Na manhã seguinte, Nuno, que passara a noite inquieto por aquela súbita fuga do amigo, não sabendo a que atribuí-la, recebia uma carta.

Reconhecendo no enveloppe a letra do Frederico, abriu-a nervosamente. Que teria acontecido, para êle escrever em vez de voltar, como prometera? Leu, apavorado, estas palavras sombrias, gravadas numa letra firme:

—«Nuno:—Vou matar-me, em plena consciência, e foi justamente para isso que deixei a tua companhia, a tua afeição, a tua nobre e grande alma. Nem a paz, a consolação imensa do teu lar tam belo, puderam reter-me por mais tempo num mundo em que sou um intruso. Não posso viver mais. A vida para mim é um suplício e por isso me liberto dela. O homem dispõe da força augusta que lhe permite aniquilar a obra de Deus.

Porque me mato? Porque há, realmente, na minha existência um segrêdo terrível, o segrêdo de que um dia suspeitaste e que te não posso dizer, porque me não pertence inteiramente. Oh! não faças suposições inconsideradas! Julga-me com equidade. Não penses por um momento só que deixei, por um crime atroz e sem perdão, de ser digno do teu afecto. Morro em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me sem repouso e é-me impossível sofrer mais. Para que prolongar uma dôr incurável? Sou só, o meu acto, longamente meditado, não terá conseqùências e apenas fará padecer as poucas criaturas devotadas que me estimaram e que hão de curvar-se, em lágrimas, sôbre o meu túmulo.

Sê tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre à volta da tua vida tam pura e da tua bondade tam comovida, pousem a graça, o encanto e a doçura! Pensa em mim com um pouco de carinho e de mágoa. Afinal, amei-te e desapareço inteiramente merecedor da tua afeição—inteiramente merecedor dela, ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua mulher—um beijo de irmão, o  beijo dum cadáver. Adeus!—Frederico!».

Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, no jardim, alheado de tudo, como se a inteligência inesperadamente lhe fugisse e êle se encontrasse num logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe. Tinha a carta entre as mãos, e os seus olhos, por uma alucinação dos sentidos, viam nela manchas sangrentas... Depois, fundos soluços abalaram-no, chorou com desespêro, correndo para casa. Abriu nervosamente a porta do quarto. Júlia ainda estava no leito, com o filho que ria e galrava.

—Tu queres saber?—exclamou êle. Uma desgraça horrível, um pavor!

—Que foi, santo nome de Jesus?—exclamou Júlia, sentando-se na cama.

—Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico matou-se, ontem, no Pôrto.

—Matou-se?...—perguntou, num grito.

—Sim, matou! Aqui está a carta dêle, anunciando-me a sua resolução, a sua loucura. Pobre amigo! Antes de morrer, pensou em mim, pensou em nós!

—Oh! meu Deus!—murmurou ela, levando as mãos fechadas á cabeça. E porque foi, porque foi?...

—Não o diz... Olha! Lê tu! Eu nem serenidade tenho para nada.

Júlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela carta para ela reveladora—só para ela!... Uma dúvida que por muito tempo a sobressaltou, esclareceu-se-lhe de repente no espírito. Admirou a grandeza de alma de Frederico—uma grandeza que se denunciava ainda no beijo supremo e sublimado que o seu cadáver lhe mandava da beira da sepultura. Mudamente entregou a carta a Nuno, e as lágrimas correram-lhe em fio dos olhos.

—E então? Que te parece? Que julgas?...

—Era um nobre coração!—exclamou ela, chorando sempre.

Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Pôrto, a assistir ao entêrro do homem que, diante da traição, optou pela morte, para não deixar de ser leal aos outros e a si próprio.


Miramar, 9 de novembro de 1916.





Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


Original Correcção
#pág. 53 pefil ... perfil
#pág. 56 Fredrico ... Frederico
#pág. 63 docorreu ... decorreu
#pág. 67 diza ... dizia
#pág. 67 fertiliade ... fertilidade
#pág. 76 apressadamnte ... apressadamente
#pág. 79 mulidão ... multidão
#pág. 81 ferragns ... ferragens
#pág. 81 pincípio ... princípio
#pág. 104 refractário e um desejo ... refractário a um desejo
#pág. 107 se se isso ... se isso
#pág. 112 miaginação ... imaginação
#pág. 141 vingindade ... virgindade
#pág. 143 picacado ... picado
#pág. 145 Nes e momento ... Nesse momento
#pág. 153 iutermináveis ... intermináveis
#pág. 155 Fredico ... Frederico
#pág. 156 stuação ... situação
#pág. 157 bejou-a ... beijou-a
#pág. 158 subtituía ... substituía
#pág. 159 tran formam ... transformam
#pág. 170 borrocais ... barrocais
#pág. 171 Beetheven ... Beethoven
#pág. 171 capazas ... capazes
#pág. 181 e de medicina ... o de medicina
#pág. 232 Bernado ... Bernardo
#pág. 232 uam ... uma
#pág. 232 irrmediáveis ... irremediáveis
#pág. 236 rapares ... repares
#pág. 238 úni- pessoa ... única pessoa
#pág. 241 rua a ... a rua
#pág. 244 No poderia ... Não poderia
#pág. 257 Banca ... Branca
#pág. 272 compaínha ... campaínha


A acentuação foi mantida de acordo com o original.