VI
O erudito moralista que assigna Alceste na Gazette de Paris dedicou a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a sua acção:—«Pensador verdadeiramente pessoal e forte, Fradique Mendes não deixa uma obra. Por indifferença, por indolencia, este homem foi o dissipador d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que poderia ter talhado um monumento imperecivel—tirou elle durante annos curtas lascas, migalhas, que espalhou ás mãos cheias, conversando, pelos salões e pelos clubs de Paris. Todo esse pó d'ouro se perdeu no pó commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia escrever:—«Aqui jaz o ruido do vento que passou derramando perfume, calor e sementes em vão...»
Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade e inconsideração dos francezes. Nada menos reflectido que as designações de indolencia, indifferença, que voltam repetidamente, n'essa pagina bem ornada e sonora, como para marcar com precisão a natureza de Fradique. Elle foi ao contrario um homem todo de paixão, de acção, de tenaz labor. E escassamente póde ser accusado de indolencia, de indifferença, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma religião, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisações, percorreu todo o saber do seu tempo.
O chronista da Gazette de Paris acerta porém, singularmente, affirmando que d'esse duro obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas ao mundo só d'elle conhecemos com effeito as poesias das Lapidarias, publicadas na Revolução de Setembro—e esse curioso poemeto em latim barbaro, Laus Veneris Tennebrosae, que appareceu na Revue de Poésie et d'Art, fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas symbolistas. Fradique porém deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de Varennes, os entrevi eu dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de ferro lavrado, que Fradique denominava a valla commum. Todos esses papeis (e a plena disposição d'elles) foram legados por Fradique áquella Libuska de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de Jouarre, e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno».
Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e escrevia capitaine com t, e, (capiténe) morrera em Paris, por fins d'outono, ainda moço, de uma languida e longa anemia. Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa, cercada d'aias e de crépes, recolheu ás suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Na primavera, porém, voltou com as flôres dos castanheiros,—e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. Um dia, em casa de Madame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado então no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais antigo e nobre dos seus poemas, o Julgamento de Libuska, casualmente encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. Madame Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora, condes de Colloredo—e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de pergaminho que contêm a velha epopeia barbara.
Ambos leram esse texto heroico—até que o dôce instante veio em que, como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo». Fradique dera a Madame Lobrinska o nome de Libuska, a rainha que no Julgamento apparece «vestida de branco e resplandecente de sapiencia». Ella chamava a Fradique Lucifer. O poeta das Lapidarias morreu em novembro:—e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Os seus amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira, para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez—até que reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez Libuska não voltou, nem com as flôres dos castanheiros.
O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava sobretudo os menus e os cotillons. A sua carreira foi portanto irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu no Rio de Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario, esperando aquella legação na Europa que o Principe Gortchakoff, então Chanceller Imperial, affirmava pertencer a Madame Lobrinska par droit de beauté et de sagesse. A legação na Europa, n'uma capital mundana, culta, sem bananeiras, nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das saudades da neve:—e Madame Lobrinska, no seu exilio, chegou a aprender tão completamente a nossa dôce lingua de Portugal, que Fradique me mostrou uma traducção da elegia de Lavoski, A Collina do Adeus, trabalhada por ella com superior pureza e relevo. Só ella pois, realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar como paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento, esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sêccas e mortas folhas de papel, cobertas de linhas incomprehendidas.
Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes, escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo carinhoso as feições d'esse transcendente espirito—e implorando, se não alguns extractos dos seus manuscriptos, ao menos algumas revelações sobre a sua natureza. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa, bem determinada, bem deduzida,—mostrando que decerto sob «os claros olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. «Os papeis de Carlos Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados, a ella que vivia longe da publicidade, e do mundo que se interessa e lucra na publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o caracter intimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n'estas condições o revelar a sua natureza seria manifestamente contrariar o recatado e altivo sentimento que dictára esse legado...» Isto vinha escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel aspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma corôa d'ouro, esta divisa—Per terram ad coelum.
D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com desconsolado orgulho denominava a valla commum, por julgar pobres e sem brilho no mundo os pensamentos que para lá arrojava?
Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se não completas, ao menos esboçadas, ou já coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e um artista d'este seculo—uma Psychologia das Religiões e uma Theoria da Vontade.
Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um romance de realismo epico, reconstruindo uma civilisação extincta, como a Salammbô. E deduzem essa supposição (desamoravel) d'uma carta a Oliveira Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia mysteriosa:—«Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas culpadas e vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o mal! Que demonio malfazejo, coberto do pó das Idades, e sobraçando in-folios archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de duro inverno e de erudição decorativa:—«Trabalha um romance! E no teu romance resuscita a antiguidade asiatica!»? E as suas suggestões pareceram-me dôces, amigo, d'uma doçura lethal!... Que dirá vossê, dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente no seu lar receber um tomo meu, impresso com solemnidade, e começando por estas linhas:—«Era em Babylonia, no mez de Sivanù, depois da colheita do balsamo?...» Decerto, vossê (d'aqui o sinto) deixára pender a face aterrada entre as mãos tremulas, murmurando:—«Justos céos! Ahi vem sobre nós a descripção do templo das Sete-Espheras, com todos os seus terraços! a descripção da batalha de Halub, com todas as suas armas! a descripção do banquete de Sennacherib, com todas as suas iguarias!... Nem os bordados d'uma só tunica, nem os relevos d'um só vaso nos serão perdoados! E é isto um amigo intimo!»
Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crêr que os papeis de Fradique contêm Memorias—porque só a Memorias se póde coherentemente impôr a condição de permanecerem secretas.
Eu por mim, d'um melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que elle não deixou um livro de Psychologia, nem uma Epopeia archeologica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de saber pittoresco e facil), nem Memorias—inexplicaveis n'um homem todo de idéa e de abstracção, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido n'um velho solar russo, não existe uma obra—porque Fradique nunca foi verdadeiramente um auctor.
Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas—mas faltou-lhe a certeza de que ellas, pelo seu valor definitivo, merecessem ser registradas e perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para produzir aquella fórma que elle concebera em abstracto como a unica digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idéas. Desconfiança de si como pensador, cujas conclusões, renovando a philosophia e a sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um movimento inesperado; desconfiança de si como escriptor e creador d'uma Prosa, que só por si propria, e separada do valor do pensamento, exercesse sobre as almas a acção ineffavel do absolutamente bello—eis as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica inclemente e sagaz que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento, tão vivo n'elle, da Realidade fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era, na sua real potencia e nos seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais potente ou mais largo esses «fumos da illusão litteraria»—que levam todo o homem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que, nem pela idéa, nem pela fórma, poderia levar ás intelligencias persuasão ou encanto que definitivamente marcassem na evolução da razão ou do gosto—preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que tanto seduzia Descartes—bene vixit qui bene latuit.
Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e ruidoso inverno: e desde o café, com os pés estendidos á alta chamma dos madeiros de faia que estalavam na chaminé, conversavamos sobre a Africa e sobre religiões Africanas. Fradique recolhera na região do Zambeze notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos nativos—que são divinisações dos chefes mortos, tornados pela morte Mulungus, Espiritos dispensadores das coisas boas e más, com residencia divina nas cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e, comparando os ceremoniaes e os fins d'estes cultos selvagens da Africa com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou, Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real, essencial, necessario e eterno é o Ceremonial e a Liturgia—e o que ha de artificial, de supplementar, de dispensavel, de transitorio é a Theologia e a Moral.
Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos traços de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas. E sorrindo, seduzido:
—Fradique! porque não escreve vossê toda essa sua viagem á Africa?
Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de compôr um livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propozesse marchar descalço, através da noite tormentosa, até aos bosques de Marly. Depois, atirando a cigarette para o lume, murmurou com lentidão e melancolia:
—Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros não tivessem já visto.
E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e saturado de erudição, faz a travessia da Africa; e que em sciencia uma só verdade necessita mil experimentadores—Fradique quasi se impacientou:
—Não! Não tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo, conclusões que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a pena registrar... Só podia apresentar uma série de impressões, de paizagens. E então peor! Porque o verbo humano, tal como o fallamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a simples fórma d'um arbusto... Eu não sei escrever! Ninguem sabe escrever!
Protestei, rindo, contra aquella generalisação tão inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente. E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé que nos aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a Sorbonna, o Instituto de França e a Escóla Normal, muitos homens houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a «bella arte de dizer».
—Quem? exclamou Fradique.
Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o meu Bossuet até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, côr, intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o contentava. A distenção retumbante de Hugo era tão intoleravel como a flaccidez oleosa de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez e nervo; a Taine fluidez e transparencia; a Flaubert vibração e calor. O pobre Balzac, esse, era d'uma exuberancia desordenada e barbarica. E o preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente...
Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz insatisfeito» que prosa pois concebia elle, ideal e miraculosa, que merecesse ser escripta. E Fradique, emocionado (porque estas questões de fórma desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallino, de avelludado, de ondeante, de marmoreo, que só por si, plasticamente, realisasse uma absoluta belleza—e que expressionalmente, como verbo, tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados d'alma...»
—Emfim, exclamei, uma prosa como não póde haver!
—Não! gritou Fradique, uma prosa como ainda não ha!
Depois, ajuntou, concluindo:
—E como ainda a não ha, é uma inutilidade escrever. Só se podem produzir fórmas sem belleza: e dentro d'essas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é reductivel ao verbo.
Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que mantivera mudo aquelle superior espirito—possuido da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de fórmas absolutamente bellas.
Por isso, e não por indolencia de meridional como insinua Alceste,—Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da formidavel actividade do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos annos espalhou, á maneira do sabio antigo, «em conversas com que se deleitava, á tarde, sob os platanos do seu jardim, ou em cartas, que eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o separavam...» As suas conversas, o vento as levou—não tendo, como o velho dr. Johnson, um Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse pela cidade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas cartas—leves migalhas d'esse ouro de que falla Alceste, e onde se sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram.
VII
Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro proposito de abstenção e silencio—eu, publicando as suas Cartas, pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de espirito. E assim seria—se eu não possuisse a evidencia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a um livro que me acompanhára e me encantára, a Correspondencia de Xavier Doudan—um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.
Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde gastára o verão, accrescentava n'um post-scriptum:—«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas cartas—como leio todas as collecções de Correspondencias, que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente approvo—publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa vantagem:—que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua philosophia—que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo accessivel ao esforço intellectual. E finalmente como cartas são palestras escriptas (assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não ha... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado—e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar ao pico de Bigorre».
Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um anno—porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.
Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel—esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma idéa—resulta que cada idéa me fica por cento e vinte e cinco mil reis. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação—provando, como inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar... Contrabalanço pensar e fumar, porque são, ó Carlos, duas operações identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».
Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de Fradique—F. M.—minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava le dégel de Fradique, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de flammula ao vento.
Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação—Paris, Julho; Lisboa, Fevereiro... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano—Paris, Floreal; Londres, Nivoze. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucolica data—Florença, primeiras violetas (o que indica fins de fevereiro); Londres, chegada dos Chrysanthemos (o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data atroz—Lisboa, primeiros fluxos da verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos compendios).
Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um auctor e que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a personalidade—o conjunto de idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.
Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste—c'est son genie qui mousse. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.
Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que tanto amei—eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.
Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser glorificada na Historia—como rijos musculos n'um corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente educassem o mundo—nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Fórmas.
Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades—onde os palacios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade—e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de homens—Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres, Gounod, Massenet—que pela incessante produccão do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as Origens do Christianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os marmores de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental Chicago—para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o sol, os espiritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;—e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castello.
Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de Quental:—«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das Odes Modernas, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O mestre da Historia de França com isto significava—que emquanto viver pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio Politico:—mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da phantasia, do humorismo e do gosto...
Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso eu o revelo aos meus concidadãos—como uma consolação e uma esperança.
AS CARTAS
I
ao
visconde de a.-t.
Londres, maio.
Meu caro patricio.—Só hontem á noite, tarde, ao recolher do campo, encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á minha experiencia—«qual é o melhor alfaiate de Londres». Depende isso inteiramente do fim para que V. necessita esse Artista. Se pretende meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto, então recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. São tantos passos que forra—e, como diz o Ecclesiastes, cada passo encurta a distancia da sepultura.
Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe dê consideração e valor no seu mundo; que V. possa citar com orgulho, á porta da Havaneza, rodando lentamente para mostrar o córte ondeado e fino da cinta; que o habilite a mencionar os Lords que lá encontrou, escolhendo d'alto, com ponta da bengala, cheviotes para blusas de caça; e que lhe sirva mais tarde, na velhice, á hora gêba do rheumatismo, como recordação consoladora de elegancias moças—então com ardente instancia lhe aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é da mais extremada moda, absolutamente ruinoso, e falha tudo.
Para subsequentes conselhos de «fornecedores», em Londres ou outros pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato serviço—Fradique Mendes.
II
a
madame de jouarre
(Trad.)[2]
Paris, dezembro.
Minha querida madrinha.—Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe presentir, apesar de tão indolentemente enterrada n'um divan, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e dianico (de Diana), provém estas garatujas.
Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho castello do Anjou com herva nos fossos, porque me não lembro de ter encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de Londres em dezembro—nem aquelles hombros descahidos, dolentes, angelicos, imitados de uma madona de Montegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do Lyrio no Valle, e dos corações incomprehendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegiaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surprehendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensivel—que a datava do seculo XVIII. Dirá a minha madrinha:—«como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalisando?» É que voltei. Voltei, e da hombreira da porta readmirei os hombros dolentes de virgem do seculo XIII; a massa de cabellos que o mólho de velas por traz, entre as orchideas, nimbava d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos—dos olhos finos e languidos... Olhos finos e languidos. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade.
Porque é que não me adiantei, e não pedi uma «apresentação?» Nem sei. Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La-Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta seducção ao palacio das Fadas, nos tempos do rei Arthur? Não sabe. Resultados de não lêr Tennyson... Pois era a immensidade d'annos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque offerecia a emoção inesperada d'um flirt, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que morbida propensão acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto é que, depois da contemplação junto á hombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tyranna. Mas por entre o banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e languidos. Não ha senão o homem, entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a fatias de foie-gras. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seriamos nós desejados pelo «ephemero feminino» se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção de Materia que ha no homem faz com que as mulheres se resignem á incorrigivel porção d'Ideal que n'elle ha tambem—para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarcha aos olhos de Laura—foram os Sonetos. E quando Romeu, já com um pé na escada de sêda, se demorava, exhalando o seu extasi em invocações á Noite e á Lua—Julietta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus!» Este detalhe não vem em Shakspeare—mas é comprovado por toda a Renascença. Não me amaldiçôe por esta sinceridade de meridional sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura castellã do Anjou. A proposito de castellos: cartas de Portugal annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como «seu pensadoiro e retiro nas horas de sésta»—abateu. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende á ruina n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu é deputado, e escreve no Jornal da Tarde estudos melancolicos sobre as Finanças! O meu procurador em Cintra aconselha agora, para reedificar o kiosque, um estimavel rapaz, de boa familia, que entende de construcções e que é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez se eu necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha. É com estes elementos alegres que nós procuramos restaurar o nosso imperio d'Africa! Servo humilde e devoto—Fradique.
III
a
oliveira martins
Paris, maio.
Querido amigo.—Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caracter dos Antigos,—e remetto, como documento, a photographia da mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.
Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto—Ramèzes photographado?... Mas ahi está justificada a mumificação dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n'este anno da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito decentemente a Eternidade e a Vida-Futura. E eis-nos agora podendo contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aquelles que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel força; todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um Dono de homens! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um Napoleão III; com o focinho de bull-dog acorrentado d'um Bismarck; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e affavel que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!
D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:—e hoje, nas nossas civilisações, não ha logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o illimitado querer—para d'elle tirar o illimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra, e o logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um homem—e que seguramente póde affirmar no seu canto triumphal:—«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á minha direita e tambem á minha esquerda; quando eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»
«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.
Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossivel dispôr d'um cidadão como d'um astro. Nunca póde avançar d'uma arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»—surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia no cimo das grandes coisas;—mas como a boia solta vai no cimo da torrente.
Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não póde deixar de influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo amolgado que se nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a maior somma de poder contemporaneo—o feitio amolgado d'uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.
Em conclusão:—a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força, sem outros limites que os do proprio querer—resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a summa e perfeita expressão da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas por entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres são as das feras, genuinos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um codigo.
Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P., conselheiro d'estado, e muchas cosas más. Más em hespanhol; e más também em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro—um banho lustral, immenso banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de Shelley ou de Masset. Amigo certo et nunc et semper—Fradique Mendes.