ANTONIO DUARTE GOMES LEAL

1849-1921

191. De noite

Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos da enxada,
cantando a mea voz pelos atalhos.
A molher loura, infeliz, resignada,
cosia junto á luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.
Ao pe havia um Cristo, um ramo bento,
e uma estampa da Virgem, colorida,
chea de magua olhando o firmamento;
Uma banca de pinho, mal sustida,
vacilante nos pes, um candieiro,
companheiros de aquela negra vida.
O homem, alto, palido, trigueiro,
entrou; tinha as feições queimadas, duras,
dos que andam com a enxada o dia inteiro.
A molher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam ja tristezas
de grandes e secretas amarguras.
Tinha chorado muito as estreitezas
de aquela vida assim, talvez sonhado
um dia com palacios e riquezas.
Ele deitou-se a um canto, fatigado
d’ erguer-se alta manhã, todos os dias,
mal voavam as pombas no telhado.
Lá fora nuvens grossas e sombrias
no pesado horisonte. Ele assim esteve.
As noites eram asperas e frias.
Ela cobriu-o de uma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair sonora a neve.
E ela entam meditou no seu passado:
no seu primeiro beijo, nas lembranças,
talvez, do seu vestido de noivado;
e nas tardes das eiras e das danças
ás estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças.
E aquela tarde junto da amoreira
que trocaram as mãos, e na janela
e quando olhavam juntos a ribeira.
E quando era timida e singela...
Lá fora dava o vento nos caixilhos,
não brilhava no ceo nem uma estrela.
E áquela hora da noite por que trilhos
andariam no mundo, ela scismava,
nas miserias, talvez sem rumo, os filhos.
Ele na manta velha resonava.