—Mas não podes. Como queres tu?...
—Não! Estou doida, efectivamente... Mas não me deixas?... Não estás zangado comigo?
—Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.
Foi dentro, ao escritório, abriu o cofre, tirou um maço de notas, felicitando-se pelo ardil encontrado, satisfeito na sua covardia por cortar com Branca mais suavemente do que pensava; e, reentrando na sala meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mão, murmurando:
—Leva! Podes ter precisão dêle, enquanto eu não regresso...
—Mas!...
—Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e sê-me fiel. Mandar-te hei noticias minhas. Dá-me um beijo e adeus!
Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente no automóvel, que largou numa corrida vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de alívio...
X
Dois, três vagarosos meses decorreram com uma lentidão cruel para Frederico, que sentia por vezes a impressão do tempo se ter imobilizado, de tudo cair à sua volta numa inêrcia que o apavorava, inspirando-lhe um terror mais forte pela vida, exaurindo-o totalmente de vontade. Saíra do Pôrto na intenção de partir para o estrangeiro, de se demorar por lá, em cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde encontrasse algum repouso, até que o seu amor impuro se lhe apagasse no coração como se apaga uma luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde que chegara a Lisboa, encontrou-se mais só, mais desalentado e mais inquieto, arrependendo-se amargamente de haver deixado a rua em que vivia, a casa em que nascera, perseguido por um mêdo absurdo e quáse infantil, por uma cobardia deplorável, e por uma fraqueza de alma que o envergonhava...
As sensações sucediam-se-lhe com rapidez assombrosa no sentimento. Na capital, parecia-lhe que entrara numa região de imensa solitude—uma solitude que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o coração. Como se tinha enganado! Imaginava que a distracção das viagens lhe curaria ou, pelo menos, atenuaria o extraordinário mal que tanto o fazia sofrer:—e agora nítidamente via que, quanto mais se afastasse de Júlia, mais êsse mal se agravaria. A doença estava inteiramente dentro de si:—na sua imaginação, nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu sangue! A dor que o atormentava nada mais era do que um dos variados aspectos do padecimento humano, a eterna miséria dos sêres conscientes. Provinha das tiranias implacáveis da carne, da animalidade, da tristeza infinita dos destinos, das fatalidades a que ninguêm pode eximir-se! Fugir para onde? Esconder-se em que sítio? A sua tortura permanente havia de acompanhá-lo para tôda a parte, como certas enfermidades que não perdoam e que sem descanso, noite e dia, devoram o organismo de que se apoderam...
Pensando constantemente em Júlia, formara no espírito uma imagem dessa doce mulher muito mais viva do que a personalidade real. Dêste fenómeno derivava a sua excitação, o seu frenesi. Era essa imagem, precisamente, que nêle activava a luta entre a dignidade, a elevação moral e o desejo lúbrico, entre a noção do dever e o cego instinto. Considerando como absolutamente inútil para a sua paz—a paz de que tanto carecia—a vagabundagem pela Europa em que durante dias pensara, decidiu ficar em Portugal, conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do seu país, respirando o mesmo ar que vivificava Júlia, alumiar-se com a luz do sol que tambêm a iluminava a ela. Para a infinita melancolia do seu amor, havia um grande encanto nestas pequeninas coisas. Aquela adoração sem esperança comunícava, em todo o caso, a radiação da sua beleza intangível a tudo o que o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o condão misterioso de lhe ressuscitar na memória figuras queridas em que lhe era grato meditar. O vulto de Júlia andava íntimamente ligado, na sua recordação, às paìsagens rústicas que ambos tinham contemplado num mudo êxtase, a certas páginas de música que Frederico lhe ouvira tocar ao piano, aos plácidos serões na casa de campo onde vivera dias inefáveis, antes da tempestade emotiva em que agora se debatia. Lembrar-se dela era lembrar-se tambêm dos episódios ocorridos durante as horas iniciais duma paixão que começara, insidiosamente, por admirações comovidas de virtudes e de bondades que a ennobreciam e que, depois, sem saber por que secretas elaborações de sentimento, se transformara em delírio, em loucura. Fôsse para onde fôsse, havia de aguilhoá-lo a agitação que lhe não dava um minuto de tréguas, continuaria a queimá-lo a febre em que se gastava, se consumia, como os troncos secos se consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais para quê? Separava-o já de Júlia uma grande distância e nem por isso a sua angústia afrouxava. Não dispunha de coragem para atravessar a fronteira, correr nacionalidades estranhas, observar outros povos, outros costumes, outras civilizações. No seu presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia. Em Lisboa, estava entre a sua gente, tinha relações, poderia conviver, procurando o esquecimento. Foi-se deixando ficar, num dissolvente abatimento, sem formar projectos de vida futura, incapaz de resoluções, de actos enérgicos em que a sua vaga individualidade se afirmasse. Fechava-se dias inteiros no quarto do hotel em que se instalara, ruminando o seu tédio, folheando livros que se arrastavam indefinidamente por cima das mesas e das cadeiras, fumando. À noite, ia aos teatros, encontrando uma vez por outra algum conhecido com quem se entretinha em palestras sem interêsse. O seu gôsto era estar só, para relembrar, no silêncio, coisas que lhe eram inefáveis. Reentrar na sua paz antiga, sentir de novo a alegria de viver, seria a libertação: mas, para isso tinha de esquecer, e o esquecimento era-lhe impossível. Bastava o facto mais insignificante para lhe despertar na emotividade as sensações da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente o coração. A depressão constante e progressiva da vontade que em si desfalecia levava-o a acusar-se duma fraqueza que o aviltava: mas não empregava esforços para reagir. Deixava-se governar dócilmente por uma atracção misteriosa.
Em certos momentos, julgava-se pueril. Com efeito, porque sofria êle tanto? Que crime havia praticado? Que falta grave era a sua, para que assim se entregasse passivamente a um desespêro que o devastava? Não poderia êle amar Júlia, a espôsa do seu maior amigo, sem se manchar de ignomínia, sem se envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira matéria de que era constituido, o empurravam para êsse amor, a sua alma, que era a essência, que representava a porção de divindade que cada homem digno traz dentro de si, opunha-se tenazmente. Êste antagonismo entre a carne e o espírito que dentro dêle se fazia não era uma nítida prova da sua nobreza moral? Pecava pelos sentidos mas purificava-se pela razão. E o seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma doçura em relembrar Júlia, porque não podia viver sem a recordação saùdosa dum amor de que só êle sabia e que representava o facto dominante da sua existência. Ninguêm conseguirá, fácilmente, desabituar-se da felicidade—e amando Júlia em segredo, considerava-se relativamente feliz. Na desolação duma existência sem outro ideal, essa adoração tinha a graça duma flor e mergulhava-o na beatitude dum quimérico sonho que lhe dava a ilusão da ventura. Mas não iria mais alêm, não ultrapassaria os limites estreitos em que a sua desgraçada paixão se confinara. Para que havia de atormentar-se com tam sombrio ardor?
A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos de folhagens tenras e verdes, reflorir os jardins, tocar as paìsagens de maravilhosas tintas. A luz era já mais límpida e vibrante; o sol trespassava o azul da atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma vida mais jovial renascia. Nuno, que contínuamente escrevia a Frederico, na ignorância das mentiras por êle inventadas para se afastar e do conflito moral e sentimental em que se debatia, anunciou-lhe, numa longa carta, o propósito em que estava de regressar à quinta novamente, ficando por lá a fortalecer e a renovar-se, entre a beleza rural e as coisas simples, até que o filho crescesse e o obrigasse a residir na cidade, para lhe vigiar de perto a educação. Preparava tudo para uma longa ausência do Pôrto, onde só voltaria, em rápidas visitas, de fugida, quando negócios urgentes a isso o forçassem. E pedia-lhe que se não demorasse mais, que não prolongasse um afastamento inexplicável que justificava com pretextos sempre fúteis e que o intrigava.
—«Com efeito—acrescentava Nuno—eu e Júlia temos pensado muitas vezes que existe na tua vida um segrêdo. Qual? Não o sei nem quero sabê-lo, pois se na verdade me não iludo e tu o escondes, é porque me não julgas digno de o conhecer. Mas, seja como fôr, vem daí assistir, na aldeia, à ressurreição das flores e à aleluia da graça!...»
Esta carta despertou violentamente tôdas as ideias e reminiscências que existiam no seu cérebro. Outra vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos deslumbrados aquela tarde em que a beleza de Júlia pela primeira vez o impressionou vivamente, quando ela, debaixo da mosqueteira que vergava de corolas, se cobria das florações que caíam de alto como uma chuva loura e lhe evocavam docemente a lenda pagã de Júpiter, descendo num orvalho dourado sôbre o corpo branco de Danae. Outra vez recordava a angústia—que nunca mais deixou de pungi-lo—com que fizera a descoberta dum amor que devia morrer, porque era impuro; a noite de perturbação e de terror que se seguiu a esta revelação singular; a ansiedade com que, logo ao raiar da alvorada, fugiu para o Pôrto à procura duma serenidade, duma pacificação que nunca mais encontrou—recriminando-se pelo facto de haver-se abrigado sob um teto, que afectuosamente o acolhera, para manchar uma honra, para trair uma amizade, para roubar uma ventura que a outro legítimamente pertencia, para violar no seu próprio santuário emoções castas, para cometer, na alucinação da sua luxúria, um sacrilégio. A intensidade da veneração consagrada a Júlia tornava-o excessivo na fúria com que se acusava: e as evocações eram por tal forma nítidas que o seu padecimento agravava-se, excitando-lhe a cobardia, aumentando-lhe o temor de voltar a aproximar-se duma mulher que, por muito respeitar, não queria tornar a ver. Sofria duplamente pela certeza evidente da sua paixão e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia escapar-se-lhe, deixando-o à mercê de impulsivos desatinos. A própria alma se lhe dissipava a esta recordação. Perdia a confiança em si mesmo. A sua situação surgia-lhe perante a consciência como um abismo—cheio de idêntica sombra, de idêntico mistério, de igual silêncio enigmático. Outrora, pensava que todos os homens podiam dominar-se, mesmo no confuso turbilhão das emoções desencadeadas, porque para isso dispunham da fôrça que deriva do raciocínio e da sua superioridade de conscientes; e agora, pretendendo exercer sobre si próprio êsse domínio, não o conseguia, por mais que o tentasse. E porquê? Porque a sua vontade não era íntegra e suficientemente enérgica? Porque as paixões eram mais fortes do que o carácter, tendo o poder de comunicar à razão, à inteligência, aos sentimento elevados, o seu fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambêm lhe parecia que apenas os homens que saíssem vencedores das lutas em que êle impotentemente sucumbia, deviam ser considerados os verdadeiros heróis...
Sucedesse, porêm, o que sucedesse, estava decidido a nunca mais entrar em casa de Nuno. Ao cabo de pacientes e dolorosas análises, pressentia que, em face de Júlia, não se conteria, deixaria transparecer o seu drama oculto, se denunciaria. A fuga era a salvação! Mas regressaria ao Pôrto, certamente, agora que Nuno o informava da sua mudança para a aldeia onde ia instalar-se durante anos. Lisboa enfastiava-o já até à fadiga. Julgava-se estrangeiro dentro dessa cidade, entre uma população tam diversa da do norte, pela índole, pela origem, por diferenciações de casta. Tinha-se libertado definitivamente das complicações que a episódica e transitória ligação com Branca trouxera à sua atribulada existência. Rompera para sempre com ela, embora se separassem como amigos que, juntos, correram atrás duma ilusão irrealizável e de cujo encontro ficaria alguma coisa de doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso, pensou em prolongar com ela uma triste mentira que seria cómoda para o seu egoísmo e para a sua indecisão. Temeu, porêm, as futuras consequências dessa mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se sincero. O mais leal, o mais concordante com uma bondade que o nobilitava era desenganá-la com uma franqueza resoluta:—e assim procedeu, penalizado com a lembrança das lágrimas que a sua deliberação provocaria. Mas era preciso! Branca aparecia-lhe como uma atroz mancha na sagrada brancura do seu único e verdadeiro amor. Não podia mais aceitar-lhe os beijos sem repugnância instintiva, sorrir às suas carícias sem um desejo muito fundo de repeli-la com rancor, com ódio. Perguntava mesmo como esta incompatibilidade carnal entre êle e a sua amante dalguns meses só agora se definia claramente, sem encontrar uma explicação para êsse fenómeno...
Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim duma aventura que tinha de acabar, pedindo-lhe que lhe não quisesse mal, que dêle conservasse uma lembrança afável:—e quando, perturbado, inquieto, imaginava que Branca não aceitaria a ruptura sem clamorosos escândalos, soube que ela se resignara inteiramente, procurando e encontrando logo outras ligações. Esta certeza desanuviou-o.
Um domingo, por acaso, passeando tristemente na Avenida da Liberdade, onde já floriam as olaias sob a doçura e o afago da luz primaveril, deparou, inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio em sentido oposto, fitando com enternecimento as belezas femininas que passavam na festa esplêndida do sol. Foi para êle cheio de contentamento, apertando-lhe efusivamente a mão, interrogando-o com afabilidade:
—Oh! scelerado!... Tu por aqui?
—Oh! admirável Frederico! Que feliz encontro!... É verdade, por aqui, nesta doce e morena Lisboa.
—E êsse Pôrto, êsse namôro?...
—O Pôrto, creio que está no mesmo sítio, com a sua monotonia, a sua tristeza de burgo histórico inamovível. Quanto ao idílio, findou como tudo finda:—Roma, Bizâncio, Cartago!...
E pousando a mão magra, em que fulgia a pedra fina dum anel, no ombro de Frederico, acrescentou, sorrindo:
—Tout casse, tout lasse et tout passe! Os franceses teem razão.
Deram uma larga volta, conversando, recordando episódios esquecidos, espairecendo. Paiva achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e perturbantes, com uma graça, uma distinção, um ar encantador:
—Vê a elegância com que elas pisam, menino! E que corpos, que harmonia de formas, que ritmo! Sobretudo, que ritmo!...
—Tu vens obsceno do Pôrto, homem—comentou Frederico.
—Pois como diabo querias tu que eu viesse? Sim! Como querias?!...
Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho, sentaram-se a uma mesa, pedindo cerveja; e então, Paiva informou Frederico do desfêcho grotesco do seu curto romance com Branca. Estava agora com um capitalista—o Luís Tavares—que há muito cobiçava a sua formusora, o seu encanto decadente.
—Um capitalista, hein?—perguntava Frederico, bebendo o seu bock.
—De-certo. Um capitalista... O Tavares... Tu conheces. Ora! Não conheces tu outra coisa.
—Com franqueza, não me ocorre... Mas estimo! Coitada da pequena. Tam bôa rapariga!... Um anjo.
—É gentil, da tua parte, esse desejo de fazê-la entrar nos córos celestes. Mas não vás mais longe, não a metas entre as Onze Mil Virgens...
Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:
—É babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe quanto ela quere.
—Estás óptimamente informado!
—Foi Luísa que me contou tudo.
—É verdade:—ainda dura essa paixoneta?
—Não, caramba! Eu gosto da variedade. A igualdade assusta-me... Luísa tambêm se colocou—e entre a magistratura. Está por conta dum desembargador que, no seu doce regaço, esquece as leis, os códigos, pousa a severa espada da justiça e humaniza-se. Mas, é claro, encontrâmo-nos de vez em quando. Às vezes, por fantasia, por capricho—ela é caprichosa—sobe à minha trapeira romântica de boémio, como uma Musa... E narra-me, entre beijos, a crónica mundana dos amores envergonhados.
—Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital, outra com a jurisprudência, ambas influindo, talvez, na vida nacional, governando-a como Aspásia governava Atenas!
—Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos nós que as ensinamos a ter linha. Praticamos uma acção meritória—acrescentava Paiva, cínicamente.
Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se, saíram.
—Queres tu hoje jantar comigo, ó Paiva magnífico? Ando tam só, tam desalentado!...
—Não posso. Muito que lidar, uma tia rica e vélha de quem sou o melhor dos sobrinhos e o mais necessitado dos herdeiros, outros casos de consciência. Jantar contigo era uma bela ideia. Mas não posso... Não sei mesmo quando poderei. Acho que tenho de seguir com minha adorável tia para o Alentejo, onde vamos visitar uns domínios territoriais que virão talvez a pertencer-me!...
Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro, soberbo de petulância, fitando insistentemente as mulheres que passavam, e Frederico, mais aborrecido e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu quarto e estirando-se num sofá, farto até à saciedade de Lisboa, onde nada o prendia, e ansioso pelo regresso ao Pôrto, donde tantas recordações o chamavam. O seu terror, a sua inquietação moral desvaneciam-se, pois que Nuno e Júlia iam partir—talvez mesmo já tivessem partido—para a aldeia. Fumando uns cigarros atrás dos outros, entregava-se com mais subtileza crítica à observação do caso singular que o trazia em alvorôço permanente, que de-certo derivava da exaltação nervosa, duma violenta paixão—mais lasciva do que espiritual—insatisfeita, das ásperas solicitações da carne bruta, da infinita miséria física do amor, de tudo o que faz do homem um animal vivendo pelo instinto grosseiro e não pelas finuras, pelas delicadezas da alma. A sua análise escolhia de preferência os sentimentos da intimidade moral, porque as imagens da vida exterior exasperavam-no. Começava a achar ridícula aquela desvairada fuga diante da mulher para quem um ardente desejo e uma invencível simpatia o impeliam e de quem a razão e a dignidade o afastavam, intimidando-o como se êle fosse uma criança, um irresponsável, e não dispusesse duma inteligência. Reconheceu, no entanto, que perdera a confiança em si mesmo, que era mais um autómato, dirigido por fôrças ocultas, do que um ser moral, governado por ideias e emoções próprias...
Levantou-se, caminhou para uma janela aberta, curvando-se um momento sôbre o peitoril. A população atulhava as ruas que o sol dourava; os carros eléctricos desfilavam uns atrás dos outros, abarrotados de gente; pelos passeios erravam janotas ociosos, e oficiais do exército arrastavam espadas nas pedras. Era a scenografia de todos os dias, que já o fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que nunca, o isolamento da sua casa do Pôrto, longe de tôdas as curiosidades, como um cenobita, entre livros e entre recordações suaves. Com que prazer começou a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem mesmo prevenir os criados da sua volta! E como foi consoladora para a sua saùdade a hora em que reentrou na vivenda pacífica e cheia de lembranças familiares que o enterneciam! Tinha a ilusão de que em tudo o que o rodeava havia uma parte da sua personalidade, alguma coisa do seu coração, uma beleza indecifrável que para êle se iluminava. Bernardo, que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava mais magro, mais mirrado, pareceu-lhe um amigo venerável. As árvores do jardim, cobertas de fôlhas que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente à aragem, saùdando-o.
—Venho arrasado, Bernardo, arrasado!—disse êle para o criado.
—Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem pode medrar, meu senhor.
—Tens razão. Tu é que tens razão. Não posso medrar, dizes bem. Oh! mas agora, vais ver. Vou repousar, recuperar o perdido. Engordarei, não saírei de casa, como os gatos.
—Santo nome de Maria, com que o patrão se compara!...
—E então? Haverá porventura nada mais caseiro, mais apegado ao borralho, do que um gato?
Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo ocupado no arrumo das suas coisas, passava os dias encerrado na habitação, saíndo apenas de noite, depois do jantar, quando a cidade começava a ficar deserta e êle não corria o perigo de encontros importunos. Dava longos passeios, como se pretendesse extenuar-se, acalmar a agitação permanente do seu espírito. Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas que uma vez, insensivelmente, se surpreendeu defronte da morada de Nuno, mergulhada em sombra e mudez. Parou a olhá-la como se quisesse lobrigar nas vidraças reflexos de luz interior que denunciasse a presença de sêres vivos. Não viu nada e êste facto comunicou-lhe alegria e tranqùilidade. Depois, como uma polícia se aproximasse a passos lentos, mirando-o com desconfiança, reencetou a marcha, murmurando:
—Bem! Já cá não está!
E sentia contentamento pela sua descoberta—um contentamento quáse infantil. A ausência de Júlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude relativa. Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo estava agora longe, começou a aparecer de dia, a freqùentar os centros de conversa, a mostrar-se. Reatou convivências durante muito tempo interrompidas, para se distrair, para atenuar a violência do seu mal, que, no entanto, ia crescendo com o desalento que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os Clérigos, vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalguêm que gritava o seu nome, que para êle avançava, de braços estendidos, berrando:
—Ora ainda bem que te encontro. Que diabo tens tu feito? Por onde tens andado? Que mal te fiz eu? Dize!...
Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo um pouco, muito comprometido, gaguejando desculpas, interrogando-o:
—Pois, estás no Pôrto?
—Justamente! Estou no Pôrto. Tive de vir aqui a tôda a pressa, buscar coisas que nos eram essenciais, a mim e a Júlia, ao nosso brando retiro.
—E ela como está, tua espôsa? E êsse querido herdeiro?—perguntou Frederico, já mais sereno.
—Magníficos. Gozam duma saúde de ferro.
—Como já te disse em carta, só em Lisboa tive conhecimento da doença de teu filho e tu tranqùilizavas-me...
Nuno contemplava-o com interêsse. Estava mais abatido, mais gasto, havia fundos vincos na sua face, cabelos brancos na sua cabeça, tristeza no seu rosto e era cansado o riso da sua bôca.
—Demoras-te por cá?—inquiriu Frederico.
—Não. Sigo daqui a horas, em automóvel. Ah! Já me esquecia dizer-te... Tenho agora automóvel na quinta, introduzi no meu viver pacato esta comodidade. E era preciso. Não estamos livres duma súbita doença, do imprevisto... E é verdade:—essa visita? Quando te resolves? A não ser que a nossa companhia te desgoste...
—Oh! Nuno! Pois acreditas?...
—Não afirmei nada. Exprimi apenas uma dúvida. E olha que, na realidade, tanto eu como Júlia te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a nossa surprêsa?
—Tolices... E podes crer que não falto... Mas mais tarde. Ainda tenho prisões. Hei de ver...
—Não hás de ver nada. Quero saber o dia, a semana, ou então o motivo dessas hesitações...
—Bem! Por todo êste mês, contem comigo... Para onde vais?
—A Carlos Alberto, fazer umas encomendas. O meu automóvel deve lá estar. Acompanhas-me?
—Não posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver... Mas, espera-me em breves dias.
—Esperarei.
—E recomenda-me lá em casa... Beijos ao morgado.
Despediram-se, seguindo em direcções opostas. Nuno, ágilmente, Frederico, mais acabrunhado. Santo Deus! O facto que tanto temera sempre, dera-se, afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma vez, libertar-se, sem levantar suspeições? Como julgaria Nuno uma nova fuga, que já não poderia justificar honestamente? Era-lhe impossível prolongar por mais tempo uma tam cómoda mentira, continuar iludindo. A fatalidade empurrava-o, definitivamente, para o desconhecido e com uma fôrça a que não conseguiria resistir. O que iria acontecer? Que rudes formas de tortura adquiriria o seu desespêro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva tam profundamente desejada.
Tudo o que no seu ser existia de tímido, de cobarde, de dúbio, despertava, exacerbando-lho o terror. Deambulando na rua, a largos passos, falava sòzinho, em voz alta e numa tal excitação que parava gente intrigada a observá-lo.
—Com certeza que não vou!—afirmava.
Mas se não fôsse, o que pensaria Nuno? Que desastrada ideia tivera em deixar Lisboa, em não ter ido para o estrangeiro, para tôda a parte onde a vida lhe oferecesse um pouco de sossêgo! Para que voltara ao Pôrto? Recordava-se de haver lido em Dostoiewsky que os criminosos andam à roda do seu crime—de que não podem afastar-se—como as borboletas à roda da chama em que se queimam. Era êsse fenómeno psíquico que se dava com êle, naturalmente...
Cruzou com um carro que fugia na calçada. De dentro, uma graciosa cabeça de mulher inclinou-se, espreitando e sorrindo irónicamente. Frederico reconheceu Branca. Até aquela o desdenhava. Que vida, que miséria! Encontrava-se numa encruzilhada, completamente desnorteado. Que caminho tomaria? Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietação muito íntima e muito funda. Passavam-lhe na mente tentações tenebrosas. Únicamente de si próprio, duma instantânea fulguração de coragem, dependia a quietação perpétua. A solução pareceu-lhe bôa, por instantes; mas logo, raciocinando mais detidamente, monologou:
—Era a mesma coisa, a mesma denúncia... E, depois, sou um poltrão...
Nesta dúvida permanente, que tornava mais cruel o seu sofrimento, viveu Frederico todo o resto do mês, caído numa misantropia que o assustava, nos raros momentos em que lúcidamente podia reflectir. Tinha-se outra vez encerrado em casa, fechando a porta a tôdas as curiosidades importunas, e levava os dias num desespêro que apenas a imagem serena de Júlia a espaços lúarizava. A sua irresolução era maior, mais tormentosa a sua angústia. Sentia a necessidade duma fé religiosa que lhe iluminasse o espírito árido, que o apaziguasse. Assaltava-o o receio de enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com a fixidez do seu olhar em que brilhava alguma coisa de bizarro e de mau...
Um dia de manhã, o correio trouxe-lhe uma carta—a carta a tôdas as horas esperada. As mãos tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o enveloppe, abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face, estas linhas sêcas e curtas de Nuno:
«Na verdade há uma razão secreta que te afasta desta casa, da minha amizade, da minha confiança. Desconheço-te e a tua atitude inexplicável preocupa-me. Existe entre nós um equívoco que não deve continuar por mais tempo e de que tu, francamente, me informarás. O teu procedimento, que me intriga, parece mais uma provocação do que outra coisa; e o nosso antigo afecto de tôda uma mocidade dá-me o direito de exigir-te explicações.»
A carta terminava com mais algumas palavras que a humanizavam, lhe atenuavam a rispidez. Então, tôdas as indecisões de Frederico se dissiparam. Efectivamente, reconhecia a sua culpa. Nuno tinha motivos para estar magoado, para o recriminar. Que homem era êle?—pensava Frederico, espreitando, espavorido, a consciência. Queria furtar a sua dignidade de amigo a atracções que a manchariam, e comprometia únicamente as suas afeições mais puras. E tudo isto porquê? Pelo temor absurdo de praticar uma acção vil. Mas, não dispunha êle duma inteligência capaz de compreender os eternos problemas do Bem e do Mal e duma energia capaz de resistir às alucinações criminosas?
Chamou o criado na electrização duma vontade que o vitalizava, mandou encher uma grande mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e calçado, ordenou que lhe fôssem buscar um automóvel, e sem pensar, sem calcular as conseqùências da sua carreira cega e vertiginosa para o amor e para a vergonha, ou para a libertação e para a morte, partiu. Ainda confiava numa coisa:—a sua timidez. Nunca teria a audácia de revelar a Júlia o seu segrêdo. Se ela o perscrutasse e o aceitasse sem cóleras fulgurantes, talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse; mas, pura, como era, ignorando as torpezas do coração humano, nunca ela o adivinharia. A sua adoração continuaria, portanto, oculta, fazendo-o sofrer apenas a êle...
Volvidas horas duma impaciente correria por estradas que cortavam através de espraiadas veigas, de descampados, de terras de cultivo, de pinheirais rumorosos, Frederico parava diante do portão da quinta, tam seu conhecido, ao latir furioso dos cães de guarda. Já pelas grades pintadas de verde floriam as roseiras de trepar, e tôda a aldeia reverdecia, como numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum sol criador e maravilhoso de luz, descendo dum céu de esmalte azul. Nuno que estava à varanda olhando distraídamente as montanhas que ao longe se esfuminhavam, na vaga névoa, vendo deter-se um automóvel, desceu apressadamente ao jardim, sem esperar pelo criado e atirando uma saùdação amigável ao viajante, que sacudia a roupa empoeirada. Abraçaram—se com efusão. Frederico repreendeu-o:
—Que estúpida carta foi aquela, Nuno?
—Não foi estúpida, foi estimulante. Se me não zangasse sériamente, não vinhas. E olha que começava a não saber o que pensar... Mas vieste. Tudo se esclareceu. Esqueçamos êsse desagradável incidente...—explicava êle, dirigindo-se a casa.
Trémulo, transtornado, esforçando-se por conservar a tranqùilidade aparente, tôda superficial, Frederico acompanhava Nuno, que cruzava o jardim a passos largos. Ia tornar a ver Júlia perto de si. Há quanto tempo a não via! Quáse um ano—uma eternidade para quem ama como êle amava—tinha decorrido, desde que se separaram. A sua perturbação aumentava, o coração pulsava-lhe com violência, o sangue circulava-lhe apressadamente nas veias.
—Júlia, Júlia!—bradou Nuno, ao subir, com Frederico, a larga escadaria de pedra, sob as glicínias brancas e rôxas, que conduzia ao primeiro andar.
Ela apareceu logo, à porta de entrada, com o filho ao colo, muito risonha, muito còrada e afàvel.
—Cá está o pródigo!—zombou Nuno.
—Que volta ao calor das vélhas amizades, arrependido da sua prodigalidade—concluiu Frederico, apertando a mão que ela lhe estendia, aberta e leal, e beijando a criança com ternura, quáse com devoção.
—Pensei que nos tinha esquecido...
—Oh! minha senhora... E como pôde supôr...
Ergueu, a cabeça e fitou-a pela primeira vez mais demoradamente, muito perturbado, tentando sorrir. Ela encarou-o tambêm, satisfeita, com uma grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se.
—Se lhe parece! Que devíamos pensar, então?... Mas perdoamos-lhe, pelo muito que o estimamos, não é verdade, Nuno?
Êle fez um gesto de assentimento, muito contente.
—Só por esta vez... Para a outra, não haverá perdões!—ameaçou Júlia.
Enleado, sem saber o que responder, Frederico refugiou-se todo na inocência do pequerrucho, que sorria enlevado, agitando as mãozinhas côr de rosa.
—E cá o figurão? Admirável, não é assim?—perguntou êle, tocando-lhe com a ponta do dedo levemente, afagando-o.
—Está excelente, agora. Mas inspirou-nos um susto!...
—Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.
—Oh! menino, deixa as expansões para logo—atalhou Nuno. Teremos muito tempo de tagarelar, durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei não te deixar evadir daqui tam cedo. Agora és meu prisioneiro... Vai-te arranjar. O quarto é o mesmo do ano passado... Cá em casa nada mudou. Amamos as tradições.
Frederico aproveitou a ordem providencial do amigo, que vinha libertá-lo duma situação de momento a momento mais penosa para êle, exclamando:
—Então, se V. Ex.a dá licença, minha senhora...
—Pois não, pois não!...—declarou Júlia.
Entrou no quarto para onde os criados tinham já levado a mala, lavou-se e vestiu-se. O silêncio envolvente apaziguava-o, tranqùilizava a sua perturbação. Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade foi sempre recolhida e pacífica. Mas, cheio de desconsôlo, invadido por um desgôsto imenso, Frederico perguntava a si mesmo para que viera, porque não tinha resistido tenazmente às solicitações de Nuno. Que leviandade! E como, por irreflexão, havia concorrido para agravar o seu mal!
Os dias foram passando num desespêro cada vez maior para Frederico. O seu delírio atingia uma violência terrível de instante a instante. Surpreendia-se muitas vezes a contemplar Júlia em êxtase, quando à noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas páginas de música que parecem falar da aspiração irrealizada das almas para a beleza e para a ventura. A luz do candeeiro, que lembrava um hálito dourado, derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na massa dos cabelos enrolados no alto da cabeça gentil, nos ombros, nos lóbulos das orelhas, onde fulguravam as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado numa cadeira de braços, absorvia-se na sua graça, no seu encanto, idealizava-a, considerava como devia ser infinitamente doce o seu amor e setinosa a sua pele tam branca, opalizando-se na claridade difusa, enquanto Nuno, fumando um charuto, vagarosamente folheava um livro. No fundo do seu coração havia agora um inexplicável ressentimento, quáse ódio por aquele homem que tirânicamente se interpunha entre êle e a divina mulher da sua ardente paixão, em nome dum afecto a que a sociedade—e talvez a lealdade do seu carácter!—impunham obediência passiva. Como a influência desta adoração infindável se tornasse mais imperiosa e dominadora de hora para hora, Frederico, temendo o irremediável, evitava tôdas as ocasiões de se encontrar só com Júlia. De dia, se Nuno descia à quinta, êle acompanhava-o, procurava interessar-se por coisas que não entendia, demorava por tôdas as formas o regresso à vivenda. O tempo estava esplêndido e a scenografia era, realmente, maravilhosa. Todos os arvoredos do parque agitavam no ar, brandamente, as ramarias cobertas de folhagens novas, que os pássaros vestiam de asas. As acácias douravam-se duma flor que, trespassada pela luz, dava a impressão duma espuma de ouro; altos castanheiros da Índia balouçavam pingentes de florescências brancas e rosadas. As fôlhas densas formavam um docel duma côr verde e tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se por entre os ramos, mosaicavam a areia fina do chão de manchas luminosas. Ao lado, o jardim enflorava, exalando-se em perfume. Mais para alêm do muro que circundava a vasta propriedade, ondulavam em galgões as dobras de terreno, espraiavam-se os campos cultivados, os ferregiais, os lameiros em que a erva crescia, branquejavam casais pequeninos donde aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera os campanários em que, aos domingos, os sinos, convocando os fiéis, espalhavam por todo o vale a música festiva e mística dos seus claros sons. E ao fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas na base, mais áridas nos cimos, com a sua decoração de matagais cheirosos, de pinheirais, de rochedos cortados em escarpa.
—Que beleza!—murmurava Frederico, enlevado.
—Não é verdade?—inquiria Nuno. Onde é que tu encontras êstes espectáculos, esta poesia, na cidade, em que tudo é tam pequenino, tam mesquinho, tam banal?
Depois, levava-o até ao fim da quinta, para que êle visse os grandes melhoramentos em que consumira a actividade de todo um estio. Nas terras de pão, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente, os milhos miúdos «viam-se crescer»—como dizia o velho Mateus, agora mais feliz, bem instalado na sua granja que devia à generosidade do senhor; os centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se à ligeira aragem que sôbre êles corria, ágil como um sôpro, fazendo-os encrespar; ramadas e vinhedos lançavam pâmpanos; todo o vergel se estrelava de floração. E sobre aquela alegria da leiva fértil, caía a luz pura como uma bênção de Deus.
—Isto é uma verdadeira maravilha, Nuno!—exclamava Frederico, diante do caseiro que sorria, agradecido.
—O tio Mateus trata-me a propriedade com amor.
—Faz-se o que se pode... Mas o patrão é um santo!—dizia êle para Frederico.
—Oh, homem, olhe que só o Vaticano é que pode fazer canonizações. Santo, eu? Pecador, pecador...
—O que tem feito por mim e pela pobre doente e pelos filhos é mais do que de santo, pois não é? Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.
—É verdade, e como está sua mulher?
—Na forma do costume, a infeliz.
—Alguma doença?—perguntava Frederico, condoído.
—Uma paralisia... Coitada!
Muitas vezes, saíam para fóra da quinta, pela porta que servia a parte alugada ao caseiro, davam grandes passeios através dos prados, internavam-se nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros de bois, coleando-se entre sebes já floridas, e só recolhiam quando se aproximavam as horas do jantar.
Era êste o momento mais doloroso para Frederico, que tinha de sofrer, diante de Júlia, o seu suplício atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro, afagando-lhe com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza dum amor constante imprimiam mais serenidade e mais graça, desejando-a com febre e temendo-a, ao mesmo tempo, por êste desejo impuro que ela, sem querer, comunicava aos seus sentidos, à sua carne, à sua animalidade. Uma noite, durante o serão, a conversa entre os três animara-se. Discutia-se a incapacidade dos homens para saberem procurar a sua felicidade. Os que a encontravam não eram nunca orientados pela inteligência ou pela finura psicológica, mas pelo acaso, observava Frederico.
—Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a sorte grande, num bilhete de lotaria...
—Essa agora!—atalhou Júlia. É então a inconsciência que preside à vida consciente?
—E porque não?—afirmava Frederico. A humanidade é ainda tam imperfeita!...
—Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade ao instinto, que poucas vezes se engana.
—Engana-se quáse sempre, porque está submetido a influências nefastas.
—É levares muito longe a tua furiosa vontade de negar... Mas, aí tens tu as mulheres, por exemplo. São duma argúcia!... Sobretudo em questões de sentimento.
—Pobres delas!—riu Frederico.
—Pobres porquê?—perguntou Júlia, interessada.
—Porque nunca verão claramente as almas. A sua análise não ultrapassa as exterioridades—insinuou com intenção Frederico, em voz apressada e viva.
Júlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno comentava:
—São opiniões, pontos de vista.
Sob o olhar penetrante de Júlia, Frederico baixou a cabeça, perturbado e arrependido de ter ido tam longe, arrebatado por um impulso que não pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher cravada nêle inquietava-o. Que queria ela dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado? Adivinharia Júlia, há muito, por uma dessas intuições que certas criaturas possuem, o segrêdo que êle trazia escondido no coração? Atarantado, acrescentou, como se quisesse desculpar-se, furtar-se àquela espécie de interrogatório mudo:
—É claro, há excepções. Falei dum modo genérico...
E sorrindo lívidamente, com os lábios muito brancos, uma imperceptível tremura nas mãos, disse ainda, voltando-se para Júlia:
—Não pense V. Ex.a que eu envolvi tôdas as mulheres na minha afirmativa...
—Eu fui uma das exceptuadas?—interrogou ela alegremente. É uma amabilidade de amigo.
O incidente esqueceu, a palestra derivou para outros assuntos que iam surgindo, mas Frederico não pôde recuperar a sua serenidade de espírito. Estava doido, ia perdendo a noção das conveniências e, se permanecesse por mais tempo naquela casa, perto de Júlia, vergado à tirania da sua fascinação, viria a praticar loucuras. Não via, não ouvia, deixava muitas vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de o chamar à realidade, exclamando:
—Que diabo de abstracção é essa?
E foi, na verdade, um grande alívio para êle o instante em que Júlia se levantou, sorrindo de fadiga, despedindo-se e dirigindo-se ao seu quarto. Êle e Nuno ficaram ainda no gabinete, à volta da luz. Havia luar e uma claridade branca batia em cheio nos vidros da janela. Fóra, tudo adormecia em sossêgo, na pacificação nocturna. Quebrando a cinza do charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o amigo, surpreendendo-lhe o sorriso, disse:
—Em que coisas alegres pensas?
—Na minha felicidade. Imagina...
Calou-se, como se se arrependesse, de repente, duma revelação que ia fazer.
—Imagino o quê?
—Não sabes nada? Não vês nada?... Bem dizias tu, há pouco, que os homens são rombos de compreensão, teem embotada a ponta da subtileza.
Frederico observava-o, intrigado, batendo sôbre a mesa com os nós dos dedos.
—Tu és um amigo, um irmão. Não és, nesta casa, uma pessoa estranha. Pertences à família. Pode, portanto, dizer-se-te tudo... Júlia está outra vez grávida! Assim mo revelou esta manhã... Vou ter outro filho... Talvez uma filha, para a felicidade ser completa...
Grávida! Júlia estava grávida! Que horror! E como essa certeza brutal o amachucava, o transtornava. A garganta constrangia-se-lhe. Fazia esforços para falar, e não conseguia articular as palavras.
—Mas não me dizes nada, não me felicitas, não me abraças por esta ternura que me envolve e que eu agradeço ao meu doce destino?...
—Ah! de-certo que és bem feliz!...—exclamou Frederico, por fim.
—Não é verdade?—interrogava Nuno, com a face banhada de riso e de satisfação.
—Um amimado da sorte!...
Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio apagar a luz e arrumar os móveis.
A noite tempestuosa que Frederico passou! Que terror e que desalento geravam, para a sua alma pávida de espanto, as sombrias larvas do delírio? E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento mais puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem esperança e coragem! Tôda a doçura que sonhara findava repentinamente como uma flor que se desfolhasse ao vento. Compreendia ágora nítidamente que falhara na existência. Na hora de agonia que atravessava, tôdas as dúvidas se esclareciam para a sua inteligência conturbada. Nada ousaria tentar para fugir a uma condenação fatal, para reconquistar uma paz que perdera. A sua consciência era uma abjecção. Estava endemoninhado dum pensamento mau, que não podia arrancar dos sentidos como quem arranca o ferro duma ferida sangrenta e profunda; estava possesso do crime em que se envilecera e o espicaçava como um remorso. Para viver tranqùilo, seria necessário redimir-se da fúria cada vez mais ardente duma diabólica paixão insaciada.
Estendido sôbre o leito, arquejante, Frederico, de vez em quando, insurgia-se contra o curso das suas meditações, contra si próprio; mas a sua revolta era inútil, não vingava desviar a atenção concentrada naquela absurda tortura. E que abismo de torpeza era o homem! Odiava Nuno fulgurantemente, desejava que tôdas as desgraças, todos os infortúnios, se abatessem sôbre a sua cabeça, que a amargura de tôdas as misérias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso grito de triunfo êle lhe anunciara a gravidez de Júlia! E com que punhalada varara o seu coração! Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava era uma suja mácula na santidade da sua adoração—mácula bestial. Nuno, fecundando-a entre ásperos beijos de luxúria e de fogo, na vibração suprema do seu organismo físico, poluira o sentimento que na sua alma abrira puro como uma flor virginal. O filho que viesse, que já fazia estremecer o ventre de Júlia, enxovalharia a mulher para quem a sua veneração subia como o incenso subia dum turíbulo, na nave dum templo. E fôra para assistir a esta vilania que o amigo o convidara para casa, arrancando-o irónicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria da vingança, procurando Júlia, revelando-lhe aquele doloroso segrêdo que trazia dentro de si e que o sufocava?...
A esta ideia, que por um momento lhe pareceu justa, encolheu-se, espavorido.
—Que canalha! Que canalha eu sou!—murmurava.
Não, que pavor! Júlia devia ignorar tudo. Era em saber guardar o mal que o atormentava, que residia a beleza real do seu sacrifício. E com que direito criminava êle aquela doce união conjugal em que tudo era graça, constância, virtude, pureza? Para que havia de espalhar a lama no caminho de Júlia e de Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela sua bondade, pela sua abnegação, pela sua lealdade? Confessar-lhe um amor criminoso, que seria repelido sem piedade, era dar a conhecer os aspectos mais torpes da sua alma, que não hesitava em traír o amigo, disputando-lhe a espôsa, o tálamo, em ultrajá-lo, ofendê-lo, humilhá-lo na dignidade do sêr consciente.
De-certo que um dêles era de mais na vida—pensava Frederico. Mas quem? Nuno, que tam dedicado lhe fôra sempre, que lhe queria como a um irmão, na ignorância da serpe do desejo que se lhe enroscara no corpo e o despedaçava, o comprimia até à tortura, que confiadamente lhe abrira as portas do seu lar—que se fechavam para tôda a gente? Seria aquela a vítima que o seu egoísmo, a sua loucura sensual, escolheria? Estas interrogações passavam-lhe no cérebro como a fulguração dum sinistro relâmpago. Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar com mais clareza, Frederico monologou:
—Eu, eu é que sou de mais!...
Ainda não tinha descido tanto no pântano em que se afogava que não visse, acima da sua perversidade, alguma coisa de sublime, de luminosamente grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor, para a felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de ventura nunca se interrompesse! Êle desapareceria, já que lhe era honrosamente impossível amar Júlia sem incorrer no absoluto desprêzo de si próprio e sem traír um afecto mais santificado, e já que tambêm não conseguiria viver sem essa adoração. Morreria!...
Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava, pensou em matar-se ali mesmo, dando um tiro na cabeça. A detonação alarmaria tôda a casa, Júlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e último beijo na sua fronte ainda morna e lívida, levaria para a cova o encanto, a revelação, o perfume dêsse beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte. Fechou, porêm, os olhos horrorizados. Êsse suicídio naquele logar, alêm de ser uma denúncia, depois da scena do serão, macularia com uma nódoa sangrenta a ternura infinita de Nuno e da espôsa—uma nódoa que nenhuma água, nenhum esquecimento, nenhum arôma purificaria, como a das mãos de Macbeth. Não! Viveria mais umas horas, umas horas apenas! Só o tempo de chegar ao Pôrto...
A luz da manhã veio surpreendê-lo ainda vestido, rolando-se no leito desmanchado, pálido, os cabelos revoltos. Abriu a janela vagarosamente. O ar vivo e balsâmico entrou a jorros. Aspirou-o com volúpia. Em baixo, passava o criado. Pediu-lhe que fôsse a Guimarães buscar um automóvel.
—E não te demores. É um caso de urgência.
Banhou o rosto em água fria, tirou da mala a pistola que meteu no bôlso das calças, e quando sentiu Nuno a pé, correu para êle em alvorôço. Ao passar pela porta do quarto de Júlia, fitou-a com um olhar em que ia todo o seu adeus, todo o seu desgraçado amor, todo o seu perdão. Dirigindo-se ao jardim, onde Nuno descera, como fazia sempre, para gozar o encanto idílico das manhãs, bradou de longe:
—Sabes? Tenho de ir já ao Pôrto.
—O quê? Estás doido! Não sais daqui, não te deixo.
—Se eu te digo que tenho de ir! Mandei até o Manuel a Guimarães, buscar um automóvel... Mas volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir pagar umas letras que se vencem. É uma coisa séria, como vês!... Só esta noite me lembrei, de repente.
—Oh! Frederico!... Porque não recorreste a mim!... E não tinhas o meu automóvel?...
—Não me ocorreu... Mas é uma questão rápida.
—Nesse caso, vai...
Uma hora depois, o automóvel chegava e Frederico, impaciente, ao portão, despediu-se do Nuno, saltou para dentro, dizendo ao chauffeur:
—Larga e com velocidade.
Estava com pressa de pôr fim, por uma vez, àquele tormento que fôra a angústia pavorosa de todo um ano de sofrimento! Fechou os olhos. Não queria ver nada, para que um súbito arrependimento, um desmaio de coragem, o não prendessem à vida. Ia como numa embriaguez, concentrado na sua ideia fixa e fúnebre. O automóvel rolava, fugia no fio do vento. Era uma carreira para a morte, um paroxismo...
Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou generosamente ao chauffeur, subiu a escada rápidamente. Bernardo acudira, perguntando-lhe se desejava alguma coisa.
—Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar, chamarei.
Encerrou-se no seu escritório, sentou-se á escrivaninha e durante algum tempo esteve escrevendo. Admirava a sua serenidade em face daquele acto terrível e necessário que preparava. Seguidamente, fechou a carta e tocou a campaínha. O criado veio, ligeiro:
—Leva já esta carta ao correio. Mas não te demores.
E, quando ficou só, serenamente, como quem cumpre com honra um dever contraído, tirou a pistola do bôlso, encostou o cano à cabeça sem que um músculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um jacto de sangue brotou, salpicando o papel das paredes; um pedaço de massa encefálica fôra projectado violentamente contra a porta. Frederico caíu de bôrco no chão, sem um estremecimento, esvaziando-se de tôda a seiva da vida sobre o tapête...