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Rita
Farinha (Dez. 2007)
Obras de JOÃO GRAVE
| Os Famintos | Paixão e morte da Infanta | ||
| A Eterna Mentira | Os Sacrificados | ||
| O Último Fauno | Os que amam e os que sofrem | ||
| O Passado | Cruel Amor | ||
| Gente Pobre | Fogueiras de Santo António | ||
| Jornada romântica | Vida do Espíríto (pensamentos). | ||
| Reflorir | |||
| Reinado trágico | |||
| A Inimiga | No prélo: | ||
| O Mutilado | |||
| A Morte Vence | Almas ínquietas. | ||
| Vitória de Parsifal |
JOÃO GRAVE
DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA
A MORTE VENCE
ROMANCE
«Sê leal a ti
mesmo...»
shakespeare.
shakespeare.
SEGUNDA
EDIÇÃO, EMENDADA
PORTO
Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
L.da
editores—Rua das Carmelitas, 144
Aillaud e Bertrand—Lisboa-Paris
1922
A MORTE VENCE
I
A criança dormia tranqùilamente, deitada no seu pequenino berço vaporoso de rendas e resplandecendo de brancura, por êsse glorioso meio-dia de calor e de luz, no grande e benéfico silêncio que envolvia a vivenda feliz. A sua carne viriginal e transparente, ainda mal formada, parecia exalar claridade e tinha a coloração suave de certas rosas pálidas e orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, como uma ligeira nuvem de ouro, na alvura da almofada, macia e fôfa, que servia de travesseiro; e sôbre essa fronte angélica não profanada por impuros, venenosos pensamentos, baixava um halo de inocência luminosa e de graça imaterial.
Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa que refrescava o ambiente inefável e que tornava mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as formas do mobiliário. Na pacificação deleitosa tudo repousava docemente. Em cima do mármore do toucador, em frente dum largo espêlho em que se reflectiam imagens baças e indecisas, floriam perfumados ramos de cravos brancos em jarras de cristal cheias de água límpida; e da parede alta pendia, como a protecção celeste da infância adormecida, uma cópia a óleo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, extasiava os puros olhos nos fulgores siderais. Cá fóra, o sol—um ardente sol de junho—rutilava e ardia na atmosfera pesada e abafadiça.
Brandamente, na ponta dos pés para não fazer barulho, Júlia entrou no compartimento solitário, aproximou-se do casto leito do filho, que tinha apenas meses de vida, contemplando-o com enlêvo e ternura. Ela contava então vinte e quatro anos, estava em pleno esplendor da sua beleza e do seu encanto de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a ventura iluminava-se-lhe na alma. Duma elegância natural e sóbria, vestia um amplo roupão de cassa creme apertado na cinta por laços de veludo preto. O curto decote deixava a descoberto a pele do colo que era setinosa, dourada e sem o mais ligeiro vinco. Um pente de tartaruga com embutidos de ouro segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados no alto da nuca. Os seios direitos e rijos formavam uma delicada curva sob os tecidos flexíveis, ao arfarem. Dois anos antes, em Vizela, apaixonara-se sériamente por Nuno Aragão, para quem fôra levada por um forte impulso de sentimento; e com êle casara ao fim dum romântino idílio em que os seus sonhos de felicidade deram flor. Essa união íntima que a fizera espôsa e mãe e a que se devotou com um admirável espírito de abnegação, completou-a. Os dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem que dêles ficassem resíduos de tédio...
Absorvida na visão do frágil sêr que lhe trouxera, com a sua pureza e a sua formosura, uma revelação à inteligência e à subtileza emotiva, Júlia ajoelhou junto do berço, compondo a roupa à volta da cabecinha ideal, que a virgindade aureolava, com dedos mais ágeis do que asas—e nem sequer notava a presença de Nuno que a seguira de perto e que, por detrás dela, sorria comovido. Houve um momento em que Júlia se curvou sôbre a face gorda e picada de còvinhas do filho, roçando-a com os lábios.
—Cautela, não vás acordá-lo!—murmurou o marido em voz de segrêdo.
Ela voltou a cabeça, sorridente: e, fitando-o com uma emoção que o olhar traía, interrogou:
—Estavas aí?
—Quis acompanhar-te na tua amorável visita—respondeu.
—Olha, vem cá!...— pediu Júlia. Não é verdade que é lindo?
Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia o sussurro brando da respiração, passou-lhe um braço à volta do pescoço, puxou-a tôda para o peito e ambos se embeberam na adoração da criança que continuava dormindo com a gracilidade e a poesia dum botão de rosa, fazendo um pequeno volume sob as lãs quentes e as cambraias ténues.
—Não é lindo?—insistiu Júlia. Fala!...
—Como não havia de ser lindo, se veio de ti, da tua purificação, do teu amor!...
—Do nosso amor!—emendou ela, com palavras de mimo e de queixume, beijando-o demoradamente na bôca.
—Do nosso amor, dizes bem!—confirmou Nuno, enleado.
—E é curioso como já na sua carinha se desenham as tuas feições. Vê... O nariz, a testa, o queixo...
—São os teus...
—Não! São os teus!—atalhou Júlia, indicando com o dedo os traços fisionómicos do filho. Ora observa com atenção...
—Não lhe toques, que podes magoá-lo, coitadinho!—exclamou êle. A sua carninha é tam tenra, que até tenho mêdo de amolgá-la, quando a beijo.
—Que tolice!...—exclamou Júlia, rindo.
Por um instante, as cabeças de ambos, unidas, fizeram um docel animado sôbre o berço inocente que agasalhava, embalava, um destino misterioso para o qual aspiravam tôda a grandeza, todo o génio, tôda a bondade, todos os favores generosos da sorte enigmática, nessa hora bemdita e profética em que os seus corações palpitavam com o mesmo ritmo e a mesma ânsia, as suas vontades se fundiam numa só vontade e as suas ambições se irmanavam. Depois, com os olhos humedecidos de lágrimas de gôzo interior, ergueram-se, sempre estreitados num apertado abraço, fitaram-se com enternecimento, emmudecidos, penetrados por idêntico júbilo, com a imaginação perdida no encanto das mesmas idealizações.
—Abençoada sejas!—disse Nuno.
—E tu tambêm, por esta paz, esta certeza, esta confiança, esta bôa fortuna que comunicaste à minha vida—atalhou Júlia com convicção, afagando-o no rosto.
Saíram do quarto, mirando ainda o filho—que fôra como que a visitação duma divindade propícia à adoração que nunca deixara de aproximá-los mais desde o instante admirável em que pela primeira vez se conheceram e que, entre os ternos cuidados dos dois, cresceria, se faria homem, prolongaria as suas existências, iria para as éras vindouras, cantando um hino de esperança. Êle representava a expressão definitiva e tangível do amor que os identificara, do desejo puro que os fizera vibrar e que alvoroçara a sua carne, da simpatia física que os juntou. Nas suas veias corria um sangue que era de ambos; no seu corpo latejava uma carne que lhes pertencia; e, mais tarde, quando fôsse grande, teria a mesma fé, as mesmas crenças, as mesmas ideias, as mesmas piedades, as mesmas finuras de sentir, a mesma nobreza de aspirações.
—Estou hoje tam contente!—afirmou Júlia já na sala, dispondo um bibelot sôbre a mesa do centro, coberta com um largo pano pintado, enquanto Nuno acendia um charuto. E êste contentamento vem-me de ti, da tua fidelidade, da tua delicadeza, e vem tambêm do nosso filho. A luz e a ventura que esta criancinha veio trazer à nossa casa, Nuno! Pois não é assim?
—É, querida!
—Parece um milagre! Às vezes, nem quero acreditar!...
—Um milagre que merecíamos.
—Antes dêle nascer, tudo em mim eram sustos, receios, hesitações. Em certos momentos, tinha dúvidas que me faziam chorar!...
—Dúvidas?
—Sim, dúvidas! Que queres? Aterrava-me o pensamento da morte, do abandôno em que ficavas... Não era de ti que eu duvidava, isso não; mas não sei que tristeza me pungia, ennegrecendo, obscurecendo o meu cérebro... Agora, porêm, tudo se apaziguou, serenaram as inquietações, tranqùilizaram-se os sobressaltos...
Foi para o marido, que a esperava no meio da sala, com um sorriso de fadiga que a tornava mais graciosa e mais bela, as pálpebras meio cerradas, os braços caídos e sem acção, e, encostando-se-lhe ao ombro forte, acrescentou:
—E sempre te direi que o nosso filho me inspira uma veneração maior por ti e me fez melhor, mais compadecida por todo o infortúnio, por tôda a humana desgraça, por todo o vasto sofrimento.
—Se tu és uma santa!—disse Nuno, abraçando-a novamente e com uma comoção imperceptível na voz.
—Não! Sou apenas mulher e mãe. E é por isso que me lembro constantemente da desdita das outras mulheres e das outras mães. Ainda ontem, por exemplo, não pude reter o pranto—oh! um pranto que me desoprimiu!—ao ver brincar na quinta os filhos do caseiro, descalços e tam rotinhos, com as faces chupadas e macilentas e uma funda melancolia no olhar... Antigamente, êstes espectáculos lamentáveis passavam-me despercebidos, Nuno...
—O mundo está cheio de desigualdades, com efeito.
—Mas é doloroso que haja fome ao lado da nossa abundância!...
—Há de fazer-se alguma coisa, sossega...
—Porque a verdade é que o nosso filho, se fôssemos pobres, andaria por aí tambêm faminto e nú como os outros, os que nada teem!... É êle que me pede pelos deserdados...
—Não digas isso!—acudiu Nuno, de repente, muito perturbado... O nosso filho esfomeado e rôto!... Bem sei que não pretendes acusar-me de injustiças que não pratiquei... Eu mal conhecia esta quinta e a gente que a habita; ainda hoje não conheço o caseiro e ignoro as suas misérias. Antes do nosso casamento, só uma vez vim aqui, porque a existência tumultuosa das cidades solicitava-me, reclamava-me e aturdia-me. Há uma semana apenas que nos encontrâmos neste sitio e nestas terras, que são nossas. Não tive tempo para familiarizar-me com a sua população, para tudo saber minuciosamente...
—Oh! meu amor, quantas palavras inúteis!
—Não!... É que me fizeste vislumbrar, de repente, possíveis castigos, terríveis calamidades, abatendo-se sôbre criaturas sem culpa!...
—Eu não queria...—atalhou Júlia, perturbada.
—Certamente, certamente!—disse Nuno, beijando-a na fronte e nos olhos. É escusado defenderes-te... Mas é que as palavras das mulheres que amam como tu amas e que no seu amor abrangem tôda a vida consciente, teem uma profundidade, uma vastidão e uma inflexão que conturba... De resto, tu só foste justa:—e esta noção exacta da justiça significa a superioridade das almas femininas sôbre os homens, duros, sêcos, implacáveis. Com efeito, para sermos absolutamente felizes, é necessário que à nossa volta só haja felicidade...
—Então, bem vês!...
—Pois está claro, querida... Obrigado pela tua lição tam digna e tam eloqùente. A tua elevação moral sublima o que em mim ainda existe de grosseiro e de egoista. Sem o teu aviso, continuaria a haver, perto de nós, privações e amarguras. Eu nada via; tu, com a subtileza dum amor materno incomparável, viste tudo, num relance. Ensina-me sempre. Não sou mau, com certeza, mas incompleto: felizmente, tu completas-me e por isso a minha gratidão subirá perpétuamente para ti como o perdão dos crentes sóbe para o céu...
Tinham-se sentado num amplo sofá de molas flácidas que, a um canto, convidava ao repouso. O sol vivo que se filtrava pela vidraça da janela respirando para o jardim, batia, já atenuado pelo store de linho cru e pelo tule dos cortinados, sôbre as rosas que morríam nos solitários, faùlhava sôbre os móveis, dourava fugidiamente o papel verde que forrava as paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo no meio dum imenso campo de milho e produzindo um ruído especial e ritmado de tear. Júlia, encolhida perto de Nuno, com as mãos esquecidas no regaço, tornava-se mais pequenina, mais humilde, como se temesse pesar demasiadamente sôbre aquele amor que pressentia isento de tôda a mácula, perfeito de dedicação e de constância—um amor que era a razão do seu sêr e o seu maior orgulho. As express de linho cru e pelo tule dos cortinados, sôbre as rosas que morríam nos solitários, faùlhava sôbre os móveis, dourava fugidiamente o papel verde que forrava as paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo no meio dum imenso campo de milho e produzindo um ruído especial e ritmado de tear. Júlia, encolhida perto de Nuno, com as mãos esquecidas no regaço, tornava-se mais pequenina, mais humilde, como se temesse pesar demasiadamente sôbre aquele amor que pressentia isento de tôda a mácula, perfeito de dedicação e de constância—um amor que era a razão do seu sêr e o seu maior orgulho. As expressões carinhosas de Nuno faziam-na còrar, causavam-lhe uma sensação de inexprimível bem-estar e de pacificação interior. No seu sobressalto, nem sabia que responder, não encontrava os termos precisos com que manifestar a sua gratidão.
—Que maravilhosa manhã eu passei hoje na tua companhia, minha preguiçosa!—exclamou Nuno, quebrando a monotonia dum silêncio que se ia prolongando.
—Estou tam cansada!—afirmou Júlia, pousando-lhe a cabeça no ombro. E olha que não tenho feito nada.
—Anunciará êsse cansaço alguma doença?
—Não, que ideia! Nunca me senti com tanta saúde. Êstes ares campestres teem-me feito muito bem. Por mim, não saíria mais daqui!
—Então, encontramo-nos na mesma ambição, o que não me surpreende, porque já nos havíamos encontrado no mesmo sentimento.
—Pois queres, na verdade?...—perguntou ela, fitando-o com infinita meiguice. Que prazer me dás com isso!...
Arrependendo-se, porêm, dum contentamento que não soubera esconder e que lhe parecia impuro, atalhou prontamente:
—Não, não!... Que loucura! Na cidade, tens os teus amigos, os teus passatempos, as tuas conversas, as tuas distracções. Aqui não há nada disso. Terminarias por aborrecer-te, por enfadar-te...
—É necessário que saibas que não há coisa que me cative, longe de ti, fóra do nosso lar, para alêm do berço do nosso filho. Nem sequer tenho pensamentos que não sejam os teus.
Júlia, no entanto, teimava na certeza de que a permanência constante na quinta seria o sacrifício de Nuno, segura de que se não pode romper sem violência com hábitos contraídos e fundamente enraízados: e, para que a sua teimosia encontrasse vibração no marido, asseverava:
—Eu mesma viria a sofrer neste êrmo, mais tarde. Enquanto durar o verão, isto será, realmente, bonito. Há luz, há horizonte, podemos dar largos passeios, admirar tôda essa paisagem deliciosa, sentir tôda a poesia rural... Mas depois, quando aparecer o inverno, com os seus dias e as suas noites de chuva, a sua desolação, os seus frios, as suas tempestades, a cidade, que é o movimento, a variedade, a sociabilidade, voltaria a apetecer-nos...
Falando assim, Júlia estava intimamente convencida de que defendia a continuidade da adoração de Nuno, a sua felicidade permanente, a inalterável placidez de relações conjugais que um mal entendido seria capaz de comprometer irremediávelmente. A ternura que sentia pelo marido e que se lhe apoderara do sangue, da substância nervosa, de todo o seu organismo psíquico e material, afinava-lhe a inteligência, tornava mais arguta a sua capacidade de analisar e de compreender. Não aspirava, únicamente, ao amor de Nuno, mas tambêm à sua gratidão e ao seu respeito. Residir para sempre na quinta, distante dum bulício que a desgostava e de episódios sociais que a não interessavam, sería o seu supremo desejo—um desejo a que Nuno acederia alegremente: mas considerava que o isolamento, a ausência de convivências e de amizades, a falta de ocupações recreativas, viriam fatalmente a deprimir e entristecer aquele homem que era o mais fiel dos homens e que, para a amar mais puramente e mais intensamente, renunciara a tudo o que fôsse estranho à sua paixão.
—Ah! se é por isso!...—disse Nuno. Na verdade, não te habituarias a êste deserto, minha filha... Eu sim, porque gosto da solidão, porque as multidões fazem-me mal. Mas, o que eu não permito é que te sacrifiques...
Uma criada entrou, trazendo o correio que acabava de chegar. Eram jornais e cartas que Nuno começou a abrir distraídamente, enquanto Júlia continuava a arrumar com mais ordem e mais elegância as peças do mobiliário, a deitar água nas jarras das flores, a espanejar o pó leve que maculava o verniz das étagères.
—Tu não tens quem faça êsse serviço?—perguntou Nuno, parando um momento de lêr a sua correspondência.
—Oh! filho! Deixa-me ocupar em alguma coisa... Depois, é uma séca. Por mais que recomende e que ralhe, nunca me atendem, não fazem nenhum caso do que digo. Isto de criadas...
—Procuram-se outras melhores.
—Ora! São tôdas piores!...—exclamou Júlia, rindo.
—Mandam-se fabricar por um modêlo que tu escolherás à tua vontade, com molas vindas das oficinas de Londres, movendo-se por um sistema de relojoaria... E tu verás então como obedecem, como são atenciosas e pacientes...—respondeu êle, rindo tambêm e reencetando a leitura interrompida.
A vélha habitação, onde outrora tinham vivido os avós de Nuno, que eram abastados proprietários rurais, parecia cabecear de sono sob o dourado, faíscante banho do sol, sem que o menor ruído perturbasse a sua sonolência. Altas roseiras de trepar subiam pelas paredes cobrindo-as de vermelhas e míudinhas rosas de toucar. No pombal, que ficava ao lado, perto da capoeira, arrulhavam as pombas aos pares. Errava no ar um dormente zumbido de moscas.
—E esta?—bradou Nuno, de súbito, pousando sôbre uma cadeira a carta que tinha entre as mãos.
—Que é?—inquiriu Júlia, aproximando-se. Alguma novidade?
—Uma novidade estupenda. Nem tu calculas. Sabes quem vem aí, fazer-nos uma visita?
—Não sei, não posso adivinhar...
—Pois devias, para seres absolutamente perfeita, dispor dêsse dom... Quem vem aí visitar-nos é Frederico, aquele rapaz que foi meu camarada e que é o meu, o nosso melhor amigo!...
—Tinha-lo convidado?... E não me dizias nada!...
—Escrevi-lhe, antes de partirmos para aqui, como me obrigava o meu afecto. Ofereci-lhe, na nossa casa, uma enxêrga e uma tigela de caldo, à severa moda de Esparta... E êle aceitou. Bom, excelente Frederico!...
—Quando chega êle?
—Estará, entre nós, àmanhã ao romper do dia. Já almoça. Dá as tuas ordens para que se arrange um quarto a êste vagabundo que tam amávelmente se lembra do nosso exílio... Será uma companhia.
De dentro, da alcova, veio um débil vagido que deteve repentinamente a conversa de Nuno e de Júlia.
—Sua ex.a despertou e reclama, naturalmente, o lunch—disse êle, levantando-se. Onde está a ama?
—Lá em baixo, a brunir. Vai chamá-la, enquanto eu entretenho a criança—murmurou Júlia, dirigindo-se ao quarto.
Nuno pegou nos jornais e nas cartas apressadamente lidas e desceu ao pavimento inferior, gritando pela ama do filho, que acudiu tôda afogueada do calor do ferro. Era uma rapariga na fôrça da vida, saùdavel, bem constituída, de fortes seios estalando de seiva sob o pano do colete, braços gordos e estriados de rija musculatura.
—Corra lá acima à senhora. O menino acordou agora mesmo.
Ela galgou logo as escadas ágilmente, num rumor de saias engomadas, exclamando jovialmente:
—Aí vou, meu amorsinho, aí vou!...
Nuno, satisfeito com as suaves emoções daquela clara e plácida manhã familiar, saíu para o jardim que, à roda da vivenda tranqùila, rescendia e refrigerava, com os seus canteiros coloridos onde desabrochavam os cravos rajados e as derradeiras rosas do estio. Estava um tempo maravilhoso. O céu luzente e translúcido arqueava-se sôbre a quinta como um enorme pálio de sêda azul sem uma ruga. Os negrilhos, as tílias, os amieiros e os plátanos deixavam caír das suas espêssas folhagens a consolação afável das sombras. Pelas ramagens que sussurravam à brisa adejante, cantavam as aves. A cada passo, amplos bancos de cortiça, que as copas dos vetustos arvoredos amenizavam de fresquidão, solicitavam ao descanso e às séstas aprazíveis. Nuno, passeando vagarosamente, ia pensando que por ali se teriam sentado outrora, nas tardes de calor, as senhoras da sua casa com os livros dos poetas esquecidos no regaço, sempre que de verão vinham procurar ao campo a saúde e as bôas côres que a cidade lhes roubava. Aquele retiro estava cheio de recordações, de saùdosas memórias dos antepassados. Sua mãe, que havia falecido dois anos antes de êle se casar com Júlia, passara no doce refúgio—em que agora se encontrava com a família que constituira e que era todo o seu enlêvo—a primeira infância, saltando pelos arruamentos que o Jacinto jardineiro trazia sempre bem areados, regados e varridos. Evocando piedosamente a figura de mamã, que fôra tam gentil e que uma doença cruel bem cedo arrebatara, Nuno concentrava-se, recolhia-se para com mais intensidade sentir. Pobre, pobre mãe precocemente morta e que com tanto fervor lhe queria! Revivia-a na imaginação, reconstituia-a com nitidez. Parecia-se ainda um pouco com Júlia na bondade, na afabilidade, nas maneiras, no timbre da voz, na candura e na meiguice materna. Existiam nelas mesmo determinadas semelhanças exteriores que o surpreendiam—nos olhos que, em ambas, eram negros, profundos e húmidos, na finura das linhas plásticas, na brancura da pele, na nobreza da expressão fisionómica que reflectia conjuntamente a paixão, a gravidade e a graça. Sobretudo, quando observava o sorriso de Júlia—um sorriso em que havia qualquer coisa de castidade infantil, de seriedade ponderada e de ternura ingénua, Nuno assistia, deslumbrado, a uma verdadeira ressurreição. E foi por isto, de-certo, que amou desvairadamente a espôsa desde a primeira noite em que a viu, no salão dum hotel de Vizela onde se dançava, e que ainda a amava e amaria sempre com o mesmo transporte e a mesma firmeza. A mãe, que não fôra feliz no casamento—porque o marido desertava do lar conjugal para correr atrás doutros amores, para atirar ouro aos punhados sôbre as bancas do jôgo, para dissipar uma existência que nunca encontrou sossêgo senão na sepultura—ressurgia na mulher admirável que era a sua doce companheira e que, com geito divino, devotando-se-lhe, lhe fizera a revelação da felicidade!...
Continuando o passeio e embebendo-se em lembranças, que aviventava para seu gôzo espiritual, Nuno chegou, insensivelmente, a meio da propriedade, que era de vastas dimensões. Para lá do parque frondoso, com uma rica decoração de troncos nodosos e recobertos de musgos parasitários, ficava o pomar que vergava de frutas pelos outonos elegíacos, quando as fôlhas amarelas caíam como asas que cessassem de bater: e mais abaixo, espraiavam-se as terras de cultura, as pastagens para o gado, abundantemente regadas por águas espertas e vivas que desciam, cantando, das bôcas negras das minas, frias e saborosas: o casebre dos caseiros pegado aos currais: a eira todo o dia batida de sol. Ao fundo, um pinheiral cerrado de rama verde-negra, que dava a lenha para o lume, fechava à vista a linha do horizonte. Das bandas do norte, elevavam-se espinhaços de serranias escarpadas, correndo dum extremo a outro e azulando-se, no crepúsculo, com os nevoeiros que, como um fumo ligeiro e branco, ascendiam das profundidades do vale, afogado em vegetações exuberantes. A quinta, situada nos arredores de Guimarães, pertencia já a Nuno ainda em vida dos pais. Legara-lha seu avô materno, aterrado certamente com as dissipações do genro que fundia em orgias, em viagens que não tinham fim, em ligações ilicitas, o dote da mulher legítima e que ameaçava deixar na miséria, aos acasos incertos do destino, o filho único. Ah! êsse pai! Nuno não queria mal à sua memória, que venerava, recordava-o com saùdade e com mágoa, não invejava o dinheiro que êle espalhara estérilmente com mãos perdulárias. Desculpava-o. Era fogoso, irreflectido, embrenhava-se em aventuras arriscadas, perseguindo uma ilusão dos sentidos que jàmais alcançou, tinha um irónico desdêm por tôdas as convenções, caracterizava-se por uma rebeldia de temperamento que nenhum conselho prudente e fecundo conseguia apaziguar; o seu egoísmo de jouisseur não admitia restrições naquilo que julgava essencial ao seu gôzo próprio; fôra, talvez, um doente, uma organização enfêrma expiando sucessivas acumulações de hereditariedade mórbida que vinham de longe, prolongando-se em gerações taradas e denunciando um doloroso fim de raça. Obedecera passivamente, por ausência de vontade, aos secretos e vertiginosos impulsos do seu mal interior—do mal que insaciávelmente o roía, lhe debilitava o carácter, o esgotava de energia para tôdas as reacções nobilitantes...
O amor tornava Nuno generoso. Só lamentava que sua mãe tanto tivesse sofrido sem se queixar, transida, conformada com o infortúnio, agarrando-se ainda nervosamente ao seu verdugo como as heras se agarram a uma árvore carcomida, negando-se com obstinação a separar-se dêle e a voltar para o lar paterno, onde seria recebida em festa e onde a sua existência atribulada encontraria suavidade e consôlo—porque, a-pesar-de tudo, continuava a amá-lo com ansiedade, com loucura, com uma constância que nunca afrouxou. Pensando neste caso singular de devoção e de sacrifício, Nuno julgava que havia herdado da mãe as virtudes afectivas, a rectidão, a lealdade, a sensibilidade aguda—e considerava-se feliz por isso...
Meteu-se resolutamente por um fechado milheiral, onde amadurecia ao sol de Deus o pão sagrado que daria alento e fartura às bôcas famintas e pálidas. Largas fôlhas compridas como espadas roçavam-lhe o rosto, açoutavam-lhe as mãos; as suas botas atolavam-se no terreno remexido de fresco e humedecido das regas que levavam o alimento às raízes; um cheiro acre de seivas e de ervas esmagadas impregnava a aragem. Nuno aspirava-o a fundos haustos, murmurando, regalado:
—Ah! isto vigoriza, tonifica!
Da banda do nascente, uma poeira de luz flutuava sôbre os píncaros das montanhas escalvadas que, por vezes, na sua imobilidade, tinham atitudes quáse humanas, sugerindo formas gigantescas e animadas, curvando-se sôbre a sombra, o vazio dos abismos. Enquanto caminhava e admirava êste maravilhoso trecho de paisagem, Nuno ia recebendo uma lição de coisas ignoradas. Com efeito, era aquela a primeira vez que visitava tam minuciosamente a quinta, que fôra a morada pacífica e venturosa dos seus avós, da sua gente. Só ali tinha vindo uma vez, de fugida, para conhecer uma parte dos domínios territoriais de que era senhor, mas não passara do jardim, onde por sinal havia colhido um cravo branco com que floriu a lapela do seu casaco de casimira inglesa. Ao cabo duma curta hora, logo abalou para o Pôrto, onde nascera e onde vivia, alarmado com tanta solitude, penetrado de melancolia e de desalento, sem compreender como certas criaturas podiam permanecer longe das cidades, do seu movimento, das suas seduções, dos seus aliciantes espectáculos. Nesse tempo, estava ainda solteiro, completava na Academia Politécnica o curso de engenharia, era revolucionário como todos os seus camaradas, freqùentava com assiduidade as reùniões políticas em que se conspirava contra a Monarquia, tinha rixas com a polícia e namorava as costureiras. Agora, porêm, via com olhos diferentes dos dessa época, possuía uma compreensão mais lúcida, tudo nêle se havia modificado, existia na sua alma um sentimento mais equilibrado e mais justo. A inquietação antiga apenas servira para transmitir um grato sabor á paz actual: a reflexão e o estudo tinham-lhe revelado o mundo e as sociedades por um outro aspecto. Para êle, as urbs onde se agitam os densos formigueiros de seres conscientes, gritando os seus desesperos e as suas cóleras, representavam a tentação corruptora, a deliqùescência, eram as sinistras geradoras da dor e dos pessimismos modernos: e o campo, a aldeia, constituíam os reservatórios da vida salubre, os últimos santuários da crença religiosa e da felicidade onde os réprobos deviam retemperar-se anualmente. Como a sua mocidade fôra inconsiderada! Em compensação, como os seus trinta e cinco anos eram sábios e estavam na verdade!... Ao romper do milheiral em que se perdera, encontrou uma clareira bucólica de terra que andava a horta, onde cresciam e enconchavam as couves tronchudas, verdejavam as tiras das alfaces e os talhões de feijoal ondulavam ao vento brando. Um homem, em mangas de camisa, magro, esguio, de rosto queimado pelos ardentes bafos das soalheiras, cavava, com uma grande tristeza na face, em que se emmaranhava a barba crespa e negra, e nos olhos que fulguravam. Nuno foi direito a êle, saùdando-o amigávelmente. O cavador, tirando o chapeú esburacado e sujo, murmurou com humildade:
—Salve-o Deus, meu senhor.
Durante um momento Nuno entregou-se à contemplação do pobre trabalhador, de cara macilenta e mãos calejadas e nodosas, em que os dedos deformados lembravam negras raízes. A camisa aberta no peito deixava a descoberto uma pele macerada, repuxando sôbre os ossos salientes: e uma grande piedade comoveu Nuno por tanta miséria.
—Vocemecê—perguntou êle—é que é o caseiro?
—Saiba vossa senhoria que sim. Já lá vai um ror de anos depois que para aqui entrei, e tenho pago honradamente as rendas.
—Bem sei, bem sei! Eu sou o dono da quinta...
—Pois vossa senhoria é que é o netinho do snr. Vicente, que Deus haja?
—Sou eu mesmo...
—Oh! meu senhor! Desculpe, que eu não o conhecia.
—Mas, desculpar o que, bom homem?...
—É que eu nem sequer fui vê-lo lá acima, ao palácio... Não podia adivinhar... Tinha-me dito o snr. José, procurador, que vinham viver na casa grande por algum tempo uns senhores, mas eu não contava... Sempre uma assim! A gente anda cá nas nossas apoquentações, não tem vagar para nada...
E imediatamente, vergado ao hábito da obediência, submetido ao jugo da escravidão que sempre, no decurso duma vida trabalhosa e amarga, o coagia a rojar-se, a fazer-se mais pequeno diante dos poderosos, atirando a enxada para a leiva revolvida, aproximou-se de Nuno, baixando a cabeça descoberta como para receber o justo castigo duma grande falta.
—O senhor perdôe... Eu não sabia...
—Homem, já lhe disse!... Não tenho que perdoar. Está claro que a sua visita era-me agradável:—mas como amigo e não como dependente. É boa... Ponha o chapéu.
—Como amigo, como amigo!...—mastigou o caseiro, com a língua embrulhada na bôca e os olhos rasos de água, conservando o chapéu nas mãos.
—Como amigo, certamente... E ponha o chapéu. Agora, mando eu. Ponha o chapéu, avie-se.
—Isso é que não... O respeito não fica mal a ninguêm. É um dever...
-Se não pôe o chapéu, zango-me e vou-me embora...
—Ora essa!... Pois!...
—Afirmo-lho! Ou faz o que lhe peço ou retiro-me...
—Então, com sua licença, fidalgo...
—E vamos conversar à bôa paz... Está contente com os terrenos que traz arrendados?
—Eu não me queixo... Vão dando para viver, com a ninhada dos filhos e a mulher entrevada, melhor ou pior, como Deus é servido.
—Pois, não tira lucros?
—Umas vezes pelas outras tiro, sim, senhor, que a terra anda bem tratada. Não lhe roubo ao sustento preciso... Mas lá vem um ano mau em que parte das colheitas se perde, lá morre um boi, e vão-se as economias escassas, para uma pessoa não ficar envergonhada... Adeus, minhas encomendas! Percam-se os aneis, mas conservam-se os dedos, como o outro que diz...
—Ah! eu julgava que a lavoura era remuneradora.
—A terra é quáse sempre ingrata para os que dela vivem, senhor... Alêm disso, para recolher é necessário semear e o dinheiro não me sobra... Mas isto não é chorar-me. Não quero aborrecê-lo. Vive-se com o muito e vive-se tambêm com o pouquinho...
—E a mulher entrevada, disse?
—É verdade, coitada! Fiquei dum dia para o outro sem o braço que me ajudava, e ando consumido, cá por dentro, de vê-la sofrer. Depois que teve o último filho, nunca mais se ergueu...
—Infeliz!... E os médicos?!...
—Os médicos... São muito caros. Veio aí um algumas vezes, para me dizer que o mal não era de morte mas que não tinha cura!... E o que mais me custa, meu senhor, é que a pobre de Cristo está sempre a pensar na labuta, na canseira do trabalho, e quando vou para comer a migalha, costuma dizer:—«Oh! meu homem, que te matas... Oh! criatura que não tens um momento de descanso e eu para aqui a curtir a minha doença, sem poder auxiliar-te... Que Deus me leve!»... Enfim, corta o coração, coitadinha... E foi sempre tam minha amiga, Senhor do céu! Estamos casados há anos e damo-nos como Deus com os anjos...
Enquanto falava, o cavador limpava as lágrimas, que lhe corriam em fio dos olhos, às costas da mão negra e cheia de terra. Nuno, condoído, desviara a vista.
—Quantos filhos tem?
- Em casa tenho seis. Quatro, três raparigas e um rapaz, já casaram.
—São grandes, os que vivem consigo?
—Dois lá me vão ajudando a levar a cruz ao Calvário. Os outros são pequeninos... Teem a fatia do pão, mas falta-lhes a mãe para olhar por êles...
—Pois, está bem! Creio que a renda anda um pouco elevada... Hei de falar com o meu procurador... E ouça...
—Oh! meu fidalgo, eu não pedi que me baixasse a renda...—acudiu o caseiro, de fronte erguida por uns restos dêsse orgulho que existe tambêm no coração dos desgraçados.
—E ouça—continuou Nuno—disse há pouco que, se tivesse dinheiro, faria com que a terra produzisse mais. Terá êsse dinheiro. Sou eu que lho empresto... Nada de agradecimentos. Pagar-mo há quando o tiver... Quanto à entrevada, é preciso tratar dela. Minha mulher há de ir vê-la—porque as mulheres entendem-se umas às outras. E adeus!—concluiu, estendendo-lhe a mão.
O caseiro olhou com espanto a mão aberta, franca e leal de Nuno, cravou depois no rosto do seu senhorio os olhos atónitos e fulgurantes como carvões acesos, muito enleado, sem nada compreender, sem fazer um movimento, sem murmurar uma palavra.
—Adeus, bom homem!—insistiu Nuno. Não se acanhe. Tenho apertado a mão a criaturas muito menos dignas do que vocemecê é!
Então, o caseiro, entalado de soluços, rendido de admiração diante de tanta grandeza de alma, apoderou-se daquela mão purificada que se baixava bondosamente para levantar os que sofriam e que eram humildes, gaguejando, com a voz entaramelada:
—Ah! meu amo, que isto é o fim do mundo! Um fidalgo como vossa senhoria a tratar assim um ninguêm como eu!... Bemdito seja o Senhor, que ainda há tanta gente bôa!
E, na sua exaltada gratidão, queria beijar a mão que Nuno lhe dava.
—Não, isso não! Há maneiras de reconhecimento que se não aceitam, porque melindram quem as pratica e quem as recebe...
—Deixe-me, meu senhor!... Ainda há pouco disse: «meu amigo!» Um lagalhé, como eu, amigo de vossa senhoria!...
Nuno, por fim, desembaraçando-se do cavador, despediu-se e afastou-se dêle, enternecido e murmurando entre dentes:
—Creio que realizei hoje a melhor acção de tôda a minha vida... E devo a sua inspiração a Júlia... Que horror! Tanta miséria, mulher entrevada, criancinhas com fome e eu a alimentar a minha opulência com o esfôrço desta penúria!...
Dirigindo-se novamente para o jardim, meditava que, para as almas sensíveis, as transfiguradoras alegrias de bem pouco dependem. Bastava para conquistá-las, um gesto mais espontâneo de bondade... Como o seu dia fôra proveitoso, efectivamente! Vivera momentos inolvidáveis junto do berço do filho, que dormia como uma doce flor por desabrochar com tôda a alma inocente reflectindo-se-lhe na face, que era inconsciente, que mal reparava ainda nas coisas que o cercavam e que, no entanto, enchia tôda a casa, tôda a sua vida, todo o seu amor de encanto, de esperança e de perfume! Depois, a adoração da espôsa dera-lhe uma lição de magnanimidade e fizera-lhe sentir a branda promessa duma ternura eterna, duma inalterável dedicação que o iluminaria pelos anos fóra. Em seguida, recordara a memória venerável da mãe, no seu passeio pelo parque—essa mãe que tanto o tinha amado e que, mesmo morta, era uma radiante luz de que lhe vinha claridade e beleza moral, e corrigira nobremente desigualdades sociais, decidido a conceder um pouco mais de bem estar a sêres desditosos que activamente lidavam, acrescentando a sua riqueza. Para que nada faltasse à formosura dêste dia magnífico, até o seu único amigo e seu companheiro de estudos e de boémias românticas, acabava de anunciar-lhe que viria passar junto dêle uma semana, um mês! Levantara-se com sorte, certamente. Há horas predestinadas para a ventura, como há outras predestinadas para a desgraça...
Entrou em casa, trazendo debaixo do braço jornais que não abrira e cartas a que não ligara atenção, exceptuando a de Frederico, que era sumamente grata à sua amizade. Subindo ao primeiro andar, foi encontrar Júlia com o filho, gordo, robusto, de cabelo muito louro e uns olhos muito azúis, nos braços amorosos. Nuno beijou a criança com mais devoção do que beijaria uma imagem religiosa, beijou tambêm a espôsa longamente na testa e na bôca, para agradecer-lhe a felicidade de que transbordava.
—Que é isso, que é isso?—perguntou ela, sorrindo com aquele sorriso que lhe fazia evocar a mãe.
—É que te amo, que te amo, e que não sei dizer-te por outra forma o meu amor!
II
Frederico chegou, com efeito, na manhã seguinte e foi efusivo o abraço que trocou com Nuno, ao saltar do automóvel, diante do portão do jardim que um grande ramo de jasmineiro em flor cobria de sombra, de frescura e de aroma. Enquanto os criados conduziam as malas de viagem, do carro para casa, êle, compondo a roupa desmanchada e alisando, com a mão, os cabelos despenteados, dizia para o amigo:
—Menino, o que eu agora mais desejo, antes do almôço, que ficarei devendo à tua generosidade, é um banho frio que me restitua a elasticidade aos membros entorpecidos e me purifique da poeira da jornada—uma poeira corrosiva que me morde a pele.
—Pois terás êsse banho purificador, homem!—prometeu Nuno, alegremente.
Foram andando pelos arruamentos que corriam junto dos canteiros rescendentes, no inspirador silêncio matinal.
—Tu tens isto lindíssimo, na verdade. Sente-se a ventura, o encanto de viver à volta desta habitação que eu creio bem que seja a morada da Fortuna!... E como vai a saúde da família? Próspera, não é assim?... Desculpa. Tinha-me esquecido de cumprir êste elementar dever de cortesia.
Do lado que dava para o parque havia uma escada de pedra com grade de ferro pintada de verde, subindo, entre redouças de trepadeiras que a bucolizavam, até ao primeiro andar, sob a folhagem fechada duma acácia. Tinham êles galgado o primeiro lanço, quando Júlia apareceu no alto, vestida com simplicidade e gôsto. Frederico, tirando o chapéu, exclamou logo, ao avistá-la:
—Oh! minha senhora!...
E avançou, mais apressado, de mão estendida, acrescentando:
—Venho pedir um pouco de repouso, de tranqùilidade espiritual, às divindades protectoras dêste lar, que é o Palácio da Ventura...
—Seja então bemvindo—acudiu ela, tôda risonha.
—Não o acredites, Júlia! É um réprobo e tem o sentimento derrancado—gritou Nuno. Ainda agora me dizia da aldeia coisas pavorosas. Não te admires se êle, logo à tarde, bocejando o seu aborrecimento e renunciando a uma conversão de alma, nos fugir para a cidade...
Frederico, voltando-se para o amigo, murmurou com ar cómico e forçadamente constrangido:
—É, então, assim que o afecto fraternal compreende e pratica as obrigações sagradas da hospitalidade, mentindo para me comprometer? Com franqueza! Isso não é leal...
Júlia, còrada e encantadora no seu pudor e no seu recato de espôsa e de mãe, ria enlevada.
—Deixe-o falar!
—Pois se eu, só de atravessar a pacificação campestre, embebendo-me, impregnando-me da sua doçura, até já me sinto outro e me parece que dentro de mim um outro coração renasce!...—disse Frederico.
—É que o Espírito Santo estava à tua espera para baixar-te sôbre a cabeça em língua de lume e iluminar-te—zombou Nuno.
Entraram na sala que as flores das jarras incensavam. Por tôda a parte se notava logo o cuidado e a subtileza duma diligente ménagère, tal era a ordem, a elegância, o claro aceio daquele atraente lugar de repouso. Sentaram-se um momento, conversando.
—Quis, então, dar-nos por algum tempo o prazer da sua companhia, abandonando as alegrias da vida citadina?—perguntou Júlia.
—Nuno assim mo impôs. E creia V. Ex.a que nunca imposição alguma foi mais brandamente acatada por um rebelde como eu sou—afirmou Frederico.
Um relógio de bronze dourado, montado em colunas de alabastro côr de rosa, marcava as horas sôbre o mármore do fogão, quebrando com o ritmo do seu tic-tac a paz do compartimento: e evolava-se de tudo o que os cercava essa serenidade, êsse divino mistério inspirador, essa graça imaterial que só existem nos ambientes calmos em que as almas de élite fazem a troca mútua das suas afeições puras, das suas emoções delicadas, das suas aspirações nobres.
—De-certo que não encontrará aqui as distracções que um grande centro de população pode oferecer—exclamou Júlia. No entanto, haverá para o snr. uma sincera amizade.
—Eis tudo de quanto eu preciso, minha senhora, porque a amizade é o que ainda vale no egoísmo e na tristeza da nossa época.
—Mas, não terias perdido a virtude, o dom e motivo de senti-la?—interrogou Nuno, com ironia afável. Êste homem é um perdido, Júlia. Vamos a ver se conseguimos levá-lo de novo para a luminosa vereda da verdade... E vai-te arranjar, criatura, que aqui, na aldeia, almoça-se cedo, janta-se cedo e deita-se a gente ao anoitecer...
—Bem! Começa a minha regeneração—murmurou Frederico, erguendo-se. Se me concede licença, minha senhora, vou tratar da toilette. Vejo que Nuno, antes de me servir o alimento, pretende servir-me um método. É justo. Quem dá o pão, dá o pau...
—Se precisas dêle!...
—Do pau?
—Não, desgraçado, do método!...
Nuno acompanhou-o ao quarto, enquanto Júlia descia à cozinha. A tranqùilidade envolvente era tam profunda que os menores ruídos adquiriam uma prolongada vibração. Ouvia-se a voz dos carreteiros ao longe, excitando os bois nas subidas e as cantigas dos ranchos de mulheres que trabalhavam nas terras de cultivo, sob o banho fluido e louro da luz. Nuno, deixando Frederico, veio um instante para a varanda envidraçada exposta ao sol, sentando-se numa cadeira de encôsto, perto dos vasos com avenca e com begónias de estufa, de largas fôlhas espalmadas e ferruginosas, onde costumava passar as tardes com Júlia, contemplando a ondulação dos milheirais que se estendiam por todo o vale, a ramaria dos pinheiros vasta como um mar de verdura, a mancha azulada das montanhas de perfil irregular e que formavam, das bandas do nascente, uma rica, prodigiosa scenografia natural. Estava contente, a vida tinha para êle um grato sabor, nesse momento. Por mais absorvido que andasse na sua feliz, plácida existência conjugal, não podia subtrair-se a determinadas influências que certos factos produziam. A vinda de Frederico tinha acordado, para seu regalo, um mundo de sensações longínquas, de recordações adormecidas. Com a presença do amigo, ressuscitavam tambêm a sua mocidade distante, os anos consagrados ao estudo, à conquista duma posição social que lhe imprimisse maior relêvo à personalidade, as ilusões que fôra tecendo, as esperanças sonhadas em prometedoras horas de confiança. Relembravam-lhe episódios há muito olvidados, uma tumultuosa onda de saùdade e de indecifrável ternura invadia-o. Ah! êsse bom Frederico! Havia perto de dois anos—desde o seu casamento, a que êle assistira—que não tornara a vê-lo. Nos primeiros meses de casado, como o seu forte amor por Júlia reclamasse um absoluto recolhimento, isolou-se inteiramente das suas relações, duma sociabilidade que o não interessava. Fizera, com ela, uma longa viagem de núpcias por países que nunca visitara e que muito desejava conhecer, encantado pelo anonimato da sua individualidade no meio das ruidosas multidões. Estiveram em Itália, em França, na Suíça, observando uma civilização que se denunciava radiosamente em tôdas as manifestações da actividade humana, na sumptuosidade de capitais que são resumos lúcidos do mundo consciente, passando as manhãs nos Museus, indo à noite aos teatros, aparecendo nos sítios preferidos pelo mundanismo para a exibição maravilhosa da esplêndida flor do luxo e da beleza, ofertando à adoração que os estreitava a surprêsa de espectáculos constantemente novos e cativando pela sua variedade infindável. Depois, quando regressaram ao Pôrto, amando-se mais porque entre os dois se tinha feito uma perfeita unidade moral e afectiva, Frederico havia partido igualmente «para uma confortável vadiagem por êsse bemdito Portugal» como dizia numa carta a Nuno, porque, mesmo separados, nunca deixaram de estar juntos em espírito, correspondendo-se com regularidade, comunicando-se as impressões recebidas, as opiniões, os pensamentos, os pontos de vista, por uma necessidade imperiosa, que provinha de identidades de inteligência e simpatias de temperamento.
Frederico nada ocultava ao amigo e ao camarada, confessava-se-lhe sinceramente. Uma casualidade singular os aproximava ainda mais:—eram ambos ricos, sem família, fizeram o mesmo curso, manifestavam as mesmas predilecções. Nuno conhecia-o minuciosamente no seu carácter, na sua psicologia, nas suas tendências, nos seus hábitos. Um pouco leviano e volúvel, por certo. Não havia em Frederico estabilidade de sentimentos, fixidez, reflexão. Os seus actos quáse nunca estavam em concordância com as suas ideias. Abandonava inconsideradamente, como futilidades sem raízes na realidade universal, projectos no dia anterior aceitos com entusiasmo e fervor, como se representassem a verdade irredutível. Era um dêsses homens estranhos que, possuindo um grande orgulho de si próprios, ou pela superioridade mental ou por dons puramente exteriores, são incapazes de contrariarem a sua espontânea vontade, de se sacrificarem na satisfação do seu sonho, muito embora sigam por caminhos errados, de renunciarem ao que, para êles, encerra um efémero minuto de prazer. Foi por isso mesmo que não quis jàmais reduzir ou comprometer a sua liberdade, conservando-se solteiro com mêdo às responsabilidades duma família, ao jugo dos deveres contraídos. Nuno lembrava-se, enquanto reavivava um passado ainda recente, do desgôsto que em Frederico provocara a sua decisão de casar-se com Júlia. Êle ouvira-o friamente, com uma expressão de sarcasmo na bôca—um sarcasmo em que havia compaixão e desdêm.
—E tu devias fazer o mesmo. Arranjavas, assim, uma ocupação séria!—dissera-lhe Nuno.
—Ah! obrigado pela intenção—respondera Frederico, sêcamente e encolhendo os ombros.
—Homem, parece que estou a aconselhar-te uma acção má!...
—Não! Apenas me aconselhas a loucura, o absurdo...
Êle, casar-se, efectivamente! Nunca sentira vocação para a vida conjugal, sempre que se consultava sôbre êsse complicado e perigoso problema. Julgava que o casamento destruiria tôda a sua paz, tôda a sua felicidade—se é que essa felicidade significa mais alguma coisa do que uma rima frívola em poesia ou do que uma imagem literária.
—Tu bem sabes, Nuno, que não sou um inexperiente em amor—asseverou Frederico.
Não era um inexperiente, na realidade. Nuno conheceu-lhe, durante muitos meses, uma ligação sentimental íntima com uma linda rapariga que êle seduzira e de quem mais tarde, saciado, fatigado, desiludido, se afastou, oferecendo-lhe um forte punhado de oiro. E, nessa ligação, que foi mais do que um capricho, a princípio, porque a sua alma nela teve interferência, encontrou Frederico a certeza de que, para o seu organismo, para a sua individualidade psíquica, as venerações eternas e conservando perpétuamente a mesma intensidade, as afinidades da carne e da emoção que estabelecem para sempre uma estreita comunidade física e ideológica entre dois seres de sexos diferentes, pelo laço do desejo insaciável, que incessantemente se renova, e das semelhanças espirituais, representam uma engenhosa mentira.
—A não ser—concluiu êle—que para além da minha experiência haja um mundo por mim ignorado.
—Porque não hás de tentar a sua descoberta?—insinuava Nuno.
—Porque não quero enliçar-me em aventuras arriscadas... Se falhasse, o mal seria irremediável.
Nuno casou, entregou-se às meigas preocupações do seu amor, não tornou a falar com Frederico, a não ser por cartas: mas êste facto nunca mais lhe esqueceu. Permaneceria ainda o amigo dentro dos apertados limites das mesmas ideias, prevaleceria no seu espírito o terror ao casamento? Era provável que assim fôsse: mas Frederico seria uma testemunha da sua felicidade, que era imperturbável e perene: e podia muito bem acontecer que modificasse raciocínios falsos. Felicitava-se por êle haver aceitado o seu convite, porque talvez a permanência naquela casa o convertesse—o que seria sumamente grato ao afecto que lhe consagrava.
—Porque não? Porque não?—monologava Nuno.
A aridez da existência de Frederico entristecia-o, porque o estimava profundamente. A-pesar da sua leviandade, duma ponta de cinismo que a vida lhe transmitira, do pessimismo que tornava estéreis os seus anos alacres e improdutiva a sua actividade, êle era um excelente moço duma lealdade firme, afável, encantador por mais dum traço da sua personalidade: e só por isto, lhe abrira alegremente a porta da sua vivenda onde com sobressalto, quáse com ciúme, guardava quanto possuía de mais querido e de mais puro...
Um berro súbito interrompeu o fio do scismar de Nuno. Frederico, já lavado do pó da viagem, já perfumado, já mudado de roupa, entrou inesperadamente na varanda, exclamando:
—Tenho andado a procurar-te por tôda a parte inutilmente.
—Estava aqui a reviver coisas extintas que a tua chegada me sugeriu. E sabes o que evoquei? Não sabes? Pois foi a última conversa que tivemos nas vésperas do meu casamento. Lembras-te?
—Perfeitamente...
—E ainda pensas da mesma forma?
—Pois que razão havia de desviar-me dêsse pensamento?
—Vejo que és um convicto no êrro.
—Como tu o és na verdade...
—Bem, bem. Não falemos mais nisso!... Ocupemo-nos de coisas proveitosas. Nem sequer viste o meu morgado... Vou mostrar-to. Anda comigo.
Enquanto se dirigiam ao quarto da ama, que comunicava com o de Nuno por uma ampla porta, êle ia-lhe fornecendo esclarecimentos sôbre o filho:
—Oh! é um respeitável senhor com as pernas e os braços às roscas de carne, uma cara rabugenta e uns olhos negros como contas de vidro que, a-pesar-de ser ainda pequenino, é já um déspota. Manda em mim, manda na mãe, que o adora, e, como os príncipes, tem servos atentos à volta da sua importante pessoa. Todos nós somos seus escravos.
Atravessavam um corredor quando Júlia apareceu com a criança ao colo, entre rendas, cambraias, laçarias de sêda.
—Aqui o tens. Vê que figurão!
Frederico curvou-se para uma carinha rosada, emergindo da brancura imaculada das roupagens, tocou-lhe levemente com a mão na face, esteve um momento a contemplá-lo.
—Hein? Que te parece?—perguntou Nuno, beijando, com ternura, o pequenino.
—Admirável!... Com certeza que a estas horas, já elegeste, para êle, um destino incomparável, já meditaste na situação que mais lhe convêm. É o primeiro dever dos pais.
—Coitadinho!—murmurou Júlia, enlevada.
—E V. Ex.a tambêm, minha senhora. Ah! as mães! Se elas forem tôdas como a minha, que era uma santa, nunca se sentarão à beira dum berço sem sonharem quimeras para os seres que lá dormem.
—Não, não! Eu apenas quero que êle viva, para o meu amor, para o amor de Nuno.
—Cá por mim—atalhou Nuno—decidi.
—Sim? Então, conta lá...
—Resolvi fazê-lo rei, dar-lhe um trono...
—Oh! Nuno, que disparate!...—interrompeu Júlia.
—Disparate? Ora essa!... Que dizes tu, Frederico?
—Eu digo que, na verdade, um trono é uma grande comodidade para os mortais, mesmo por êstes ásperos dias de democracia, de revoluções, de indisciplinados movimentos políticos e religiosos. Sim, minha senhora. Nuno está na sapiência. Uma corôa, uma rialeza, milhões de vassalos vergados e sem vontade sob o poderio dum scetro é, entre tôdas as vaidades humanas, a mais invejável vaidade. Resta saber...
Júlia ouvia saborosamente as palavras de Frederico, afagando o filho, aconchegando-o mais nos braços, encostando-o ao seio com infinitas cautelas.
—Resta saber o quê?—interrogou Nuno.
—Resta saber se o pequerrucho terá uma decidida vocação para tirano...
Riram com alarido, dando alguns passos no corredor que a meia-tinta da luz refrescava.
—Se sair à mãe, será um tirano de primeira ordem!—concluiu Nuno, rindo ainda.
—Não creia, Frederico—replicou Júlia, jovialmente. Quem aqui sofre um domínio tirânico, sou eu!... Nem pode calcular...
—Imagino, imagino, minha senhora. E lamento-a. Em outras épocas, nos séculos mortos da cavalaria, eu ofereceria a V. Ex.a uma espada libertadora. Mas, desde D. Quichote que os cavaleiros andantes não são bem vistos pela polícia. Tudo quanto posso fazer é recomendar-lhe resignação...
—Sou já uma resignada—disse ela, envolvendo Nuno num inexprimível olhar de afecto.
A ama veio pegar na criança, que agitava os bracinhos, que levava os punhos fechados à bôca e galrava, quando em baixo, no rés-do-chão, uma sineta de estridente timbre, tocou para o almôço, assustando as pombas no pombal.
—Ora, graças a Deus! Pensava que nos querias hoje matar à fome, Júlia—disse Nuno.
—Que horas são?
—Meio-dia. E Frederico deve estar com um apetite igual ao de Ugolino na sua prisão. Desde alta madrugada que rolou, através de estradas poeirentas, para nossa casa, animado na sua tortura pela única esperança duma farta mesa...
—Nem só de pão vive o homem—exclamou Frederico. Mas lá apetite há, bemdito seja o Senhor que nos fez assim glutões e terrestres.
Foram caminhando pelo corredor, ao lado de Júlia muito elegante no seu vestido de sedinha branca—um vestido que lhe modelava nítidamente as linhas corpóreas, ondulantes e flexíveis, e em que havia harmonia, graça e ritmo—entrando, por fim, na sala de jantar, que era espaçosa, clara, aprazível, com o seu mobiliário de nogueira americana, as suas três janelas abrindo para o jardim, os seus cortinados de renda inglesa, os seus brise-bise de tule bordado. Nos aparadores, as pratas resplandeciam, iluminando-se de súbitas claridades; o esmalte das porcelanas pintadas faíscava de brilhos metálicos; os cristais dardejavam a um raio de sol que incidia nas vidraças e se prolongava como um delgado fio de ouro, ardendo, fulgurando, tremendo sôbre o verniz dos móveis. Uma perturbante fragrância vinha de fora, exalando-se das corolas, subindo na aragem.
—É agradável, esta sala!—louvou Frederico.
—Como situação...—alvitrou Nuno.
—Por tudo:—pela situação, pelo aspecto ornamental, pela simplicidade, que logo revela o solícito cuidado e o bom gôsto feminino... Os meus cumprimentos, minha senhora.
—Ora! Amabilidades de hóspede amável!—disse Júlia.
—Mas não, mas não! Digo a verdade, digo o que sinto.
A larga toalha da mesa, do linho mais puro e mais fino, alvejava entre os solitários com cravos e avencas e espalhava frescura; largas cadeiras de couro lavrado, de alto espaldar e pregarias de metal amarelo, ofereciam repouso; dos pratos cheios de fruta evolavam-se vivos aromas; os morangos, colhidos de manhã, no morangal, por Nuno, perfumavam o ambiente. Sentaram-se: e Frederico, desdobrando o guardanapo vagarosamente, afirmou:
—Pois, senhores, adorável retiro para uma doce convalescença de espíritos doentes, para um perfeito exame de consciência! Aqui é o El-Dorado que o dr. Pangloss em vão procurou na terra.
—Tu o dirás!—retorquiu Nuno. Mas mais tarde. Por enquanto, é cedo para julgamentos ousados. Não te precipites, não arrisques opiniões temerárias que podem ser erradas... Chegaste há três horas apenas.
—Há três horas já? Nunca, para mim, o tempo fugiu tam ligeiro...
Júlia sorria sempre, muito rosada, muito animada, diante de tôda aquela efusão do amigo da casa, que viera trazer com o seu afecto por Nuno mais movimento e mais vida à tranqùilidade inefável da vivenda rural. Os cabelos abundantes, enrolados no alto da cabeça e apenas presos por travessas guarnecidas a ouro em que fulguravam pequenos brilhantes talhados em rosa, caíam-lhe em madeixas até ao lóbulo das orelhas, onde duas pérolas dum belo íris reluziam em fogos surdos. Na sua testa ebúrnea havia toques de luz. Frederico olhou-a um momento, assim envolvida de claridade, satisfeita na sua ventura de mulher, numa atitude que dava a tôda a sua pessoa um extraordinário poder de sedução.
—Quem tem feito uma grande diferença, para melhor, é a snr.a D. Júlia—disse.
—Sinto-me bem, com efeito!—respondeu ela.
—Eu, de resto, apenas a vi no dia do casamento, e já lá vão dois longos, fastidiosos anos. Mas parece-me que tem mais côr e mais saúde, que está um pouco mais nutrida.
—Pois, olha que veio para aqui adoentada, muito fraca—esclareceu Nuno. Meses depois do nascimento do filho, chegou a inspirar-me cuidados. Os médicos mandaram-na sair da cidade a tôda a pressa: e, com efeito, na aldeia, curou-se. Não há como o campo, para êstes milagres.
—Visto isso, minha senhora, por gratidão, deve ficar aqui, esquecer as grandes aglomerações, que são o veneno, a indigência orgânica, a morte...—comentou Frederico.
—Por mim, ficava. Mas Nuno não se acostumaria à solidão, à tristeza, ao isolamento...
E, como êle protestasse, acudiu logo:
—E nem eu, tambêm. Já outro dia falamos nisso... O inverno, neste destêrro, deve ser medonho...
O almôço decorreu alegre, no calor constante das palestras a que Frederico imprimia vivacidade e graça, com a sua verve faíscante. À sobremesa, a conversação derivou para as questões sensacionais do dia, motivadas pela guerra que, dum extremo ao outro, pegava fogo à Europa, sepultando em ruínas uma civilização que levara tantos séculos a construir. Nuno achava-a necessária, pois só por ela seria possível restituir a liberdade aos povos e a independência às nacionalidades débeis. Júlia, pensando no filho, na desdita das outras mães, nas torrentes de sangue e de lágrimas que corriam nos campos de batalha e nos lares lutuosos, horrorizava-se com uma carnificina que imolava à morte as primaveras humanas. Não compreendia a ferocidade dos homens e das nações, despedaçando-se por ambições de domínio, de hegemonias políticas, de conquistas de territórios e de mercados comerciais, quando para todos havia um lugar ao sol e um direito à existencia. Falava com uma verbosidade que Nuno não lhe conhecia e que encantava Frederico.
—V. Ex.a, minha senhora, é uma das poucas mulheres que assim pensam e eu creio que, como mulher, está na lógica e na verdade. Mas quer saber o que faz o gentil mundo feminino das potências envolvidas no conflito? Não pensa nas modas, no luxo, o que até agora parecia impossível. Trabalha nas fábricas de munições, faz granadas, engenhos de destruìção!...
—Por isso mesmo, essas mulheres são admiráveis!—atalhou Nuno, com entusiasmo.
—Admiráveis? Oh! Nuno, que heresia!—contrariou Júlia.
No seu critério simplista, ela compreendia que as mulheres, seres de abnegação e de sacrifício, destacando-se mais intensamente pela emoção do que pela inteligência, mais pelo espírito do que pelo cérebro, amassem as suas pátrias; mas era-lhe doloroso pensar que mãos de afago e de carícia, feitas para apaziguarem o sofrimento, para enxugarem com infinita doçura os olhos que choram, para sararem feridas, se ennegrecessem na pólvora, destinada a devastar homens que vão para os combates, passivamente, como as rêses para um matadouro. A sua colaboração nas pendências guerreiras nunca devia ir alêm dos hospitais de sangue, onde acalmariam dores e tranqùilizariam delírios.
—Pois, não é assim, Frederico? Diga! Seja imparcial.
—Na realidade, minha senhora, através de tôda a história, nunca vi as mulheres associadas às lúgubres matanças. Pelo contrário, tenho-as visto sempre dispostas a lutar para conseguirem tudo o que signifique elevação, nobreza, bondade, amor. Elas foram, positivamente, os melhores arautos de Jesus para a vitória do Cristianismo, que redimiu o mundo; elas impuzeram, com as religiões, a arte e a poesia.
—Então, aí está!—disse Júlia, com um sorriso triste.
—Vejo que tu não eras capaz de dar o teu filho, se ele fôsse grande e pudesse manejar uma arma, para a defesa do país—exclamou Nuno.
—Com certeza que não!—asseverou ela resolutamente e com uma grande convicção na voz. E digo-to:—para o defender da morte, eu era capaz de tudo, de tudo, mesmo dum crime.
—Pensa, portanto, no heroísmo das outras mães...
—Nenhuma delas os dará de bôa vontade... Arrancam-lhos à fôrça, cruelmente !
—Repara, Frederico! Aqui tens uma compatriota de Brites de Almeida, a padeira de Aljubarrota, de D. Filipa de Vilhena, doutras criaturas heróicas!—zombou Nuno.
—Ela está na razão, pensa como mulher—e as mulheres, verdadeiramente, só vencem pelo sentimento.
Acenderam os charutos e continuaram a discussão, enquanto Júlia, levantando-se, dava ordens á criada para que o café e os licores fôssem servidos no jardim. Nuno, que a guerra apaixonara, ia agitando ideias, condenava o pacifismo que estava fóra da sua acção eficaz:
—Positivamente, por melhor intencionado que seja, o pacifista é um produto nocivo do nosso estado de perturbações e de ameaças. Até hoje, imaginou erradamente que a maneira mais prática de realizar-se a paz seria odiar e condenar todos os movimentos armados dos povos, sem distinguir lúcidamente entre o justo e o injusto, entre a honra e a cobardia. Quando a tranqùilidade do mundo entrava numa fase precária, êsse pacifista aconselhava a transigência dos menos poderosos, o que era uma vileza.
—Mas que outra coisa poderia êle fazer?—inquiriu Frederico, interessado e soprando baforadas de fumo.
—Que outra coisa poderia fazer? Homem, desconheço-te, perdeste a sagacidade antiga! No domínio espiritual, a felicidade resulta da filosofia e da religião; e no domínio material, da sciência e do trabalho. Igualmente, e nesta ordem de raciocínios, a paz deriva do equilíbrio das potências e das precauções a tomar contra aqueles que pretenderem destruir êsse mesmo equilíbrio. A missão útil e nobre do pacifismo, se êle não andasse transviado, seria esta, portanto.
—É ainda impotente para isso—opinou Frederico.
—Porque lhe falta organização—respondeu Nuno.
Júlia reentrou na sala para dizer que o café já fumegava sob as árvores e entre as flores, à espera.
—Já lá vamos, minha senhora!—informou Frederico. Estávamos aqui a desenvolver coisas muito sérias de sociologia e de política. Nuno é terrível. Tem uma argumentação, uma dialéctica!...
—É porque estou na verdade.
Depois, debaixo dos arvoredos, o diálogo sôbre o mesmo assunto ainda continuou, caloroso, vivo, na tarde serena co Depois, debaixo dos arvoredos, o diálogo sôbre o mesmo assunto ainda continuou, caloroso, vivo, na tarde serena como a doçura e a melancolia duma rosa de luz e de sêda que se desfolhasse lentamente. A sombra, caíndo, despregando-se molemente das ramarias, espalhava na areia das ruas movediças manchas rôxas. Um ar esperto e vitalizador circulava. O sol, descendo para o poente, refulgia e dourava tudo aquilo em que tocava.
Nuno surpreendia uma beleza nova nas vastas massas de homens que avançavam para as batalhas altivamente, sem o temor no coração, sem a palidez nas frontes—nesses soldados que conheciam a embriaguez do sacrifício total a um pensamento grande e nobre e que, no élan supremo das cargas, por entre o ciclone fulgurante da metralha, tinham a visão nítida e simples das coisas, sentindo a divina claridade das almas heróicas, a alegria prodigiosa da única verdade, que é a de lutar até à morte por uma liberdade mais ampla, por uma vida melhor, pelo esplendor das nacionalidades a que pertencem.
—Porque, não tenhas dúvidas! Desta convulsão saírá uma liberdade luminosa.
—Isto é—explicou Frederico—maior extensão do privilégio. Eu não sei, realmente, em que consiste essa liberdade que tam calorosos hinos te merece...
—Não sabes? Pois é fácil sabê-lo. A liberdade perfeita consiste na absoluta adaptação dos interêsses, das actividades e das energias humanas. No nosso tempo, a adaptação de que falo é essencial entre os indivíduos; entre a colectividade e as instituições; entre as instituições e os governos. Quando isto se conseguir, a existência será mais suave e mais bela...
Na espessura dum caramanchão de madre-silvas e clematites, um melro assobiava a sua canção em louvor do claro dia; no parque, a solidão tornava-se mais profunda; perto da varanda da casa, sob a acácia, um gordo gato rebolava-se ao sol.
—Não creio que esta guerra nos dê uma liberdade mais dilatada. Quando muito, fará apenas com que a tirania empregue uma subtileza maior—contestou Frederico.
—Não crês em nada. Perdeste a fé—replicou Nuno, bebendo o seu café a pequenos, espaçados goles.
—Penso, porêm—continuou Frederico sem o ouvir—que dela saírá alguma coisa de inédito. Com efeito, uma parte do culto ocidente sossobra e afunda-se com a hecatombe. Tombaram, sucessivamente, como as messes diante da fouce do segador, as mocidades da Europa, que era a renovadora do mundo consciente pelo génio artístico e scientífico. Essas mocidades haviam sido educadas pelos antigos, pelos vélhos, pelas personalidades formadas em ideias já conhecidas, semente de que germinariam as searas futuras. Deu-se, portanto, com êste salto brusco para o mistério, uma solução de continuìdade. Do saber guardado e arquivado nos livros, pouco subsistirá. A Europa nova tem de educar-se por si, de refazer uma consciência e uma sensibilidade, um espírito e uma razão, em bases tambêm novas...
—Há talvez alguma verdade nas tuas palavras—atalhou Nuno, surpreendido.
—Quem me diz que a Europa de àmanhã não terá de ir outra vez, como na Renascença, às civilizações extintas a procurar as suas inspirações?
—Não se anda para trás. A vida evolute numa progressão ascendente...—exclamou Nuno.
—Não falo em retrocesso: falo na busca duma fonte geradora de outros ideais. No entanto, se esta peregrinação dos povos doloridos ao passado se fizer, muitas coisas hoje decadentes reconquistarão o seu prestígio.
—Por exemplo...
—O Catolicismo que, depurado das suas imperfeições e das mentiras com que os homens o desfiguram, terá belos e gloriosos dias.
—Que fantasia!
—Homem, contempla a febre, a ansiedade, com que as nações que o tinham repelido, novamente se voltam para êle, procurando uma consolação, uma alegria interior que o racionalismo não lhes oferecia. Em França os templos transbordam de fiéis. Nas trincheiras, os padres combatentes pousam as espingardas para dizerem a missa aos seus camaradas que vivem debaixo da tempestade das granadas e da fuzilaria. Não será isto uma profecia? Nas terríveis calamidades, Deus é preciso para que o sofrimento seja menor...
Júlia voltou a aparecer com o filho ao colo. O seu perfil, de linhas tam delicadas, recortava-se límpidamente no disco, na auréola luminosa de que a claridade lhe envolvia a fronte.
—Santo nome de Maria! Pois ainda discutem a guerra?!...—interrogou ela.
—Sim! Temos feito, à volta de duas chávenas de café e de dois cálices de cognac, uma enorme quantidade de filosofia, minha senhora!—disse Frederico, levantando-se e indo ao seu encontro. Nuno tem sido duma eloqùência notável... Nem V. Ex.a calcula.