MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal
No claustro principal póde dizer-se que toda a
ornamentação
se concentra tambem nos pontos onde
era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos dos
porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e
no pequeno pavilhão do lavabo, que existe proximo do
refeitorio.
Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por
finos columnellos, são em geral magnificos. Apresentamos
a gravura de dois arcos: um servindo de porta,
outro de janela. Em ambos, principalmente, no segundo,
ha vestigios e caracteres evidentes de renascença
manuelina.
A porta e as janelas da casa do capitulo são excellentes.
Na gravura do portico oriental do claustro
podem distinguir-se com certa nitidez estes elementos.
Do interior d'esta bella sala já falámos
precedentemente.
O pequeno pavilhão da fonte, ou lavabo, é talvez
o
ponto do Mosteiro onde os architectos empregaram
mais rica ornamentação, cujo caracter melhor se
comprehende
pela inspecção da respectiva gravura, o que
não conseguiriamos em larga
descripção.
Se da ornamentação das fachadas e do interior dos
edificios passamos para a dos coroamentos, a lei da
simplicidade e da harmonia não soffre
excepção.
Parecem
guarnecidos de renda ingleza, disse-nos um dia
alguem, expressando perfeitamente a impressão, que
elles produzem, pela figura que melhor se adequava
ás tendencias e aos habitos do proprio sexo.
De facto, os coroamentos dos edificios, formando
grandes linhas horisontaes em diversos planos, são
contornados por largas fachas rendilhadas, verdadeiras
platibandas, em geral de espaço em espaço
divididas
por pilastras lisas, encimadas de pequenos pinaculos.
Damos o desenho de
um motivo assás frequente.
O parapeito é guarnecido
de um bello entrelaçado,
onde predomina a flor de
lyz; o corpo da platibanda,
de evidentes quadrilobulos,
assenta sobre uma cornija,
sustentada por modilhões
arqueados.
Este desenho póde considerar-se
o
leit-motiv da
bella symphonia ornamental dos coroamentos dos edificios.
Por toda a parte foi o fio conductor, que dirigiu
e deu unidade á inspiração do
architecto. As fórmas
variam, de certo, um pouco; mas, quasi sem
excepção,
ha sempre em todas a acção e a reminiscencia
do trecho inicial.
Além d'esta ornamentação nada mais
têem hoje os
edificios senão dois pinaculos mais elevados e a agulha,
se tal nome merece o elegante e rendilhado corucheo
da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a
capella do fundador foi, tambem, coberta por outro
corucheo mais consideravel, ignorando nós as
rasões
do seu desapparecimento. Julgamos que este importante
elemento architectonico deve ser reconstruido,
como o exige a linha geral da fachada do Mosteiro,
que assim ficaria muito mais completa e
majestosa[14].
MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal
As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos
em planos não muito differentes, a ausencia quasi
completa dos elementos verticaes de grande altura
dão ao conjunto do Mosteiro uma fórma
acastellada,
muito caracteristica do ogival inglez, que manifesta
fortemente, por exemplo, a Cathedral de York.
Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario
fosse, da origem architectonica do monumento portuguez.
A impressão é, sobretudo, bem definida vendo
ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite
clara de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito
cresceria de intensidade, se o edificio ogival fosse
construido em logar elevado, em vez de occupar um
pequeno e fundo valle.
Não se supponha que esta impressão possa provir
da elevação do monumento sobre as
edificações proximas,
ou do tom escuro da grande molle desenhando-se
mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da
noute. Bem maior e mais alta é a Cathedral de Sevilha,
tambem desprovida de grandes e numerosos elementos
verticaes, e o seu enorme contorno não produz
egual impressão. Emquanto á Cathedral de
Milão o
effeito nocturno é surprehendente; mas de natureza
bem diversa, diremos mais, perfeitamente caracteristica
e propria d'aquelle admiravel colosso.
Sempre que nos foi possivel, não deixámos de ver
os grandes monumentos nas semi-trevas da noite, ou
á luz do luar. Não procuramos só o
effeito poetico,
ainda que esse é um dos fins das artes plasticas. A
physionomia dos antigos monumentos toma na penumbra
da noite uma grandeza especial; fala mais ao
sentimento, que tambem é origem de idéas e
excellente
mnemonica.
Assim, a impressão sentimental do Mosteiro da Batalha,
principalmente do claustro, á luz de um luar
claro, não se oblitera da memoria; como jámais
esquece
o effeito d'esse gigante ogival de Milão, visto de
longe á claridade suave do incomparavel luar de
Italia.
Milão estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil
terreno de alluvião, de que é formada quasi toda
a
Lombardia. Do coração da cidade irrompe a grande
molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si,
elevando-se, montanha de marmore branco, com as
fórmas phantasticas e caprichosas de um enorme
iceberg
dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite
o monumento parece velar o somno da cidade, protege-a
e fala-lhe quando o enorme sino do relogio,
collocado no alto da grande torre, marca solemnemente
as horas com graves sons, fortes, avelludados
e severos, que parece encherem o espaço entre os Alpes
e os Apenninos.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal
Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir
dizendo que o pobre monumento portuguez não possue
ricos vitraes, essa ornamentação tão
bella e caracteristica
dos tempos medievaes. É certo que Mousinho
de Albuquerque, a quem já nos referimos, começou
a restauração methodica dos antigos vitraes, que
na
maior parte encontrou partidos. Este trabalho tem sido
continuado com algum exito; mas bem merecia o monumento
obra mais completa e perfeita.
Da ornamentação subsidiaria dos grandes
monumentos
religiosos, nada existe; nem um simples orgão,
que daria á bella egreja esse mystico encanto da
musica religiosa.
Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha não
com a intenção de lhe fazer completa monographia,
porque esse trabalho exigiria proporções na
descripção,
nos planos e nas gravuras bem superiores á do
presente livro, mas com o simples fim de darmos,
quanto nos foi possivel, exemplos nacionaes dos estylos
architectonicos.
Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva
e completamente em Portugal; tel-o-emos
conseguido?...
MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte
MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte
CAPITULO
QUINTO
RELAÇÃO DOS ARCHITECTOS E MESTRES
Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos
mestres e architectos, que em differentes epocas dirigiram
as obras do Mosteiro da Batalha; nomes citados
em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar
perdidos. Esta simples e incompleta enumeração
poderá talvez servir para guiar futuras
investigações
sobre o Mosteiro da Batalha.
Affonso Domingues. Apparecia em
documento de
1402, que o dava já por fallecido. Como a
construcção
começou em 1387, é muito provavel que fosse um
dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto.
Segundo a nossa opinião, expendida n'um dos anteriores
capitulos, Affonso Domingues foi o primeiro
vedor real das
construcções.
Mestre Ouguet,
Huet ou
Huguet. Apparecia como
testemunha, no citado documento de 1402. Depois,
documentos de 1450 e 1451 davam-n'o já como fallecido.
D. Francisco de S. Luiz affirma que bem póde ser
este mestre o Aquete, de que falla a tradição.
Raczynski
concorda com esta opinião. Emquanto a nós,
parece-nos
que esta hypothese é forçada, porque o nome
inglez sonicamente correspondente é Hewett e não
Hacket. D. Duarte em 1433 fez doação a este
mestre
de umas casas, que ficavam perto do Mosteiro; portanto
elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a casa
doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida
por baixo preço a ultima e bella janela antiga.
Martin Vasques. Apparecia em
documentos de 1450
e 1451, dando-o já como fallecido. D. Francisco de
S. Luiz colloca-o entre os successivos mestres do Mosteiro,
desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo,
ignoramos com que fundamento, que este mestre
e o seguinte foram os constructores do segundo
claustro, denominado de D. Affonso V.
Fernão de Evora. Era
sobrinho do precedente mestre.
Vinha mencionado em documentos de 1448 a
1473.
Mestre Guilherme. Por morte de
Fernão d'Evora,
foi nomeado mestre do Mosteiro por D. Affonso V
em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo,
Diccionario).
Matheus Fernandes. Era mestre do
Mosteiro, quando
em 1480 D. Affonso V lhe tirou o cargo para o dar a
João Rodrigues, cuja competencia declara superior.
O Sr. Sousa Viterbo pergunta se será outro Matheus
Fernandes, alem dos dois seguintes, ou se o
architecto, caído em desgraça, se rehabilitou
depois?
Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.
João Rodrigues. Nomeado
em 1480 mestre do Mosteiro
por destituição do antecedente. Deve notar-se
que já em 1490 era mestre do Mosteiro o seguinte
Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo,
Diccionario).
João da Arruda. Em 1485,
sendo mestre do Mosteiro,
foi mandado a Beja por D. João II para avaliar
certas propriedades. (Sousa Viterbo,
Diccionario).
Matheus Fernandes. Um documento de
1503 falava
d'este mestre, dizendo: «o muito honrado Matheus
Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na villa
do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de
obras do dito Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor.» Em
documento de 1497 falava-se em Margarida Fernandes,
sua filha, o que leva a crer que o pae já era mestre
de obras do Mosteiro n'esse anno. Á entrada da
egreja da Batalha, descendo os degraus da porta principal
pode lêr-se ainda o seguinte epitaphio: «Aqui jaz
Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e
sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor
aos 10 dias de abril de 1515, ella levou-a...» A ultima
data não foi gravada.
D'aqui se póde concluir que Matheus Fernandes foi
mestre de obras do Mosteiro, desde o principio do reinado
de D. Manuel até 1515; ora, como n'esse periodo
a construcção das capellas imperfeitas foi muito
activa, póde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe
o respectivo plano. Sua mulher Isabel Guilhelme
é provavelmente irmã ou filha de Guilhelme
Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473,
ou do precedente mestre Guilhelme, architecto.
Matheus Fernandes (filho). Succedeu
ao pae em
1516. Em documento de 1525, apparecia o nome
d'este mestre, dando-o vivo; logo não podia ser o
precedente,
devendo ser naturalmente seu filho. O nome
d'este mestre não se encontrava em mais documento
algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz conclue que
foi afastado para outra obra.
Boutaca ou
Boytaca. Apparecia em documento de
1509, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei; era
tambem citado em documentos de 1512, 1514 e 1519.
D. Francisco de S. Luiz dá-o como fallecido em 1528.
Raczynski, sem citar auctoridades, affirma que este
mestre italiano foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos
em Belem. Varnhagen, em artigo publicado no
«Panorama», de 9 de dezembro de 1843, diz que em
documentos existentes na Torre do Tombo, descobriu
que este mestre italiano Potassi foi o constructor do
Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o
da Egreja da Conceição Velha de Lisboa.
Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como
auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal,
cuja construcção começou n'esse anno.
A este mesmo
architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tença de
8$000 réis annuaes, a vencer depois do seu casamento.
Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente,
ou pelo menos tendo propriedades, proximo do
Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel Amriques.
Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram
um só individuo. Aconteceu, porém, que ha poucos
annos se procedeu a obras de restauração na
pequena
Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante algum
tempo serviu de freguezia á villa nascente; ora,
subterradas no solo d'esta egreja, foram encontradas
duas lapides tumulares, que veem lançar grande
confusão
nos trabalhos dos archeologos.
A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:
Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza
d'El-Rei
nosso Senhor e mestre das obras do reino. Faleceu
a 6 de Dezembro de 157...
O ultimo algarismo da data é illegivel.
Na outra lapide, encontrada junto á primeira,
lê-se:
Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre
Boutac. Falleceu em 23 d'Abril de 1522.
Assim, á primeira vista parece que este Boutac e sua
mulher são os individuos, anteriormente citados. Mas
para que isto seja possivel é necessario admittir que
Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De facto,
se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus,
em Setubal em 1490 e morreu em 1570, hypothese
mais favoravel, entre estas datas medeiam 80 annos.
Ora, qual seria a edade do architecto, aliás estrangeiro,
quando projectou tão grande obra?
Concedamos 20 annos a Boutac, se é o mesmo; viveu,
pois,
pelo menos, 100 annos. Como
isto não é
nada provavel, resta a hypothese de Boutac pae e
filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres
do mesmo nome Isabel Amriques, morrendo a
a segunda 48 annos antes do marido!
O que nos parece singular, tambem, é a orthographia
tumular do nome, duas vezes escripto. Se o
c
final foi cedilhado, o som é bem proximo de Potassi.
D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os
mestres de artes ou officios desconhecidos; ora, é
indiscutivel
que foi architecto e tão importante que
chegou—elle
ou o filho?—a ser
mestre de obras do
reino.
João de Castilho.
Varnhagen, no seu opusculo sobre
o Mosteiro dos Jeronymos, em Belem, diz que João
de Castilho foi nomeado para as obras do Mosteiro
da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus
Fernandes, filho, o que não nos parece exacto.
Miguel da Arruda. Em 25 de junho de
1533 foi nomeado
por D. João III mestre do Mosteiro, pela renuncia
d'este cargo dada por João de Castilho. (Sousa
Viterbo,
Diccionario).
Dyonisio da Arruda. Sobrinho do
precedente, a
quem substituiu por sua morte. Foi nomeado por
D. João III em 25 de outubro de 1563. (Sousa Viterbo,
Diccionario).
Antonio Gomes. Apparecia como mestre
n'um documento
de 1548; n'outro documento de 1551 era,
apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de
S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as
obras do Mosteiro eram muito pouco importantes
n'esse tempo.
Antonio Mendes. Figurava em
documento de 1578,
como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei, Nosso Senhor;
na certidão da ciza, junta a este documento,
lia-se: «Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei
Nosso Senhor». D. Francisco de S. Luiz crê que era
um simples titulo honorifico, dando apenas direito ao
vencimento de mestre de obras.
Guilhelme Bellés ou
Bellen. Apparecia em documentos
de 1448, 1463 e 1473, como mestre vidraceiro.
Este nome é estrangeiro, parecendo-nos de origem
franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges
foi sempre celebre pelos seus vitraes.
Mestre João. Apparecia
como vidraceiro em documentos
de 1489 e de 1528, tendo fallecido n'este anno
ou no precedente.
Antonio Faca. Apparecia em varios
documentos,
como mestre vidraceiro, sendo o primeiro de 1532.
Era já fallecido em 1543.
Antonio Faca (filho). Documentos de
1535 e 1538,
demonstravam que o mestre precedente tinha um filho
do mesmo nome, designado pelo
moço. Como este
nome apparecia em documentos de 1543, quando o
anterior era já fallecido, devemos concluir que o filho
succedeu ao pae como mestre vidraceiro. Era já fallecido
em 1596.
Antonio Faca (neto). Apparecia em
documentos de
1608, o que deixa presumir o parentesco apontado,
Este appellido parece-nos ser estrangeiro, talvez italiano
ou hespanhol.
Mestres de artes ou officios desconhecidos
Conjati. Documentos de 1428, 1431 e
1443.
Miguel. Documento de 1440.
Estaço, 1463.
Contemporaneo de Fernão d'Evora.
Conrate, 1428.
Officiaes de algumas artes e officios
Estevam Gomes, pedreiro, mestre
d'obras do Infante
D. Pedro, 1428.
João Affonso,
apparelhador, 1450.
Gil Eannes, imaginador, documentos
de 1465.
Affonso Lopes, imaginador,
documentos de 1534,
1544 e 1555.
Duarte Mendes, entalhador, documento
de 1535.
Henrique Francez, entalhador,
documento de 1535.
Pero Faca, entalhador, documentos de
1549 e 1561.
Francisco Faca, pintor, documentos
de 1566.
Alvaro Morato, pintor, documentos de
1592.
Muitos d'estes dados são extrahidos da Memoria de
D. Francisco de S. Luiz sobre o Mosteiro da Batalha.
Os documentos foram, pois, compulsados por este escriptor,
cuja auctoridade é incontestavel. Alguns provéem
do
Diccionario dos Architectos, Engenheiros e
Constructores Portuguezes, do Sr. Sousa Viterbo.
COLLOCAÇÃO
DAS PHOTO-GRAVURAS
|
|
Entre pag. |
| 1.ª |
Schema do uma basilica
romana |
48-49 |
| 2.ª |
Roma. Basilica de S. Paulo, fachada
principal |
54-55 |
| 3.ª |
Roma. Basilica de S. Paulo, fachada
lateral |
56-57 |
| 4.ª |
Roma. Basilica de S. Paulo,
interior |
58-59 |
| 5.ª |
Roma. Basilica de S. Lourenço,
fachada |
60-61 |
| 6.ª |
Roma. Basilica de S. Lourenço,
interior |
62-63 |
| 7.ª |
Constantinopla. Egreja de Santa Sophia,
exterior |
68-69 |
| 8.ª |
Constantinopla. Egreja de Santa Sophia,
interior |
72-73 |
| 9.ª |
Sé de Lisboa. Planta
geral |
148-149 |
| 10.ª |
Sé de Lisboa. Ruinas do terramoto de
1755 |
150-151 |
| 11.ª |
Sé de Lisboa. Fachada principal
restaurada |
152-153 |
| 12.ª |
Sé de Lisboa. Fachada lateral
restaurada |
164-165 |
| 13.ª |
Convento de Thomar. Fachada da
egreja |
202-203 |
| 14.ª |
Convento de Alcobaça. Fachada da
egreja |
212-213 |
| 15.ª |
Convento da Batalha. Vista
geral |
222-223 |
| 16.ª |
Convento da Batalha. Planta
geral |
248-249 |
| 17.ª |
Convento da Batalha. Córte longitudinal da
egreja |
258-259 |
| 18.ª |
Convento da Batalha. Córte transversal da
egreja |
260-261 |
| 19.ª |
Convento da Batalha. Córte do claustro
principal |
262-263 |
| 20.ª |
Convento da Batalha. Portico sul do
claustro |
264-265 |
| 21.ª |
Convento da Batalha. Fachada principal da
egreja |
266-267 |
| 22.ª |
Convento da Batalha. Portal do sul da
egreja |
268-269 |
| 23.ª |
Convento da Batalha. Janela do claustro principal |
274-275 |
| 24.ª |
Convento da Batalha. Porta do claustro
principal |
276-277 |
| 25.ª |
Convento da Batalha. Portico oriental do
claustro |
278-279 |
| 26.ª |
Convento da Batalha. Fonte no claustro
principal |
280-281 |
Estas gravuras, excepto a do n.º 12—
Fachada
lateral
da Sé de Lisboa,
restaurada—são das officinas do Sr.
Thomaz Bordallo. A do n.º 12,
aliás uma das mais difficeis, é das officinas do
Sr. Marinho. São, pois,
todas nacionaes.
INDICE
PARTE PRIMEIRA
Origens da architectura christã
|
Capitulo 1.º A lucta entre o paganismo e o
christianismo |
3 |
| Capitulo 2.º Os tres primeiros seculos do
christianismo |
17 |
| Capitulo 3.º As invasões dos
barbaros |
33 |
PARTE SEGUNDA
Os estylos christãos primitivos
V seculo ao X seculo
| Capitulo 1.º Espirito e caracteres do
Estylo-Latino |
45 |
| Capitulo 2.º Espirito e caracteres do
Estylo-Byzantino
|
63 |
| Capitulo 3.º Acção
reciproca dos dois
estylos
christãos primitivos
|
81 |
PARTE TERCEIRA
Os estylos christãos definitivos
X seculo ao XV seculo
| Capitulo 1.º Synthese social dos seculos XI e
XII |
101 |
| Capitulo 2.º Espirito e caracteres do
Estylo-Romanico
|
119 |
| Capitulo 3.º A Sé Patriarchal de
Lisboa e a sua
restauração
|
141 |
| Capitulo 4.º Synthese social do seculo
XIII
|
167 |
| Capitulo 5.º Espirito e caracteres do Estylo
Ogival |
181 |
| Capitulo 6.º O Estylo Ogival entre
nós |
201 |
PARTE QUARTA
O Mosteiro de Santa Maria da Victoria
| Capitulo 1.º Origens e
construcção do
mosteiro
|
223 |
| Capitulo 2.º O estylo architectonico do
mosteiro |
233 |
| Capitulo 3.º As epochas da
construcção
do
mosteiro
|
249 |
| Capitulo 4.º Descripção
do
mosteiro
|
259 |
| Capitulo 5.º Relação dos
architectos e
dos
mestres
|
281 |
| Collocação
das photo-gravuras |
289 |
Notas:
[1]
O seguinte curioso facto demonstra a lenta
formação dos estylos
architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyão esteve
ameaçada
pelos exercitos allemães, o Arcebispo Genouilhae fez a
promessa de reedificar
a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvière, existente
n'uma montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada
pela guerra. O
milagre deu-se e o
voto cumpriu-se; sendo elevada uma
sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais
bellos e extensos panoramas do mundo.
Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor,
sonharam a
formação de um novo estylo, em que o genio da
arte classica
se alliasse ao mysticismo dos estylos christãos n'uma
unidade comprehensivel
pelo espirito moderno. Aos constructores não faltava talento
e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos, porque
na egreja, aliás não muito grande, se
dispenderam, segundo informações
recebidas que não julgamos exageradas, mais de 9:000 contos.
Pois a
tentativa falhou por completo!
É extraordinario o effeito singular, até
desagradavel, que produziu
no nosso espirito aquella formidavel
mistura de elementos heterogeneos,
constituindo, sem a menor duvida, um
montão de fabulosas
riquezas e
de preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!
Se nos fosse permittida a expressão, diriamos que
julgámos assistir
a uma
mascarada de estylos, porque,
havendo quasi todos, uns tomam
as feições dos outros, conservando algumas das
respectivas linhas e qualidades
fundamentaes. Ha de tudo, até o boi Apis ornamentando uma
porta interior em Estylo Egypcio!
Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos
são
admiraveis de concepção e de
execução. O caso é analysal-os
separados uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos
arcos de fórma
ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas
as proporções e modulos foram desprezados. Por
cima d'esta arcada rasga-se
uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas são
oito
anjos em posições mysticas, perfeitamente eguaes
e com solemnidade
byzantina. O edificio é coroado por frontão
tambem de contorno classico,
cujo tympano é preenchido por altos relevos de caracter
byzantino.
Esta fachada é ladeada por duas torres, que têem
ares de romanicas,
não sendo afinal cousa alguma!
No interior reina egual confusão de estylos, e, para de tudo
haver,
grandes superficies das paredes são revestidas por pannos
tecidos ornamentaes.
Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!
Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral
de S. João, um primor ogival como é regra em
quasi todas as
magnificas egrejas de Lyão. E todavia o Estylo Ogival fez-se
com elementos
de variados e successivos estylos!
A differença está em que a
acção dos seculos em lenta
evolução combinou
os elementos d'esses estylos, adoçou-lhes as antinomias e
esbateu-lhe
as linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente
n'um producto harmonico, como a fusão liga metaes
differentes n'uma
constituição physica, onde todos contribuem para
um composto homogeneo.
Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se
parece com os antecessores, mantendo a propria originalidade.
Os novos estylos precisam de incubação no seio
dos seculos.
Este exemplo da Egreja de Fourvière deve ser citado e
apreciado
na Philosophia e na Historia da Arte.
[2]
Durante os trabalhos de restauração
da porta lateral foram descobertas
umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores á
construcção
do edificio, porque estão cortadas pelos alicerces d'elle.
Estas galerias
têem cêrca de 1
m,5 de altura
por 0
m,80 de
largura, sendo revestidas
de silharia e abobadadas em arco circular com pedras regulares. As
que percorremos parece virem do lado do Castello de S. Jorge,
atravessam
a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios annexos á
fachada
lateral-norte, até ao liminar da porta lateral da egreja.
Ahi a
galeria bifurca-se, lançando em curva um ramo para dentro da
egreja
e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se encosta a
Capella
de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo está cortado pelo
carneiro,
onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D. Rodrigo
da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas ambos
continuam manifestamente para alem d'estes pontos.
Será facil encontrar esta galeria fazendo no solo do
edificio annexo,
que fica á esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte
parallelo á
face interna da parede occidental; a pequena altura
encontrar-se-á a
galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.
Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou
aqueducto, é de construcção romana e
póde ser um caminho secreto,
que ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade,
junto ás margens do Tejo.
Parece-nos muito provavel que os tão falados subterraneos da
Sé de
Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo
da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.
[3]
As principaes dimensões da egreja
são as seguintes:
|
|
metros |
| Comprimento da
porta ao fim da
capella-mór |
59,20 |
| Comprimento do
transepto |
35,00 |
| Largura total das
tres
naves |
21,90 |
|
{ Altura |
18,70 |
| Nave
central |
{ |
|
|
{ Largura |
9,60 |
|
|
|
|
{ Altura |
9,20 |
| Nave lateral (duas eguaes) |
{ |
|
|
{ Largura |
6,25 |
|
|
|
|
{ Altura |
18,70 |
| Transepto |
{ |
|
|
{ Largura |
7,80 |
|
|
|
|
{ Comprimento |
17,80 |
| Capella-mór |
{ Altura |
15,65 |
|
{ Largura |
11,40 |
Os comprimentos e as larguras referem-se ás superficies
interiores
das paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das
abobadas.
[4]
Este famoso
arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras
Publicas,
produz 10$000 réis annuaes ao Thesouro!
[5]
O convento tem servido de moradia a algumas familias,
cujos fogões
de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos
e naturalmente pelas portas
inuteis.
É provavel que o
uso
continue com
os effeitos previstos.
[6]
É versão geral por
40$000 réis.
[7]
A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem
de
objectos nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje não
só a administração
publica os defende, como os repatria, comprando-os quando é
possivel.
As gerações actuaes emendam a ignorancia e os
erros das gerações
passadas.
[8]
Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o
esquecimento
de alguns monumentos dignos de menção.
Não os conhecemos
todos, e dos que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim,
haja desculpa para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos
maia larga informação.
Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo
e seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem
o poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer
todo o paiz, estudando a distribuição dos seus
monumentos e o valor
architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa,
não nos permittiu em tempo proprio a
realisação d'este desejo, se além
d'isso não existissem outras difficuldades obvias.
[9]
Varnhagen attribue esta janela a João de
Castilho e affirma ter
visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro
condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que não tem
rasão alguma.
Esta
loggia, como muito bem lhe
chama Murphy, é um bello trecho
da renascença italiana, ornamentada com espheras armillares
e a
cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta
descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em
excesso
o talentoso e mallogrado redactor do antigo
Panorama.
[10]
Todos estes cortes são
reproducções reduzidas dos do livro de Murphy
sobre a Batalha, publicado em Londres em 1795. Estão
sensivelmente
exactos e apesar da sua antiguidade são os
unicos que até hoje
se fizeram do nosso primeiro monumento ogival!
[11]
Principaes dimensões da Egreja da Batalha:
|
|
Metros |
|
{ Comprimento total com a capella-mór |
81,18 |
| Corpo da egreja |
{ Largura das tres
naves |
21,97 |
|
{
Altura |
27,73 |
|
|
|
|
{
Comprimento |
36,12 |
| Transepto |
{
Largura |
9,48 |
|
{
Altura |
27,73 |
|
|
|
|
{
Comprimento |
15,11 |
| Capella-mór |
{
Largura |
8,10 |
|
{
Altura |
26,90 |
|
|
|
|
{
Comprimento |
56,59 |
| Nave Central |
{
Largura |
9,48 |
|
{
Altura |
27,73 |
|
|
|
|
{
Comprimento |
56,59 |
| Naves Lateraes |
{
Largura |
6,24 |
| Duas
eguaes |
{
Altura |
19,40 |
|
|
|
|
{
Comprimento |
11,95 |
| Absides lateraes |
{
Largura |
5,63 |
| Quatro
eguaes |
{
Altura |
12,80 |
Todas as medições se referem á face
interior das paredes e aos
eixos das arcadas.
[12]
A gravura d'esta fachada é
reproducção da que apresenta Murphy
no citado livro, mas devidamente emendada, porque o original inglez
tem erros importantes. A da porta lateral é egualmente de
Murphy.
Adoptamol-as, porque para a descripção offerecem
mais nitidez de que
as photographias, visto que as fachadas do monumento não
foram tambem
ainda rigorosamente desenhadas. As restantes gravuras são
reducções
de algumas da obra sobre a Batalha, do Sr. Visconde de Condeixa.
[13]
Citaremos um facto curioso. Os artistas da
Exposição Universal de
1900, pretendendo fugir a estas leis fundamentaes, representaram a
cidade
de París por uma estatua vestida no estylo moderno. O bom
senso
popular deu-lhe o nome: fizeram uma
cocotte.
[14]
Este
corucheo, que indubitavelmente faria parte do
projecto primitivo,
para nós, pelos vestigios que encontramos nos
traços da capella,
não padece duvida haver existido.
Além d'isso, Murphy desenhou-o e com tal minuciosidade, que
o restaurador
actual terá apenas o trabalho do córte e
assentamento das pedras,
não sendo importante a despeza.