve do seu colo e seu vestido,
pomba que do seu par se ia perdido,
ja de longe lhe ouvia o peito arfando;
quando o anel da boca luzidia,
vermelha como a rosa chea de agua,
em beijos á saudade abrindo a magua,
mil rosas pela face me esparzia;
tinha o ceo da minha alma as sete cores,
valia-me este mundo um paraiso,
distilava-me a alma um doce riso,
debaixo dos meus pes naciam flores!
Deus era inda meu pai; e em quanto pude
li o seu nome em tudo quanto existe,
no campo em flor, na praia arida e triste,
no ceo, no mar, na terra e na virtude.
Virtude! Que é mais que um nome
essa voz que em ar se esvai
se um riso que ao labio assome
numa lagrima vos cai!
Que es, virtude, se de luto
nos vestes o coração?
Es a blasfemia de Bruto,
não es mais que um nome vão.
Abre a flor á luz que a enleva
seu calix cheo de amor,
e o sol nace, passa e leva
consigo perfume e flor.
Que é d’ esses cabelos de ouro
do mais subido quilate,
d’ esses labios escarlate,
meu tesouro!
Que é d’ esse halito que ainda
o coração me perfuma;
que é do teu colo de espuma,
pomba linda!
Que é de uma flor da guirnalda
de teus dourados cabelos;
d’ esses olhos: quero vê-los,
esmeralda!
Que é d’ essa franja comprida
d’ aquele chaile mais leve
do que a nuvem cor de neve,
Margarida!
Que é d’ essa alma que me deste,
de um sorriso, um só que fosse,
da tua boca tam doce,
flor celeste!
Tua cabeça, que é d’ ela,
a tua cabeça de ouro,
minha pomba, meu tesouro,
minha estrela!
De dia a estrela da alva empalidece;
e a luz do dia eterno te ha ferido!
Em teu languido olhar adormecido
nunca me um dia em rida amanhecesse!
Foste a concha da praia: a flor parece
mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
meu calix de cristal onde hei bebido
os nectares do ceo, se um ceo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que choro,
quem tam menina e moça desmanchado
te ha pelas nuvens os cabelos de ouro?
Some-te, vela de baixel quebrado,
some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado.
E as desgraças podia prevê-las
quem a terra sustenta no ar,
quem sustenta no ar as estrelas,
quem levanta ás estrelas o mar.
Deus podia prever a desgraça,
Deus podia prever e não quis!
E não quis, não; se a nuvem que passa
tambem pode chamar-se infeliz.
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tam leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave;
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma apos outra lançou:
a vida, pena caida
da asa de ave ferida,
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
Como em sonhos o anjo que me afaga
leva nas tranças os lirios que lhe pus,
e a luz quando se apaga
leva aos olhos a luz!
Levou, sim, como a folha que se desprende
de uma flor delicada o vento sul,
e a estrela que se estende
nessa abobada azul.
Como os avidos olhos de um amante
levam consigo a luz de um doce olhar,
e o vento do levante
leva a onda do mar;
como o tenro filhinho quando expira
leva o beijo dos labios maternais,
e á alma que suspira
o vento leva os ais;
ou como leva ao colo a mãi seu filho
e as asas leva a pomba que voou,
e o sol leva o seu brilho,
o vento m’ a levou!
E Deus, tu es piedoso
Senhor! Es Deus e Pai!
E ao filho desditoso
não ouves pois um ai!
Estrelas deste aos ares,
dás perolas aos mares,
ao campo deste a flor,
frescura dás ás fontes,
o lirio dás aos montes,
e tiras-m’ a, Senhor!
Ah, quando numa vista o mundo abranjo,
estendo os braços e palpando o mundo
o ceo, a terra e o mar vejo aos meus pes;
buscando em vão a imagem do meu anjo,
soletro á frouxa luz de um moribundo
em tudo só: talvez!
Talvez: é hoje a biblia, o livro aberto
que eu só ponho ante mim nas rochas quando
vou pelo mundo ver se a posso ver;
e onde, como a palmeira do deserto,
apenas vejo aos pes inquieta ondeando
a sombra do meu ser!
Meu ser voou na asa da aguia negra,
que levando-a só não levou consigo
de esta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
crisalida nocturna a sós comigo
abraço a minha dor.
Dor inutil! Se a flor que ao ceo envia
seus balsamos se esfolha, e tu no espaço
achas depois seus atomos sutis,
inda has de ouvir a voz que ouviste um dia,
como a sua Leonor inda ouve o Tasso,
Dante a sua Beatriz.
Nunca! responde a folha que o outono,
da haste que a sustinha a mão abrindo,
ao vento confiou;
Nunca! responde a campa onde do sono
e quem talvez sonhava um sonho lindo
um dia despertou.
Nunca! responde o ai que o labio vibra,
Nunca! responde a rosa que na face
um dia emurcheceu;
e a onda que um momento se equilibra
em quanto diz ás mais: deixai que eu passe,
e passou, e morreu!

177. Na campa de Anthero de Quental

Aqui jaz pó, eu não; eu sou quem fui:
raio animado de uma luz celeste,
á qual a morte as almas restitui,
restituindo á terra o pó que as veste.