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A Morte Vence

Chapter 10: V
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About This Book

The narrative presents a sunlit domestic scene in which a young mother contemplates her sleeping infant while the father shares tender admiration, with rich sensory detail of the child's fragility and the parents' physical intimacy. It follows their mutual idealization of the newborn as an emblem of shared love and future continuity, imagining inherited beliefs and virtues. Close interior description and devotional imagery alternate with moments that reveal underlying anxieties about death and abandonment, producing a tension between joy and vulnerability. The work focuses on parental devotion, everyday rituals, and the fragile hopes and fears surrounding new family life.

afectiva do corpo». No delírio da sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de tédio—e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável de dia para dia...





Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao passar no escritório de Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada à janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto que lhe imprimia maior destaque à brancura das carnações. Na gola da corsage, afogada ao pescoço, fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se no parque, à procura do isolamento, do sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Júlia, experimentou logo a irresistível atracção que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face encostada à palma da mão; e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal, exclamou:

—Só as senhoras teem paciência para tais tarefas...

—Questão de hábito—respondeu Júlia, sem levantar a cabeça.

—Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo, rasgava tudo...

—Jesus! Pois é assim impaciente?...—perguntou ela, fitando-o.

—Sou assim impaciente!

A radiação da luz fluida, que vinha de fóra, batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a; sôbre os ombros descaídos havia tambêm manchas luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher um volume.

—Que vaí ler?—interrogou Júlia.

—Sei lá! Talvez uma história triste dalguêm que nunca realizasse as suas aspirações. Estou hoje tam nervoso, tam melancólico!...

—Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê que haja pessoas correndo continuamente atrás dum ideal que nunca alcançam?

—Oh! de-certo que há!

—Eu julgo que essas pessoas estão fóra da realidade, e eis porque não encontram nunca o seu mundo...

A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirável de proporções, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto, o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto e que era côr de rosa.

—Mesmo dentro da realidade—exclamou êle—nem sequer se podem atingir certos ideais.

A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.

—Conhece alguns casos dêsses?—perguntou ela, mirando-o com a face tocada pela graça do riso.

Frederico sentiu uma perturbação instantânea, passou-lhe na mente uma névoa, tôda a resolução anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma espécie de vácuo na consciência, a sua timidez aumentou. Sem poder falar claramente, gaguejava. Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a luz dos seus olhos tam sinceros.

—Diga!...—insistiu ela.

—Talvez!—respondeu Frederico. Tenho-me entregado a êstes estudos especiais, porque o maior prazer duma alma é reconhecer outras almas belas.

—Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a observação—atalhou Júlia.

—Não. Quando muito, constituem um mistério—mas mistério que se sente...

Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.

—Tem que fazer?—interrogou Júlia.

—Não... Absolutamente nada.

—Então, sente-se, seja a minha companhia, se isso lhe não desagrada.

—Oh! minha senhora!...

As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril afogueava-lhe as faces, a sua respiração acelerava-se.

—E como se denunciam, às vistas perspicazes, as almas de que fala?—inquiriu Júlia, baixando o rosto sôbre o bordado.

—Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que exercem, pela inspiração que produzem.

—Julgo que está enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se às mais subtis análises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se às revelações íntimas...

—Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...

Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava esforços violentos para subtrair-se às tentações, porque começava a ter receio de dizer tudo a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo, de lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de pensar, de reflectir antecipadamente na significação das suas palavras e de calcular-lhes as conseqùências, porque erradamente supunha que o interrogatório de Júlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma provocação.

—Mas ainda me não disse francamente se conhece alguma dessas almas—exclamou ela, de novo.

—Não conheço, mas tenho a certeza de que existem...

—Nos romances?

—Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe que se sabia perto da mulher que amava, que lhe sentia as palpitações do coração, mas que não podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de névoa opaca o separava dela!...

Júlia, esquecendo as mãos no regaço, olhou-o então longamente, como se quisesse compreender alguma obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e atalhando:

—Mas, é claro! O que os romances dizem não tem veracidade. E estas nuvens só aparecem aos príncipes e às princesas...

Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois de tirar um livro da estante.

—Sai?—perguntou Júlia.

—Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...

E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso consigo próprio, excitado, ainda no pavor da leviandade irremediável que ia cometendo. Ah! não! Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito cruel para êle. Agora, compreendia que o temido conflito do seu espírito com o seu instinto se daria fatalmente, se prolongasse por mais um dia, uma semana, a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de fraqueza em que a energia lhe faltasse para dominar-se. Antes de isso acontecer, fugiria para longe, tentaria esquecer. Queria ser digno de amizade de Nuno e do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. Estava ainda a tempo! E firmemente, nesse mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua partida inevitável, pretextando a solução urgente de negócios que não deviam ser adiados...



V


Foi num inquietante estado de alma que Frederico deixou a vivenda pacífica onde o seu sentimento fizera, inesperadamente, uma tam alarmante descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado, sem mesmo pensar na maneira de evadir-se duma intensa e amarga tortura. A certeza de que amava a mulher de Nuno com um amor que poderia levá-lo, violentamente, a todos os crimes e a tôdas as degradações da alma, obcecava-o e obrigava-o a reflectir na impureza da argila de que é formado o coração humano. Fugia de Júlia, do amigo, do repousado lar em que vivera tam plácidos dias—antes da fatalidade duma adoração que quisera evitar, a que tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe apoderou de todo o sêr consciente—em condições trágicas para a sua emoção. Sentia-se enfeitiçado por uma espécie de malefício ao mesmo tempo cruel e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que nêle abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar a lucidez da inteligência a ponto de não discriminar entre o bem e o mal...

Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado, várias vezes, por uma singular diversidade de sensações. Ia fugindo como um bandido, trémulo, aterrado, com mêdo de tudo—e porquê? Ninguêm conhecia o seu drama, bem oculto, bem recalcado dentro de si próprio—a não ser que Júlia o tivesse adivinhado, porque as mulheres; em coisas de sentimento, são subtis. Aquela deserção representava a cobardia dum homem incapaz de afrontar altivamente o primeiro perigo que diante de si imprevistamente se levantava, com a segurança de que venceria; mesmo incapaz de dominar as instigações da outra personalidade em que se desdobrava e que o concitava ao êrro, à deslealdade, à vileza, solicitando a imediata satisfação dum desejo gerado no seu egoísmo e na sua sensualidade; que se mostrava impotente para conter a expansão vertiginosa do instinto. Alucinava-o a quáse eliminação da vontade—de que o último lampejo se exaurira com a resolução de sair apressadamente da casa de Nuno, inventando um pretexto fútil em que se traíria, se o amigo não depositasse nêle a maior confiança. Raciocinando nesta leviandade, Frederico monologava, encolhido a um canto do combóio, sem mesmo espreitar rápidamente a maravilhosa paisagem, que atravessava:

—Como fui imprudente, na realidade!

E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência atemorizava-o. Reconstituía na imaginação sobreexcitada a surprêsa de Nuno, quando lhe comunicou a resolução firme de voltar à cidade. Fixando-o com uns olhos penetrantes que o devassavam até às recônditas intimidades da consciência, êle exclamara:

—O que? Vais-te embora?

—Sim, vou!—atalhara bruscamente, com uma perturbação que o denunciava. Assuntos complicados a liquidar, um inferno...

—Homem, sê sincero. Tu o que estás é aborrecidíssimo, odiando êste cárcere, abominando esta solidão, morto por te veres de novo no ruído, no tumulto urbano...

—Mas não, mas não! Que ideia!...

Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente, com um olhar em que à vivacidade se mesclava uma pontinha de ironia amável.

—Para que hás de negar?—insistia Nuno.

—Oh! filho, mas que impertinência tamanha, a tua!... Frederico é um homem do mundo e julga ter cumprido já os deveres da amizade para connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. Se quiséssemos retê-lo aqui por mais tempo, entre estas árvores, nesta solidão, no meio dêste deserto, seria tirânico da nossa parte!—afirmara Júlia benévolamente.

—É claro—acrescentou Nuno —eu não te imponho o sacrifício de nos aturares até à consumação dos séculos... O meu despotismo não chega a tanto...

—Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu te estou a dizer...

—Bem, acabou-se!—concluiu Nuno. Parte...

—Quem sabe, de resto, se haverá na cidade algum motivo superior que o reclame a tôda a pressa?—insinuara ainda Júlia com aquele riso que era de graça, de bondade, de malícia e de doçura e que tanto encantava Frederico.

—Certamente, minha senhora... Há um motivo!—respondeu êle.

—Sentimental?—inquirira Nuno, rindo tambêm.

—Crê que estou a falar a sério!—replicara Frederico.

Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer e o forçava a simular para esconder uma verdade que não podia ser conhecida sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem cólera amargurada para Júlia, Frederico procurou ser alegre, mas inutilmente. A intensidade da comoção experimentada crestou-lhe a floração do humorismo, tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à sua decisão foram monótonas, tristes, cheias de fadiga. A cada instante, Nuno murmurava, fumando um charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro de porcelana:

—Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras nos teus hábitos.

Frederico notava nestas palavras de afecto, que lhe doíam como um queixume, a vaga sombra dum desconsôlo, e dizia:

—Vou, de-certo... Deveres... As obrigações primeiro e as devoções depois. O método é tudo... E tu? Ficas por aqui ainda?

—Fico. Há uma infinita multidão de factos que exigem a minha presença... Alêm disso, esta é que é a minha casa... Júlia dá-se bem. Eu passo óptimamente. Retirar-me, para quê?

—Pois olha que sou muito capaz de voltar ao calor das vossas afeições, em concluindo os meus negócios!

—Que lisonjeira mentira!—acudiu Júlia, aconchegada na sua cadeira, ainda à mesa do jantar, seguindo o diálogo com a face inclinada na mão.

—Oh! minha senhora, eu nunca minto, por princípio. Seria um pecado.

—Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade é uma virtude que denuncia puros dons de alma.

Tornou-se impossivel animar a palestra em tôda a noite. Frederico pensava que o desalento se comunicara, como um fluido subtil e dissolvente, a Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual daquele momento: e foi para ele um grande alívio o instante em que pôde recolher-se ao seu quarto, isolar-se, concentrar-se nas suas meditações. Deitando-se e apagando a luz, reencetou a análise da sua própria psicologia. A impressão que Júlia lhe produzia na sensibilidade era cada vez mais forte. Por enquanto, a imagem da mulher amada iluminava-se ainda de esplendor, movia-se num círculo de claridade e de pureza que o coagia a uma adoração casta. Não atravessaria a zona luminosa que o separava dela, para tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma hora de alucinação em que a generosidade e a grandeza moral que prevaleciam na sua organização desaparecessem, fundindo-se a um fogo de voluptuosidade impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal, numa súbita e espontânea erupção de luxúria, o impelisse às piores injustiças, às violentas rebeliões, às brutalidades, às loucuras em que nada se respeita. Frederico temia essa hora e libertava-se, pela fuga, da sua terrível influência. Por enquanto, conservava tôda a sua energia, tôda a sua lucidez mental, podia calar-se a tempo, encerrar o seu amor secreto num silêncio impenetrável; mas não viria a perder essas faculdades redentoras se prolongasse a sua estada junto da mulher que inocentemente excitara a sua paixão? Era preciso cortar como flor venenosa o sentimento vil que lhe germinara na alma, exilar-se para longe, esquecer... Tam ardente era nêle a imaginação que lhe parecia que a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe anunciar a partida e que os seus imensos olhos, negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e acariciadores sob as pestanas, cravando-se nos dêle, lhe pediam que ficasse, o aliciavam com promessas de tôda a sorte. Resistir aos avisos da dignidade, que o mandavam retirar sem demora, seria uma abjecção, um acto inqualificável. Êsse amor, apenas nascente, tinha para êle a sordidez, a vilania, a crápula dum incesto—porque Nuno era o seu irmão. Não reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto puramente animal que o tentava a não sair do lado de Júlia representaria a queda num abismo insondável, a submissão que o desonraria para sempre, o remorso, uma dor futura que nem sossegaria sequer, mesmo que fôsse possível satisfazer a ignomínia da paixão que o exasperava.

—Não! Não!—murmurava Frederico, revolvendo-se no leito. Partindo, serei ainda nobre e bom.

E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais alta manifestação da vida consciente. Alucinado por um sentimento que agitava tudo o que no seu ser de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, sofrendo tôdas as torturas que um amor impossível e sem esperança pode fazer experimentar a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico sentia, como uma carícia de inexprimível enlêvo, essa bondade à sua volta, naquele calmo lar tam digno. Ela irradiava da candura dum berço onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se numa adoração conjugal que se perpetuava indefinidamente com o mesmo encanto do dia maravilhoso em que principiara; emanava-se de Júlia como uma espécie de imaterialidade visível e penetrava-o a êle mesmo fazendo-lhe transbordar de ternura o coração, purificando-o de pensamentos maus. Por mais duma vez—absorvido na sua meditação e louvando-se pela coragem, pela energia que revelava, afastando-se dum enlêvo que para êle condensava, nesse momento, a felicidade suprema—Frederico descobria uma desconhecida frescura de emoções novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma um sôpro vital que o rejuvenescia. Mas êste entusiasmo era fugaz: e uma saùdade muito funda—a saùdade de tudo o que perdia—continuava a exaltá-lo.

Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:

—Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei a mim próprio que sou cobarde, que tenho mêdo, que sou incapaz de resistir...

Então, arrependido, levantava-se do banco em que ia sentado, dava alguns passos nervosos no compartimento em que viajava só e assaltavam-no tentações de descer da carruagem na primeira estação e de voltar para trás, regressando a casa de Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em si, exclamando:

—Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria uma revelação, uma confissão completa pelo menos para Júlia, porque nada escapa à sagacidade das mulheres, em amor.

Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios que o desvairavam, curvou-se à janela da carruagem, observando o panorama que se desdobrava ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã resplandecia como um cristal translúcido; tôdas as côres se aviventavam na radiação da luz. As forfas elegantes das árvores, que donde aonde davam sombra e manchavam de verdura os descampados, desenhavam-se com nitidez de linhas e de contornos no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu cumunicava-se à natureza inteira. A largura infinita do espaço, mais branco para as bandas do nascente, mais anilado no alto, parecia decorada, vestida como para uma festa voluptuosa e delicada. A profundidade alvacenta e luminosa do ar que envolvia e vivificava tôdas as coisas tinha para Frederico uma novidade nunca surpreendida. Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe a faculdade de amar, lhe despertara tambêm a faculdade de compreender.

Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a imagem feminina que sem repouso acariciava. O fenómeno fisiológico intenso que imprimira uma completa modificação à sua consciência em horas tam ardente e dolorosamente vividas, dava agora um rumo diferente aos seus pensamentos—e isto desanuviava-o um pouco. Caía numa dessas cogitações sem objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis desfalecimentos de espírito...

Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar na serenidade da sua vida de solteirão, mergulhar no tumulto citadino, entregar-se todo à satisfação dos seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade dos seus prazeres, com a secreta esperança de esquecer completamente, de depurar-se, para ser outra vez digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia. Enquanto dentro de si vivesse aquele amor criminoso, julgava-se impuro:—e como impuro, não deveria pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta excitação que entrou no Pôrto, num sábado à tarde.





Começou, então, para Frederico um sombrio período do miséria moral e de sofrimento. Jàmais a sua existência lhe aparecera tam solitária, tam inútil, tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos renovadores. Um inexplicável desalento enchia-o de desgôsto, humilhava-o. Nunca, como nesses dias alucinantes em que, em vão, procurava aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as excitações, Júlia lhe parcera tam desejável. Um fogo sensual muito violento ia secando nêle tôdas as fontes da virtude e da honestidade: e a sua ausência infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a sua graça de mulher, as perfeições do seu corpo, a doçura que a sua posse lhe transmitiria. O ciúme, que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. Como se na evocação das coisas amargas houvesse para a sua alma um gôzo especial, Frederico imaginava a cada momento Júlia nos braços do marido, fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, dando-lhe tôda a sua carne latejante, todo o sangue das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. E via-a rolando a cabeça desfalecida no ombro de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio, mais côrada, com os lábios pálidos, o peito arfando apressadamente. Insurgia-se contra êste amor conjugal como se êle representasse um crime, como se exprimisse um pecado e como se fosse êle o traído... Um acesso de impaciência e de cólera interrompia este delírio dos seus sentidos. Reentrando novamente nos domínios luminosos da inteligência, Frederico exclamava:

—Preciso de reagir contra esta doença que me devasta, senão enlouqueço!

Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e para apressar êsse instante que seria venturoso e afável para êle, ia aos teatros, aos concertos, freqùentava as reùniões das pessoas do seu conhecimento, nunca faltava nos logares onde o mundanismo se dá rendez-vous: mas, nas salas de espectáculos, nos salões de baile, nas soirées familiares, surpreendia-se a aguardar a entrada súbita de Júlia, radiante no esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse insuflado mais graça e maior poder de sedução, sem reparar em nada do que à sua volta ocorria. As senhoras achavam-no muito mudado e diziam-lho, entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade que o caracterizava e o impunha às admirações.

Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, que às terças-feiras reùnia algumas famílias íntimas, a sua tristeza foi notada pelas damas com quem se entregara, em outras épocas, às suavidades do flirt. Uma delas, D. Felismina Trigoso, que nutrira a esperança de ser por êle amada em tempos findos de que ainda conservava a lembrança doce, surpreendendo-o a um canto a folhear uma revista ilustrada, não se conteve.

—Sabe?—exclamou ela—tôdas nós o estranhamos.

—E porquê, minha senhora?—inquiriu Frederico, fechando a revista e erguendo-se.

—Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse de tudo o que o cérca, pelo isolamento em que voluntáriamente se encerra.

—É que ando a fazer um severo exame de consciência. Fui um grande pecador, e para ganhar a glória celeste, decidi fechar-me num convento, ser monge, penitenciar-me—disse êle.

—Não disfarce, não finja!

—Mas sou sincero!

—O que pretende é ocultar qualquer coisa—insistia ela.

—Ocultar o quê?

—Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz, algum desgôsto muito profundo.

—Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.a não sabe, então, que as criaturas que se recolhem, que se isolam, que se concentram, são precisamente as felizes?

—As felizes?

—Certamente! Só a felicidade é egoísta, concentrada, e não gosta de revelar o seu gôzo interior. O sofrimento, pelo contrário, precisa das multidões, das testemunhas, para dilatar-se.

—Paradoxos...

—Não, minha senhora. V. Ex.a não conhece, de-certo, Heraclito, um filósofo da antiguidade clássica, que, quando sofria, procurava as praças públicas, as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse desgraçado...

D. Felismina ria saborosamente daquela abundante verbosidade que incitava ao humorismo pelos efeitos do contraste.

—Se fôsse desgraçado?...—interrogava ela.

—Se fôsse desgraçado, rompia aqui num chôro de tal ordem, que a policia teria de acudir!...

—Venham cá, venham cá!—chamou D. Felismina—está hoje brilhante!...

As outras senhoras acudiram, num grande rumor de riso e de sêdas amarrotadas: e D. Felismina, voltando-se para a dona da casa, murmurou:

—Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, não calcula!...

—Sim?—atalhou D. Francisca, com um sorriso afável iluminando-lhe o rosto simpático. Então, de que falavam?

—De grandes verdades, minha senhora—respondeu Frederico. Afirmava eu que as paixões amorosas mais sérias, porque decidem de todo um destino, são as que alvorecem nos corações de cincoenta anos de idade. A snr.a D. Felismina, porêm, é de opinião contrária e assevera que essas paixões só podem ser sentidas aos vinte anos...

—Não era de nada disso!—protestou D. Felismina. É um mistificador...

—E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?

—Não, D. Francisca. Encontro-me na infância. Tenho apenas trinta e cinco anos, estou muito longe da minha primavera!...

O riso animou-se mais nas bôcas femininas, que louvavam tôda aquela alegria, tôda aquela mocidade de espírito, e, por momentos, Frederico atraíu as atenções; mas foi um fogo-fátuo êsse instante de jubiloso alvorôço, que se dessipou totalmente, quando D. Felismina, muito solicitada, se sentou ao piano, tocando uma página de Mendelssohn, que ela interpretava maravilhosamente.

De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos dolorosos, folheando outra vez a revista que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre uma mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga, brilhantes de esmaltes e de coloridos, morriam e se desfolhavam lentamente ramos de azáleas brancas, Frederico observava aquele mundo fútil de exterioridades encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente era, na verdade, elegante. O salão estava decorado com gôsto. Um tapête de tons suaves, rosa e verde-malva, amortecia o som dos passos e tornava mais confortável o compartimento; os móveis, leves e bem lançados, destacavam-so pela forma e pelos estofos que os recobriam. Sôbre um fogão de mármore, que resplandecia de brancura na crueza da luz eléctrica, um relógio de bronze, estilo Luis xiv, marcava as horas que longos ponteiros dourados indicavam num mostrador esmaltado em que corria, no esplendor das tintas, uma scena idílica, evocando as telas de António Watteau, com pares de namorados enlaçando-se sob as árvores. Ao fundo, um piano Bechstein com velas ardendo em serpentinas de prata e acendendo fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha uma graça ornamental pesada e imóvel. Sòbre a alcatifa, encostados dum lado e doutro às paredes, que um papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes vasos do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se do calor sob largas umbelas de sêda, penteados altos seguros por pregos de feitios bizarros e cegonhas de bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto de cerejeiras em flor. Etagères de ricas talhas sustentavam graciosamente cristais cheios duma água que scintilava na claridade e em que esplendia a graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas, exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico era a harmonia, a disposição bem achada de cada peça de mobiliário, contribuindo para o equilíbrio do conjunto, a correcção das linhas plásticas e decorativas. Por êste arranjo impecável, reconstituía êle a individualidade psicológica de D. Francisca, que se fanava na sua viuvez de longos anos, que devia ser inteligente, ter um sentimento acessível às emoções produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas as delicadezas e de tôdas as bondades. Para ela subiam o culto puro do seu afecto, a sua ternura de homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar com mais doçura de Júlia, que havia de ter, mais tarde, uma velhice assim, encantadora, um porte que inspirasse admiração e respeito, uns olhos em que vivessem milagrosamente as imagens dos sonhos mortos...

Num gabinete ao lado, servindo de fumoir e de sala de jôgo, os homens entregavam-se com interêsse ao seu bridge, enquanto esperavam pela hora da debandada, discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais ou casos frustes de política. A atmosfera pesava, aquecida pela luz, carregada de perfumes. E a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de sortilégio, a aspiração das almas pelos finos amores idealizados, tudo o que murmura nas florestas pelos crepúsculos religiosos, tudo o que suspira nas aragens, tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens. Conturbado, Frederico fechou a ilustração, levantou-se, deu algumas voltas, sacudido por uma emoção muito viva e muito forte...

Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira em casa de Nuno, por uma noite inspiradora e silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de conhecer Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia esquecido, tam violenta fôra a comoção experimentada. A sua inteligência tinha uma extraordinária argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora reveladora; a graça ideal do busto de Júlia, sentada ao piano; o banho luminoso que descia do candeeiro suspenso no alto e batendo em cheio na sua cabeça, aureolando-a; a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos pousando ágilmente sôbre as teclas de marfim; o seu olhar animado e brilhante; o viço dos seus lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao luar; a massa confusa de sombra formada pelo parque, ao longe...

Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos. A conversa banal dos homems enfastiava, sufocava-o o cheiro do fumo. Veio novamente para junto das damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante e emotiva da música. D. Felismina tinha acabado de tocar e sorria, cansada, encostando ao piano um braço nú, emergindo da alvura das rendas, redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, gentilmente, cumprimentou-a.

—Sabe que é um nobre temperamento de artista?

—Ora! Gentilezas...

—Mas não, mas não! É perfeita. Não lhe parece, D. Francisca?

—De-certo! Eu acho-a admirável.

—E fica-lhe bem a modéstia—acudiu uma outra senhora, D. Maria do Céu, espôsa dum magistrado, muito nutrida, entre duas filhas magras e pálidas.

—Não é modéstia, D. Maria. É sinceridade.

—A música desperta em mim singulares comoções, fazendo aflorar tudo o que na minha organização há de mais elevado moral e mentalmente—disse ainda Frederico. É por isso que eu a considero a arte superior, pelos sentimentos e pelas ideias que inspira, quando os seus executantes lhe transmitem uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha senhora.

—Para que há de zombar duma dilettante sem pretenções?—exclamou D. Felismina.

—Mas então, ninguêm me acredita, mesmo se digo a verdade! Arranja fama de blagueur e deita-te a dormir—comentou Frederico, risonhamente.

Demorou-se mais alguns momentos numa palestra que o aborrecia, pelo seu ar de cortesia convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido pelo olhar de D. Felismina, que outrora galanteara, fazendo nascer na sua ternura feminina uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela rua mergulhada numa meia obscuridade que mais o entristecia, Frederico meditava na sua condenação atroz e monologava:

—Como custa ser honesto!

Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o para tôda a parte, no passeio, no teatro, nas ceias ruidosas com amigos, nas reùniões familiares, velava-lhe os sonos inquietos, seguia-o sem repouso, vigiava-lhe a formação das emoções e dos pensamentos. Não podia separar-se dela um só minuto. Sentia-a tirânicamente no coração como um remorso conjuntamente aflitivo e suave, no sangue, como um fluido que o incendiava, nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para a apagar no cérebro e na alma, torturava-se inutilmente. Julgava-se abandonado de tôdas as afeições, mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar uma vilania. Escrevera-lhe para lá uma longa carta, narrando-lhe o repouso inolvidável das horas que perto dêle e de Júlia passara durante duas semanas, pusera nas palavras mais vibração e calor, por imaginar que também ela leria essas linhas em que o seu sentimento transbordava de gratidão, dissera-lhe a solitude e a angústia dos dias que ia vivendo na cidade, longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a realização da felicidade terrestre—e nenhuma resposta recebera. Porquê? Traíria êle, nessa confissão ardente, um segrêdo que ninguêm devia conhecer? Suspeitaria Nuno dalguma coisa? Não teria a carta chegado ao seu destino? Estas dúvidas pungiam-no.

Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que se esgueiravam como cobras na sombra que as fileiras irregulares de prédios projectavam nas calçadas, Frederico sentia um grande desalento subir e invadi-lo todo. Como a sua existência era estéril! Nem alegrias morais presentes nem confiança no futuro. Evocava, por uma especial associação de ideias e de sentimentos, a melancolia da sua vida desde os dias já remotos da infância, e, por instantes, todo o passado se iluminava aos seus olhos.

Aos oito anos, quando as outras crianças ricas brincavam e eram amimadas pelas mãos puras das mães, fôra êle metido num colégio como interno, depois de lhe vestirem um fardamento. No internato onde a sua meninice se enclausurara, deitava-se, levantava-se, ia para as aulas, para as refeições, para a banca de estudo, para os ócios do recreio, sempre ao toque duma sineta. A sua individualidade passiva resumia-se em obedecer; os deveres da disciplina vergavam-no, a êle que era então tam tímido, sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez maravilhosa se lembrava duma época para êle desoladora! Não lhe escapavam os mínimos detalhes. Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto êle como os condiscípulos, esperavam a hora da folga, durante as lições enfadonhas que um homem imensamente calvo e de bigodes brancos—o snr. Justino—lhes professava. O snr. Justino tinha uma voz que soava falso, uma face engelhada, vestia um vélho frac muito coçado na gola e nos cotovelos. Os seus olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, era fleugmático, pachorrento, as suas palavras arrastavam-se no silêncio da sala—um silêncio tam profundo que, em junho, se ouvia o lento zumbido das moscas descrevendo, no vôo, movimentos giratórios incoerentes. Os rapazes chamavam a êste pobre professor, que era a imagem dos lutadores destroçados, o D. Ana. Escondendo-se com os livros abertos e postos ao alto nas carteiras, curvando o busto, deitavam a língua de fóra, faziam momices, trejeitos humorísticos, protestando assim contra a prisão nas idades em que as infâncias, como as flores, amam os grandes espaços livres, o tumulto, as indisciplinas. Por vezes, das bancadas elevava-se um murmúrio confuso, estalavam risos abafados, as solas das botas raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido. D. Ana, interrompendo a sua vagarosa exposição, erguia a cabeça, fitava um minuto os colegiais, que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, na sua voz de falsete:

—Então, meninos! Que é isso? Mais respeito e mais atenção!...

A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente, mas por pouco tempo. Perto de Frederico, um estudante com raras aptidões para o desenho fazia a lápis a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas tristemente do nariz que sugeria o agudo e longo bico dum pássaro. A semelhança dos traços era flagrante e já com uma notável noção do grotesco. O caricaturista dava a sua obra humorística a Frederico, dobrada em quatro. Êle abria-a e lia por baixo da figura ridícula do mestre:—«Veja e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando o riso na palma da mão com que comprimia a bôca. A caricatura corria assim tôdas as bancadas dum extremo ao outro, despertando as hilaridades que não podiam expandir-se e que espalhavam a inquietação, o nervosismo, a impaciência, na aula. Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a quem os rapazes denominavam de Mata e esfola, surgia de repente à porta. Na sua bochecha còrada e gorda, tôda rapada, barbeada de fresco, como a dum padre, espelhava-se a indignação. Lançava um schiu! muito sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma ameaça...

Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade de todos os castigos sofridos, a supressão da sobremesa e das liberdades do recreio, as longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete um verbo cem vezes—e prometiam vingar—se... Depois, D. Ana terminava a lição, os livros fechavam-se de estalo, com alarido formidável, uma sineta badalava na solidão e os colegiais saltavam as carteiras, com o bonet agarrado nas mãos, corriam para o jardim que floria ao sol, no esplendor das formas e das colorações, pulavam por entre os arvoredos que projectavam na areia branca do chão largas máculas de sombra oscilante.

Era a hora melhor e mais doce para os internos do Colégio. Formavam-se grupos, organizavam-se jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum céu muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia pacíficamente nas clareiras. As mimosas enchiam-se de florações de ouro. Os adolescentes que pertenciam a classes mais adiantadas não se associavam aos divertimentos dos mais novos—passeavam dois a dois, liam versos rimados na solitude dos seus quartos, sonhavam com possíveis glórias literárias e tinham escondidos, entre o colchão e o enxergão das camas de ferro, que recordavam tarimbas de caserna, romances de enrêdo complicado e sensacional, que devoravam às escondidas, no refúgio dos momentos de descanso. Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias das árvores, para fumarem cigarros...

Frederico reconstituía com verdade surpreendente todos os episódios dos seus longínquos anos de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe. Relembrava que já nessa era remota era infeliz. Nunca pôde criar amigos entre os camaradas, que o miravam desconfiados, que se afastavam dêle, que o satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas inexplicáveis antipatias, que não provocava, teve uma grave questão com um estudante, Pedro de Menezes, contundindo-lhe a face com um forte murro. Os guardas acudiram, foi repreendido severamente pelo director do Colégio, que nem sequer escutou as suas desculpas e privado dos folguedos do recreio por tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido, mais o incompatibilizou com os condiscípulos. Passou a ser designado pelo nome irónico de Ferrabrás e repelido amargamente pelos escolares, que o detestavam...

Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados meses de liberdade por praias, termas, quintas rurais, sem a tirania dos livros, sem os abomináveis toques da sineta, que tinham para êle o horror dum dobre a finados, sem as reprimendas dos mestres, quando as lições se não sabiam. A população do Colégio debandava alegremente. As casas ricas mandavam carros e automóveis para levar os seus; os mais modestos mandavam simplesmente um criado. Frederico ia, então, para junto da mãe, já viúva, que andava sempre vestida de preto, rezando pelos corredores ou ralhando, em voz baixa, com os servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e havia casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de Noronha, muito mais vélho do que ela e que fôra fulminado por uma congestão cerebral poucos meses depois do nascimento de Frederico, único herdeiro da sua abundante fortuna porque uma sua irmãzinha morrera aos dois anos de idade.

Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só do que no Colégio. A mamã, absorvida nos fervores da devoção religiosa, nos ardores do seu misticismo, mal reparava nêle, e não ser para o admoestar pelo barulho que fazia na vivenda, sempre de janelas cerradas à luz exterior, como se lá dentro se chorasse uma desdita permanente, como se a morte a povoasse. De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao deitar-se, Frederico aproximava, com indiferença, o rosto da bôca materna e recebia um beijo frio e rápido. No fim do almôço, do jantar e depois do chá, ela obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa e de mãos postas, pela glória de todos os santos mencionados na Legenda Dourada, de Voragine, que tinha sempre sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal de prata.

De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre senhoras idosas tambêm severamente vestidas de preto, com quem D. Isabel se fechava, no oratório da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões, Frederico fruía uma liberdade mais larga. Descia à cozinha, palrava com as criadas que se riam muito das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos do jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã reforçava o enxoval, puxava-o para junto do peito sêco em que nenhum desejo profano arfava—rosando-lhe as carnes duma ponta de sangue mais vivo—despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que lhe causava arrepios, murmurava em voz sumida:

—Vê se tens juízo... Porta-te bem.

Frederico regressava jovialmente ao Colégio, de que já tinha saùdades, e ouvia os seus condiscípulos, com inveja e tristeza, narrarem uns aos outros o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas e estâncias marítimas, das pequenas viagens recreativas com a família, das reùniões e das danças nos Casinos, onde alguns tinham arranjado namoros.

—E tu, Ferrabrás, onde passaste o verão?—perguntavam-lhe.

Frederico, por vergonha, para não ser humilhado, tinha vontade de mentir, inventando digressões maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe. Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...

Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã morreu duma doença do coração, foi nomeado um tutor para administrar os seus bens, aumentados considerávelmente pela viúva que vivia parcimoniosamente, que abominava o luxo como se êle representasse ou um pecado ou um escândalo.

Na Academia Politécnica travou conhecimento com Nuno, que como êle tirava o curso de engenharia, que era igualmente rico e órfão. As suas relações estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta coincidência que os identificava. Aproximava-os uma singular semelhança de infortúnios, de temperamento e de carácter e foram, durante seis anos, como dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou uma discórdia que os separasse um instante... E era êste o tempo mais doce e mais feliz da sua existència de homem, pelo menos aquele de que se recordava com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe o seu casamento. Estavam, então, em Vizela, tôdas as noites se dançava no salão do hotel, e todos os dias se passeava no parque, se organizavam merendas no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, ao som de guitarras românticas. Frederico assistiu à lenta formação do amor que encheu o coração de Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres e para as sérias responsabilidades da vida familiar. A princípio, tomou a inclinação do amigo por Júlia como um banal flirt, como um capricho de que nada restaria quando cada um fôsse para o seu lado. Depois, vendo-o desinteressado de tudo quanto não fôsse Júlia—que fielmente acompanhava para tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou conversava, em quem falava contínuamente como se ela representasse o símbolo das suas mais belas aspirações—sentiu que Nuno estava bem preso e bem apaixonado e que o desfêcho lógico daquele namôro seria o casamento. A partir de então, a sua vida fez-se mais solitária e mais despegada, os seus entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras confianças. Nesta solitude, porêm, era ainda relativamente feliz, até ao momento em que Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de Júlia, já mãe.

—E aqui está—murmurou êle com infinita desolação—o que um amor sem esperança pode fazer dum homem!... Que sorte!...

No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silêncio que invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradável cheiro e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha horizontes luminosos, desde que uma adoração impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a amar com paixão e pureza uma outra mulher que não fôsse Júlia. Revoltava-se contra aquela adoração, acusava-se a si próprio por não ter sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava sôbre o seu destino, sôbre o seu coração, que empolgava com mão de ferro.

—Mas serei eu o único responsavel?— monologava.

E, na sua dor, alucinado por uma perturbação que lhe toldava o cérebro e a noção da equidade, quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admiráveis virtudes.



VI


Não podendo viver tranqùilamente perto de Júlia, com o seu segrêdo sempre oculto, nem longe dela, com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse, que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do espírito, excitando a sua avidez de prazer nos delírios das paixões voluptuosas. Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a única pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinação, obedecesse aos impulsos desordenados e abomináveis do instinto carnal, mancharia a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar na possibilidade dum arrebatamento que o levasse a confessar a Júlia a sua adoração pecaminosa—que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era pura, honesta e refractária às tentações criminosas—uma dor muito funda agravava a sua exaltação física e o seu desequilíbrio emocional...

Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audácia e o cinismo de praticar uma acção vil, não seria o padecimento de Júlia que mais vivamente o pungiria, causando-lhe mágoa e comiseração. A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carácter do melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por vezes, que todo o mal estava feito, que a situação criada pela sua loucura amorosa era já irremediável:—e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à sua honra de homem, errando alucinado pela casa erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido na sua alma e na sua confiança, devastado, com a morte no coração e o calor da vergonha nas faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva do que à espôsa, procurando-o por tôda a parte para lavar com sangue a afronta e a humilhação que o tinham maculado e coberto de escárnio. Então, diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas, murmurava:

—É horrível, horrível!...

Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime seria monstruoso e sem perdão se êle não soubesse reagir vitoriosamente contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si próprio:—e parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de energia atenuava a imensidade da sua falta.

Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietação e do remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos vícios lhe oferecia como consolação lógica e única da sua singular doença. Ainda a princípio pensou que entregando-se, com delírio, à deliqùescència de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu romantismo, sentia um júbilo íntimo em degradar-se por ela, em descer aos pântanos das misérias morais, erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher intensamente amada através de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora e divina.

Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle se transviasse—porque era incapaz de conceber abnegações por si próprio.

Perturbado e cheio de confusão por esta ideia fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu completamente isolado, começou a aparecer de repente em tôda a parte, a freqùentar os cafés e os Clubes. Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos houve espanto.

A ressurreição foi saùdada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento extraordinário com uma ceia em que o champagne festivamente estalasse e a verve corresse com uma scintilação dourada sob a brancura da luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de pertencer às raças finas, desejava um banquete sério e decente, em que os convivas fôssem de casaca, correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa em que estivessem duquesas.

—Vejam que devemos isto a Frederico e a nós, à nossa classe social, à nobreza das nossas estirpes—comentou êle.

O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porêm, muito desdenhoso de fidalguias e pragmáticas, bradando:

—Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pagã, para comemorar a volta à estúrdia e à pândega dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe paganismo:—a rabona igualitária, a ninfa de gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra de honra, é escandaloso!...

—Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca é fúnebre, e nós vamos para uma calorosa manifestação de regosijo!—concordou o Taveira, filho dum capitalista enriquecido na Argentina.

—Pois não é assim?—interrogou o Paiva.

—Mas...—atalhou Alberto.

—Não, filho! Não há mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um maxixe desbragado...

—Muito bem!—acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o maxixe, primeiro... O resto, é silêncio, como Hamlet dizia a Horácio.

Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, depois do teatro, durou até à madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste de desvio moral na existência de Frederico. Aí conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta, loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie de virgindade que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando irónicamente:

—Aqui tens tu um regaço de sêda onde os príncipes gostariam de dormir as suas séstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraçado país que nem amar sabe e onde não há príncipes... Tem de contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta célebre, esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vélho, caro amigo!...

Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo da apresentação.

—Na Grécia antiga—continuou Paiva—os filósofos da linhagem nobre e genial de Platão repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis, no Egito!...

—Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...—exclamou ela, amuada.

—Agora, o que Branca desconhece, meu filho, é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam os Imortais... «O cavalheiro está a chuchar comigo!» Vê tu que abominação. Se Péricles ouvisse esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca ou correria a embriagar-se com o vinho das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...

—E que não sou Péricles!—atalhou Frederico.

A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do «festim pagão», como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero. Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua graça dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a uma companheira de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas garçonnières da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela, rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não tinha vocação para espôsa.

—Vai para um convento, vai para um convento!—intimou Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo o braço e apontando com o dedo.

—Sim! Talvez para um convento!—concordava Eugénia, enroscando os braços à volta do pescoço de Alberto. E então?...

A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia impressionou Frederico. Perguntou-lhe:

—Que tem?

—Nada! Estou hoje assim!... São dias.

—Tem «telha», é o que tem—afirmou uma outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes confissões, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.

—Ou um scetro ou um poema. Escolhe—gaguejava êle. E pode ser que, para a imortalidade, te convenha mais o poema. Ainda não morreram Beatriz, Laura, Virgínia. Ainda nem sequer morreram aquelas loiras germânicas cantadas por Goëthe.

—Quem são essas damas?—inquiriu Luísa.

—São umas senhoras das minhas relações... Não é verdade, Frederico?

—Beatriz, Laura... Certamente! E damas muito finas!—asseverou Frederico.

Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe na mão, mirando-a nos olhos, interrogando:

—E foi sempre assim triste?...

—Para que quere saber?

—Porque me interesso por si... Aí está!

—Acredito eu lá nesse interêsse!

Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos de vinhos e licores que pareciam pedras preciosas líquidas, desfolhavam-se as flores. O dourado fulgor da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado das porcelanas. Os criados entravam o saíam, cambaleantes de sono, coçando a cabeça, com os guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que dava para fóra, sentido-se reanimar por uma lufada de ar frio. Sôbre a cidade, arqueava-se um céu picado de estrêlas, que já empalideciam no cerraceiro da treva que devorava tôda a vida. Por um momento, Frederico, encostado ao peitoril da janela, julgou-se aviltado. Experimentava a sensação desgostante de ter caído numa imundície que o sujava, que o invadia dum nojo profundo; e mentalmente comparava a frescura de impressões de que um amor oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, a ventura risonha entrevista em exaltações de imaginação, o sôpro de alegria eterna que respirou junto de Júlia, com aquela torpeza, em que se afundava. A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra, a frialdade do vento, tudo o que para êle havia de novo, de desconhecido, naquela noitada iniciadora, excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava as alturas celestes que, no esplendor das constelações scintilantes lhe sugeriam arabescos de luz, uma estranha feeria que ardesse, rutilasse na escuridão. Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se, aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço, dizendo numa voz de mimo e de fraqueza:

—Estou tam fatigada!

Êle voltou-se bruscamente, irritado contra aquela interrupção importuna que vinha quebrar-lhe o fio das lucubrações e fazê-lo reentrar de repente na realidade das coisas, mas logo se conteve diante da desdita duma mocidade e duma beleza que tôdas as brutalidades da luxúria iam contagiando e maculando; e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio. A delicadeza de alma de Frederico tornava-o incapaz de ser grosseiro e violento com uma mulher, fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de débil, tinha a graça romântica duma formosura a suavizar-lhe o rosto, o aspecto doentio, uma meiguice que parecia nascer da humildade dolorosa da sua vida e da escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de Frederico, apiedou-o. Pegando-lhe na mão que ela abandonou, disse:

—Cansada, hein?

—Oh! Muito cansada e morta por me ver longe dêste logar, acredite!—respondeu Branca.

—Então, não gostou, não se divertiu?

—Eu?!... Estou para aqui!...

Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão em que havia ternura e sofrimento. Frederico pensou que aquela sensibilidade numa mulher costumada a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse uma dor que não sentia para o comover, para obter certas complacências que lhe agradavam, por cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas, fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender nos olhos um sorriso que tremia e nos lábios pálidos uma súplica que não ousava denunciar-se claramente, com mêdo de ser repelida, e que no seu silêncio queria dizer:

—Leva-me contigo!... Sou uma companheira ainda desejável para algumas horas. Porque não experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível para te distrair, para ser amável!...

Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma languidez sensual: e, avançando para Branca, que se havia afastado alguns passos e que aconchegava uma pele de repôsa à volta do colo friorento, exclamou:

—Pois partamos. Eu acompanho-a...

Nesse momento, Sequeira, com o charuto meio queimado na bôca, dormia com os braços apertados na cinta de Eugénia; Luísa bebia café com Paiva, pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial, espalhados pela sala, palravam, pesados e sonolentos. Já através das vidraças se filtrava uma claridade matinal indecisa e o ar era mais penetrante e vivo. Frederico anunciou que se retirava e que levava Branca. Foi um alarido.

—O quê? Antes do nascer do sol?—interrogou com estranheza o Andrade estrábico.

—Certamente—afirmou Frederico. Não nos encontramos num estado de alma suficientemente puro para compreendermos e sentirmos a poesia da aurora.

—É uma perfídia!—gritaram muitas vozes.

—É sono! E eu tambêm me saio e levo Luísa!—acudiu Paiva.

—Mas, é o rapto das sabinas!...—exclamou o Andrade.

—Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!—aplaudiu Paiva, enquanto os outros riam saborosamente.

Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o braço a Branca, que o esperava arrepiada e frioenta.

—Que Eros vos seja propício!—disse ainda o Andrade, que nessa noite estava em veia.

Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou Branca a subir para o automóvel que o tinha trazido, acordou o chauffeur que dormitava, encostado ao volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia tónica da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia às seivas de que se impregnava, adejando por quintais e jardins. Quando entrou em casa, com Branca, o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma leve poeira de luz errava, ardia sôbre os telhados, incendiava as vidraçarias, que relampejavam, irradiavam súbitos clarões...