AFFONSO LOPES VIEIRA

1878-

200. O soneto dos tumulos

Até ao fim do mundo. A grande amada
escuta o adeus da grande voz sentida:
santa e rainha, aguarda aquela vida
que só depois do fim é começada.
Pedra de sonho e dor, foste lavrada
pela saudade imensa aqui vivida:
guarda a saudade, pois, da despedida
e a esperança da hora desejada.
Guarda a saudade que jamais acaba,
que o dia que ha de vir, de amor contente,
os que dormem aqui vão esperando.
E no fragor do mundo que desaba
hão de acordar sorrindo eternamente,
os olhos um no outro enfim pousando.

201. Guitarras de Alcacer

Ó guitarras de Alcacer-Quibir,
chorai-vos cantando, gemei a sorrir.
Cantai as saudades dos fieis namorados,
os olhos castanhos, os beijos trocados.
Ó guitarras de Alcacer-Quibir,
chorai-vos cantando, gemei a sorrir.
Gemei as saudades brando, muito brando,
matando as saudades, chorai-vos cantando.
Ó guitarras de Alcacer-Quibir,
chorai-vos cantando, gemei a sorrir.
Gemei as saudades carpindo, carpindo,
carpindo as saudades do amor mais lindo.
Ó guitarras de Alcacer-Quibir,
chorai-vos cantando, gemei a sorrir.
Cantai vos gemendo, chorando mais forte,
guitarras, amores, que amanhã é a morte.
Ó guitarras de Alcacer-Quibir,
chorai-vos cantando, gemei a sorrir.

202. Sinos ao longe

Chegam de longe,
vindas na aragem,
imagens debeis
de bronzes finos.
E cristalinos
pousam na aragem,
na aragem vaga,
finos e flebeis,
como essas penas
no ar serenas
que o ar afaga
só de amparâ-las
e suspendê-las.
Expiram longe,
idas na aragem,
imagens debeis
de bronzes finos,
de cousas flebeis.