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A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas cover

A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas

Chapter 22: V
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About This Book

A collection of fictional letters, memoir fragments and critical notes by an urbane, erudite correspondent who mixes literary criticism, reminiscence and travel anecdote. The pieces alternate affectionate satire and cultured reflection on poetic taste, modernity and artistic form, often invoking French influences while sketching urban scenes and journeys. Tone shifts between nostalgic reverie and witty commentary, offering concise portraits, stylistic pastiches and learned asides that probe how form, memory and cultural change shape literary sensibility.

a madame s.

Paris, fevereiro.


Minha cara amiga.—O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os Romanceros, o D. Quichote, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,—para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)—em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber—como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida—é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares Touraine?

Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da sua terra:—todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade;—e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da falla materna com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. Rue de Rivoli, Calle d'Alcalá, Regent Street, Wilhem Strasse—que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com todas—em todas sente e aceita uma Patria.

Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas estranhos—isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo—apaga n'elle toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espirito—porque as suas idéas forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão tristemente falla o povo—«que cabem bem na roupa de toda a gente».

Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel—sêr que rola através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta escroquerie.

E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de pronunciar Viva la Gracia! e Benditos sean tus ojos! exactissimamente como se vivesse a uma esquina da Puerta del Sol, com uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir—a faculdade de exprimir emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com perfeição o pão e o queijo—em sueco, hollandez, grego, bulgaro e polaco.

E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo, estas necessidades vitaes d'estomago e alma—o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos—que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional vernaculo de ovos. Para ella huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos—esta expedita senhora reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava ki-ki-ri-ki! kó-kó-ri-ki! kó-ró-kó-kó! Nunca, em cidade ou região intelligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos—e superiormente frescos!

Beijo as suas mãos, benevola amiga—Fradique.



V

a guerra junqueiro

Paris, maio.


Meu caro amigo.—A sua carta transborda de illusão poetica. Suppôr, como V. candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres, se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião—a uma religião que consista apenas n'uma Moral apoiada n'uma Fé—é ter da Religião, da sua essencia e do seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desapparece—porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia—oh incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um bordão, e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as arêas d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos por um aro d'ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capellães da humanidade,—e cada um d'elles está, por esta quente alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria», as hervas aromaticas que dão o Sômma; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mãos ao céo, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra—Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que póde encher de ruina e dôr o coração do Arya, sorvendo a agua das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando Septa-Sindhou mais esteril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados, a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo rural e pastoral.

Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica—nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para que Indra o attenda—uma vez que, pela experiencia de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho candido, lhe erguerem canticos dôces, lhe offertarem libações, lhe amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libações, sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do Sômma, o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus—e será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara os passos.

Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões, que todas por instincto repetem—e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude, da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço proprio, pede esses bens á hygiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço.

O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o proprio Flamen Dialis, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos moraes que compõe a Religião,—elle sorrirá, sem o comprehender. E responderá que a Religião consiste em paces deorum quaerere, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses. Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou seducção. E n'esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo—influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lançado á direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra a patria—porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice deixára perder um grão de cinza da ara—ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que commettiam um erro no sacrificio—fosse elle tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na Velhice do Padre Eterno, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do Tuliano.

E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos philosophicos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio—flôres pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observancias materiaes:—e todavia nunca houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das escólas e dos mosteiros—onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:—mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto agradava a Deus, servia a Deus, só por cumprir os dez mandamentos, fóra de toda a pratica e de toda a observancia ritual. E só decorou mesmo esses Dez Mandamentos, e as Obras de Misericordia, e os outros preceitos moraes do Catechismo, pela idéa de que esses versiculos, recitados com os labios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a bemquerença e os favores do Senhor. Para servir a Deus, que é o meio de agradar a Deus, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus,—isto é, se alcançam d'elle os dons inestimaveis da saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediencia á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da justiça de Deus, mas da graça de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos—a missa, o jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a offerta, a promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Anciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e toda a Liturgia—o catholico immediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visivel, e que não lhe offerece os meios simples e tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida—Deus volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões em ritos, ceremonias, praticas—a mais conhecida das quaes é o moinho de rezar. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o moinho de café: em todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as orações escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. Ao contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa—e portanto mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regiões naturaes que são a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a face com o seu Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem transitorio que está na terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais elle se materialisa—mais ella na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». Mas para isso é necessario que venha o Millenio—em que cada cavador de enxada seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel chegar, e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica, intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande inspiração d'artista fez da costella de Adão,—haverá sempre ao lado d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilegio d'uma élite espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã, mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realisar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem sahido da turba, que não seja um philosopho, ou um moralista, ou um mystico, o que é Religião. O inglez dirá:—«É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:—«É fazer poojah todos os dias e dar o tributo ao Mahadeo». O africano dirá:—«É offerecer ao Mulungú a sua ração de farinha e oleo». O Minhoto dirá:—«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira, commungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como sêres religiosos, está todo em communicar com Deus; e esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de civilisação e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes fornecem. Voilà! Para V. está claro, e para outros espiritos de eleição, a Religião é outra coisa—como já era outra coisa em Athenas para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Socrates e de Senecas—bem felizmente para ellas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquillamente—«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:—«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo escravo era um post-scriptum.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu coração. Amigo do dito—Fradique.



VI

a ramalho ortigão

Paris, abril.


Querido Ramalho.—No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no café da Paz!»

Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café da Paz, Centro catita do Snobismo internacional, lá me installo, com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba baça e molle do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura. Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde, que abandonára á pressa uma sobremesa alegre pour voir ce grand Ortigan! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho, nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo, esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já desilludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na mão com respeito, quasi com religião, um soberbo ramo de cravos amarellos. É um homem d'além dos mares, da Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo—que o retem e apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada n'uma lamina de machado, d'uma côr acobreada de chapéo côco inglez, onde a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada, ao contrario, avança como o esporão d'uma galera por entre as pontas quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa perola.

Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz é toda de desconsolo:—mas, no que diz, revela a mais forte, segura e insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte, que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetára em monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admirações effervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua. Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para fóra o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d'uma parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que comprehendi, sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia critica—porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço, o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente, não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da mamã (da mamã d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos! Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!... Madame Mendibal até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe d'ella, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na gare Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda, gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!»

—É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma franceza. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos, um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo principe de Galles. Eu não sei se o senhor é casado. Perdôe a confiança. Mas se não é, sempre lhe direi, como digo a todo o mundo:—Case com uma franceza, case com uma franceza!...

Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece—o «formoso Chambray». Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinião tem n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E, immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido.

Fôra a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher, une grande et belle femme. Corpo soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitarios nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente installado na vida.

E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua... Chambray pensa comsigo:—«burgueza, trinta annos, sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova». E apenas o comboyo larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido. Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do Figaro aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado d'ella, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repellida por Madame:—e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico, de incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois, ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar—arrebata-a moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.

Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com effeito, uma installação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o caso que o almoço suba depressa, porque elles têm de partir pelo trem das duas horas»—tal é o brado sincero de Chambray!

Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial—despe o casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a garota que ha quasi sempre no fundo da matrona. Atira tambem o chapéo, um chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este grito d'alma:

Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!

E depois, como dizem os hespanhoes—la mar. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;—e outra vez á mesa, diante d'um beefsteak reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.

Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr—e partem. Na estação, ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a Paris), Chambray n'um aperto de mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura—Lucie.

—E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E sei tambem que é casada porque na gare Saint-Lazare, á espera d'ella, e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o marido... É um rastacuero côr de chocolate, com uma barbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francezas!

Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que, em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio, todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade—os dois unicos resultados que elle conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma sensação nova ou differente, que a desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicação. E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente organisado.

Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Hollanda—Fradique.



VII

a madame de joujarre
(Trad.)

Lisboa, março.


Minha querida madrinha.—Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia á memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição dos Deveres de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descripções, notas, reflexões e panoramas», como se lê no sub-titulo da Viagem á Suissa do seu amigo o Barão de Fernay, commendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções, notas, reflexões e panoramas» d'esta terra que é minha e que está a la disposicion de ustêd... Chegáramos a uma estação que chamam de Sacavem—e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz, através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram lanternas de faluas dormindo no rio:—e symbolisavam d'um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. De sorte que tornei a cerrar resignadamente os olhos—até que, á portinhola, um homem de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu bilhete, dizendo Vossa Excellencia! Em Portugal, boa madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por Excellencia.

Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta talvez—gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.

No casarão soturno, á espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith[3] e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do casarão regelava os pés.

Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em que oscillava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo, uma boceta de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda enterrou o braço através d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.

Ficamos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem. Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos, barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o saco de couro? Depois, descorçoado, declarou que positivamente nas nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do carregador, e recomeçou elle, com a sua intelligencia superior de chefe, uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões... Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes voltou, coçando a cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda, pelo chão vasio, á espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega através do casarão. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beiço (bondoso homem!), deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e magistral. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a porta da estação:

—Será aquillo, meu senhor?

Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda. Não indaguei como elle se encontrava alli, sósinho, separado da bagagem a que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras grossas—e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia que não havia tipoias.

—Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d'aqui os passageiros?

O homem encolheu os hombros. «Ás vezes havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões, e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação, á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle serviço. Em todas as estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia, á chegada dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço que deshonrava a Nação!

O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciencia de que todos os serviços eram abominaveis, e a Patria toda uma irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas na face humana.

Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que não havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.

—Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?

O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao meu conforto. Pois n'esse caso elle não via solução, a não ser que por acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por aquellas paragens.

Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos apinhamos á porta da estação, esperando através da treva a vela—quero dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.

Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar tres horas, e elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado, sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido, o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por um carregador—atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos annos de civilisação repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a esperança n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao longe, não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da Providencia. Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha, seguindo estes lances, deve ter já lagrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. Eu não chorei—mas tinha vergonha, uma immensa e pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha patria—e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada mais fragil que a reputação das nações. Uma simples tipoia que falta de noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma civilisação secular!

No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, á decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de dia), começamos, sombrios e em fila, a trilhar á pata a distancia que vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E todos tres, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com um intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos, devagar, n'uma fileira soturna, avançando para dentro da capital d'estes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando, tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de carrejão!...

Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da nossa guarda) uma caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella. Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E, á uma, todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote, praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa omnipotencia—e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por menos de tres mil reis. Sim, minha madrinha, dezoito francos! Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes. Tremulo de colera, mas submisso como quem cede á exigencia d'um trabuco, enfiei para a tipoia—depois de me ter despedido com grande affecto do carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.

Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques, clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e todas as seducções. Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada. Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:

—Então, são tres mil reis?

Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de elle responder, o malandro sem par?

—Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D. Fradique... Lá para o snr. D. Fradique é o que quizer.

Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amollecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos portuguezes. Dei uma libra áquelle bandido!

E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu, aquelle que de longe de si sempre péna—Fradique.



VIII