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A Morte Vence

Chapter 14: IX
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About This Book

The narrative presents a sunlit domestic scene in which a young mother contemplates her sleeping infant while the father shares tender admiration, with rich sensory detail of the child's fragility and the parents' physical intimacy. It follows their mutual idealization of the newborn as an emblem of shared love and future continuity, imagining inherited beliefs and virtues. Close interior description and devotional imagery alternate with moments that reveal underlying anxieties about death and abandonment, producing a tension between joy and vulnerability. The work focuses on parental devotion, everyday rituals, and the fragile hopes and fears surrounding new family life.

VIII


O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem à confusão e ao alarido da cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior da sua ventura. Como viviam únicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoções ganhavam, na solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza física, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade espiritual.

A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre dentro de casa. Grossas cordas de água fustigavam com violência as janelas, escorregando lentamente nos vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre a paìsagem que se divizava ao longe, através duma cortina de névoa cinzenta e triste. Dos montes próximos, onde densos pinheirais ondulavam e ramalhavam à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes, dos telhados dos casebres, que donde a onde branquejavam na desolação campestre, subiam, colunas de fumo que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar, do sul para o norte, impelidas pela rajada dos furacões. No cume das serranias havia uma claridade mais límpida do que nas encostas e nas colinas onde um espêsso vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do parque rangiam, gemiam ao vento. De noite, especialmente, o barulho que faziam era sinistro e assustava Júlia. De quando em quando, um pedaço de céu azul rasgava-se no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida claridade de sol derramava-se docemente, como uma bênção divina, por tôda a aldeia, dourando a verdura das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra negra. Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma alma de bondade e meiguice a comunicar-lhe o encanto supremo duma poesia indizível, e duma infinita piedade pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo se toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.

Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca, as mãos nos bolsos das calças onde tilintavam chaves, bem agasalhado pelas roupas quentes, assomava à varanda envidraçada, espreitando através dos vidros embaciados, e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:

—Que invernia brava hoje vamos ter!...

Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em que se reflectia tôda a pureza e tôda a ternura do seu coração e que tanto o comovia, dizendo:

—Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar aqui. Devíamos ter partido nos fins do verão... Mas essas obras que nunca terminaram...

—Partir para quê?—inquiria Nuno, parando diante dela. O inverno é tam fastidioso na aldeia como na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a chuva entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas. Ao menos, temos horizontes largos, desafogados, respira-se. Estamos a assistir a um espectáculo inteiramente novo para nós...

—Mas, na cidade...—contrariou Júlia, com timidez.

—Eu sei. Na cidade, há os cafés, os cinematógrafos, os teatros, outras diversões. Mas ela apenas se torna indispensável para os que não teem família ou para os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como num centro imensamente populoso...

Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce devoção, aquela constância de afecto que nunca afrouxava, e experimentava um calor de ventura que a penetrava tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da vida. A confiança de ambos no futuro aumentava constantemente. Tinham olvidado tudo o que se passava para alêm da história lírica da sua paixão—que havia começado anos antes e que ainda não terminara; nem um nem outro se lembravam de ter padecido algum dia. As recordações dos seus tempos antigos diluiam—se, apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos seus sêres, renovando-os a cada momento. Dentro de casa, nas alvoradas hostis ou nas tardes tempestuosas, ocupavam-se na infinidade de coisas gratas que os cuidados da habitação oferecem. Júlia, com o saco de costura no regaço, bordava, cosia, enquanto Nuno lia as suas revistas e os seus jornais ou cortava as páginas dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe mandava. No abandôno íntimo dêstes saborosos instantes, se se contemplavam, subiam-lhes da alma à memória as longínquas recordações da sua adoração revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam, então, um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que mais de perto com essa adoração se prendia:—os logares idílicos em que ela tinha nascido, certos objectos e certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A elaboração interior destas lembranças emmudecia-os longamente, abismava-os numa espécie de silêncio que temiam interromper e que voluntáriamente prolongavam, para que o seu gôzo espiritual fôsse mais duradouro.

Nuno conservava tam nítidamente na memória êsses acontecimentos, que podia reconstituí-los com facilidade, sempre que quisesse. Não lhe esquecera ainda, o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com Júlia, que chegara certa manhã a um hotel de Vizela, com o pai, a mãe e o irmão, o excelente Roberto, que fôra educado em Londres, que tinha nas maneiras, na franqueza, na correcção do porte e no córte do vestuário, acentuados traços britânicos e que partira para a America do Norte, como empregado superior duma casa bancária, dois meses depois do casàmento de Júlia. Viram-se a primeira vez no parque, por uma tarde de luz e de alegria. Ela trazia um vestido de fustão branco muito justo que lhe desenhava claramente as formas plásticas, ondulantes e de linhas puras. O seu busto era perfeito de curvas e de contornos: a sua mocidade tinha a graça subtil duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu de palha côr de ouro com duas rosas vermelhas presas por uma laçada de gaze de sêda branca, fazia-lhe uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto dum oval delicado, imprimia-lhe maior destaque à pele das faces e do colo, que parecia alumiada por uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma ruga. Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas e de dedos delgados, fulgiam pedras de aneis.

Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples olhar e foi como se ficassem compreendendo-se para sempre—porque o amor casto dá aos olhos uma inteligência especial, um admirável poder de entendimento e de expressão. Daí em diante, nunca mais Nuno deixou de a seguir dócilmente para tôda a parte, indo aos chás a que Júlia se associava, às excursões, em grandes ranchos, às serras próximas, para a contemplação dos panoramas que se vislumbram dos píncaros mais altos:—a ondulação ininterrupta e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de folhagem verde, alteando e deprimindo a sua ossatura monstruosa na base, elevando-se bruscamente em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da escarpa abrupta dos montes, a natureza rebentava numa torrencial explosão de arvoredos, de milharais, de pomares, de videiras de compridos braços, enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, como as serpentes no coração do Lacoonte, subindo até às copas e vergando de cachos.

Uma frescura e uma abundância de écloga latina, que Vergilio cantaria, em estrofes immortais, corriam alacremente nos fundos vales que se almofadavam de ervaçais e sombras; e em tôda a extensão panorâmica, as serranias sucediam-se umas às outras constantemente, como um mar de enormes vagas terrosas que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos e davam gritinhos de susto; os homens riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu amor que começava e que, não sendo já segrêdo para ninguêm, provocava risinhos maliciosos, ditos picantes ou de despeito.

Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel para jantar, nos olhos de Júlia havia uma extraordinária fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na alma. Depois, à noite, no salão, organizavam danças, enquanto os homens de idade se reùniam às mesas dos jogos improvisados, para as suas fastidiosas partidas de bridge, e as damas, sentadas pelo salão, se emaranhavam em banais conversações sem fim:—e Júlia era sempre o par de Nuno, nas valsas...

Uma vez por outra, a colónia da estância balnear levava mais longe as suas digressões, ia até Guimarães, visitando as vélhas igrejas que resplandeciam das talhas douradas, até às Taipas, até Braga, seguindo em automóveis através de estradas cortando campos onde crescia o milheiral e os feijões se cobriam de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde um murmúrio de aragem passava nas messes já maduras, procurando as tiras de sombra veludosa e mole caindo das árvores que, duma banda e doutra, orlavam o macadame. Era uma festa para a vista e para o sentimento dos excursionistas tôda essa larga e incomparável paìsagem do Minho, túmida de seivas, de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa vegetação. A cada instante se detinham à beira duma fonte que gorgolejava no jôrro cristalino das suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos dias tórridos, perto duma levada de água de rega vinda de longe, rolando pedrinhas alvas, grossos saibros reluzentes, cantando misteriosamente nas espessuras discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo uma gloriosa vitalidade às raízes. Incessantemente topavam, trotando no cascalho da calçada, as características diligências que rangiam aos solavancos, levando nas imperiais abades rubicundos com guarda-sóis de paninho vermelho entre as pernas e dentro tôda uma população em trajos domingueiros. No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava, fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos cavalos cansados. Os melros assustavam-se pelas balsas floridas, voando para longe; erguiam-se nuvens sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às portas dos casais que davam para as estradas, sob ramadas onde as uvas amadurciam, iam acudindo, ao ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem, mulheres com grosseiras mãos escondidas debaixo dos aventais de riscado, crianças em camisa, com ventres enormes e a palidez de doença na cara suja. Cães ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos portões vermelhos das quintas: e a ranchada jovial dos excursionistas continuava a sua marcha, rindo, palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que—numa destas escapadas encantadoras, por um meio-dia de soalheira abrasadora em que foram ver o castelo de Guimarães, com a sua tôrre de menagem, os seus fossos cheios de ervas parasitárias, as suas seteiras, os seus travejamentos carcomidos—Júlia, ao passar por um quintal onde um alto damasqueiro, esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava os seus frutos dourados e penugentos, teve de repente um desejo guloso de comer damascos; e logo êle, mandando parar o carro, bateu à porta da granja, pedindo que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de mulher veio de dentro, convidando-o a entrar, a escolher, a fartar-se, porque aquela fruta não se vendia:—dava-se.

—Não quero isso, não quero. Venda-ma...

—Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos. Olha agora levar dinheiro por uma miséria assim!...—teimou a aldeã, que era linda e ainda nova, acudindo ao limiar. Entre, entre...

E reparando em Júlia, que tinha ficado com o irmão no autómóvel, a mulher acrescentou:

—E a menina e outro senhor tambêm!... Com tôda a franqueza!

Por fim, entraram alegremente e merendaram, com delícia, sob o damasqueiro acolhedor, enquanto a aldeã, sorridente e com uns dentes brancos brilhando no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos, os incitava a comerem mais.

—E podem levar, se quiserem!—oferecia ela.

Chamava-se Maria da Luz, era casada havia seis anos com um lavrador abastado e já três criancinhas, de olhos muito espantados, belas como a mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado, deu uma moeda de prata a cada uma, para comprarem doces.

—Não! Isso é que não!—acudiu a aldeã, tôda còrada. Ficava-lhe por bom preço a fruta, meu senhor!

—Ora essa!—atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, que são tam simpáticos. Deixe, deixe...

As crianças estenderam a palma das mãos côr de rosa, apertaram, muito contentes, as moedas, enquanto a mãe lhes gritava:

—Então, como se diz?!... Como se diz?!... Êstes mafarricos que me consomem, não aprendem a bôa educação nem à mão de Deus Padre!...

Todos êstes inefáveis episódios duma época distante e bem feliz se tinham gravado fundamente no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era sua espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer infinitamente doce em reavivá-los. O casamento fôra combinado ainda em Vizela, ao fim dum curto namôro, com grande desespêro de Frederico que tambêm estava nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios entregando-se a um meigo flírt sempre novo em cada dia e que julgava severamente a imprevista evasão, do amigo, da vida despreocupada de solteiro...

Nas longas horas que agora passavam sós, dentro de casa, Nuno e Júlia gostosamente evocavam o seu passado, que era de dois anos—porque apenas começaram a viver uma existência séria desde que se conheceram e se ligaram por laços que nenhuma dor ou nenhuma fatalidade romperiam—e que lhes pareciam do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia sem que êles o percebessem e sem que na sua emoção deixasse resíduos de amargura e de tristeza.

—Tu lembras-te?—perguntava êle, fechando o livro que tinha nas mãos, enquanto Júlia esquecia sôbre o regaço a agulha do bordado.

—Lembro!—afirmava ela com um sorriso que a espiritualizava e transmitia maior encanto à sua beleza. Lembro-me, como se tudo isso fôsse de ontem...

—Frederico não queria que eu casasse, dizia-me horrores da vida conjugal, procurava afastar-me de ti por todos os processos, teimava em que eu o acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. Creio mesmo que chegou a ser teu inimigo, o pobre rapaz...

—Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?

—É claro, não te tinha ódio, não te queria mal, mas não perdoava à mulher que lhe arrebatava o amigo de sempre, o camarada, o companheiro... Era só por isto!

Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam um pouco nêle—Nuno com saùdade e com uma secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência e pelo carácter, que se esterilizava, que era improdutiva, como um pragal áspero em que nunca, por acaso ao menos, caísse uma semente fértil; Júlia, com o encanto, com a afeição que lhe merecia o homem tam idêntico ao marido pelo coração, e de tanta grandeza de alma, de tanta finura de espírito...

—O que fará êle por êsse Pôrto, neste desabrido inverno?—interrogava ela.

—Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades caseiras, fazem, naturalmente. Êle não quis estar connosco, havia coisa que o chamasse, que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me mais desalentado, mais triste do que o costume, amava a solidão, quáse que me fugia... Apenas despertava da sua melancolia quando tocavas, no piano, essas páginas de Schubert que sempre admirou.

—Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas razões que nós temos, bem sabes. É só, não ama, não é amado, anda á procura dum destino que ainda não encontrou...

—E que não encontrará jàmais. Aparentemente enérgico, é um fraco de vontade, sofre de preguiça de sentimento, tem os defeitos da raça a que pertence...

—Oh! Nuno! Que severidade!

—Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente Frederico. Não há alma tam leal como a dêle, dedicação mais capaz, de sacrifícios pelas pessoas a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto como eu, como todos nós...

—Como tu?

—Como eu, não digo bem... Frederico foi mais infeliz...

As horas deslizavam apressadamente, nestas conversas em que ambos se entretinham e em que melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia ia para o piano e Nuno, de pé proximo dela, ia-lhe voltando as fôlhas do caderno de música. Nos momentos de repouso, enquanto a chuva caía, monótona e aborrecida, chamavam a ama, que acudia com a criança ao colo e um grosso grilhão de ouro ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e delicadeza, beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o ao marido, que o embalava nos braços. O pequenino sorria, com a face cheia de covas, agitando as mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma grulhada infantil. Depois, Nuno beijava-o tambêm longamente, picando-lhe a carinha tenra das faces com a barba crespa, o que o fazia chorar.

—Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos teus bigodes de turco—dizia Júlia, sorrindo.

—Não! É que é já mais teu amigo do que meu, o ingrato...

À noite, em seguida ao jantar, quando a treva temerosamente afogava todos os aspectos na mesma confusa massa negra e o sossêgo envolvia a vivenda com as vidraças douradas pela luz, o criado, o Manuel, soltava os cães de fila durante o dia amarrados a fortes cadeados de ferro; as portas do rés-do-chão fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma vélha cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava em baixo, que era revestida de azulejos e que se iluminava com a fulguração dos metais e dos esmaltes faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira. Os molossos, de afiados colmilhos saíndo-lhes da bôca babujada como pontas de punhais, latiam, uivavam no jardim e no parque, à ventania que sacudia vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se ao longe, vindos das granjas e das herdades; o pequenino adormecia ao peito farto da ama, ainda com o bico rosado do seio que o amamentava na bôca sem dentes, e era levado com mimos e cautelas para o berço, aquecido antecipadamente com botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia continuavam ainda os seus serões, conversando, lembrando-se piedosamente dos pobres que não teriam roupa nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, e experimentando uma ternura doce e secreta no isolamento rural em que se confinavam com a sua felicidade—almas satisfeitas e contentes que nada mais queriam da vida...

Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as manhãs raiavam límpidas como uma imensa e pura flor azul que desabrochasse iluminada por um sol muito louro que dourava os outeiros, os cimos dos montes, tocava as altas ramarias dos arvoredos dum fulgor vivo que parecia arder, scintilar no esplendor da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na paìsagem soturna como uma ave que, pela primavera, é de repente surpreendida pela alvorada gloriosa entre os ramos floridos e começa a cantar sob o mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz. Envolvidas pelo banho fulvo da claridade, as próprias coisas inertes pareciam impregnar-se de alma, davam a ilusão de serem dotadas de movimento. Errava no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na nitidez do ambiente, prolongavam-se indefinidamente, cheias de poesia e de vago. A vivenda, elevando-se no meio do jardim, com as suas grossas paredes, as suas varandas, os seus telhados de largo beiral onde as pombas arrulhavam em certos instantes, as suas escadas de pedra com grades de ferro pintadas de verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam, animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela festa da natureza. Mais satisfeitos e expansivos, os criados palravam na cozinha, à volta da mesa do almôço.

Uma temperatura morna que fazia inchar os gomos das árvores e das madre-silvas dos valados—que em maio se cobriam de florações e ofereciam embalo e perfume aos ninhos inocentes—convidava aos lentos, agradáveis passeios. Nuno, sentindo o coração desopresso e ligeiro, corria a levar a Júlia a bôa nova, em palavras comovidas e risonhas, interrompendo-a no seu trabalho.

—Que linda manhã, meu amor!—exclamava êle. Vem daí! Faremos uma pequena digressão pela quinta... Até nos abrirá o apetite e nos renovará a saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas emperradas por tôda uma semana de cativeiro.

—Pois vamos!—concordava ela com júbilos e ingenuìdades quáse infantis. Gosto tanto de passear matinalmente!

Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa um casaco de agasalho, calçava as galochas sôbre os pequeninos sapatos de verniz, punha na cabeça um gorro de lã branca, feito por ela nos seus serões, e saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro acre da terra molhada, internando-so pelas sombrias e ermas alamedas do parque onde as mimosas começavam a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo brandamente à aragem e a que o sol imprimia mais brilho e côr, desciam, por caminhos empedrados, às terras de cultivo já verdejantes de pastos para o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que enchiam tonéis, em setembro, dum vinho aromático e leve, passavam pelos vergeis bem tratados onde, em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras vergavam de florescências multicôres que lembravam irisados enxames de borboletas levantando vôo, e paravam, enfim, diante da habitação destinada ao caseiro e que era o orgulho de Nuno.

—Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi minha. Para alguma coisa havia de servir-me o curso de engenheiro. O vélho Mateus está aqui óptimamente instalado com a sua gente—dizia êle. Não parece?

Júlia aprovava, com um gesto afável da cabeça, enquanto Nuno minuciosamente lhe ia fornecendo mais indicações:

—Aqui—explicava êle—é a casa de moradia; alêm, ficam os estábulos para os bois, os currais para os porcos, os alpendres para a guarda dos apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir as adegas, a eira, o espigueiro e os celeiros. Que me dizes a tudo isto? Olha que foi obra minha!

Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas de branco alvejavam sob o tom vermelho dos telhados. Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados, rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos que o rosmaninho, no estio, pintalgava de manchas rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o marido com ternura, afagava-o com o olhar.

—E agora—continuava Nuno, depois de terem avançado mais alguns passos—aqui está o grande tanque que me deu que entender e em que tanto te falei, durante todo o verão findo, não sei se te recordas.

—Recordo!—afirmava ela.

—Servirá de reservatório das águas de rega que fui buscar longe, por meio dum cano, à encosta daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água maravilhosa, muito pura, filtrada por camadas sobrepostas de rocha, e saibro grosso. Quando, nos dias quentes, a colhia para beber, o copo ficava logo nevado. É saborosa e frigidíssima. Porque não mandas a Francisca buscá-la à bôca da mina para o nosso chá? Ando há tanto tempo para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...

—Está bem, mandarei—prometia Júlia.

—Pois, essa água corre para êste tanque. Quando se quiser regar, é só soltar a levada e ei-la por êsses campos, fluindo, fecundando, dando alento às plantações e às sementeiras!

—O que tu sabes já das lidas agrícolas, Nuno!—exclamava ela com admiração.

—Minha filha, tem-se estudado um pouco o pelo processo prático, que é ainda o melhor—respondia êle, jovialmente. O meu verão, êste ano, foi útil!

O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha logo para êles, de chapéu na mão, com o seu rosto enrugado que o bom riso sadio, vindo da alma, espiritualizava de bondade, cumprimentando-os respeitosamente. Nuno correspondia ao cumprimento, murmurando:

—Olá! É você, Mateus? Então, como vão os trabalhos, homem?

—Crédo, meu senhor! Com êste inverno de desgraça e de castigo, nada se pode fazer. Tudo parado. As terras estão encharcadas, são lama...

—Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega —Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade sempre insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve ver-se e desejar-se com pedidos tam contraditórios, não é verdade, tio Mateus?—perguntava Nuno alegremente.

—Deus é sábio, é justo, sabe o que faz, meu senhor—replicava o caseiro, rindo. Mas tudo se quere em conta. Nem muito ao mar nem muito à terra. Assim é que é...

—E a doente está melhorzinha?—inquiria Júlia.

—Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As melhoras dela só na cova. E tanto tem sofrido!...

—Não fale dêsse modo, tenha esperança...

—Pois esperança tenho eu. Esperança e paciência, que ela tudo merece—concluía êle, com voz enternecida e trémula.

Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:

—Então, hoje a passear?

-Com êste bom sol, não podíamos ficar fechados—dizia Nuno.

—Está de rosas, meu senhor, de rosas!...

Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois; vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, como uma bênção. Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes despercebidos na agitação das atormentadas aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.

—Aquele Frederico, aquele doido!—bradava Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos boeiros citadinos!...

—Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!—repreendia Júlia.

—Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a pureza...

Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando. E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade que nunca findava...





Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi tôda aflita bater à porta do quarto, chamando Júlia.

—Que quere?—perguntou, ela, de dentro.

—Era para contar à senhora uma coisa a respeito do menino, que não está bom.

—Que diz você, mulher?...—gritou Júlia, com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...

Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.

—Que tem o menino?—perguntou Júlia, abrindo a porta da alcôva. Onde está êle, onde o deixou você?

—Deitado no berço... Está um pouco desassossegado...

Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo, com irritação nervosa, as madeixas do cabelo solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto do berço da criança que ergueu carinhosamente nos braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com indizível ternura:

— Está doentinho, o meu amor?... Está?!...

Afastava-o de si, amparando-o com as mãos amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, na verdade, mais pálido, mais abatido.

—Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que será? Como notou você a doença do meu filho, ama?

—É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.

—Tossiu?—perguntou Júlia, aflita. E a tosse era rouca?

—Pois era!...

—E porque nâo foi logo avisar-me?

—Pensei que não seria nada!...

Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar de inquietação e de meiguice, inquirindo:

—Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...

—De-pressa, Nuno! Manda já um criado a Guimarães, a procurar um automóvel fechado. Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos de partir imediatamente para o Pôrto.

—Um automóvel?... Partir imediatamente para o Pôrto?—interrogava Nuno, maquinalmente, Mas espera!... Dize...

-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes o que é?... Não sabes? É a difteria, é talvez a morte...

Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e quatro os degraus da escada, gritou:

—Manuel! Manuel!... Onde estás tu?

—Aqui, patrão!—respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de camurça com que estava limpando e polindo metais.

—Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai a Guimarães, onde procurarás um automóvel fechado, por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade. É um caso urgente.

—Sim, meu senhor.

—Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...

O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha, passeando agitadamente, a largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A difteria! O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir, impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, com o rosto congestionado, os olhos saltando fóra das órbitas, sacudido por convulsões horríveis e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! Do seu coração de pai subia urna grande, avassaladora cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer dos seus males inevitáveis para que fôsse submetido a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que em cima soluçava, andava dum lado para o outro, mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.

—Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?—perguntou a cozinheira, que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.

—Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino está muito doente.

—Santo Deus!—exclamou ela.

—E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.

Subiu, novamente, a escada como um autómato, governado mais pelo instinto do que pela inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa cadeira de braços, com a criança aconchegada ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela, a ama repetia sem descanso:

—Uma destas, uma destas!...

Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia de consolar aquela dor inconsolável.

—Que desventura a nossa, que desventura!...—gaguejava Júlia.

—Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que a doença não valha nada, que te enganes—acudiu êle, por fim.

—Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mães nunca se enganam.

E voltando-se para a ama:

—Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares pronto.

-Sim, menina!...

Uma hora depois, um automóvel parava, em baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do Pôrto e entrou no carro com Júlia—que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado, agasalhado em lãs quentes—com a ama e com a cozinheira, dizendo ao chauffeur que, até Guimarães, largasse com a maior velocidade.

Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies monótonas, a paìsagem azulava-se no ar baço. Um vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e Júlia nem sequer olhavam para fóra, através das portas de vidro do automóvel, concentrados como iam no seu sofrimento.

Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era caso para sustos—afirmou.

—Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...—interrompeu Nuno, avançando para êle e apertando—lhe efusivamente a mão.

—Mas não é a difteria?—perguntou Júlia, ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!

Não! Não era a difteria—asseverou o clínico, já vélho e ageitando os óculos de aro de ouro sôbre o nariz. Uma simples bronquite sem complicações que a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo, num compartimento em que não houvesse oscilações de temperatura, e com a aplicação de revulsivos externos.

—Vês, Júlia?—disse Nuno. Não é nada de cuidado. Eu bem o dizia.

—O alarme desculpa-se nas mães... É tam natural!—exclamou o médico.

—E até podíamos voltar para trás, continuarmos a nossa estada na aldeia.

—Não!—replicou Júlia com firmeza. Para trás, não voltaremos. Já que estamos aqui, seguiremos para o Pôrto. Não ficaria sossegada.

-Pois, como quiseres...

O médico receitou, deu instruções; Nuno pagou a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automóvel, continuando a viagem—através de estradas, de campos melancólicos, de bosques que rugiam à ventania—para o Pôrto, onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida. Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa apalaçada de dois andares feita no gôsto arquitectural das antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera fechada. Foi um reboliço na habitação deserta e cheia de treva. O automóvel largara velozmente, e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, procurava, no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse e desse vida e alegria ao casarão ermo.

Outros médicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e de Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação inesperada no palacete da cidade, não saía, lidando activamente, dando ordens, substituindo na vivenda a espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito da criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários que conhecia e que considerava como amigos vélhos, entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente de quietação em que vivera desde a infância, em que morara, a que tantas recordações inolvidáveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa e risonha à convalescença do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam outra vez reconciliados com a vida que, por momentos, os amargurara.

—É verdade, Júlia—dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!

—Pois tu não tens saído, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que não esteja no Pôrto...

—Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com êle—concluiu Nuno, risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo devia adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de ouvi-las bonitas...

Fóra, na rua, os candeeiros de iluminação pública chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra, sem ruído. A aglomeração das casarias ia adormecendo no silêncio nocturno...



IX


Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos duma existência que nem sequer procurava já equilibrar, porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. À sua excitação física, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter, secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua própria impotência, trazendo no peito um coração árido, invadido por uma dolorosa melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existência desregrada de prazeres de tôda a sorte, em que a luz da sua própria inteligência, tam lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo, conservava-se no seu sentimento alguma coisa que não queria morrer, que era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente para as maiores loucuras:—o seu amor por Júlia. Era uma obcecação, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la. Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem essa adoração perversa e abominável, que o enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a própria consciência, freqùentava os teatros e o jôgo assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas tumultuosas com os amigos e ía depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca, que definitivamente se apossara dêle e que Frederico considerava como um mal necessário ao apaziguamento da sua tortura, como uma ilusão mentirosa de que derivava, para a sua inquietação permanente, um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas de maior atribulação, o logar que uma graça consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um crente, pousava sôbre a fronte doce e pálida de Branca um beijo quáse religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porêm, quando podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e praticando uma infâmia, procurando apagar com a febre duma lascívia brutal a recordação dum amor puríssimo. Alarmado, cheio de remorsos, entregava-se a longas cogitações, tentando encontrar uma explicação para aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma origem de inspirações divinas na paixão amorosa mais elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, afinal, só um estímulo que o impelia para as abjecções deprimentes? Como é que o amor por Júlia não iluminava a cegueira da sua alma, o não sublimava de tôdas as imperfeições terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:—o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dúvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu. Não manifestava curiosidade por nada: a alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, com terror, na perspectiva de sair de sua casa, do seu país, para meter-se, com um monte de malas, em combóios que rolassem monótonamente por terras desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multidões indiferentes e egoístas. Que enorme alteração tudo isto representaria para os seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansaço e que tédio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas por povos diversos do seu? Não lucraria nada! De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico não possuia nem essa serenidade nem êsse contentamento essencial. Não! Não abandonaria o Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo, aniquilando!...

Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, com carícias em que se não escondia o frio, a secura, o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa jovial jornada, por essa Europa fóra.

—O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.

—O Gusmão?—inquiria Frederico. Quem é êsse Gusmão?

—Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos êle pôs a Adriana por conta! É como se fôssem casados. Aquela sim. Está de grande!...—terminava Branca, fazendo beicinho.

—Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por enquanto, não posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem—afirmava êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um braço à volta de pescoço.

—Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

—Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...

—Não quero dizer que mentes...

—Então, que queres dizer?...

Ela não respondia, fazia-se mais amáv Ela não respondia, fazia-se mais amável entre os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente, exclamando:

—De resto, para sermos felizes, não precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, onde fôra ver uma revista deplorável, sem vivacidade, sem espírito, sem arte, maculada por ditos e situações lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito embuçado, rente às paredes.

—Pára aí, criatura—bradou Frederico. Há quanto tempo te não vejo!...

—Oh! menino! Pois és tu?—respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto de mão.

—Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistério, Paiva magnífico?

—Vou para o namôro.

—Para o namôro?...

—Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação irresistivel, com diálogos de janela, noite alta—porque o pai é austero—com estrêlas que se contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito séria.

—Oh! Paiva! Tambêm tu?

—É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! Que queres? Assim acabam todos os românticos. E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.

—Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças sofrer com a tua ausência os corações ingénuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o aproximando-se novamente dêle:

—Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há seis ou sete dias?

—Não sei. No Pôrto está tanta gente!

—Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.

—O quê?—bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? Não pode ser.

—E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer que está! Vi-o esta manhã na Praça da Batalha. Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar. Até êle me perguntou por ti.

—Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer nada!

—Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, ao que parece. Já te procurou em casa e não te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e não lhe respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do dia, porque só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia à porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera revolta contra si próprio. Ficava tôda a manhã deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma transpiração álgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, bocejava. Ela, de robe-de-chambre de sêda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável mácula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico, fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. Sempre que despertava dos seus desvairos sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela miséria moral em que ia resvalando rápidamente, sem coragem para romper com torpezas o reentrar numa existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que êle já a não amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em morrer.

—Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o francamente!—acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, então, volvidas horas de repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das paredes alegrava e a que os mobiliários caros davam confôrto, elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; e Frederico achava então um certo enlêvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira solícita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua personalidade não era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o não encontrara, por isso não tivera, mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao Pôrto—regresso de que só por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas já desertas e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia rural, da solidão rústica? Saudades da animação, da sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era mundano, abominava as exibições, os convívios banais. Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só estava bem com uma ou duas amizades mais íntimas à sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o a refugiar-se no Pôrto?

—E se Júlia adoeceu?—monologou Frederico, invadido por um sobressalto repentino.

Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia que o atordoava, que lhe apertava o coração, que o constrangia. Com efeito, aí estava a explicação da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser outra! Naquele momento, a mulher que êle amava com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que não podia sarar, nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, que lhe desse esperança.

—Com certeza que Júlia está doente!—pensava Frederico.

Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe impossível correr a casa de Nuno, bater-lhe à porta, alarmar tôda a vivenda, para saber o que havia; mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta, contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o desejo de chegar de-pressa à sua habitação, que ficava ainda distante. Acelerou o passo. Ao dobrar duma esquina, um vulto de mulher sumido dentro do chaile cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, disse-lhe em voz baixa e ofegante qualquer coisa que não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de prata e meteu-a numa lívida e magra mão que para êle se estendia com um gesto rapace de garra. Mais adiante, um polícia embuçado no seu capote fumava encostado a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava uma ligeira névoa. A cidade dormia profundamente...

Uma tipóia surgiu, rolando lentamente na calçada. Frederico fez um sinal ao cocheiro, que esticou as rédeas e se endireitou na boleia, exclamando:

—Pronto, meu patrão!...

Os cavalos, extenuados e de cabeças pendentes, estacaram. Frederico abriu a portinhola, entrou de salto.

—Para onde quere que o leve?—perguntou ainda o cocheiro.

Indicou o bairro e o número do prédio em que residia e o carro partiu logo, mais velozmente, ao estalar sêco do chicote. As ferraduras dos cavalos, batendo violentamente nas pedras, levantavam faúlhas de lume que scintilavam um momento para em seguida se apagarem. Devorado de impaciência, Frederico, de quando em quando, espreitava através das vidraças e apenas via ruas esgueirando-se na sombra, fileiras monótonas de casas, algumas ainda com luzes agonizando por detrás de stores descidos nas janelas dos segundos andares.

—Como é triste uma grande cidade erma a horas avançadas da noite! E essa tristeza envelhece a gente!—meditava.

E o maldito carro sem chegar ao fim daquela corrida que o estava atormentando! Batia nos vidros da frente, com os nós dos dedos para que o cocheiro fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe que já há muito tempo rolava, aos solavancos, dentro daquela caixa fechada e sem ar, através do burgo solitário, e isto excitava-lhe os nervos... Por fim, o carro deteve-se de repente. Frederico, olhando para fóra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda; saltou para o passeio, deu uma gorda gorgeta ao cocheiro que tirou o chapéu agradecendo, sacou do bôlso um mólho de chaves niqueladas, abriu a porta e sumiu-se na treva. Depois, raspando um fósforo, subiu ligeiramente a escada, procurando não fazer barulho para não despertar o criado que dormia, entrou no seu escritório, acendeu o gás que ardeu num leque de luz dentro da tulipa de cristal, sibilando em surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau preto em que escrevia. Lá estava a carta de Nuno, efectivamente. Logo a reconheceu pela letra que negrejava no enveloppe—uma letra de traços finos e firmes em que se denunciava alguma coisa do carácter do amigo—a sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem hesitações. Rasgou o sobrescrito com frenesi, como se êle representasse um forte obstáculo com o poder de lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento duma verdade que queria saber imediatamente e logo encetou a leitura. Nuno, como pensara, dizia-lhe o motivo do seu regresso à cidade, informava-o, com pormenores, da doença do filho, já curado, do susto que tiveram, êle e Júlia, na aldeia, quando julgaram a criança atacada de difteria e da sua viagem por um hostil, bravio dia de chuva açoutando em bátegas o automóvel. Terminava, pedindo-lhe que o fôsse ver, que lhe désse ao menos notícias suas.

«—O Porto—escrevia Nuno irónicamente—é uma terra tam pequena que tôda a gente se conhece uma à outra. Pois bem; há três dias que te procuro por praças e cafés, logares onde se dá à língua, no boletim mundano dos jornais, e—parece impossível!—ainda te não encontrei, como se tu fôsses la Belle au bois da lenda e se da lenda e se tornasse necessário penetrar numa vasta floresta encantada para chegar junto de ti! Aparece. Tanto eu como Júlia, que está mais nutrida, que lucrou imenso com a sua permanência na aldeia, gostaríamos de ver-te por esta casa que é tua.»

Acabando de ler a carta, Frederico respirou. Júlia não estava doente, não ocorrera na existência, tam calma, tam feliz, tam igual do marido, nenhuma fatalidade irremediável, nenhum perigo ameaçava criaturas a quem a sua alma era dedicada. Fez-se a paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou a larga fôlha de papel que Nuno para êle escrevera e atirou-a para cima da mesa, sentando-se numa poltrona estofada em que o seu corpo molemente se enterrou; e por muito tempo entregou-se a um longo scismar. Branca, que naquele momento o estaria esperando com um chaile de lã pelas costas, estirada num fôfo divan da sala em que passava os seus serões, lendo romances sentimentais ou conversando com Amélia, sua criada de quarto e sua confidente, esqueceu-lhe completamente. A sua recordação estava cheia da imagem de Júlia, da sua beleza, da sua bondade, da sua maravilhosa graça de mulher, que queria adorar com uma emoção purificada de desejos inferiores, venerar como um crente, no ardor do seu misticismo, venera as coisas de Deus e que afinal amava, para seu tormento e sua angústia, com um amor lúbrico que lhe acendia a febre no sangue, que lhe toldava a lucidez do espírito, que maculava de crápula os puros lirismos da sua paixão a princípio casta e que depois, pelas solicitações carnais que não pudera conter, se transformou em criminosa. Como era que essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua santidade, de tudo o que nela havia de superior, de elíseo, de admirável, de astral, só lhe comunicava uma estranha volúpia que o alucinava?

—A culpa não é dela, com certeza, mas da impureza da minha organização!—monologava.

E ali estava ela no Pôrto, perto dêle, chamando-o para junto de si com uma voz de amizade que Frederico, no seu delírio voluptuoso, julgava carregada do fluido magnético da atracção voluptuosa. Um espírito oculto e maléfico impelia-o para Júlia, incitava-o a loucuras, a infâmias. Aterrado com a própria consciência—em que germinava a flor vermelha dum impulso mau—fugiu-lhe, afastou-se dela, para a esquecer. Em vão. O destino enigmático aproximava-os novamente, e desta vez com a particularidade de se conhecerem de perto, de não serem estranhos a um afecto que em Júlia era digno e enternecido e que nêle degenerara em sensualidade animal; de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem confessado as suas simpatias e as suas predilecções, de se fazerem mútuas confidências em que notavam, rindo, um gôsto idêntico, uma inteligência que tinha pontos de contacto, modos de ver em que havia semelhança. Iria a casa de Nuno? Não iria? Flutuava entre estas duas hipóteses, sem se decidir. Tinha mêdo...

—Deve ser já muito tarde!—pensou.

Viu as horas. Eram quatro. De fóra não vinha o menor rumor. Tôda a vida parecia suspensa, perdida no silêncio e na treva nocturna. Então, novamente se lembrou de Branca, mas esta lembrança súbita inspirou-lhe uma repugnância secreta. A lubricidade excitante que essa mulher acordara nas profundidades do seu ser, apagava-se repentinamente como uma brasa sob a água e dela nada ficava—nem memória afável nem doce recordação. Júlia apoderava-se outra vez dêle, com o mesmo império, com a mesma intensidade, impregnava-se da sua substância nervosa, do seu sangue, da sua carne, dominava-o. Não tinha pensamento, nem desejo, nem aspirações que não fôssem para ela: e a exaltação que o sacudia era por tal forma enérgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia e lhe aparecia inteiramente desligado da espôsa, como se fôssem duas personalidades sem nada de comum, inteiramente separadas moral e corpóreamente uma da outra. Era-lhe necessário empregar um grande esfôrço para os associar de novo, para entrar na realidade das coisas, para compreender com nitidez que Nuno era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em vez de traí-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades fervorosas.

Êste fenómeno psíquico decidiu-o. Não! Não iria mais a sua casa, enquanto não pudesse estar diante de Júlia com a serenidade com que estaria diante duma irmã. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa mentira com que pudesse justificar-se, cometeria mesmo grosserias, contanto que a sua dignidade de homem consciente ficasse intacta—ainda que para isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saíria do Pôrto sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro, para tôda a parte onde se soubesse longe de Júlia, embora a tivesse sempre presente na sua saùdade e na infinita sêde de amor do seu coração. De Branca fugiria tambêm com a alegria com que se quebram cadeias tirânicas e se recupera uma liberdade durante muito tempo perdida. O seu sentimento, agora divinizado pela sagrada lembrança da mulher mais que tudo amada, tornava-lhe insuportável a presença da impura, que apenas lhe apagava as ardentes solicitações da animalidade carnal e que lhe não apaziguava as inquietações da alma, que acelerava a vibração da sua febre voluptuosa sem lhe fazer ascender no espírito uma pura, ideal aspiração.

Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaçaria com suicidar-se, com provocar clamorosos escândalos: mas enxugar-lhe-ia as lágrimas com um farto punhado de ouro que a tranqùilizasse no seu desespêro artificial. De resto, nada lhe devia, a não ser a ternura de algumas horas, uma ternura que ela costumava vender a todos os homens e que Frederico tambêm comprara, pagando-a por excessivo preço. Tinha-a encontrado numa ceia com amigos, simpatizara com ela—porque a sua beleza e a sua desdita o impressionaram e o comoveram—levara-a para casa, pedira-lhe não inspirações mas luxúrias que o atordoassem. Reconhecido pela relativa tranqùilidade que Branca comunicara à sua dôr, indemnizou-a generosamente. Não podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava todos os recursos e toda a sciência da sua coquetterie para lhe agradar com mais intensidade, para se tornar mais desejada—não movida por impulsos amorosos mas por cálculos. Era amável; mostrava, mesmo, nas suas relações com Frederico, delicadezas que eram meramente superficiais. Por debaixo delas traía-se sempre a indiferença ou a secura, o automatismo, a inconsciência. A castidade das emoções que iluminariam a sua paixão primitiva não podia mais renovar-se em Branca. Nos seus carinhos balbuciados havia qualquer coisa de convencional, de estudado; nos seus beijos havia frio. Era apenas um corpo sem alma—um lindo corpo, certamente,—que se entregava por dinheiro. E, nos primeiros tempos, a posse dêsse corpo chegou a interessá-lo por determinadas afinidades físicas.

Mas agora, Júlia ressurgia; os cuidados de que era alimentada a adoração que lhe consagrava reclamavam todo o seu ser; uma luz nova o alumiava, invadia-o a tortura dum amor sem finalidade, que lhe era amargo mas em que tambêm os seus sentidos encontravam uma particular doçura. Sentia-se renascer, não para uma vida nobre de esperanças, de júbilos futuros, de graças aurorizantes, mas para preocupações e para comoções que lhe eram, conjuntamente, deleitosas e aflitivas. A sua excitação sensual arrefecia, extinguia-se—e por isso Branca desaparecia das suas impulsividades orgânicas. Na sua intimidade moral e afectiva resplandecia apenas a imagem aliciante do único amor sério da sua existência de homem apaixonado e consciente: e Júlia assumia aos seus olhos o esplendor de certas figuras maravilhosas e místicas, que andam nas lendas sagradas com um fulgor de ouro à volta da fronte. Queria entregar-se inteiramente à veneração silenciosa e oculta dessa mulher, devotar-se-lhe—mas de longe, procurando evitar que esta devoção, êste culto, se transformassem em crime. Era a fatalidade! Estava, portanto, decidido. Iria a casa de Branca, pela última vez, trocaria com ela o derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sôbre o leito, um enveloppe fechado. Depois, escreveria a Nuno uma longa carta e seguidamente partiria ainda não sabia para onde. Esta ideia calmou-o um pouco: mas em breve, tudo o que na sua natureza havia de tímido, de indeciso, de incaracterístico, imprimiu-lhe um rumo diferente aos pensamentos. Não! Não romperia com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia que era forçado a sair do Pôrto por alguns meses, por causa de negócios que se prendiam com a administração da sua fortuna, mas que voltaria logo que isso lhe fôsse possível e que então, como dois noivos, realizariam essa prometida viagem à Europa. Só de longe lhe comunicaria a resolução duma ruptura inevitável, poupando-se por esta forma ao espectáculo, doloroso para a sua sensibilidade doentia, de prantos, de soluços sufocados, de recriminações sem fim.

Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia de igual subterfúgio. Havia de dizer-lhe que apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a sua carta—que lhe fôra mandada por Bernardo—e que por isso não pudera correr, como a sua alma desejava, a dar-lhe um abraço. Anunciar-lhe-ia até um breve regresso, para que êle se tranqùilizasse e não procurasse saber da sua vida e das suas aventuras. Dêste modo, sofreria menos!...

Já pelas frinchas da janelas se filtrava uma fresca e pura claridade matutina, quando uma quebreira o invadiu, serenando as suas violentas agitações. As pálpebras, pesadas de sonolência, cerravam-se-lhe; uma doce lassidão prostrava-o. Levantou-se na ponta das botas, foi buscar ao quarto um couvre-pieds e deitou-se, mesmo vestido, sôbre a chaise-longue que estava na sala, no ângulo formado por duas paredes, para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu, perdendo a noção das coisas que o rodeavam, da sua própria situação equívoca. Só acordou quando Bernardo, entrando no escritório com o sol já alto, abriu uma persiana, por onde a luz festiva e clara entrou a jôrros. Frederico sentou-se indolentemente, esfregando os olhos, bocejando com fôrça, chamando a atenção do criado, que se voltou espavorido no receio de que um desconhecido tivesse entrado em casa, para roubar.

—Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto é êsse!—exclamou êle para Bernardo que o contemplava, intrigado.

—Crédo, patrão! Que mêdo me meteu! Até pensei que eram ladrões. Estava tam longe de o saber por ca!... E não admira! Não o senti entrar.

—Vim tarde, com efeito... Olha, desce à cozinha e diz à criada que me faça o almôço para o meio-dia. Por agora, quero uma chávena de café... Mas bem forte.

—Então, o senhor hoje almoça?

—Pois é claro que almoço—atalhou, rabujento...

—Está bem!

Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico ergueu-se, entrou no quarto de vestir para mudar a roupa, que estava amachucada e cheia de vincos, para lavar-se... Que desordem, a da sua existência! Como é que êle se emmaranhara em tanto tumulto, enxovalhando-se, perdendo a noção da decência, do alinho exterior, da rectidão moral, de tudo quanto pode nobilitar o ser consciente! Ai! dêle que não conseguira encontrar uma actividade útil e um ideal dignificador, derivava todo o mal—considerava Frederico, enquanto banhava, regalado, a fronte em água fria. Não acusava ninguêm. O culpado era êle, exclusivamente êle e da sua culpa amargamente se arrependia. Estaria ainda a tempo de recomeçar uma experiência, de regenerar-se? Não haveria na sua alma, no seu sentimento, estragos irremediáveis? Consultava-se, analizava-se minuciosamente e notava em si uma ausência de coragem, uma falta de incentivos renovadores, que o apavoravam. Com a face branca da espuma do sabonete, que exalava um leve arôma de narcisos em flor, levantou um instante a cabeça diante do espêlho e teve a noção lúgubre de que estava vélho e morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente, envelhecia e morria à sua roda, sem um lampejo de beleza, numa desolação que mais ennegrecia o seu desconsôlo... Remergulhou, furiosamente, na água: e, depois, enxugando as mãos e a cara a uma toalha felpuda bem sêca, maldizia-se por não ter sabido construir uma outra vida nobre e fecunda, por se haver deixado arrastar sem reacções, ao sabor das correntes do acaso ou do destino... Mas agora, implacávelmente, reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria ganhar o tempo perdido, trabalhando sem repouso para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se emancipar duma apatia amolecedora. A resolução anterior fortalecia-lhe o coração. Apegava-se a ela com desespêro. Mais algumas horas, que lhe eram necessárias para pôr em ordem vários papeis, para dar algumas instruções aos criados, para escrever a Branca, para arranjar as malas, e uma outra existência se iniciaria para êle... A esta ideia, avivou-se-lhe o sofrimento interior. Ia afastar-se, talvez para sempre, de Júlia, que era a sua saùdade, a sua doçura e a sua dor. Idealizava-a mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo unido a uma simplicidade encantadora. A palidez espiritual das suas faces e a meiguice dos seus olhos boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma. A sua bôca apaixonada, que a mentira nunca maculara, tinha a dupla sedução do silêncio e da palavra—como as mulheres cantadas em sonetos de ouro por Dante Rossetti. E deixava-a, porque no coração de Júlia, transbordante dum outro amor, não cabia o seu, que era um intruso...

Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava com tanta energia para a separação, começava a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe dela? Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento? A tristeza e o desespêro, que já o pungiam, davam-lhe a medida exacta da paixão que por Júlia sentia.

Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado, e voltou ao escritório, murmurando entre dentes:

—Embora! Não retrocederei!...

Bernardo bateu à porta, perguntando se poderia entrar.

—Entra!—ordenou Frederico.

O criado entrou, trazendo uma chávena de café, quente e aromático, numa bandeja de prata, que pousou em cima da mesa, informando:

—Está lá em baixo uma senhora ainda nova.

—Uma senhora?

—Sim, patrão. Uma senhora, que chegou de automóvel. Diz que lhe quere falar sem demora. É um caso urgente.

—E porque lhe não afirmaste que eu não estava?—gritou Frederico, irritado, na suspeita de que Branca o procurasse.

—Pois eu afirmei, meu senhor...

—E então?

—Então, ela duvidou das minhas palavras, asseverou que bem sabia que o senhor estava, que era escusado eu negar. E falava alto, parecia agastada... Diz que é um momento...

—Olha que estopada!—bradou Frederico. Bem! Passa-me o café, e manda-a entrar para a sala de visitas... Lá irei ter daqui a pouco.

Que audácia! Não faltava mais nada senão essa criatura—flor do vício—a agarrar-se com ansiedade aos seus braços, a colar-se ao seu corpo, a manchá-lo com uma nódoa, a fazer scenas públicas da sua paixão, como se Frederico lhe devesse reparações, como se de si tivesse partido o lôgro que a despenhou para sempre no lôdo e na desgraça! Com que direito vinha ela procurá-lo a casa, denunciá-lo à criadagem como seu amante, sair dum automóvel à sua porta, em pleno dia, diante de tôda a vizinhança rindo sarcásticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse queixar-se pelo abandôno duma noite, lamentar-se, mostrar as suas lágrimas e os seus ciúmes. Ah! não! Isso, não lho permitiria...

Tomou à pressa o resto do café que esfriava na chávena de porcelana fina, acendeu um cigarro, soprou algumas baforadas de fumo e encaminhou-se para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu Branca, que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer o espêsso véu preto que lhe cobria o rosto. Com as mãos esquecidas no regaço, estava pensativa. O seio arfava-lhe apressadamente.

—Então, que loucura é esta? Para que vieste aqui?—interrogou Frederico, de mau humor.

—Ah! és tu!...—respondeu ela.

Ergueu nervosamente o véu, dirígiu-se para êle de braços abertos. Tinha os olhos vermelhos de chorar.

—Pensei que te não tornava a ver, que me tinhas fugido, que estavas fatigado de mim. Porque não apareceste ontem, como de costume?—interrogou ela.

Falava sacudidamente, muito excitada. O seu rosto pálido rosava-se duma ponta de sangue mais vivo.

—Não apareci porque não pude.

—E porque não pudeste? Dize! Tiveste outros amores, outras mulheres? Não sou já nada para ti, então?... Responde!... Mas responde!...

Frederico deteve-se um momento a considerá-la com um olhar mau, de rosto sombrio e contraído. Branca teve mêdo e acudiu logo, para se desculpar da sua impertinência:

—Não repares nas minhas palavras, que eu não sei o que digo. Não dormi nada em tôda a noite. Só chorei! Se conhecesses os meus tormentos, até tinhas pena... Mas, porque não apareceste, Frederico?

Outra vez a impertinência! Aquele inquérito exaltava-o, enchia-o de cólera. Tinha vontade de conclui-lo repentinamente, pondo Branca fóra de sua casa, com imprecações duras e empurrões brutais. E, azedado por uma súbita fúria, atalhou:

—Se tu me vens com êsses ares de que eu sou uma coisa que te pertence e de que tenho de dar-te conta dos meus menores actos, não te respondo... Que tal está a petulância? Não apareci porque não quis. E olha! Nunca mais apareço... Acabou tudo entre nós! Tudo, entendes?

Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e começou a pessear excitado, des Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e começou a pessear excitado, desvairado pela irritação sempre crescente. Branca abateu-se sôbre o sofá, vencida, ofendida, soluçante, abafando o chôro no seu lenço de rendas.

—Agora temos prantos!... É escusado. Não me comoves!

Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada, ennovelada, destroçada sôbre o sofá, emmudecida na sua dôr, teve dó daquele pobre corpo frágil, daquele coração que todos calcavam, comoveu-se. Aproximou-se dela, impressionado, chamou-a carinhosamente:

—Branca!

Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava e que as lágrimas tomavam mais brilhante, murmurando:

—Eu vim aqui porque me parecias diferente dos outros, porque me trataste com alguma bondade, porque julguei que tinhas piedade de mim. Bem sei que nada me deves, que não tenho direito de ser exigente e de meter-me nos segredos da tua vida... Mas que queres? Costumaste-me mal. Pensei que não me empurrasses com violência... Desculpa-me!... Eu vou já embora. Deixa-me sossegar um instante...

—E quem é que te empurra?—exclamou êle, comovido. Escuta... Eu é que te peço perdão da minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as minhas crises íntimas, os desgostos que me enfurecem. Fui arrebatado, é certo. Mas, se soubesses a razão do meu arrebatamento, absolvias-me.

Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente do sofá, foi para êle com um sorriso dolorido e risonho, já esperançada.

—O quê? Pois não me repeles? Queres então um pouco a uma mulher como eu, que se devota como os cães e que todos enxotam, queres? Então, que Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos são êsses em que falas? Oh! se não podes dizê-los, guarda-os para ti só, que eu não fico ressentida...

—Pois é o diabo, filha... Maçadas...

Gaguejava, sem saber o que havia de dizer, muito confuso, temendo que ela descobrisse as suas mentiras, incapaz duma atitude resoluta.

—Até estava agora para ir a tua casa, dizer-te tudo, explicar-te tudo...

E de repente, o subterfúgio que procurava iluminou-se-lhe na inteligência. Concluiu, perturbado e contente:

—Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.

—E demoras-te?

—Algumas semanas. Imagina! Ontem à noite, inesperadamente, recebi um telegrama de Lisboa chamando-me a tôda a pressa para junto duma tia minha que está a morrer!...

—Ah! então!...

—Pensa na minha angústia! Esta tia, é a única pessoa que me resta duma família que se extingue... E nem sequer posso levar-te comigo... Bem vês! É caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja possível, para a continuação do nosso amor.

—Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!—exclamou ela resignada.