CAPITULO SEXTO
O ESTYLO OGIVAL ENTRE NÓS
Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal é, infelizmente, pobre em monumentos, a sua penuria manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival. O Estylo Romanico deixou entre nós algumas construcções, mais ou menos importantes, embora, em geral, estragadas depois por inscientes restaurações, que o cuidado e o gosto moderno vão a pouco e pouco substituindo, a fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva. A Sé de Coimbra, egreja romanica do segundo periodo, é bom exemplo d'este gosto e cuidado.
Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por nós percorrida, encontram-se de quando em quando trechos do Estylo Romanico de soffrivel valor, escondidos no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da renascença. Assim, um dos nossos primeiros monumentos, o Convento de Christo em Thomar, offerece construcções differentes. A subida importancia que outr'ora teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do paiz, a extrema e curiosa diversidade de estylos, que elle manifesta, aconselha-nos mais detida descripção, embora exceda em parte os quadros d'este livro.
| 1 Terreiro e escadorio. | 6 Sacristia. |
| 2 Adro. | 7 Portaria. |
| 3 Charola, egreja primitiva. | 8 Côro e corpo da egreja. |
| 4 Antiga porta da egreja primitiva. | 9 Claustro de João III—Filippes. |
| 5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. | 10 Refeitorio. |
| 11 Claustro de Santa Barbara. | |
Na anterior planta estão descriptos os elementos do grande edificio, que nós suppomos deverem ser considerados verdadeiramente monumentaes; o que não quer dizer que n'outros pontos, já na parte pertencente ao Estado, já n'aquella que infelizmente foi vendida, não existam trechos de verdadadeiro valor artistico e historico, dignos de cuidadosa defeza e conservação.
CONVENTO DE THOMAR—Fachada da Egreja
A egreja actual é formada por dois corpos, construidos em seculos differentes. O circular, que parece hoje constituir a charola da egreja, foi o templo primitivo. Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario, visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha sob as camadas de estuque, que revestem os oito arcos do recinto octogonal, cuja abobada forma uma especie de zimborio sobre o altar.
Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre central, elevando-se a respectiva abobada bastante acima da abobada anelar da nave envolvente. A antiga porta de entrada, virada ao nascente, foi transformada em janela, quando á egreja romanica se annexou o corpo rectangular. N'esta fórma do primitivo templo sente-se a indiscutivel influencia de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.
Nos começos do seculo XV foi construido ao norte da primitiva egreja o Claustro de D. Henrique ou do Cemiterio, que, embora muito simples e pequeno, é de assás puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis das columnas, unicos elementos que poderão servir para rigorosa classificação architectonica d'este claustro.
Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI elevou-se a construcção do actual corpo da egreja, que abre para o primitivo templo circular, transformado em capella-mór, por grande arco, rasgado na respectiva parede. A nova entrada, olhando o sul, é formada por um magnifico e elegante portal. Assim, antes da construcção do Claustro de D. João III, vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada sul da egreja, comprehendendo este portal e duas grandes janelas de volta inteira, bem como a fachada Occidental, ficavam livres e visiveis.
O côro, outr'ora guarnecido de excedente obra de talha, occupa quasi metade do corpo da egreja e firma-se sobre a abobada da casa do capitulo. Por esta fórma, a fachada occidental, ladeada por dois formosos e originaes botareos, offerece entre elles na parte superior uma rosacea, abrindo no côro, e na inferior, illuminando a casa do capitulo, uma magnifica janela com rica ornamentação de algas, embora na realidade um pouco pesada. Toda esta parte do edificio é do Estylo da Renascença do primeiro periodo, entre nós chamado manuelino, manifestando-se na fachada occidental grande influencia do oriente, principalmente na decoração dos botareos e da janela das algas.
Pouco depois do meiado do seculo XVI foi construido e encostado á fachada sul da egreja, da qual mascara grande parte, o Claustro de D. João III, erradamente denominado dos Filippes. Este claustro, que faz recordar os magnificos pateos dos palacios florentinos, é de excellente Estylo da Renascença italiana. Emquanto a nós, se não constitue o unico exemplar nacional d'este estylo, deve pelo menos ser considerado o mais puro e completo. Para o claustro, ou mais rigorosamente para este pateo, abria outr'ora a porta do refeitorio, que da parte monumental é elemento integrante e indispensavel, como o indica a planta.
Esta bella e ampla sala abobadada pertence tambem ao Estylo da Renascença; hoje, porém, encontra-se separada do monumento, havendo sido murada a respectiva porta. Embora seja propriedade do Estado, anda ha longos annos arrendada ao proprietario de parte do Mosteiro e da respectiva cêrca, servindo-lhe de celleiro! Todos os esforços empregados até agora para acabar com este arrendamento, ainda os mais recentes feitos pelo Conselho dos Monumentos Nacionaes, têem sido infructiferos[4]!
Do Claustro do Cemiterio passa-se para a sacristia, peça de secundario valor architectonico, construida nos fins do seculo XVI em Estylo da Renascença, frio e pesado, que faz lembrar muito a singular physionomia da renascença do Escurial.
Esta succinta descripção demonstra a importancia architectonica do Mosteiro de Thomar, bello exemplar onde se casam os mais perfeitos estylos com ornamentações ricas e caracteristicas. Devemos, porém, observar que, no rigor da palavra, a parte não monumental do grande edificio monastico envolve tambem elementos e trechos de bastante valor artistico. Assim, no Claustro da Micha, não comprehendido na planta junta, existem tres grandes salas, onde a tradição affirma que se reuniram as Côrtes de Thomar. Se é possivel duvidar d'esta tradição, embora o estylo das salas seja da epoca, não padece duvida alguma que todas, principalmente a da Nobreza, são bellas e dignas de conservação, ou talvez melhor de salvamento, porque o tempo e o vandalismo acabarão por destruil-as sem remedio[5].
Além d'isso, o Mosteiro manifesta riquissima construcção quer em materiaes, quer em trabalho; assim, por exemplo, os corredores para onde abrem as cellas, na realidade multiplas, vastas e sobrepostas galerias cortando-se em angulo recto, são cobertos por tectos de volta inteira e apainelados de excellente carvalho do norte. De espaços em espaços, encontram-se n'estas galerias bellos trechos e baixos-relevos da pura arte da renascença.
A conservação em que tudo isto se encontra, exceptuando os edificios monumentaes descriptos, menos descurados hoje, é quasi deploravel na parte pertencente ao Estado; porque a outra parte do Mosteiro, talvez a maior, encravada nas pertenças nacionaes sem ordem e sem nexo, bem como a bella cêrca e outras valiosas propriedades conventuaes, foram vendidas por somma irrisoria[6].
Entre todos os mosteiros nacionaes, exceptuando o de Mafra e o de Alcobaça, suppomos que o de Thomar é o maior e o segundo na ordem da riqueza artistica e historica. Uma administração nacional sensata e illustrada teria conservado completo e mobilado este bello monumento, como typo da vida e dos costumes monasticos. Seria, por assim dizer, um exemplar unico no mundo. Hoje, alienada parte do edificio, vendidos a desbarate ou roubados os moveis e os livros, esta restauração seria quasi impossivel; mas, no que nos resta ao menos, o edificio deveria ser conservado como excellente exemplo de uma feição caracteristica e importante das organisações sociaes dos seculos passados[7].
Grande parte das egrejas no norte do paiz, foram primitivamente do Estylo Romanico do primeiro ou do segundo periodo, mas são de construcção acanhada e pobre, offerecendo cobertura de madeira. No sul ainda a escassez de monumentos é maior. Em todo o Algarve, depara-se-nos apenas a Sé de Faro e a de Silves, que merecem alguma attenção. Julgamos que a ultima obedece aos principios das construcções do norte: Estylo Romanico do terceiro periodo—transição—naves cobertas de madeira, côro abobadado, mas tudo em lastimoso estado de conservação artistica.
A Egreja Matriz de Caminha parece-nos constituir um bello exemplo d'este typo de egrejas do norte. Sem duvida, a primeira construcção foi romanica do segundo periodo. Soffreu, depois, grandes restaurações no tempo da renascença manuelina. A fachada, composta de tres corpos distinctos desenhando as naves internas, é d'este definido estylo.
No interior, muito interessante, existem tres naves. A cobertura é de carvalho e de castanho, com vigas descobertas. Arcos de volta inteira sobre columnas delgadas dividem as naves. As paredes lateraes d'estas naves não tinham primitivamente capellas; as que hoje existem são dos seculos XVI e XVII. A egreja acha-se revestida até á altura dos capiteis das naves por azulejos ordinarios, datados de 1690. D'ahi para cima as paredes estão caiadas. O templo primitivo não tinha côro sobre a porta principal, o que existe na actualidade é de construcção moderna.
A capella-mór, tambem manuelina, é coberta por uma bonita abobada. No exterior d'esta capella-mór corre um bello friso de corda e por baixo d'elle outro, simulando uma cadeia de ferro. É o primeiro que vimos n'este genero. Na fachada lateral da egreja ha uma bonita porta da renascença. A construcção é toda de granito. Em geral, os ornatos estão muito apagados, porque o granito empregado tem o grão muito grosso e esborôa-se, exposto á acção do tempo. Fazemos esta ligeira descripção para darmos idéa de um typo assás vulgar das nossas egrejas secundarias do norte e do seu estado actual.
Parece-nos dever concluir, do que temos visto, que as construcções religiosas em Portugal foram bastante activas nos seculos XI e XII, isto é, no periodo romanico. O periodo ogival não manifesta a mesma actividade. Na Sé de Lisboa, como nas de Evora e de Braga e n'outros pontos, o ogival apparece certamente; mas, em geral, parece-nos que foi trazido pelas restaurações dos edificios e pela construcção de capellas annexas.
Assim, na Sé de Lisboa, como vimos, a charola é ogival, guarnecida de capellas, resultando da restauração da antiga charola do romanico secundario, estylo a que pertence a egreja. O claustro é tambem ogival e deve datar da restauração da charola. Á esquerda, logo a principio da nave lateral da egreja, foi construida nos meiados do seculo XIV uma elegantissima capella ogival, por testamento de Bartholomeu Joannes. Esta capella é talvez, apesar das suas pequenas dimensões, um dos mais ricos exemplares do ogival francez do segundo periodo, existente em Portugal. As suas disposições fazem lembrar—até certo ponto e com a devida modestia—as da Sainte Chapelle de Paris. Está hoje em adeantada restauração; devendo constituir, em breve, a unica construcção completa do Estylo Ogival em Lisboa.
A Egreja do Carmo, como o attestam as respectivas ruinas, foi um edificio ogival do segundo periodo, de certa grandeza e de bastante valor architectonico, muito embora diminuido por evidentes restaurações, sobre tudo na capella-mór e nas capellas lateraes das naves, que a primitiva egreja não devia ter. Esta construcção, começada alguns annos depois da do Mosteiro da Batalha, seguiu-lhe o plano, pelo menos nas disposições geraes; sem, comtudo, ter podido nunca manifestar a elegancia e a pureza de estylo do seu bello modelo. É para lamentar que o terremoto de 1755 inutilisasse o unico edificio ogival importante de Lisboa. Hoje, não seria rasoavel restaural-o completamente; mas dever-se-ia tentar, com proveito para a arte nacional e para a decoração da cidade, a restauração das ruinas,—se nos consentem a expressão—o que não seria obra difficil nem dispendiosa.
Da Egreja de Alcobaça já falámos anteriormente, classificando-a de preferencia no Estylo Romanico de transição. Julgamos, pois, opportuno apresentar agora as rasões de ordem architectonica, em que fundamos esta classificação, que póde ser talvez impugnada.
Este edificio religioso, um dos maiores se não o maior que entre nós existe, é attribuido tambem a D. Affonso Henriques; sendo, portanto, coévo da Sé de Lisboa; seria, porém, completamente edificado no seculo XII, ou apenas restaurado e engrandecido n'esse seculo um templo primitivo existente?
Confessamos não possuir elementos sufficientes para dar fundada resposta a esta pergunta, embora nos inclinemos para a segunda hypothese. Esta investigação, que aliás teria importancia para o estudo perfeito do monumento, é dispensavel no caso presente, em que apenas procuramos classifical-o e firmar a nossa opinião em affirmações claras e positivas.
Em seguida, apresentamos a planta da parte monumental do Mosteiro de Alcobaça, famoso pela grandeza do edificio, pelas ricas propriedades conventuaes e pelas tradições de opulencia gastronomica dos frades beneditinos, que o habitaram.
| 1 Egreja. | 5 Sacristia. |
| 2 Sala dos Reis. | 6 Capella do Santissimo. |
| 3 Sala dos tumulos. | 7 Claustro de D. Diniz. |
| 4 Vestibulo. | 8 Sala do Capitulo |
A parte monumental é relativamente pequena em relação á enorme superficie do Mosteiro; todavia, a egreja deve em comprimento considerar-se a maior do paiz.
A fachada foi, evidentemente, restaurada, ou melhor, reconstruida já no periodo da renascença, talvez a partir dos meiados do seculo XVII, aproveitando-se pelo menos parte do antigo portal. Esta fachada manifesta-se fria e pesada, pertencendo ao estylo, assás espalhado entre nós, que de bom grado chamariamos jesuitico; porque nos parece traduzir a ferrea disciplina, o caracter forte e combatente, o methodo implacavel e severo d'essa machina de guerra religiosa, chamada Companhia de Jesus, que, durante seculos, dominou a sociedade portugueza, organisando-a á sua imagem e similhança nas instituições, na philosophia, na sciencia, na religião e até nas manifestações estheticas.
É preciso, em verdade, confessar que a fachada da Egreja de Alcobaça, apesar das qualidades indicadas, offerece elevado cunho de severidade e um grande aspecto solemne, que até certo ponto se nos impõe, resgatando os defeitos do respectivo estylo. É como a disciplina e o espirito jesuiticos, aos quaes, por mais antipathicos que se manifestem á nossa intelligencia e ao nosso sentimento, não podemos deixar de reconhecer grandeza e de tributar um odiento respeito.
CONVENTO DE ALCOBAÇA—Fachada da Egreja
A egreja no interior não exprime, tambem, o sentimento religioso, que se apodera da alma em edificios ogivaes d'esta natureza, principalmente na bella Egreja do Mosteiro da Batalha. Este facto provém talvez mais de condições secundarias do que das disposições geraes architectonicas. É possivel que a impressão fosse profundamente modificada, se a egreja tivesse um dia completa e perfeita restauração e os vitraes polychromicos produzissem a suave e poetica luz, que hoje falta por completo ao grande templo. Em todo o caso, a egreja não deixa de causar uma sensação profunda de majestosa e solemne severidade, exactamente aquella que produzem os edificios romanicos e, sem duvida, provém da synthese caracteristica dos elementos fundamentaes do estylo.
A egreja tem tres elevadas naves, cujas respectivas abobadas se elevam a egual altura. As lateraes são muito estreitas e como excepção, que julgamos assás rara, inflectem-se em angulo recto, acompanhando os braços do transepto. A capella-mór, relativamente pequena, é envolvida pela charola, onde foram abertas capellas. Suppomos que estas capellas devem ter sido construidas no periodo ogival; estão, porém, tão cobertas de obra de talha dourada, que não é facil fazer seguras affirmações sobre este ponto.
As columnas romanicas da capella-mór, bem caracterisadas, segundo pensamos, do periodo secundario, são visiveis da charola; pela frente, estão mascaradas por intercolumnios classicos semicirculares, de construcção relativamente moderna, muito elegantes: o inferior da Ordem Jonica e superior da Composita. N'este ponto reside, sem duvida, uma das difficuldades e um dos problemas de qualquer futura restauração.
O Claustro de D. Diniz—damos-lhe a designação vulgar—fica encostado á parede norte da egreja, commum a ambas as construcções. É um bello e grande claustro, o terceiro na ordem architectonica dos que existem no paiz, considerando o primeiro o do Mosteiro da Batalha pela unidade e delicioso estylo e o segundo o do Mosteiro dos Jeronymos. Primitivamente este claustro apenas teve, como o da Batalha, porticos inferiores, segundo todas as probabilidades cobertos por terraços; nos fins do seculo XV ou no XVI foram construidos os porticos superiores, cuja cobertura é de madeira e telhados amouriscados.
A Sala do Capitulo abre no portico oriental inferior do claustro. É uma bella peça architectonica; sobretudo, a grande porta, ladeada de quatro janelas, duas de cada banda, constitue um dos melhores exemplares romanicos, existentes no paiz. Ninguem acreditará, por certo, que esta porta e estas janelas, tão puras e caracteristicas, se acham muradas, ficando separada da parte monumental a respectiva sala, que outr'ora serviu de picadeiro ao regimento de cavallaria aquartelado no velho Mosteiro e hoje está occupada pelo gymnasio militar!
Os restantes edificios, exceptuando a chamada Sala dos Reis, são construcções posteriores, annexas ou encostadas ao antigo monumento. Por pouco se recommendam, embora sejam elementos integrantes e indispensaveis da parte monumental.
A Sala dos Reis deve ser coéva da egreja e do claustro, quer seja primitivo o seu estado actual, quer resulte de posteriores reconstrucções. Não tem valor architectonico. A sua designação provém de umas estatuas (?!) de gêsso com olhos pintados, que sobre misulas de pedra ornam as paredes do recinto. Uma só phrase define estas grotescas personagens: ridiculas e vergonhosas. Seria uma obra de misericordia artistica e de amor patrio tirar d'ali aquelles mônos, que attestam a esthetica dos gordos frades de Alcobaça e nos envergonham perante nacionaes e estrangeiros, hoje começando a affluir em visita ao monumento.
A Sala dos Tumulos, abrindo no ramo sul do transepto, é de construcção posterior á da egreja. Edificio vulgar, contém, apenas, alguns sarcophagos de valor, principalmente o de D. Pedro I e o de D. Ignez de Castro, magnificos exemplares do Estylo Ogival, embora um pouco damnificados pelas profanações, que em geral soffreram as nossas ricas sepulturas no tempo dos francezes. É a defeza habitual da incuria e falta de respeito pelas tradições e pelos mortos.
Tambem, muito posteriormente á construcção da egreja, uma das capellas envolventes da charola foi rasgada para ligar o templo com a sacristia actual. Esta sacristia, de Estylo da Renascença, é muito pobre e quasi glacial. Parece-nos posterior á restauração da fachada. No extremo da sacristia vê-se um Relicario circular, todo forrado de talha dourada e de bustos de madeira, em geral assás feios e mal feitos, que encerravam as reliquias. Apesar dos defeitos e do pessimo estylo, se esta palavra se póde applicar ao caso, este Relicario deveria ser restaurado, como exemplar dos costumes religiosos do tempo.
Em frente da sacristia encontra-se uma capella, actualmente do Santissimo, sem valor architectonico absolutamente algum. Todavia, no vestibulo, que serve esta capella e á sacristia, as duas respectivas portas são de excedente Estylo da Renascença manuelina.
Eis a succinta descripção da planta da parte monumental do Mosteiro de Alcobaça. No resto do edificio nada encontramos que mereça attenção a não ser a Sala da Bibliotheca, do Estylo da Renascença, vastissimo salão com estuques modernos a caír em pedaços e ameaçando proxima e perigosa ruina. Nos vãos das respectivas janelas existem ainda vestigios da antiga ornamentação, onde se nota a influencia dos frescos e pinturas muraes de Pompeia, tão usadas depois da descoberta, no meiado do seculo XVIII, e das excavações d'esta antiga cidade romana, situada nas margens do Golpho de Napoles.
Não mencionaremos a pantagruelica cozinha dos gastronomos frades de Alcobaça, que, segundo parece, a todas as artes preferiam, a julgar pelo sanctuario, a arte culinaria e as famosas tremendas, pequenas refeições de um arratel de toucinho assado!
A que estylo pertencem a egreja e o claustro, ao Romanico de transição ou ao Ogival primario?
É claro que em face d'estes edificios vamos collocar-nos como os classificadores zoologicos ou botanicos em frente de novos exemplares. Além d'isso, não temos a pretensão de resolver o problema; desejamos, apenas, enuncial-o claramente, o que em mathematica se considera meia resolução.
Comecemos pela egreja, fazendo notar não só a impressão particular, que ella produz, mas tambem a circumstancia de que tanto este edificio, como o claustro e a casa do capitulo se encontram tão ligados, tendo paredes communs, que no respectivo conjunto a construcção deve ter sido pelo menos quasi simultanea.
Enumeremos, pois, os principaes caracteres romanicos bem definidos d'estas construcções.
A egreja offerece os seguintes:
1.º Os pilares das arcadas, que dividem as naves, são rectangulares, massiços e muito fortes, embora assás elevados. Os cinco primeiros de cada lado, a contar do transepto, têem columnas nichadas nos quatro angulos. Nas faces exteriores d'estes pilares, as columnas, que sustentam os arcos da nave central perpendiculares ao respectivo eixo, são chanfradas em certa altura, não chegando ao pavimento. Nos oito pilares seguintes, tambem de cada lado, desapparecem as columnas nichadas e as das faces exteriores assentam sobre fortes misulas. Todas estas columnas, que revestem de grandes em grandes espaços os pilares rectangulares, embora sejam muito elevadas, manifestam relativamente grande grossura.
Estamos, pois, bem longe dos pilares polistylos ogivaes. Assim, se a um architecto dessem isoladamente a secção d'estes pilares e parte da sua elevação, cremos que não duvidaria em classifical-os romanicos.
2.º Em algumas bases das columnas da egreja apparecem garras, cuja fórma nos parece accentuadamente romanica.
3.º As portas da Sala dos Reis, a da entrada para o claustro e a do refeitorio, no portico norte d'este claustro, manifestamente primitivas, são caracterisadamente romanicas.
4.º Os arcos primitivos da capella-mór são de puro Estylo Romanico.
5.º As janelas da capella-mór, as orientaes do transepto e as lateraes das naves, excepto a ultima de cada lado proximas do transepto, são de volta inteira.
D'esta exposição suppomos dever concluir a supremacia do arco continuo nos elementos fundamentaes da egreja. A ogiva apparece, sem duvida, mas nem ao menos é dominante. Assim, na abobada da nave central apresenta-se pouco accentuada e se o é nas lateraes, póde o facto attribuir-se á condição da egual altura dos fechos das abobadas nas tres naves, que obrigou o constructor a dar maior ponto aos arcos, pronunciando a ogiva.
É verdade que o portal da fachada principal é ogival; mas nada prova que esse portal seja o primitivo. Além d'isso, os respectivos capiteis, de folhagens e galões com muito pequeno relevo, são mais romanicos do que ogivaes.
Passemos agora ao claustro:
1.º A porta e as janelas da Sala do Capitulo são absolutamente romanicas.
2.º Os porticos inferiores são formados de dois ou tres arcos geminados de ogiva bem definida, com pequenas rosaceas sobre os angulos curvilineos; mas o grande arco envolvente é sempre de volta inteira.
3.º O pavilhão da fonte tem janelas nas quaes a ogiva mal se desenha.
Se a tudo isto juntarmos que o coroamento do edificio, na parte primitiva, é formado de ameias, repousando sobre forte e simples cachorrame, teremos dado a summula dos argumentos architectonicos, em que nos fundamos para a classificação do monumento.
Outros mais entendidos do que nós que os apreciem, porque na realidade não temos em geral grande amor ás nossas idéas e em todas as occasiões da nossa vida, sem sacrificio de vaidade, temos procurado apenas a verdade.
Este bello Mosteiro de Alcobaça teve sorte egual ao de Thomar. Não o venderam, é certo; mas transformaram-n'o em caserna e abandonaram-n'o á pilhagem. Verdade seja que hoje lá vamos com diminuta somma restaurando lentamente o magnifico claustro.
Afóra isto, nada mais existe no paiz do Estylo Ogival, pelo menos que o conheçamos, a não ser em pequenos edificios e em trechos encravados em egrejas romanicas; eis o que nos parece incontestavel. Assim, na realidade, o unico monumento puro, completo e relativamente grande, que Portugal possue do Estylo Ogival, é o Mosteiro da Batalha; por isso mais detidamente o vamos estudar e descrever.
Da Renascença não é tão accentuada a nossa pobreza. Durante os seculos XVI, XVII e XVIII reparou-se e construiu-se bastante entre nós. As construcções são em geral acanhadas, é certo; ás vezes, de um estylo de pessimo gosto, como o de quasi todas as egrejas d'esse estylo frio, deselegante, disciplinado e monotono, que, segundo dissemos, parece ter nascido da influencia do espirito jesuitico, dominante n'esses seculos. Mas edificios existem, como o Mosteiro dos Jeronymos em Belem, o Palacio da Ajuda, o Convento de Mafra, o Convento da Madre de Deus e a Egreja da Estrella em Lisboa, o Convento de Santa Joanna em Aveiro e ainda alguns outros, que possuem qualidades estheticas e architectonicas dignas de admiração e louvor.
D'este ponto não nos podemos occupar n'este livro, limitado pela prévia definição do assumpto; reservando para mais tarde o delicado estudo do Estylo da Renascença, se podérmos ainda tentar e realisar este trabalho[8].
PARTE QUARTA
O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA VICTORIA
NA BATALHA
MOSTEIRO DA BATALHA—Vista geral
CAPITULO PRIMEIRO
ORIGENS E CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO
O Mosteiro da Batalha é, sem possivel contestação, o nosso primeiro monumento do Estylo Ogival, quasi poderiamos dizer o unico entre nós pela unidade e grandeza, porque os outros offerecem valor secundario. Tivemos occasião de apreciar esta asserção no capitulo precedente.
A verdade é, ainda, que deve ser considerado, não pelas dimensões mas pela architectura, um dos primeiros do mundo. Seria inutil, com effeito, comparal-o com as enormes Cathedraes de Milão, Sevilha, Strasburgo e Colonia. A pequena Egreja da Batalha caberia quasi nos transeptos das duas primeiras cathedraes, vastos colossos de cinco grandes naves, cujas abobadas se elevam a mais de quarenta metros nas naves centraes.
A posição primacial do Mosteiro da Batalha, entre a multidão dos monumentos ogivaes, é-lhe fixada pelas formosas condições architectonicas, pela unidade e harmonia de estylo, rarissimas nas outras cathedraes, pelo sentimento indescriptivel de poesia e de mysticismo que infunde a todos os visitantes, embora sejam versados no estudo de outros monumentos e tenham visto alguns dos principaes. Ora, devemos observar que é necessario ter um edificio singulares qualidades estheticas para resistir á falta de grandeza, que constitue, sem duvida, um requisito quasi indispensavel nas construcções monumentaes.
Assim, por exemplo, o Alhambra de Granada com o seu lindo pateo dos Leões, um primor da arte arabe, visto em gravuras causa grande impressão, que é modificada depois de visitado, por effeito da pequenez do recinto. O aspecto é encantador, de certo; mas falta-lhe a solemnidade das dimensões. Os porticos do pateo dos Leões, formados de pequenas columnas cujos capiteis mal excedem a altura elevada de um homem, offerecem mesquinho aspecto. O nosso espirito procura augmentar tudo aquillo, alargar-lhe as dimensões, dar-lhe, emfim, grandeza e com ella a solemnidade.
Já o mesmo não succede na antiga mesquita de Cordova, transformada em Cathedral. Se o edificio é baixo, como em regra o eram os do Estylo Arabe, as vastas alamedas de columnas, ligadas por dois arcos sobrepostos e cortando-se perpendicularmente em enorme superficie, dão-lhe um aspecto original e grandioso. Outro tanto não poderemos dizer da Sainte Chapelle de Paris, riquissimo exemplar do Estylo Ogival, mas tão pequeno e rendilhado que faz nascer a idéa de estarmos dentro de um riquissimo e gigantesco cofre cinzelado. Taes são as impressões, que produzem, pelo menos no nosso espirito, estes dois pequenos monumentos: o arabe e o christão.
Assim, as condições excepcionaes do Mosteiro da Batalha, quer em relação á nossa riqueza artistica, quer pela sua elevada classificação entre os monumentos do Estylo Ogival, obrigam-nos a estudal-o mais detidamente, procurando, se for possivel, fixar a seu respeito doutrinas e opiniões, que ainda nos parecem pelo menos incertas e confusas.
Origem e data da construcção.—No momento critico, em que a batalha de Aljubarrota, dada em 14 de agosto de 1385, esteve perdida para os portuguezes, D. João I e o seu grande condestavel Nuno Alvares Pereira faziam, talvez ao mesmo tempo, o voto de edificar um templo ao Deus dos Exercitos, porque só elle os podia salvar n'esse terrivel transe. A victoria dos castelhanos teria sido, com effeito, a perda irremediavel do pequeno reino de Portugal, visto que as condições politicas do tempo eram differentes das de 1640.
Os votos dos dois poderosos senhores foram entre nós origem de duas construcções ogivaes. O espirito religioso da Edade Media produziu estes resultados em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas da grande dispersão do Estylo Ogival por todo o orbe christão no periodo do feudalismo, que aliás em rigor não existiu entre nós.
O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos de Aljubarrota o Mosteiro de Santa Maria da Victoria, o condestavel elevando em Lisboa o templo do convento, onde em vida mystica passou os ultimos annos da sua existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto de 1755, é conhecida pelo nome de Ruinas do Carmo.
A data do começo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha não é facil de fixar. Os archivos do convento, como aconteceu com os de muitos outros, foram dispersos e roubados, principalmente depois da revolução constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos quaes se póde definir com muita probabilidade esta data e o periodo da construcção.
Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei D. João I fez doação do convento á Ordem de S. Domingos. É, pois, natural que n'esta data os trabalhos estivessem começados e parte do convento, pelo menos, em estado de receber os frades. O cardeal patriarcha de Lisboa, D. Francisco de S. Luiz, auctor de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da Batalha, homem instruido que viveu durante alguns annos no convento e pôde ainda consultar os archivos mais ou menos completos, manifesta a opinião de que o edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais cedo no anno precedente.
A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres e operarios habeis, principalmente para obra de estylo grandioso e rico pouco cultivado entre nós, exclue, a nosso ver, o curto espaço de um anno entre o voto e o começo da construcção. Além d'isso, frei Luiz de Sousa, o chronista do Mosteiro, cuja descripção constitue um primor de estylo e linguagem do tempo, frade no proprio convento, na sua Historia da Ordem de S. Domingos escreve estas phrases: «com as armas ás costas—D. João I—revia traças, consultava architectos, buscava officiaes e, ganhando por uma parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra edificando paredes sagradas. E foi assim que já havia tres annos que a obra do Mosteiro corria, quando, estando de cerco sobre o castello de Melgaço, assentou de o dar á ordem de S. Domingos».
Esta citação demonstra a vida agitada do monarcha e o seu cuidado em buscar architectos e artifices para a realisação do voto, mas em parte está evidentemente incorrecta, porque, datando a doação do convento de 1388, não podia a respectiva construcção ter já n'essa epocha tres annos, visto que tambem tres annos antes se ferira a batalha de Aljubarrota.
Por estas rasões, corroboradas por outras que exporemos em logar competente, somos levados a fixar o começo dos trabalhos em 1387 e com grande probabilidade a suppor, em harmonia com o espirito peculiar dos votos, que foi escolhido para este acto o dia do anniversario da victoria sobre os castelhanos, 14 de agosto.
Periodo da construcção.—O conjunto do Mosteiro, como existiu outr'ora porque depois parte do convento foi arrasada para desaffrontar o monumento, deve ter sido construido em tres epochas differentes.
A primeira epocha abrange os edificios principaes, como a egreja, a capella do fundador, o claustro, a sacristia, o refeitorio e a casa do capitulo. Estes elementos, os de maior valor, constituem uma parte monumental do Mosteiro e são do melhor e mais puro Estylo Ogival, embora em pontos muito secundarios offereçam vestigios da renascença manuelina.
A segunda epocha comprehende um outro claustro, denominado de D. Affonso V e os antigos annexos do convento.
A terceira epocha envolve as capellas imperfeitas e o respectivo vestibulo.
Occupar-nos-emos, agora, só dos edificios da primeira epocha, porque os da segunda e os da terceira serão succintamente apreciados em um dos seguintes capitulos.
Uma das impressões profundas, que á simples vista produzem logo os edificios ogivaes da primeira epocha, é a sua perfeita harmonia e unidade, tão completas que no nosso espirito se radica a opinião de que o conjunto teve planos estudados e realisados por um só architecto. Esta impressão é manifestada por todos os homens versados no assumpto. Citaremos dois.
Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou em Portugal e visitou o Mosteiro da Batalha, onde fez estudos desenvolvidos, publicou dois livros conhecidos, um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro, acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto escreve ácerca dos edificios, agora considerados: «no todo vêem-se tal correcção e regularidade que apparentemente parece ter sido o resultado de bem concebido plano original e, ao mesmo tempo, é evidente que este plano foi seguido e executado em progressão regular, sem as alterações e as interrupções a que estão, em geral, sujeitas estas grandes construcções».
Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho de Albuquerque, que durante longo tempo dirigiu as primeiras obras de restauração do Mosteiro, distinguindo-se nas dos vitraes, observa, em memoria que corre impressa, terem todos os edificios da primeira epocha paredes communs e directas communicações. Esta observação indica que a construcção não podia deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano geral definitivo, organisado sob as vistas harmonicas em concepção e estylo de um architecto, ou pelo menos de poucos animados do mesmo espirito.
Além d'isso, demonstra que os edificios deviam ter sido construidos em curto praso. Com effeito, vimos que nas grandes cathedraes do periodo ogival faltam em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos periodos de construcção, ás vezes abrangendo seculos, muitos architectos se seguiram na direcção das obras e, durante tão largos espaços, o meio social e o gosto artistico tiveram tempo de se transformar sensivelmente, influindo sobre a unidade e a harmonia dos monumentos. Nos edificios considerados do Mosteiro da Batalha não se deve ter dado este facto. Eis o que resulta da simples observação; ora, os documentos e as presumpções positivas demonstram esta verdade, por fórma irrefutavel.
No testamento de D. João I, feito em 1426, lêem-se em relação ao estado do edificio as seguintes phrases: «que o Mosteiro se acabe de Crasta, casarias, e de todolos outros edificios, que a bom comprimento do dito Mosteiro forem necessarios». Anteriormente, no mesmo documento, El-rei designa para sua sepultura a capella-mór, onde jazia a rainha D. Filippa, sua mulher, ou na outra que Nós ora mandamos fazer, depois que for acabada. Cotejando estas duas citações devemos concluir que a egreja estava quasi acabada em 1415, anno da morte de D. Filippa, porque o respectivo epitaphio refere a trasladação do corpo da rainha para o Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.
Assim, comparadas estas datas, é ponto incontroverso que em 1416 a egreja se achava terminada e estavam em adeantada construcção o claustro principal e a capella do fundador; portanto, tambem o deviam estar a casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia, como corpos annexos e por necessidade do proprio desenvolvimento das obras.
D. João I morreu em agosto de 1433. Seu filho, D. Duarte, continuou os edificios, já muito proximos do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz transcreve uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal, em 10 de maio de 1436, a Fernão Rodrigues, védor das obras—sublinhamos propositadamente o cargo—dizendo-lhe: «vimos a carta que nos escreveste pelo Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que dizeis que eram ordenadas por El-Rei, nosso Senhor que Deus haja, que se fizessem logo n'esse Mosteiro e que quereis saber o que n'este caso havemos por bem que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da fonte dos valles, ou da jardoeira, ou da calvaria para o lavatorio do dito Mosteiro».
As expressões d'esta carta provam que em 1436 a construcção tocava o fim, porque o lavatorio, a que evidentemente se refere D. Duarte, é a bella fonte de excellente estylo, abrigada no pequeno pavilhão, construido n'um dos angulos do claustro principal e fazendo parte integrante da respectiva construcção.
A exposição das opiniões de ordem technica e a comparação dos documentos historicos, que acabamos de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese de que todos os edificios da primeira epocha foram construidos e terminados, pelo menos nos seus elementos principaes, de 1387 a 1433, isto é, no periodo de quarenta e seis annos.
Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se duvidas de caracter muito secundario e facilmente explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a esphera armillar, emblemas manuelinos, existentes nos tecidos rendilhados dos tympanos de alguns arcos do claustro principal. É evidente que estes elementos podem ter sido feitos posteriormente, porque não eram indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso, é muito possivel que provenham de restaurações, visto que a pedra empregada nos edificios é branda em excesso e, nas peças finas e rendilhadas principalmente, mostra-se muito sensivel á acção corrosiva do tempo.
CAPITULO SEGUNDO
O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO
Quando tratámos dos Estylos Romanico e Ogival, expozemos as rasões pelas quaes os nomes dos architectos d'esses periodos eram pouco conhecidos. Tambem o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi geral; todavia, é assumpto muito interessante esta investigação, que, ao mesmo tempo, nos esclarecerá, sobre varios pontos historicos e technicos do nosso primeiro monumento ogival. Ouçamos os documentos; depois virão as deducções geraes e os argumentos de ordem technica. Veremos se é possivel lançar alguma luz n'estas densas trevas.
«D. João I chamou de longes terras, escreve frei Luiz de Sousa, os mais celebres architectos que se sabiam, convocou de todos os pontos officiaes de cantaria destros e sabios; convidou uns com honras, a outros com grandes partidos, obrigou a outros com tudo junto. Á voz da grandeza da obra acudiu de todo o mundo numero infinito de peonagem a servir e trabalhar e ganhar jornaes—que este bem têem as grandes obras, manter muitos pobres».—E n'outro ponto faz notar que os religiosos não eram chamados a dar voto, nem traça, nem ordem nas obras, «unicamente dirigidas por officiaes reaes».
Estas affirmações na bocca de um escriptor grave, eminentemente nacional, que devia ter ao seu alcance os archivos e conhecer as tradições oraes monasticas do Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva auctoridade. Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento; attesta-o a magnifica descripção que d'elle fez na sua grande obra, escripta no principio do seculo XVII, isto é, cerca de duzentos annos apenas depois da construção do Mosteiro. Se os archivos do convento já não existiam, havia a tradição oral, admissivel em tão curto espaço de tempo, principalmente n'uma associação monastica. Frei Luiz de Sousa não cita o nome do architecto; mas escreve expressamente que foram chamados de longes terras os mais celebres architectos; ora, n'este caso, a expressão designa nações estrangeiras. Esta interpretação não póde soffrer duvida, porque o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal acudiu de todo o mundo. A declaração é expressa.
Por outro lado, José Soares da Silva, nas Memorias de D. João I, affirma que n'outra memoria do dominicano Antonio de Madureira se dizia ter sido o primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez chamado David Aquete, que então vivia em Vianna do Castello. Debalde procurámos encontrar esta ultima memoria, ou determinar a data em que existiu este frade dominicano, o que poderia constituir valioso subsidio para a resolução do problema; todavia, parece-nos dever concluir d'estas citações que, entre os frades dominicanos, passava por averiguado ter sido estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.
O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por vezes exagerado, não teria por certo deixado escapar a occasião de enaltecer o nome nacional com a gloria da creação de monumento, que em todos os tempos foi profunda e geralmente admirado.
Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo. Murphy, fundando-se na asserção de Soares da Silva, anteriormente citada, traduziu Aquete—fórma portugueza—pelo nome inglez, que sonicamente lhe corresponde, escrevendo Hakett, appellido irlandez por signal. D. Francisco de S. Luiz critica este procedimento do architecto inglez, que aliás teve tambem outros motivos technicos importantes para acceitar a origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o exagerado. E como se não bastasse este triste argumento, accrescenta, com incrivel arrojo, que n'esse tempo da construcção do Mosteiro eramos a nação mais adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando apenas a Italia!
Ora, n'este ponto, o Cardeal, aliás erudito e grave, demonstrou pequenos conhecimentos, porque não só no ogival a Italia nunca teve a primazia, mas n'essa epoca já a França, a Allemanha, a Inglaterra e os Paizes Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais puros estylos, não falando nas outras artes.
Em contraposição a estes indicios, cujo valor é incontestavel, temos a opinião de frei Manuel dos Santos, que diz chamar-se o mestre da obra Affonso Domingues, natural de Lisboa, morador na freguezia da Magdalena, homem digno de eterna memoria pela capacissima idéa, com que delineou a fabrica. Devemos observar que este chronista do seculo XVIII, pela sua posição official, não nos deve infundir grande confiança em questões patrioticas. Além d'isso, estudou tão mal a questão que, linhas abaixo, escreve haver-se executado a construcção do Mosteiro de 1385 a 1388, o que era em absoluto impossivel no curto espaço de tres annos, confundindo assim a data da doação do convento, feita por D. João I, com a do fim dos trabalhos.
D. Francisco de S. Luiz, como é logico, acceita esta versão e dá-lhe certa plausibilidade. O futuro Cardeal Patriarcha de Lisboa estivera por muito tempo no Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e consultou os archivos, existentes no principio do seculo passado, colhendo preciosas informações sobre os seus successivos architectos, pintores e vidraceiros, nomes que hoje estariam perdidos, se não fossem o zêlo e a curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos do archivo, este escriptor viu um de 1402, que se referia a Affonso Domingues e já o dava por fallecido n'esta data. Como os trabalhos haviam começado em 1387, segundo a nossa opinião, este architecto, se o foi, podia bem ter sido o primeiro, ou um dos primeiros do Mosteiro da Batalha; não se devendo concluir d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor do plano primitivo, que bem poderia ter vindo de longes terras. Em todo o caso a observação tem valor.
Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida. Um grande architecto não se forma isoladamente. No gabinete estuda-se a arte, que se pratica depois. A imaginação, a sciencia da construcção, a firmeza do estylo, emfim, as grandes qualidades de um architecto, se dependem do proprio genio, desenvolvem-se pela pratica e, sobretudo, pela influencia do meio.
O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro valor architectonico, a não ser do Estylo Romanico e d'esse bem pobre e pouco? O que estava em construcção, onde se aquecesse e formasse o seu genio?
Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem a experiencia e a influencia de grandes obras existentes ou em construcção, plano como o do Mosteiro da Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforço do proprio genio deduziu os trinta e seis primeiros theoremas de Euclides. Mas entre a mathematica e a architectura, as differenças são profundas: na primeira, as verdades absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na segunda, a intelligencia não póde supprir os factos numerosos, que constituem a arte e a sciencia do constructor.
É verdade que no seu tempo, em meiados do seculo XIV, acabára a construcção em Lisboa de uma pequena capella do Estylo Ogival, n'este momento em via de restauração, encostada á velha Sé; mas o exemplar, simples e modesto, é do ogival francez do segundo periodo, como o attestam os seus caracteres architectonicos e a assignatura do seu auctor n'uma pilastra principal, conforme era de uso ás vezes, segundo já dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se occulta o nome, define a nacionalidade.
Finalmente, para citarmos uma opinião inesperada e singular, o auctor da collecção de memorias relativas aos pintores, esculptores, architectos e gravadores estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome de Benjamin Comte. Esta citação não envolve valor algum, porque estas memorias, impressas em 1827, manifestam grosseiras inadvertencias. O nome parece francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista dos normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos nomes de origem franceza. Esta supposição podia tomar vulto, se o segundo mestre, ou architecto do Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado de 1402, como testemunha e já era fallecido em 1450, Mestre Ouguet, Huet, ou Huguet, não fosse, como é provavel, a fórma sonica portuguesa do nome bem inglez Hewett.
D. Francisco de S. Luiz, para reforçar a hypothese de que Affonso Domingues foi o architecto do Mosteiro, diz que bem póde ser este mestre Ouguet o Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria do dominicano Antonio de Madureira.
Bem avaliados os documentos e as citações apresentadas, o nosso espirito fica perplexo. Sem duvida, Affonso Domingues existiu e teve importante ingerencia nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto não significa que, se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano primitivo do Mosteiro. Em primeiro logar, poderia apenas tel-o executado; depois—parece-nos esta observação importante—a situação de Affonso Domingues tambem podia ser a de simples fiscal da obra, contractada com uma corporação franco-maçonica, que a teria projectado e realisado, como tudo nos leva a crer e explicaremos mais adeante.
Esta ultima asserção nossa é corroborada pela carta de El-Rei D. Duarte, anteriormente citada e escripta de Setubal a Fernão Rodrigues, védor das obras, do Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda o architecto Hewett, que se suppõe ter sido o segundo mestre das respectivas obras, porque D. Duarte lhe fez doação em 1436 de umas casas, que elle Hewett habitava junto das obras; ora, este principe morreu em 1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de tres annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte d'elle, o architecto inglez teve, como védor ou fiscal, Fernão Rodrigues, delegado regio.
Se este devia ser logicamente o systema, como o é na actualidade nas grandes empreitadas do Estado, nada repugna ao espirito que o mesmo facto se desse em epocha anterior com o architecto David Hacket e o védor Affonso Domingues. Assim, ficaria explicado o apparecimento do nome do segundo no documento de 1402, que infelizmente, ainda visto por D. Francisco de S. Luiz, já hoje não existe.
Esta investigação é assás difficil e uma conclusão, mais ou menos segura, carece de ser fundada em argumentos e provas de outras ordens, que em seguida procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a mais provavel supposição reduz-se a estas proposições: que o plano do Mosteiro da Batalha é de origem estrangeira, ingleza provavelmente, e que o primeiro architecto, que delineou e começou a realisar este plano, não era nacional, mas tambem, segundo as maiores probabilidades, de nação ingleza.
Se os argumentos de ordem historica nos levam a estas conclusões, vejamos agora onde nos conduzem outros argumentos e outras inducções de natureza architectonica.
As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do meio particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomaram feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade. A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos; por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não offerecendo quasi o periodo de decadencia. Eis o que escrevemos a proposito do Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.
No fim do seculo XIV, quando começou a construcção do Mosteiro da Batalha, manifestava-se já certa decadencia na arte ogival do continente, emquanto a ingleza era, ainda, pura e florescente. É certo que, pelas suas condições geographicas e particulares, Portugal recebia o influxo das artes um pouco em atrazo; devemos, pois, entrar em linha de conta com este facto.
O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha é de um ogival purissimo, de perfeita unidade e harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio na ornamentação aliás fina e distincta; em summa, traduz os melhores caracteres da arte na mais florescente edade. Esta impressão resalta do conjunto do monumento e do estudo das suas differentes partes.
Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa visão architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro principal, no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte. Jámais outros grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram tão profunda sensação e sempre repetida; a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral de Milão.
A construcção do Mosteiro da Batalha começou, pois, quando no continente o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo, erguiam-se em Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo bem menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da Batalha com a da arte ingleza parece-nos assás caracteristica; outras rasões ha, porém, que ainda mais apertam estas relações.
Em assumpto tão delicado procuremos a opinião de um mestre inglez, bem conhecido historiador da arte. «Nós não encontramos, tambem, em Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e encimados de grande rosaceas, que se vêem nas Cathedraes de Strasburgo, Reims, París, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de Exester. Por toda a parte—em Inglaterra—o portal e a rosacea são substituidos por uma porta e uma janela sem proporção alguma entre si, a porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»
Não multiplicamos as citações para evitar longa exposição e porque esta nos parece caracteristica.
Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja está orientada, como era costume, voltando a capella-mór para o oriente, encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na ultima. Outras similhanças se manifestam nos caracteres do coroamento e da ornamentação, que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de maineis; só duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e essas talvez não sejam primitivas.
Uma observação fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpções e pelos factos historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a feição, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenças nas respectivas linhas geraes.
Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou, depois, a seguinte opinião de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em Portugal é bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio, a soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal analogia com a Cathedral de York, que não me restou duvida sobre a origem commum d'estes edificios».
Ora, deve notar-se que este grande critico da arte não podia ter presumpções fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos portuguezes, que o levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.
É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem já falámos e a quem Raczynski se refere, no seu livro Viagens em Portugal, diz que Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspiração de architectos, ou pedreiros livres—franco-maçons. Havendo, tambem, acrescenta Murphy, recebido informações de empregados dos archivos de Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.
«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior acção na escolha do architecto. É fóra de duvida que Stephen Stephenson fazia parte dos free and accepted masons, cujo centro em Inglaterra era York—grand-loge of free masons at York.» Esta observação valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente para lhe formar a opinião das parecenças, visto que lhe faltavam outros elementos.
A affirmação de Murphy póde ser contestada; d'ella se conclue, porém, embora implicitamente, que o architecto inglez encontrára os caracteres do Estylo Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha, aliás não acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.
Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro é do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta conclusão.
Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de York, levada a effeito pelos franco-maçons da loja-mestra d'aquella cidade, começou cêrca do anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves, transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha, havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas não só a influencia directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam até esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos franco-maçons d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. João I para o executarem.
Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta presumpção. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos ogivaes são perfeitas adulterações das palavras correspondentes inglezas, por exemplo: o maynel, ou pinazio das janelas, traduzido por mainel, o butress transformado em botareos, a gargoil em gargula. Estes termos, pelo menos, são de origem ingleza.
Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre outros termos especiaes, os rails, carris, traduzidos pelo portuguez popular em ralhes e as sleepers, travessas, transformadas em chulipas. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso ver, que na primitiva construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que deviam ser de York, pertencentes á grande corporação franco-maçonica, que levantou a grande cathedral d'esta cidade.
Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada presumpção. É impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente interessam o presente assumpto.
As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação dip As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação diplomatica permanente, Portugal tinha n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a historia conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Lourenço Annes Fogaça.
Eduardo III, o pae do celebre Principe Negro, acabava de crear condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi independente: o de Leicester, para João de Gaunt, e o de York, para Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo approximava-se do fim a construcção da grande cathedral, que passa por ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.
Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em começos de 1386 chegaram a Portugal emissarios de João de Gaunt, duque de Leicester, annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o casamento de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.
A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as communicações eram difficeis, demonstra as relações intimas e constantes das duas côrtes. É, pois, natural que D. João I, informado pelo duque de Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria já por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses celebres architectos e officiaes de cantaria de longes terras, de que fala Frei Luiz de Sousa.
Esta presumpção é logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor que D. João I não falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor não se referisse á Cathedral de York. É muito provavel, portanto, haverem sido encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construcção. A proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta resolução.
De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar simples coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, já desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel valor.
Ora, não existe duvida alguma em que architectos e operarios da loja-mestra franco-maçonica de York foram os constructores da grande cathedral; portanto, é rigorosamente logico e muito natural que a essa corporação se fossem buscar os elementos para a construcção do Mosteiro da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra não houvesse, daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.
É, além d'isso, muito provavel que as associações franco-maconicas fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituições similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim não aconteceu, manifesta-se ainda provavel que estas associações franco-maçonicas, creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens, se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do védor, ou fiscal das obras, Fernão Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte. Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro védor real das obras do Mosteiro da Batalha.
De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta, segundo pensamos, a plena convicção de que o Mosteiro da Batalha, sendo do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e operarios inglezes, que faziam parte da associação franco-maçonica da grande-loja de York.