Naci em Londres, que é terra
de gaiteiros e neblina,
no tempo em que um rei de França
acabou na guilhotina.
Quem me fez, um homem louro,
sendo inglés o relojoeiro,
quis fazer-me mais que tudo
pautado, justo e certeiro.
E asim, posto a trabalhar,
medi com a mesma certeza
horas de luz e de sombra,
horas de amor e tristeza.
Sendo o meu pai homem rude,
da beleza tinha o anhelo:
depois de me fazer exacto
quis tambem fazer-me belo.
Deu-me um mostrador dourado,
com um delfim a cada canto,
e uma caixa com ferragens
a fulgir sobre pau santo.
Rendeu-me pacientemente
os ponteiros de aço leve,
finos dedos com que o tempo
suas sentenças escreve.
E não contente com dar-me
esses trajos tam garridos,
deu-me ainda um carrilhão
que regalava os ouvidos.
Sempre que eu dizia a hora
com vozinha de falsete,
tocava o meu carrilhão
em lento passo um minuete.
Fazendo esquecer as maguas
deste mortal sorvedouro
com sons aureos que eram perolas
gotejando em taças de ouro.
Muita vez vi dançar noivos
ao som destas campainhas:
eles de trunfa empoada,
elas com saias de anquinhas.
Vivia calmo e sereno;
mas um dia por meu mal
meteram-me num navio,
e vim ter a Portugal.
Portugal, que linda terra!
Deus lhe dé alto futuro!
Nunca eu vira sol tam claro,
nunca eu vira ceo tam puro!
Numa terra tam bonita
em breve a minha esqueci,
e mesmo que pes tivesse
não me arredara de aqui!
Que assombro senti cá dentro
quando vi a vez primeira
por uma janela aberta
uma verde laranjeira!
Carregadinha de frutos
vendo-a entam eu julguei ver
um candelabro de bronze
com cem luzinhas a arder!
Portugal é boa terra,
sua gente ainda milhor:
foi-me gostoso o desterro;
mas o pior ... o pior ...
O pior ... foi que vivendo
com alegria e saude
perdi em más companhias
a minha maior virtude!
Diz um rifão, e os rifões
dão luz aos cegos vaivens:
Dize-me cá com quem andas,
dir-te hei as manhas que tens.
Perderam-me as companhias:
nesta terra deslumbrante
ninguem está no sitio certo,
uns atrás, outros adiante.
Nesta terra abençoada
tudo corre á toa e a esmo:
ninguem sabe ás quantas anda,
e eu relogio fiz o mesmo!
Eu relogio antigamente
modelo de exactidão,
umas vezes corro á doida,
e outras paro sem razão.
Por mais que queiram curar-me
ninguem me cura ou milhora:
dou dez horas ao meo dia,
e á mea noite uma hora!
Se tenho os ponteiros doudos,
meu carrilhão de voz linda
em seu perfeito juizo
como outrora canta ainda.
Trazida para esta terra
de loucuras e beleza,
faço loucuras e canto
como a gente portuguesa!
Mas no estado em que me vejo,
a pensar digo para mim
que Deus fez bem quanto faz,
que as cousas vão bem assim.
Em Portugal é cantando
que a propria dor se alivia,
e este costume de loucos
tem sua sabedoria.
Cantar é tarefe de anjos,
tarefe que agrada aos ceos:
cada canção é uma asa
que nos eleva até Deus.
Dar horas pelo contrario
é um oficio que corcova:
cada hora é uma enxadada
que mais funda fez a cova.
Cantar, sim; dar horas, não!
Ao vento incerto da sorte
de que serve a hora certa
para quem tem certa a morte?
O portugués, sendo um doudo,
o portugués tem razão:
Cantemos! Que nos importa
saber as horas que são?