ANTHERO DE QUENTAL

1842-1891

180. Nocturno

Espirito que passas quando o vento
adormece no mar e surge a lua,
filho esquivo da noite que flutua,
tu só entendes bem o meu tormento.
Como um canto longinquo, triste e lento,
que voga e sutilmente se insinua,
sobre o meu coração que tumultua
tu vestes pouco a pouco o esquecimento.
A ti confio o sonho que me leva
um instinto de luz, rompendo a treva,
buscando entre visões o eterno bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
a febre de ideal que me consome,
tu só, genio da noite, e mais ninguem.

181. Sollemnia verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
caminhos vãos andamos! Considera
agora, de esta altura fria e austera,
os ermos que regaram nossos prantos:
pó e cinzas onde houve flor e encantos,
e noite onde foi luz de primavera!
Olha a teus pes o mundo e desespera,
semeador de sombras e quebrantos!
Porem o coração, feito valente
na escola da tortura repetida,
e no uso do penar tomado crente,
respondeu: Desta altura vejo o amor!
Viver não foi em vão se é isto a vida,
nem foi de mais o desengano e a dor.

182. O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante,
por desertos, por sois, por noite escura,
paladino do amor, busco anhelante
o palacio encantado da Ventura.
Mas ja desmaio, exhausto e vacilante,
quebrada a espada ja, rota a armadura;
e eis que subito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aerea formosura!
Com grandes golpes bato á porta e brado:
Eu sou o vagamundo, o desherdado,
abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro com fragor,
mas dentro encontro só, cheo de dor,
silencio e escuridão, e nada mais!

183. Acordando

Em sonho ás vezes, se o sonho quebranta
este meu vão sofrer, esta agonia,
como sobe cantando a cotovia,
para o ceo a minha alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa
que ao mundo traz piedosa mais um dia;
canta o enlevo das cousas, a alegria
que as penetra de amor e as alevanta.
Mas de repente um vento humido e frio
sopra sobre o meu sonho: um calafrio
me acorda. A noite é negra e muda, a dor
lá vela como d’ antes ao meu lado:
os meus cantos de luz, anjo adorado,
são sonho só e sonho o meu amor!

184. Transcendentalismo

Ja sossega depois de tanta luta,
ja me descansa em paz o coração;
caí na conta enfim de quanto é vão
o bem que ao mundo e á sorte se disputa
Penetrando com fronte não enxuta
no sacrario do templo da ilusão,
só encontrei com dor e confusão
trevas e pó, uma materia bruta.
Não é no vasto mundo, por imenso
que ele pareça á nossa mocidade,
que a alma sacia o seu desejo intenso
na esfera do invisivel, do intangivel:
sobre desertos, vacuo, soledade,
voa a paira o espirito impassivel.

185. Na mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita
descansou afinal meu coração:
do palacio encantado da ilusão
deci passo a passo a escada estreita.
Como as flores mortais com que se enfeita
a ignorancia infantil, despojo vão,
depus do ideal e da paixão
a forma transitoria e imperfeita;
como criança em lobrega jornada
que a mãi leva ao colo agasalhada,
e atravessa, sorrindo vagamente,
selvas, mares, areas do deserto,
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!

186. Redenção

Vozes do mar, das arvores, do vento,
quando ás vezes, num sonho doloroso
me embala o vosso canto poderoso,
eu julgo igual ao meu vosso tormento;
verbo crepuscular e intimo alento
das cousas mudas, psalmo misterioso,
não serás tu queixume vaporoso
o suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espirito habita a imensidade,
uma ancia cruel de liberdade
agita e abala as formas fugitivas;
e eu comprendo a vossa lingua estranha,
vozes do mar, da selva, da montanha,
almas irmans da minha, almas captivas.

187. Entre sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pe de mim
(A noite dece, desfolhando as rosas)
vem ter comigo, ás horas duvidosas,
uma visão, com asas de setim.
Pousa de leve a delicada mão
(Recende aroma a noite sossegada)
pousa a mão compassiva e perfumada
sobre o meu dolorido coração.
E diz-me essa visão compadecida
(Ha suspiros no espaço vaporoso)
diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tam erma e triste a tua vida?
Vem comigo, embalado nos meus braços
(Na noite funda ha um silencio santo)
num sonho feito só de luz e encanto
transporás a dormir esses espaços.
Porque eu habito a região distante
(A noite exhala uma doçura infinda)
onde ainda se cre e se ama ainda,
onde uma aurora igual brilha constante.
Habito alí, e tu virás comigo
(Palpita a noite num clarão que ofusca)
porque eu venho de longe em tua busca,
trazer-te paz e alivio, pobre amigo.
Assim me fala essa visão nocturna
(No vago espaço ha vozes dolorosas)
São as suas palavras carinhosas
agua correndo em cristalina urna.
Mas eu escuto-a imovel, sonolento,
(A noite verte um desconsolo imenso)
sinto nos membros como um chumbo denso,
e mudo e tenebroso o pensamento.
Fito-a, num pasmo doloroso absorto,
(A noite é erma como campo enorme)
fito-a com olhos turvos de quem dorme
e respondo: Bem sabes que estou morto!