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A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas cover

A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas

Chapter 14: V
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About This Book

A collection of fictional letters, memoir fragments and critical notes by an urbane, erudite correspondent who mixes literary criticism, reminiscence and travel anecdote. The pieces alternate affectionate satire and cultured reflection on poetic taste, modernity and artistic form, often invoking French influences while sketching urban scenes and journeys. Tone shifts between nostalgic reverie and witty commentary, offering concise portraits, stylistic pastiches and learned asides that probe how form, memory and cultural change shape literary sensibility.


Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. A vela fôra içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á prôa o arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou:—«Em nome de Allah que nos leve, clemente e misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas murmuraram:—«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da dourbaka, outro tomou uma flauta de barro. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.



III


Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrára as suas jornadas dentro da Europa Occidental—emquanto eu errava pela America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.

Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós, apesar de tão tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes trocavamos uma carta—cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique miudamente enchia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.

Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras differentes de conceber a vida—tinham como eu sentido a seducção d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do Portugal Contemporaneo:—«Cá encontrei o teu Fradique, que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a mesma attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos»; o mesmo amor do mysterio, e das subitas desapparições; a mesma vaidade, nunca confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes concorressem a realisar. E receio que em logar do Discurso sobre o Methodo venha só a deixar um vaudeville». Ramalho Ortigão, pouco tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:—«Fradique Mendes é o mais completo, mais acabado producto da civilisação em que me tem sido dado embeber os olhos. Ninguem está mais superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. Marcha cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre, arremette com um chicote na mão contra um troço de lanças abyssinias:—e á noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri ás mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo e á morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as noções mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia, sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um ensino, uma lição de alto gosto, vêl-o no seu quarto, na vida intima de gentleman em viagem, entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas aos boudoirs de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo—e lê Sophocles no original».

O poeta da Morte de D. João e da Musa em Ferias chamava-lhe «um Sainte-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta d'esse tempo que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pedaços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe por cima champagne e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipotentes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra disse: Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de Fradique está admiravelmente construido e mobilado. Só lhe falta uma idéa que o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique é um genio com escriptos!»

Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das Odes Modernas, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com tanta elevação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Teixeira d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da Saragoça, onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel antipathia pelo que elle chamava o lymphatismo critico de Fradique. Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem não o impressionava. «As noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sêda), a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito de beber champagne com soda-water, outros traços ainda, causavam uma irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór. Confessava porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se regularmente com elle—mas para o contradizer com acrimonia.

Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do Temps, quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;—e o maitre-d'hotel recuou assombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual—que em oito annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo intellectual, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a intelligencia de Fradique—e interrompidamente assisti e me misturei á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de a conhecer—talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o sêr sensivel, feito da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservámos sempre o habito especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espiritos. Se eu então concebesse uma Philosophia original, ou preparasse os mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis—de preferencia escolheria Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperança ou d'uma desillusão. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel recato—não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua funcção intellectual.

Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flôr, o jardim das Tulherias. Fradique, que se encostára ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento através das plebes, era o grande erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade para a praça da Concordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as tenras verduras de maio, estas predicções de desastre e de fim—estaca, emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passára vivamente, para os lados da rua Royale, um coupé onde entrevi, na penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente tambem, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philosophava com um amigo no jardim das Tulherias...») Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao velho palacio dos Tredennes, onde elle installára desde o Natal os seus aposentos com um luxo tão nobre e tão sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a «Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os Trabalhos de Hercules, Fradique deixa a janella d'onde olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa manhã nenhum outro cuidado o absorvesse senão o seu th cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim das Tulherias:

—Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha outro meio de nos salvar da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta idéa um programma para as gerações novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente occupado na deducção do seu conceito. Outro homem que, como aquelle, tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude, murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:—«Ah, amigo, que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das Plebes,—desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos não penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem demais, nas amarguras do seu coração.

N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:—«O homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão unica e serenamente occupado no officio de reinar—isto é, de pensar». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se comportou immutavelmente, através da nossa activa convivencia, não se abrindo, não se offerecendo todo, senão nas funcções da Intelligencia. Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim imperio e seducção.


IV


O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audacia. Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J. Teixeira d'Azevedo) que a linha recta é a mais curta distancia entre dois pontos, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal á porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo á secular geometria—que a distancia mais curta entre dois pontos é uma curva vadia e delirante!». Esta independencia da Razão, que Fradique assim apregôa com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:—mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e rarissima, de radiosa excepção!

Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G. Cornuski, professor e critico, que escrevia na Revista Suissa, e que (diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes—a Gerusalemme Liberata do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de Racine, as orações de Bossuet, os nossos Lusiadas, e outros monumentos canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico lhe impunha a proclamação da verdade, este homem robusto, sanguineo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava:—«Não! Porque será o meu criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a sublimidade—e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono, continuava, diante dos córos da Athalie e das nudezes do Ticiano, a murmurar desconsoladamente:—«Como é bello!»

Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto; já porque as idéas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa memoria, depois de leituras e conversas, nos pareçam ser as nossas proprias; já porque a suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve subtilmente a concluir em concordancia com elles—a lamentavel verdade é que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.

«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle é essencialmente do seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma pallida e morna infecção de banalidade, causada pelos quarenta mil volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente e monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela Renascença. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. A isto, oh Carolus, se chama educar! A creança, desde a sua primeira «Selecta de Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada do Logar-Commum—camada que depois todos os dias, através da vida, o Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão atochando no espirito até lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas, de viçosa originalidade, seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opéra sobre o Intellecto como Vichy sobre o figado—desobstruindo-o, e permittindo-lhe o são exercicio da funcção natural. Depois de dois annos de vida selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do Instincto,—que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o Progresso, a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Politica, a Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de matagal e de brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que lhe renovem uma provisão de «idéas feitas», nem um benefico Nunes Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»—o Europeu irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo, nudez do corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar é um Adão forte e puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que distillas espiritos, queres remergulhar nas Origens e vir commigo á inspiradora Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol entre a palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo, com a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos n'um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma precisa—deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de riso á idéa das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que vão por essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se atropellam, estonteados pelas superstições da civilisação, pela illusão do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificações dos reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida admiração de si mesmos!...»

Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas humanas», só possivel, segundo o poeta das Lapidarias, ao Adão renovado que regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de longos annos de Litteratura—tentou-o elle, sem deixar os muros classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o prendiam os seus gostos e os seus habitos—mundo mediano e regrado, sem invenção e sem iniciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar, devem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» e não individualmente creadas—Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos, affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria, deixando transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche—é mais desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira, o estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava mais intensamente do que o effeito e o destaque excessivo. Nunca lhe conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa, agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo preferiria—menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) «ter de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de levar a minha amiga núa, toda núa, pisando os tapetes com os seus pés nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios nús. Amicus Mundus, sed magis amica Veritas! Este bello latim significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade é agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens—o que duplamente me leva a amal-a com pertinacia».

Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa sinceridade—impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema, onde para sempre permanecesse por inercia—eram de resto as qualidades que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára a mais continua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero dizer, não sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que consistem em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois um sabio, nem um philosopho, não posso concorrer para o melhoramento dos meus semelhantes—nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia tambem se me conserva vedada:—porque, se, para se produzir Litteratura basta possuir talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes. E eu!... Só portanto me resta ser, através das idéas e dos factos, um homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupação do meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma idéa ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente, explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de verdade que exista nos seus refolhos—e sahir, passar a outro facto ou a outra idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia, enlevado no esplendor das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente fiquei simplesmente um touriste».

Estes touristes da intelligencia abundam em França e em Inglaterra. Sómente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua imagem) transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Mantinha por principio que se devia momentaneamente crêr para bem comprehender uma crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo. Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario, As Pantheras de Batignolles, e frequentára as suas sessões, encolhido n'uma quinzena sordida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flôr de alguma extravagancia instructiva». Assim se incorporava em Londres aos Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vão queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára com os Theosophistas, concorrera prodigamente para a fundação da Revista Espiritista, e presidia as Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre os dois mediums supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitára durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo, «para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que fazem um Carlista—porque todo o sectario obedece á realidade d'um motivo e á illusão d'uma formula». Assim se tornára o confidente do veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e estudar peça a peça o mecanismo d'um cerebro de Nihilista». Assim se preparava (quando a morte o surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára a curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as Philosophias—cometa errando através das idéas, embebendo-se convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um dilettante. Não! essa séria convicção (a que os inglezes chamam earnestness), com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida uma valia e efficacia muito superiores ás que o dilettantismo, a diversão sceptica que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a elle deliciosamente se abandonam. O dilettante, com effeito, corre entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde seculos comparado) correm entre as flôres, para pousar, retomar logo o vôo estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extrahindo o seu mel:—quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.

Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porém a sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser—uma percepção extraordinaria da Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma carta a Anthero de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que a envolve) tem uma Realidade. A expressão de Realidade não é philosophica; mas eu emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel, quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar, uma Realidade—quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recommenda Buffon) certos contornos que o limitam, o definem, lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto, e constituem o seu exacto, real e unico modo de ser. Sómente o erro, a ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a illusão, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e deforma os seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise no seu exacto, real e unico modo de ser. É justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está cahindo d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as coisas tomam um relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura. Mas vossê decerto comprehenderá, Anthero excellente e subtil! Já esteve em Londres, no outono, em novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma pardacenta illusão submerge toda a cidade—e com espanto se encontra n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios, quasi todos os seus juizos são enganos; e estes constantemente estão trocando o Templo e a Taberna. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria tartamudear».

Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões privilegiadas. O proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e detalhar em silencio—como dizia Oliveira Martins—revelava logo o seu processo interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a pouco lhe surgisse na sua rigorosa e unica fórma.

A manifestação d'esta magnifica força que mais impressionava—era o seu poder de definir. Possuindo um espirito que via com a maxima exactidão; possuindo um verbo que traduzia com a maxima concisão—elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte, enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se alargára:—«A Arte é um resumo da Natureza feito pel com a maxima concisão—elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte, enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se alargára:—«A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação».

Certamente, não conheço mais completa definição d'Arte! E com razão affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que «se o bom Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, nos atirasse lá de cima, do seu divino ermo, a final explicação da Arte, nós ouviriamos resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a definição de Fradique!»



A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Além d'um solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e de Litteratura decorativa, o habilitára a crear em latim barbaro poemetos tão bellos como o Laus Veneris tenebros[ae])—possuia profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes, a França, a Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com abundancia e gosto.

As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que divinamente o compõe, desde os insectos até aos astros. Estudos carinhosamente feitos com o coração—porque Fradique sentia pela Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma veneração genuinamente budhistas. «Amo a Natureza (escrevia-me elle em 1882) por si mesma, toda e individualmente, na graça e na fealdade de cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade intangivel, a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em resumo adoro a Vida—de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e (com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro—porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. E a minha religião está toda no credo de Athanasio, com uma pequena variante:—«Creio na Vida toda-poderosa, creadora do céo e da terra...»

Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas sobretudo que pertencem á Pre-historia—a Anthropologia, a Linguistica, o estudo das Raças, dos Mythos e das Instituições Primitivas. Quasi todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette, densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania, indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com intensidade e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitações lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica; com as raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferradas investigações duravam emquanto podia extrahir d'ellas «alguma emoção ou surpreza intellectual». Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre o tapete livre:—«Sorvi todo o Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»

O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com especial constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixão da Historia. E adivinha vossê porquê, Historiador? Pelo confortavel e conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando fiz onze annos, minha avó, de repente, para me habituar ás coisas duras da vida (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes, e mandou-me a uma escóla chamada Terceirense. O jardineiro levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho—por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porém, folheando uma Encyclopedia de Antiguidades Romanas, que tinha estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambem de manhã para a escóla, como eu, pela mão d'um servo—denominado o Capsarius; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do Velabro ou das Carinas, para comerem á merenda—que chamavam o Ientaculum. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva procurador—respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião. A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os rapazes de escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto, evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando com uma vangloria heroica:—«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma mulher obesa que morava ao fim da rua...»

N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:—«Levou-me pois effectivamente á Historia o meu amor da Unidade—amor que envolve o horror ás interrupções, ás lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de explorações e de travessias—porque me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus extremos limites, e não sentir a contínua solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a Historia, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de todos os que me precederam na vida. Talvez vossê murmure com desdem—«mera bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ella é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás portas—e pelo outro a descobrir a America!»

O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:—«Aquelle Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda, d'uma transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;—depois accende o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar psychologicamente os caracteres individuaes—alliava-se n'elle a um minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica até á França Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)[1] são verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia synthetica, a certeza do saber, a força e a abundancia das idéas novas. E, por outro lado, a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou, na sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma. Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu jardim de Chelsea.

Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo recolhia e tudo retinha—vasto e claro armazem de factos, de noções, de fórmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel á memoria de Fradique, como «installação, ordem e excellencia do stock», só conhecia a adega do café Inglez.

A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admirações ou de curiosidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao Oriente:—ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no naufragio do Magnolia. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria, constitue o mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta força, de eternisar uma civilisação».

O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves, n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar á costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV secção da policia imperial:—Monsieur, vous nous observez de trop près, pour que votre jugement n'en soit faussé; je vous invite donc, sur votre intérêt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte, d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de Paris!—Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou logo á Suecia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general Armankoff:—Monsieur, j'ai reçu votre invitation où il y a beaucoup d'intolerance et trois fautes de français.

Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga... «Tenho folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. Para vêr por fóra, por mera festa dos olhos, nunca fui senão a Marrocos».

O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira do detestavel touriste francez, para notar de alto e pêcamente «os defeitos»—isto é, as divergencias d'esse typo de civilisação mediano e generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes, as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito—«em Roma sê romano»—tão facil e dôce de cumprir em Roma, entre as vinhas da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do Himalaya. E estava tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen—como n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da carabina «Express» e da carabina Winchester, entre caçadores de elephantes.



Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris e Londres—com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.

O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás coisas de Portugal. A compra da quinta do Saragoça, em Cintra, realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção) «para ter terra em Portugal, e para se prender pelo forte vinculo da propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de quem elle herdára o sangue e a curiosidade do além

Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma provincia, lentamente, a cavallo—com demoras em villas decrepitas que o encantavam, infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos, fraternisações ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado de louro. A sua região preferida era o Ribatejo, a terra chã da leziria e do boi. «Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e lavados ares da manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia de viver».

Lisboa só lhe agradava—como paizagem. «Com tres fortes retoques (escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma varredella definitiva por essas bemditas ruas—Lisboa seria uma d'essas bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de sonho, de arte e de peregrinação. Mas uma existencia enraizada em Lisboa não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a alma respire. Depois certas feições, singularmente repugnantes, dominam. Lisboa é uma cidade alitteratada, afadistada, catita e conselheiral. Ha litteratice na simples maneira com que um caixeiro vende um metro de fita; e, nas proprias graças com que uma senhora recebe, transparece fadistice: mesmo na Arte ha conselheirismo; e ha catitismo mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes».

Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano, presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle não têm o habito profissional.

Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho d'um preconceito que dogmatisa—e não d'uma observação que discrimina. Assim lh'o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por elle nos Politicos—se explicam sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador á destruição da nossa terra.

Fradique replicou simplesmente:

—Se um rato morto me disser,—«eu cheiro mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apodreci»,—eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto.

Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer. Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inhabil, descomedida e papalva imitacão de Paris. Essa «saloia macaqueação», superiormente denunciada por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que «Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão»—tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo, algum resto do genuino Portugal.

Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido vernaculo!»—«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do boulevard, requentados, e servidos em chalaça e galantine! Desastre estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitella de Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos, degeneraram, insipidaram... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o sabor, como os homens têm perdido o caracter...»

Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual, Fradique protestou com paixão:

—Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da Democracia e da Critica!

A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por ter perdido esse typo de civilisação intensamente original, o mundo ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente, quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o «modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no Rato—n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:

—Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim, desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos, rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa, pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!

Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava, com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do tempo do snr. D. João V—Ramalho Ortigão não se conteve:

—Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu, regalar-se de pittoresco e de archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes, consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas, inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurrões para a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que vossê queria!

Fradique volveu serenamente:

—Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui, a vós, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas algibeiras da casaca de sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de Marialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do perú e o mote. Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vós não merecieis melhor; e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do almoço.

Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo sujeito utilitario e sério de sobrecasaca preta)—com a monotonia com que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.

Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo—o povo que não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos seus defeitos:—pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do Senhor Rei venera o Senhor Governo; pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das Sebentas de de Direito Publico».



V


A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.

Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e grave—tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de bric-à-brac, tanto seduz os financeiros e as cocottes. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço, claridade, uma harmonia de tons castos—eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico, formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol.

A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu creado Smith, velho escossez da clan dos Macduffs, já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.

De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz, gritava:—Morning, Sir! Immediatamente Fradique, dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique) reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos telegrammas politicos do Times, do Standard e da Gazeta de Colonia!

Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de xadrez verde e preto (côres da sua clan), os sapatos de verniz decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita consciencia:—«Não se realisa a conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia—«Li no Times»—mas «Li no Smith».

Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade, radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo.

Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:—e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»), sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos ateliers, ás salas d'armas, ás exposições, aos clubs—aos cuidados diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.

De tarde subia ao Bois conduzindo o seu phaeton, ou montando a Sabá, uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na Comédie) era passada n'algum salão—precisando sempre findar o seu dia entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).

A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e s A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a Mulher.

A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração, Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.

As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas, critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas—é bem permittido, creio eu, segundo a Cartilha e o Codigo».

Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo», tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de absorpção—mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento enleado dos seus olhos finos,—as mulheres viam apenas a influencia omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel—de que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido—facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada—que peccados e que traições não commetterá a Maharina?...

Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os homens—um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade inestimavel, quasi unica na nossa geração—uma alma extremamente sensivel, servida por um corpo extremamente forte.



De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda—confessei um dia a J. Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das Lapidarias aquelle tepido leite da bondade humana, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade, lançava este rude programma de conducta:—«Os homens nasceram para trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar friamente através!...»

Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges chamou depois le degel de Fradique, bem cedo senti, através da impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias, brotar, tepida e generosamente, o leite da bondade humana.

A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza—Fradique, perante o peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que, consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella voz que fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica, sempre prompto a brotar.

A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres palavras:—«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação. Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, summa divina de toda a experiencia humana—«ajudai-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam—cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome; estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte».

Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis, lançando ao lado um algarismo—que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas Justiça)—era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes, singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que pede, tranzido de frio—param sob a chuva e sob o vento, desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d'um dia.

Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em Paris, correndo ambos a uma estação de fiacres para nos salvarmos d'um chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas Nove Musas dançando entre loureiraes), encontrámos apenas um coupé, cuja pileca, com o sacco pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou em esperar que o cavallo almoçasse com socego—e perdeu as Nove Musas.

Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes—por sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e de sentimento natural passa a funcção official—é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos pobres?...»

Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao longe, como afundados em horisontes de tristeza—para assim lamentar, com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, homo homini lupus.

—Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.

Fradique encolheu os hombros:

—Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.



Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis, decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar, sempre appetecera—inopinatam atque repentinam.

Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um yacht uma viagem á Islandia) achou no vestiario a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de casaca, até ao club da Rue Royale. A noite estava sêcca e clara, mas cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos, seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a Fontainebleau com amigos no alto d'um mail-coach. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia d. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia de verão.

O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades humanas:—«Toujours de la chance, ce Fradique!»

Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.

Jaz no Père-Lachaise, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que tanto amára em vida o creador da Comedia Humana. Mãos fieis, por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o cobre na terra.