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A Morte Vence

Chapter 8: III
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About This Book

The narrative presents a sunlit domestic scene in which a young mother contemplates her sleeping infant while the father shares tender admiration, with rich sensory detail of the child's fragility and the parents' physical intimacy. It follows their mutual idealization of the newborn as an emblem of shared love and future continuity, imagining inherited beliefs and virtues. Close interior description and devotional imagery alternate with moments that reveal underlying anxieties about death and abandonment, producing a tension between joy and vulnerability. The work focuses on parental devotion, everyday rituals, and the fragile hopes and fears surrounding new family life.

— Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por uma questão, é um falador incorrigível.

Nuno, que tambêm se aproximara do grupo, todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:

—Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me da minha mudez consecutiva de meses. Frederico estava interessante...

Parou, um momento, absorvido na adoração do pequenino, que mostrava os olhos espantados e que incessantemente abria e fechava as mãosinhas rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma flor humana.

—Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...—acariciava Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do queixo. Bem disposto, hein?

—Tomou agora o seu banho, sente-se feliz—disso Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a fronte do filho.

Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava nas suas palavras uma vibração, um timbre, um enlêvo que não podia definir e que o perturbavam. Na história da sua alma fazia-se uma página de poesia e de ternura, que lhe comunicava gôzo, pacificação interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia êle essa felicidade, pelos puros dons do seu carácter, pela sua bondade, pelas suas virtudes de homem. Encontrara a mulher ideal que o completou e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade, a confiança, o repouso.

—E aqui tens tu, Frederico—disse Nuno—a minha pátria grande.

—Não! A tua família... A família é apenas a unidade da pátria, como o individuo é a unidade da família.

—Bem! Que seja então a minha pequenina pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque não procuras uma?

Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou depois Júlia, agitado por sentimentos, por inenarráveis sensações que lhe pareciam incompreensíveis porque, na sua perturbação, não conseguia explicá-los, determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma revelação fulminante, via nessa doce mulher uma imagem venerável e quási religiosa para que o seu respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento de quê? Não o sabia.

—Tenho a certeza de que a não encontrava—respondeu êle. Não possuo o génio das descobertas.

—Não será isso egoísmo, Frederico?—interrogou Júlia.

—Egoísmo? V. Ex.a é injusta com um homem que resolveu sacrificar-se só a êle para não sacrificar os outros...

—Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, Júlia!— afirmou Nuno, afagando distraídamente o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas. E temos palrado tanto, justos céus!

Entraram vagarosamente na solitude dos troncos e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante, na tarde pesada e quente. Através dos ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte, sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos arbustos que punham na suavidade da penumbra uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras, bracejando junto das árvores, trepavam às ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois para o espaço livre em festões, em grinaldas, desenhando originais movimentos decorativos. Os seus aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma, que era excitante. No grande silêncio vespertino, apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam, assustadas, da torreira do sol. Frederico e Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente. A criança palrava entre as rendas e as cambraias vaporosas; e uma bica de água, correndo perto dum maciço de cedros e plátanos enlaçando, casando os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz vesperal.

—Isto é a delícia das delícias—disse, por fim, Frederico. Há muito tempo já que não me reconciliava tanto com a vida.

Enquanto êles se detinham numa clareira, reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns passos, indo sentar-se num banco rústico de cortiça que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras ainda em flor. Ao vento brando que passava, arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho. Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade, á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa, à sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam êste espectáculo imprevisto.

—As flores, para serem justas, deviam-lhe essa homenagem, minha senhora—declarou o hóspede.

O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria duma geada aromática os cabelos de Júlia, o rosto da criança.

—As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada, e o principe dilecto!—observou Nuno, enternecido. É como nos contos de Perrault, nas lendas doutras idades.

Por fim, Júlia levantou-se, tôda florida, com as faces rosadas por uma ponta de sangue mais vivo, enquanto Frederico a considerava, deslumbrado. Como era encantadora e linda, na verdade!... E outra vez louvou a felicidade de Nuno, do amigo fraterno, para quem o destino tinha sido propício e generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu coração, aquela mulher incomparável.

—Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mêdo de que a criança se constipe—disse Júlia.

—Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos, filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da solidão!...—exclamou Nuno.



III


Os dias deslizavam serenos, para Frederico, no encanto da simplicidade campestre, no íntimo convívio de Júlia e de Nuno. Nenhuma imperfeição da vida dolorosa e amarga alterava a pacificação dum ambiente que se fazia mais doce à volta de tanta ventura humana. Ao contacto permanente das coisas e dos sentimentos puros, o coração de Frederico purificava-se tambêm, como se fôsse um pouco sua a felicidade dos outros. Vivia numa espécie de esquecimento, não se lembrava de ter sofrido moralmente, parecia-lhe que, na sua existência árida, no seu sentimento estéril, desabrochava, por fim, uma rara e ditosa flor. As faculdades emotivas subtilizavam-se nêle; as tristezas, os desesperos que o haviam atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se na sua alma. Passava por uma funda renovação, penetrava-o uma fôrça estranha, formava-se-lhe na inteligência e na moral um novo princípio: e uma prodigiosa multidão de sensações espontâneas, que não sabia interpretar, convertiam-se, para êle, num intenso fenómeno psicológico.

—Parece-me que vou renascendo, Nuno!— dizia Frederico ao antigo companheiro de estudos. A alegria que existe em tua casa comunica-se-me tambêm aos nervos, à sensibilidade. E é curioso! A minha confiança no futuro, uma confiança que nunca foi grande, aumenta agora sucessivamente. Porquê? Porquê? Que elemento operou êste milagre estupendo?

—É porque só agora desperta em ti a capacidade mental para a compreensão das coisas belas—afirmava Nuno, zombando. O sêr pensante anda inconscientemente perdido no turbilhão do mundo, até ao momento singular em que acorda para a verdade. Tu nunca leste o drama de Ibsen:—«Quando dentre os mortos nós ressuscitarmos»?

—Nunca li êsse nebuloso escandinavo, na realidade...

—Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos com lucidez... Eras um morto. Começas a ressuscitar. E olha que é dêstes bons ares, desta claridade puríssima, da paz rústica, da singeleza que nos rodeia.

Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se, para melhor observar o seu caso, que era bizarro: e tinha a impressão de que convalescia duma doença de espírito e de corpo. Nesta convalescença, surpreendia-o um facto enigmático. Com efeito, alvorecia nêle um encanto desconhecido que o absorvia todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos. Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na frescura da luz, na ternura matinal, tomava o seu banho bem frio, que o tonificava, descia ao jardim que o orvalho nocturno tornava mais viçoso, passeava nas ruas, fumando, entregando-se ao prazer contemplativo, parando ingénuamente junto dos arbustos floridos. Depois, Nuno levantava-se tambêm, vinha ao seu encontro, ambos encetavam uma animada palestra, que se demorava pelos inefáveis recantos de sombra—por onde circulava um ar estimulante e ligeiro—até ao almôço. Perto de Júlia Frederico principiava a sobressaltar-se, experimentava uma ansiedade confusa que o angustiava. Nem sequer pretendia investigar a origem dêsse sobressalto, por temer que dentro dêle se fizesse uma revelação assustadora e terrível... Via-a andar dum lado para o outro, nas ocupações caseiras, tôda sorridente e natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez e destaque às linhas plásticas, dava uma irradiação maior à sua beleza de mulher completamente formada. À mesa, sentada em frente dêle, perto de Nuno, os seus olhos pensativos, iluminando-lhe o rosto, pousavam, por vezes, sôbre Frederico, que se sentia feliz sob aquela muda carícia em que nada de impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado, sem deixar resíduos de fadiga.

Nas horas de solidão e de calor, Nuno, cansado, recolhia-se ao quarto para dormir a sésta: e Frederico, pegando num livro, que escolhia na pequena biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao parque, indo sentar-se no banco de cortiça, sob a mosqueteira que, na tarde da sua chegada, peneirara uma chuva colorida de florações sôbre Júlia e sôbre o filho: e ali, fazendo esforços para recordar-se, evocava com saùdade um passado que já ia muito longe, quando a sua existência era inconsiderada e o seu pensamento não tinha inquietações. Na solidão, no isolamento, estudava-se. Fôra sempre um afectivo, por necessidades de temperamento, talvez por vícios de educação: e, justamente, essa afectividade levara-o outrora para as aventuras de amor, em que procurava o infinito para a sêde ardente que o devorava e em que sempre encontrou o desengano, a desilusão, o aborrecimento, o desgôsto. Certas imagens femininas que mais forte impressão lhe tinham produzido, despertavam um momento nas suas recordações. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide, uma pobre e linda costureira por quem se apaixonara e com quem fez um idílio saboroso que durou seis meses. O alvorôço com que para ela fôra impelido, como se essa mulher pudesse oferecer-lhe a verdade nos seus beijos!... Mas, sossegada a animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada a febre carnal, viu que se havia iludido, mais uma vez, e que a crédula rapariga que nêle confiara, entregando-se-lhe, nenhum gôzo emotivo e intelectual lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade que a posse arrefeceu.

Nuno reconhecera êste seu romance, tinha-o mesmo reprovado, dizendo-lhe que êle andava a gastar, em caprichos banais da fantasia e da luxúria, e em desvairamentos românticos, a reserva de energia sensitiva de que precisaria mais tarde para uma adoração séria que lhe enchesse tôda a vida, que o transfigurasse. Só depois, quando o desalento surgiu—e com êle o cansaço, o enfado, a saciedade—Frederico verificara que Nuno estava na razão... Que seria feito de Adelaide? Em que lamaçais profundos teria caído? Por que despenhadeiros a iria conduzindo a mão implacável do destino? Frederico, na noite em que decidiu separar-se dela—uma noite tempestuosa que decorreu entre lágrimas e lamentações—deixara-lhe sôbre a roupa desfeita do leito uma carteira com dinheiro. Fôra a sua primeira acção vil, porque nenhum ouro pagaria a felicidade para sempre destruida duma alma que era virginal quando o seu egoísmo a encontrou; mas, nesse procedimento, reprovável de-certo, guiara-o ainda a generosidade. Parecia-lhe que um punhado de notas de Banco atenuaria o seu abominável feito—e só agora reconhecia o seu êrro e a sua ignomínia...

Com o livro ou o jornal, que não lia, abertos sôbre o joelho, scismando ininterruptamente, seguindo com os olhos vagos as espirais de fumo do charuto, que se esgarçavam e ascendiam na atmosfera luminosa, Frederico, durante longas horas, revivia os seus fantasmas inertes e experimentava a sensação dum pêso contínuo que o esmagava, que esmagava tôda a sua vida. Oh! a bela quimera dum amor eterno, conservando sempre a mesma intensidade, a mesma fôrça superior de atracção, uma fonte inexaurível de sentimento, uma novidade que jàmais, jàmais, se banalizasse para os corações que fizesse palpitar! Existia êle, na verdade? Ou não seria mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras de que o mundo estava cheio e que os homens criavam conscientemente para se iludirem a si próprios?...

Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador, o exemplo da união feliz de Júlia e de Nuno surgia-lhe como a imagem tangível dêsse amor de que duvidava. Então, para explicar a contradição que lhe exacerbava o sofrimento, construía teorias originais.

—O que há é almas completas e almas incompletas. Umas, possuem uma finura sensível que as torna perfeitamente aptas para a vida amorosa. Outras não teem uma receptividade que as faça vibrar sob as influências dessa vida, e daí deriva todo o mal, que vai espalhando nas sociedades a funda melancolia contemporânea. A alma de Nuno pertence às primeiras...

De resto, Frederico entendia que as verdadeiras mulheres são as admiráveis educadoras do sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o que pode fazer os homens grandes dentro do lar. Júlia era uma dessas mulheres excelsas, pelas graças do corpo e pelas graças mais puras e elevadas do espírito: e a ventura de Nuno provinha de êle a ter encontrado no seu caminho. Por sua parte, em vão buscaria uma criatura assim, que fôsse a companheira ideal e perpétuamente desejada, a amante incomparável, a espôsa atenta, a mãe solícita! Com ela, a sua existência improdutiva entraria numa fase diversa e activa, numa realidade que nunca se extinguisse...

Lembrando-se insistentemente de Júlia, Frederico era assaltado por um sentimento curioso. Tinha a sensação especial de estar encerrado num círculo muito estreito, em que nada havia de claro, de definido, de preciso. Tôdas as impressões da natureza exterior passavam por êle, velozmente, sem lhe provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas lhe ficava, na intimidade moral, a noção profunda do seu próprio isolamento, entre a vastidão e o tumulto das aspirações indecifráveis. Sofria essa fascinação estranha que um desejo veemente—que se não abandona, porque o abandôno excitaria o padecimento, e se não procura realizar tambêm, porque a realização teria conseqùências funestas—produz nas almas!... Por cima da sua cabeça, a mosqueteira, ramalhando ao vento, sacudia os seus cachos aromáticos que se desfolhavam numa nuvem loura; ao seu lado, a fonte, correndo no jôrro faíscante da água entre musgos verdes e veludosos, cantava sempre, exalando-se em frescura e murmúrio. Frederico, extenuado de imaginação pelas suas infindáveis rêveries, erguia-se, fechava o livro inútil, o jornal mais inútil ainda, e recomeçava o passeio por entre os arvoredos, por entre os canteiros de flores, onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto, procuravam o mel. Nuno, às vezes com os olhos inchados de sono, uma preguiça que lhe comunicava lassidão, um pouco còrado, descia ao jardim, perguntava-lhe:

—Em que passaste o tempo?

—Meditando, sentado num banco do parque—respondia Frederico.

—Procuras, como S. Bruno, os logares solitários para pensares nas felicidades do céu?

—Homem, ando a tratar da minha conversão e S. Bruno, efectivamente, é um modêlo desejável.

—E se fizéssemos uma jornada mais larga, por êsses campos, por essas amplidões? Júlia podia ir tambêm...

—Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.

Iam acima chamar Júlia, calçar luvas que lhes resguardassem as mãos dos bafos da soalheira e do pó cáustico dos caminhos, e na suavidade maravilhosa da tarde, rindo, conversando, sensíveis ao mais fugidio eflúvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos escorregando por entre sébes que as madre-silvas perfumavam, por azinhagas onde havia repouso e penumbra, por congostas que os ervaçais reverdeciam. A essa hora do dia, no delíquio da luz que principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos casais disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas delgadas e direitas dum fumo branco, que algodoava o espaço. Nas eiras secava o milho, que lembrava pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes, nas pastagens, os bois erguiam um instante a cabeça, para os ver passar, fitando-os com uns grandes olhos de infinita melancolia. Júlia que marchava à frente, na elegância dum vestido de tecidos leves que lhe modelava puramente as formas corpóreas, assustava-se, tinha mêdo, soltava pequeninos gritos, acolhia-se à protecção de ambos. A palha do seu chapéu em que, entre laços de veludo negro, destacava a côr sugestiva de pálidas rosas de toucar, fazia-lhe uma sombra doce no rosto adorável. Nuno animava-a:

—Que mulher! Que criança! Tem mêdo dos bois, que são tam mansos. Oh! tôla! Olha que não fazem mal!...

Frederico ria-se e achava-a encantadora.

Cortavam através das pradarias, das lezírias, das veigas, ao acaso, sem fim. Às roupas de Júlia prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados, que as suas saias roçavam, as seivas vitalizadoras das ervas esmagadas. Sentiam uma grande e nobre pacificação interior. O gôzo íntimo emmudecia-os.

—Hein, Frederico? Como isto é diferente da cidade! Era preciso que conhecesses a aldeia, homem. A aldeia é a verdade—dizia Nuno, entusiasmado.

Frederico não conhecia a aldeia, com efeito, e nunca imaginara, vendo-a através das janelas de combóios lançados a tôda a velocidade, que pudesse seduzir sêres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava, totalmente, por uma feição atraente, que o cativava. Louvava, com sinceras palavras, a fertilidade dos extensos domínios, que são o Calvário da gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua miséria, fecundam; as casas dos camponeses, duma arquitectura rudimentar; os milheirais de longas fôlhas já sêcas, ondulando e rangendo à aragem; a paìsagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava, transmitindo-lhe animação, uma vida quáse supersticiosa, insuflando-lhe uma alma. De quando em quando, Júlia, batendo as palmas de contente, detinha-se para observar de perto as trepadeiras silvestres que se cobriam de florescências cheirosas, e as suas mãos, que eram tam lindas, tinham delicadezas extrêmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.

—Veja que beleza, Frederico!—convidava ela.

E fazia um ramo que prendia, com alfinetes, na blusa de sêda—uma sêda transparente que o tom sadio e casto da sua carne rosava.

A cada momento deparavam vergeis em que os frutos apetitosos amadureciam. Nos ramos mais altos, as maçãs còravam ao calor como faces humanas; as laranjas, no meio das fôlhas, redondas e amarelas—dum amarelo brilhante,—ofereciam-se às gulodices. A terra mostrava-se hospitaleira e generosa, e Frederico, já iniciado, sob o céu que tinha a meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia, enfim, que essa terra, mãe piedosa e inexaurível, comunicasse às criaturas um pouco da sua bondade clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes uma regra justa da vida. Diante dos casebres pobres, Júlia, compadecida, parava, contemplando com piedade as crianças rotinhas e sujas que brincavam pelos portais e pousando-lhes os dedos sôbre as cabeças. Elas fitavam-na, espantadas, com um secreto temor no olhar.

—A vossa mãe?—perguntava.

—Não está cá—respondiam elas, com modos agressivos.

Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com essa ternura que só as mulheres felizes conhecem, enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a gracilidade daquela infância murchava, dizia:

—Nas aldeias há, de-certo, muita pobreza, muita penúria. Mas tambêm há muito desleixo. Oh! senhores, uma tina de água transformaria em flores êstes pequeninos selvagens!

—Que queres tu, Nuno?—atalhava Júlia, condoída. As desgraçadas mães trabalham um dia inteiro e quando chegam a casa o que querem é repousar.

Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no meio das meninices desditosas, Frederico tinha a visão deslumbrante duma aparição celeste baixando do azul, num vôo brando, para consolar aflições, acolher no seu desamparo as plebes lacrimosas, sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a sua admiração por Júlia mais crescia. Nela tudo era perfeito, sedução, perfume, ritmo, claridade: e o encanto que derramava à sua volta penetrava-o até ao âmago da consciência. Pensando na sua beleza, na unção da sua bondade, abstraía-se por tal modo que até chegava a esquecer Nuno, marchando ao seu lado: e era-lhe necessário fazer um esfôrço violento para reentrar na realidade das coisas.

Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava a si próprio se não estaria interessando-se demasiadamente por essa mulher tam digna e tam cândida que, legítimamente, pertencia ao seu melhor, ao seu único amigo. No espírito passava-lhe confusamente a recordação doutros dias já extintos em que, entre êle e Nuno, se fôra consolidando uma camaradagem nunca interrompida; e, por isso mesmo, julgava que a fôrça secreta que o impelia para Júlia era uma traição... Uma traição? A esta ideia, ficava transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer a essência da sua admiração, da sua simpatia, para ver se nelas surpreenderia qualquer coisa de impuro: mas, a análise minuciosa tranqùilizava-o. Não! Não existia nenhuma impureza no seu sentimento. Amava Júlia santamente, como amaria uma irmã mais nova.

—Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?—interrogava Nuno, intrigado com a sua prolongada mudez.

—Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me num estado psíquico de tal ordem que me torna incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente, nem sei o que hei de dizer. Custa-me a articular os vocábulos, a construir as expressões.

Quando o crepúsculo, descendo progressivamente, idealizava as perspectívas e desdobrava sôbre arvoredos, sôbre outeiros, pelas encostas, pelos vales mais fundos, uma sombra e uma névoa que de instante para instante se adensavam e gradualmente escureciam, regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados com a natureza que lhes ofertava alegrias, prazeres nunca experimentados. Júlia, pousando os ramos de flores silvestres, que sempre trazia das suas digressões pela campina, corria para o filho, já saùdosa da sua inocência, da sua formosura. Devorava-o com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o, orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado, a Frederico, que a fitava num alheamento. Os stores subidos das janelas deixavam entrar os derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente, o céu embranquecia. Longe, as linhas dos montes tinham enredamentos complicados que decompunham uma paìsagem quáse sem realidade, fantástica, cheia de vago e de mistério.

—E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar, Júlia?—lembrava Nuno. Até nos abria o apetite...

—Pois sim! Que queres que eu toque? Prefere alguma composição, Frederico? Ou tem horror á música?

—Eu, minha senhora? Sou um guloso do som...

A delicadeza de Júl A delicadeza de Júlia, interrogando-o sôbre as suas preferências musicais, encantava-o. Não seria isto já uma correspondência da simpatia fraterna—oh! simplesmente fraterna—que sentia por ela? A suposição alvoroçava-o.

—Que eu toco mal, muito mal. Não me julgue uma grande artista. Há dificuldades que nunca me foi possível vencer. Preciso que me escute com benevolência...

—Deixa falar, Frederico. É exímia, por exemplo, em Chopin—nos Nocturnos,—afirmava Nuno.

Júlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim das teclas reluzia ainda no fulgor indeciso da luz moribunda. O verniz dos móveis perdia o brilho. A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados de renda, amontoar-se aos cantos: e um Nocturno soluçava, em harmonias, sob os dedos afusados de Júlia, em que as pedras dos aneis chamejavam fogos mortiços. Nuno e Frederico, sentados em poltronas de molas flácidas e embalados pelo afago da música, em que vozes ignoradas, vindas de muito longe, das mais recônditas regiões da alma, se lamentavam, narrando a tristeza das aspirações nunca alcançadas, os sonhos de amor traídos, as ilusões nunca realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem no segrêdo, no mistério espiritual dessa música divina que pouco a pouco, e por influxo da sua beleza, da sua potência expressional, da sua doçura penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava, pacificava as imaginações sobreexcitadas, era como que uma simbólica promessa de aspirações veementes que haviam de realizar-se e parecia conter em si o sentido oculto da graça de viver. Fóra, na noite silenciosa, a lua branca e enorme flutuava no céu, entornava o seu luar suave como uma carícia pelo jardim adormecido, sôbre as ramagens dos arvoredos imóveis do parque, alongava as formas, transmitia às coisas inertes quáse que uma emoção.

Na cozinha, em baixo, a vélha Margarida terminava o jantar. O clarão vermelho do lume, que ardia no fogão, irradiava, reflectia-se em cheio nos cobres e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois belos gatos ingleses, cinzentos e listrados de negro, ronronavam ao calor, enrodilhados debaixo duma mesa. Depois, o piano calava-se, numa derradeira vibração de som: e na tranqùilidade que envolvia a vivenda, a sineta retinia, anunciando festivamente a refeição, que se prolongava até tarde, entre as conversas.

Muitas vezes, se o tempo corria brandamente e a temperatura convidava, Frederico e Nuno baixavam ao jardim, fumando e palestrando, ou, com Júlia, iam sentar-se à varanda, entre as avencas, os fétos arbóreos, as begónias, contemplando a scenografia nocturna, que era surpreendente. Os campos solitários, sob o fulgor do luar, repousavam sem um sussurro. Um lento nevoeiro elevava-se para o alto como uma ténue nuvem de algodão, esfumando a paisagem. Os casais adormeciam na efusão luminosa, extenuados da lide diurna. A paz que caía sôbre a natureza, como uma bênção de Deus, era infinita e inexprimível. De instante a instante, a aragem desprendia das frondes fôlhas mortas que baixavam vagarosamente, quáse imperceptíveis, que se demoravam um momento, no ar, trémulas, hesitantes como asas de falenas. No seu recolhimento, Júlia dizia, em voz baixa, para não perturbar o enlêvo contemplativo em que os três se abismavam:

—Admirável! Admirável! Só o campo ainda pode oferecer êstes espectáculos aos que veem do ruído, da barafunda das cidades!...

O timbre da sua voz, que era muito puro, mais encanto imprimia ao êxtase do Frederico, sentindo que alguêm muito suavemente lhe falava à alma para revelar-lhe sensações nunca experimentadas...





Nessa manhã, Júlia, que estivera tocando a Sonata Patética, de Beethoven, descansava ainda os dedos fatigados sôbre as teclas, enquanto Nuno e Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam o parque. Uma criada entrou, de repente, na sala, com o correio. Eram cartas e jornais, de que êles logo se apoderaram para conhecerem o que a cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epístolas, lhes revelaria de mais importante. Em face da pressa com que ambos correram para a correspondência, Júlia riu saborosamente, comentando:

—As grandes aglomerações hão de ser eternamente tentadoras para os que um dia habitaram a sua perigosa confusão.

—Porquê?—interrogou Nuno.

—Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com que todos os dias esperas o correio! E dizes que te agradaria ficar aqui, para sempre...

—Viva! Viva!... Sim, senhor!—bradou Frederico, de súbito, concluindo a leitura duma carta.

—Que é, homem?

—Pois, é uma coisa estupenda. Nem podem imaginar!...

—Entrou a revolução no Vaticano? Foi proclamada a monarquia na Suíça?

—Santo Deus, não. Êsses factos consideráveis não me causariam surprêsa, porque hão de dar-se àmanhã, daqui a um ano, a dois séculos... O caso é êste:—a Alice Tôrres fugiu ao marido.

—A Alice Tôrres? Quem diabo é essa Alice?—perguntou Nuno.

—Ora, tu conheces... A Alice, uma loura, casada há dois anos com o Fernando Tôrres, que foi nosso condiscípulo na Politécnica e que não concluiu o curso...

—Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me lembro. E tu tambêm conheces, Júlia.

Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava ao piano, muito còrada do pudor melindrado.

—Sim, eu conheço-a... É uma infeliz!

—Infeliz?... Não, o nome que ela merece é outro mais violento.

—Oh! Nuno! Jesus!...

—Queres, talvez, desculpá-la?

—Não! Lamento-a... O seu acto não tem desculpa, mais inspira compaixão.

—O que êle inspira, no meu entender, é bengaladas—atalhou Nuno, brutalmente.

—O que, porêm, torna mais reprovável esta fuga é que o homem que ela seguiu foi o Vaz de Sousa, o amigo íntimo, a inseparável sombra do marido—comentou Frederico.

—O que? Que porcaria é essa?—atalhou Nuno, com furor.

—Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está aqui a coisa com todos os pormenores, nesta carta que me escreve o Alfredo de Oliveira.

E, para dar às suas revelações um ar mais solene e verídico, Frederico leu alguns trechos menos escabrosos.

—Ouçam, que tem graça:—«O grande escândalo da semana forneceu-o a mulher do Fernando Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se safou, com tôda a semcerimónia e todo o descaramento, com o Vaz de Sousa, visita permanente dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica? Admiração pelo ôlho lúbrico e pela melena do amante? Não sei! Mas o palerma do marido—que nunca percebeu que os dois há muito conjugavam o verbo inglês To flirt—está como uma bicha. Há miopias fatais e a de Fernando foi uma delas... Aqui tens tu!...»

Nuno, muito sério e sombrio, cofiava o bigode, enquanto Frederico lia. Júlia, emmudecida, curvada mais sôbre o piano, batia nervosamente com a ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O silêncio tornava-se angustiado e embaraçoso para os três.

—Que fará agora Fernando?—perguntou, finalmente, Frederico, levantando-se da cadeira em que estava sentado e dando alguns passos sôbre o tapête.

—Não faz nada!—replicou Nuno. É um imbecil e, alèm disso, é um grotesco. Ainda havemos de vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher, depois de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem bom coração, é inultrapassavelmente cómico e a sua dignidade é uma hipótese...

—Crédo, Nuno!—interveio Júlia. Pois, é lá possivel?

—Com êste idiota, tôdas as vergonhas são possíveis—afirmou sêcamente.

Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria e depois, de mãos nos bolsos, parando diante de Frederico:

—Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes o que fazia?

—Procurava uma solução violenta...

—Tu o disseste... Porque esta traição carecia dum castigo tremendo, exemplar, moralizador. Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom punhal ou uma bôa pistola, corria até os encontrar, e, seguidamente, frio, implacável como a vingança, abatia-os a tiro como dois animais malfazejos e imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à punhalada, molhando bem as mãos no sangue culpado, que escorresse das feridas, para se lavar...

Nuno falava apressadamente, com uma raiva concentrada nos olhos, que fulguravam. Júlia desconhecia-lhe aquela cólera que de súbito irrompera, costumada como estava a vê-lo sempre afável, sempre terno, cheio de delicadezas e de tolerâncias para tôdas as fraquezas humanas.

—Não há nada que mais me transtorne, que me perturbe até à loucura, do que uma deslealdade—explicou êle. E neste caso, Frederico, há deslealdade e há vileza. O coração humano tem abismos de infâmia insondáveis...

Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava na doida que um engano de amor fazia desertar do lar, para perseguir aventuras ilusórias, obrigando-a a romper com o respeito e a consideração da gente honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se de lama, a preparar por suas próprias mãos um destino que seria doloroso e cruel. Tinha-a conhecido no colégio, outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela até ao momento em que a vida as separara. E compadecida com aquele desvairamento, encontrava na sua bondade e na sua pureza um sentimento para atenuar a sua culpa.

—Vais-te?—inquiriu Nuno.

—Tenho tanto que fazer, filho!—respondeu ela.

Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a luz, entrando pelas vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se em frente um do outro, reatando a conversa momentâneamente interrompida.

—Ela era uma cabeça no ar—dizia Frederico. E o ludibriado não valia mais do que a mulher.

—Todos os maridos—retorquiu Nuno com rancor—teem as mulheres que merecem; e êsse Fernandete, já depois de casado, continuava uma existência de devassidões. Ora, o casamento é um acto de responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade mútua dos cônjuges. Fóra dêstes limites de dignidade e de nobreza, transforma-se numa miséria. Mas o que me indigna não é a fuga da adúltera. Caso banal... Ocorre constantemente... E muitas vezes, mesmo, pode até justificar-se.

—Então que é?

—Mais desprezível do que Alice e do que Fernando é êsse Vaz de Sousa, abusando duma estreita amizade e da entrada num lar que o recebia confiadamente, para praticar as suas odiosas façanhas...

—Sim, com efeito!...—aprovou Frederico.

—É reles, é dissolvente de tôda a moral.

E puxando mais a sua cadeira para junto do amigo, para que só êle o ouvisse nas confidências que ia fazer-lhe, Nuno continuou:

—O primeiro dever do homem justo é saber defender integralmente a sinceridade dos seus afectos—porque para isso pensa—e saber dominar o impulso das suas paixões bestiais—porque para isso difere dos brutos e tem uma consciência. Posso falar assim, porque já tive de repelir ásperamente dos braços a espôsa dum conhecido—um simples conhecido, nota!—que por fôrça queria enxovalhar o marido comigo.

—E quem era essa interessante dama?

—Perdoa-me. Não to digo—afirmou Nuno com energia.

—Desculpa-me... A minha curiosidade é, na verdade, irreflectida...

—Foi no último ano do nosso curso... Nunca te falei nisto, por dignidade, porque me rebaixaria. Há coisas que sujam... Mas, o mais pitoresco é que êsse marido e essa dama se transformaram, mais tarde, em meus inimigos irreconciliáveis!... Não é encantador?... Embora! Ainda hoje me louvo por esta acção, que é uma das mais belas da minha vida, Frederico!...

—Efectivamente, há beleza, há coragem, há heroísmo nela. Só conheço um acontecimento semelhante na História Sagrada—riu Frederico.

—Tu, que és justo e que és leal, vê isto:—Mete a gente, ingénuamente, na sua casa um homem que nos merece a maior confiança, para quem vai a nossa dedicação, tôda a nossa afectividade. E desde o primeiro dia em que lá entra, êsse homem, êsse amigo certo, começa a observar que a nossa espôsa é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor dos seus beijos e doce a palpitação da sua ternura. Como goza de favores que só se concedem às pessoas que verdadeiramente se estimam, há para êle as maiores deferências. Surgem as ocasiões propícias à traição, veem as intimidades, as fraquezas da mulher confiante. Diz-se-lhe uma palavra mais ousada, que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar. A sua passividade dá coragem ao sedutor para levar mais longe a audácia. Depois, ambos cúmplices no crime premeditado, encontram nêle solicitações cada vez mais fortes. São os sustos perto do marido que se engana abominávelmente, a suspeita de que êle venha a descobrir tudo e se vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por fim, chega-se à quéda irremediável, a maior injúria com que se pode humilhar uma criatura. E de quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente ao nosso sentimento, alheia aos nossos interêsses morais, à nossa alma? De modo algum! Parte dum amigo!...

—É horrivel, na verdade!—asseverou Frederico.

—É pavoroso!

—Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério em que a mulher prevarica, as ironias insultantes da multidão vão para o marido. Para a prevaricadora existem a piedade e a absolvição!...

—Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre impulsiva, injusta, não raciocina, não procura ser equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo, os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaçava-os como bêstas feras!...—concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.

Júlia, surgindo imprevistamente, veio surpreendê-los ainda no comentário fatigante daquele escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir livremente a jovialidade de Frederico.

—Então, aqui fechados, com um dia que é uma delícia, um verdadeiro dia de rosas?—exclamou ela, com uma extraordinária animação no rosto.

—Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa paz de espírito—murmurou Nuno. Queres ir até lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitação do caseiro, Frederico? É uma diversão que nos há de fazer bem!...

—Não! Se mo permites, aproveito o tempo para pôr em ordem uma correspondência atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira vivenda, há duas semanas e ainda não respondi a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto ou exilado?

—Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.

—E eu acompanho-te, Nuno—acudiu Júlia.

—Tu? Mas é admirável a companhia. O príncipe e a princesa passarão as horas fazendo le tour du proprietaire e oferecendo-se à veneração dos seus súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Então, de-pressa! Vem daí.

—Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de quem me falaste, essas crianças desgraçadas...—disse Júlia, comovida.

Au revoir, Frederico. E sê prolixo, homem... Olha...

Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Júlia não pôde perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrás da espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no escritório, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma jarra com rosas frescas que Júlia tôdas as manhãs renovava para que ali houvesse continuamente graça, côr e perfume.

Sôbre a escrivaninha de pau preto com ferragens amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um soberbo retrato de Júlia, representando-a vestida de baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis. O decote deixava a descoberto o princípio do seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma nitidez impecável de modelação, tendo a gracilidade e o movimento de certos caules de flores, ondulando à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se à corsage. Frederico esteve contemplando o retrato um instante, perdido em vagas meditações. Como ela era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda—um encanto que as lágrimas não haviam queimado. De tôda ela se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a sedução, a ternura. A casa estava impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. Júlia era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicação de mulher, com a sua abnegação, com o reflexo da sua formosura, aquela habitação em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as inquietações, assistindo à formação das suas vontades, dos seus desejos, das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava uma inexprimível consolação interior, pensando nela...

Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe à memória a cólera tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o outro—uma cólera que se adensava no olhar, que ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria uma perdurável recordação, não constituirá a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...

Para fugir ao curso mórbido das suas lucubrações, Frederico levantou-se, aproximou-se da janela, na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem. Na radiação loura da manhã, uma alegria esparsa flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de braço dado como dois namorados, afastavam-se ao longe, através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia—brancura que ficava pairando no ar macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza abatia-se sôbre o seu coração...



IV


As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando através do espaço densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz, amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, no horizonte, reverbarações imensas, eram já um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos que davam indeterminados longes á paisagem, tocando-a de lentos nevoeiros.

Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as alterações a que mandara proceder nas dependências habitadas pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas da terra, vendo crescer à sua volta outras vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas â escravidão da gleba, e enchera-o de piedade a miséria da entrevada que no seu leito, escasso de roupas, tinha um riso de resignação, absolutamente conformada com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol, segurando entre as mãos calejadas e firmes a rabiça do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, ou espalhando no húmus revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas, remendava as roupas e dirigia o ménage.

—A-pesar-de doentinha—dizia uma vez o caseiro a Nuno—ainda é uma ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande falta...

De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de alegria.

—Então, como vai hoje, snr.a Teresa? Melhorsinha, não é assim?—perguntava-lhe Nuno.

—Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!—respondia ela, com um fundo suspiro.

Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se iluminava a claridade dum sorriso.

—E a senhora e o menino?—interrogava a doente.

—Estão esplèndidos. Não há mal que lhes chegue, neste paraíso. Êles qualquer dia por aí voltam a aparecer.

—Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...

Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade existisse gente desgraçada, ordenou a construção duma casa nova ao lado da primitiva—que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos longínquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela propriedade que constituía a parte mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os estábulos para o gado, dera maior amplitude ao alpendre e à eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um mais farto veio de água de rega, canalizando-o, com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que as barbas crespas encaneciam:

—Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras hão de encher-me celeiros e tulhas!...

—Está contente?—inquiria Nuno.

—Ora! se estou contente!... Pois, o patrão faz um milagre destes e ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?

O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade do amo com a secura do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas reclamações, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não lhe perdoava um ceitil.

—Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara na mão—dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse homem de expressão dura e coração empedernido que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:

—Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, para que não venha depois com desculpas.

Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, a esperança renascia na alma do lutador destroçado que, durante uma longa existência, em vão se afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E êsse renascimento palpitava por tôda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas, nos espíritos humildes, que adquiriam maior confiança!

Entregue ao entusiasmo das suas ocupações de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs, abalava logo depois de almôço, de charuto aceso e uma côr de saúde na face máscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade nova tinha para êle um grato sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se tambêm por uma lide que desconhecia. Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir até ao fim da quinta, êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:

—Não! Eu fico, se a minha companhia te não é indispensável.

—Pois fica, homem. Fica e dorme!

—Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposições para o sono.

Então, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto de sombra e lá se demorava lendo um romance ou evocando as suas recordações e pensando no caso passional que o trazia inquieto. O calor, a irradiação crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibração especial no esplendor matutino da claridade. Até ao seu isolamento chegavam o chiar dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos desertos, a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página musical que embalava suavemente a solitude. O sol saía em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim—e a música, nesta solidão inspiradora, adquiria maior sedução e beleza. Frederico, pousando o romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande, inexplicável lassidão prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de reflexão, dum metódico exame da sua sensibilidade. Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência, que lhe aumentavam a angústia e a opressão interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, sem repouso, à imaginação—e notava que essa imagem era muito diferente da mulher que êle conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribuía êste fenómeno desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfêrmo. Monologava, atribulado:

—Eu estarei doente, na verdade? Doente de espírito e de corpo?

Como os dias que ia vivendo, no meio duma confusão e duma agitação que lhe não davam tréguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura conjugal imensa! Então, tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu coração, lucidez no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente o espectáculo que o cercava; era mais acessível à bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma esperança floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se completamente. Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, de-certo, alterações profundas, transformava-o num sêr humano que o seu próprio sentido ignorava. Que doença seria essa? Física ou espiritual? E se fôsse espiritual, proviria da influência duma luz súbita, revelando aos seus olhos uma felicidade possível, ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia estas interrogações a si próprio, sem encontrar uma resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente, era ditoso pensando em Júlia—e êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um perigo imediato, uma catástrofe de que não pudesse já desviar-se. Ela era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido imersa na ventura que êle lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, para mais intensamente sentirem a pulsação dos corações. Frederico, absorvendo-se em ideias de que não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente obsessão, em sensações que o não abandonavam, ao estudar a sua psicologia com pavor de chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava, para se iludir:

—Verdadeiramente, não a amo com um amor físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que não quero fugir.

Concentrando-se, calculava as consequências que uma adoração menos pura por Júlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como um remorso ou como um crime, essa adoração que nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada por longos anos de dedicação, lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe trouxera a vida, a bôa fortuna que nela—na sua pureza, na sua beleza, na sua devoção—encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava que seria infinitamente desgraçado. Tinha mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de cogitações dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso e colorido orvalho de pétalas, monologando:

—Ah! não, que horror! Não sinto ainda por Júlia uma paixão sensual, não a desejo pela carne, não me impele para ela um fogo impuro, uma fôrça abominável. Quando essa paixão chegar—se é que ela tem de vir—saberei ser enérgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...

Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável mácula, a santidade daquele lar; não toldaria a pacificação daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos já abençoados por uma inocência angélica; não conturbaria a limpidez da sua afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía uma dignidade, uma irredutível inteireza de carácter. De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons mais nobres e elevados duma dedicação admirável, seria a primeira a repeli-lo com indignação, a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo fóra da porta como um ladrão que ali penetrasse para roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera que a imensidade da traição praticada mais avolumasse, ferozmente, as mãos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder. Nunca fôra timorato. O que o assustava mais era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.

—Quantos disparates a minha fantasia enfermiça arquitecta!—diria Frederico, zombando forçadamente.

Com efeito, o irremediável não se interpusera, por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar absolutamente tranqùilo, sem còrar da perversidade duma acção que nem sequer se esboçava. Mas que infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situação alarmante que já o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitação, pela primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma transformação de tal ordem? O convívio de tôdas as horas, a ambição duma ternura igual àquela, o renascimento de ilusões que julgava extintas, deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o seu veemente desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade? Podia ser acusado com eqùidade e justiça, pela consciência e pela inteligência que lhe formavam a individualidade psicológica e mental? De-certo que não! Êste subterfúgio apaziguava-o...

Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia tambêm, um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com o coração pulsando desordenadamente, o sangue circulando com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se nítidamente na leveza e na frescura duma blusa de sêda branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, fino e alto, o princípio do colo, em que a pele se dourava à luz, uma parte dos braços que emergiam, admirávelmente contornados, da espuma de rendas das mangas: e isto provocava uma atracção irresistível, tornava mais áspera a sua ânsia. Júlia, avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos, falava-lhe:

—Então, para aqui só, aborrecendo-se mortalmente?...

—Oh! minha senhora, que ideia!

—Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...

—Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... Hoje, apetece-me o isolamento.

—Tem, talvez, conversas com os espectros das suas saùdades...

—Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado da própria saùdade. Ninguêm se interessa, por mim!

—Ninguêm?—interrogava Júlia, risonha e duvidosa.

—Ninguêm...!—afirmava Frederico, fitando-a.

Mas arrependia-se imediatamente da fixídez com que a olhava, no receio de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos—e muito perturbado, desviava a vista.

—Creio eu lá nisso!—acrescentava ela.

Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco, perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a que pretendia imprimir naturalidade:

—As minhas leituras predilectas são as biografias, a correspondência dos grandes homens, as obras de psicologia.

—Porquê, porquê?

—Porque me interessam as almas superiores...

Júlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o título.

—Em todo o caso, lê tambêm romances!...

—Nos romances, há ainda almas, minha senhora...

—De que trata êste?

—Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era incomparável de elevação, de fervor, de constância...

—Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoção e na ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.

—Sempre?... Eis um belo êrro!

—Ora essa! Êrro?... Não compreendo...

Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, podia traír-se, Frederico deu novo rumo à conversação.

—A uma mulher é que nunca se deve perguntar quais são os livros da sua preferência, snr.a D. Júlia.

—Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe já o que prefiro, em literatura:—são os poetas líricos.

—Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta às senhoras, porque na selecção das leituras os espíritos femininos revelam-se.

—Ah!—atalhava Júlia. Não sabia!...

E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar aparições inefáveis, longínquas, imprecisas.

—Talvez haja alguma verdade no que diz—exclamou ela.

—Creio que há tôda a verdade...

De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:

—Nuno demora-se tanto!...

E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos gestos:

—Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de misericórdia. É um santo. A miséria da família do caseiro atormentou-o.

—Um coração de ouro!—concordava Frederico.

—Não é verdade?—atalhou ela, tôda interessada e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.

—Um coração de ouro!—repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a convicção e a sinceridade—uma alma como poucas existem!...

Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:

—Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado, com as suas lembranças?

—Ainda fico, minha senhora, mas só, sem recordações, uno e indivisível, em corpo e em alma.

Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa tépida e odorífera como que emanava a vaporização duma volúpia tôda esperitual em que não havia nenhuma instigação inferior da animalidade, da substância, do sangue, dos nervos. A notação fina desta particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do condão de reconciliarem com a espécie o homem de temperamento sensível...

Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava, um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mãos cheias de terra, veio encontrá-lo ainda sentado no banco, meditando.

—Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, Frederico!—gritou êle, surgindo, de repente, do meio das árvores.

E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicações, esboçando projectos de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vélho Mateus sôbre a lida agrícola. Até, para se exercitar, para desemperrar as articulações, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava as botas enlameadas, as mãos vermelhas do exercício violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regiões longínquas, irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:

—Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?

—E porque não?—replicou Nuno, muito sério.

—Homem, isso é ainda literatura, poesia rural à maneira das Geórgicas...

Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar à lavoura a sua existência improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, à colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo experiências em que constantemente pensava desde que se instalara na quinta.

—Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho trilhado por uma rotina secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando as inovações que, com menos dispêndio de fôrças, aumentariam a produção e ofereceriam óptimas compensações.

—Santo Deus, como vais de-pressa!—contrariou Frederico. Mas isso é a multiplicação dos pães de que nos fala uma doce página da Bíblia. A multiplicação dos pães? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais considerável. Chegas, da cidade, vestido como um dandy, nada sabes de agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu charuto...

—Não rias, Frederico! Olha que começou, na verdade, para mim, uma vida nova...

—Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula já à aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É como nos contos do fadas...

— Bem! Não há maneira de nos entendermos—concluiu Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A fraqueza excita o teu delírio.

Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda satirizava as intenções de Nuno, afirmando:

—Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares à terra, então sempre te digo que há tôdas as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...

—Arruìnar-me?

—Não tenhas dúvidas! Um simples pão, que podes comprar por um vintèm em qualquer padaria, agricultado por ti, com máquinas para arar a leira, máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o que é, na realidade, barato, não te parece?

Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca e o vago das suas sombras, descia apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso múrmurio que fôsse como que a confissão da natureza para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraças lampejavam batidas por um súbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já quando os esperava Júlia—e a palestra reatou-se:

—Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!—exclamou Frederico, sentando-se.

—Parabens, porquê?—interrogou ela.

—Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura. É bem provável que esta habitação mundana venha a transformar-se em herdade, brevemente.

—Está hoje impossível, Júlia!—retorquiu Nuno. Não compreende que um janota como eu venha a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui definitivamente, a despir-se de todo o artifício por amor à naturalidade.

—Ouve-o? É a renovação que começa. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell das colheitas.

—E porque não? Porque não?—perguntou Júlia, olhando demoradamente o marido.

—Tambêm V. Ex.a?... Belo! Já está convertida. A coisa é mais importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento duma religião nova...

A conversação alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos móveis e a coloração das flores que morriam nos solitários. A serenidade em que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os menores ruídos. A criada que servia à mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da louça que se entrechocava. Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De vez em quando, o som duma viola passando para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...

No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o beijo costumado e apertando a mão de Frederico, para tratar da refeição dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e divagando...

Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o consumia, reencetou as suas lucubrações, sentando-se numa poltrona e deixando correr as infindáveis horas de pacificação exterior. O que agora temia era que nêle se viesse a dar o violento conflito do espírito e do instinto, perto de Júlia—o que seria um suplício que mais lhe atribularia a amargura de viver. Observava que já ao lado de Nuno não estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um constrangimento inexplicável. E porquê? De-certo que o amigo tinha para êle as mesmas delicadezas, as mesmas atenções, a mesma inefável simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento de paixão irreprimível que pusesse Nuno de sôbre-aviso? Não! Claramente, não! Tôdas as suas dúvidas nada mais representavam do que uma perversão da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos sentidos...

Ainda não sabia se amava Júlia—porque tinha mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente; se a admiração que lhe dedicava era de essência espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbação que o alvoroçava, ninguêm—nem êle mesmo—conheceria êsse amor insensato, que ficaria para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...

Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a mulher admirável para quem ascendiam, como um incenso, a sua crença pura e a sua admiração exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a circulação do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam, como uma núvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente, a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico erguia-se, dava alguns passos irresolutos sôbre o tapête fôfo, e voltava a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, que fruía uma indizível ventura com a posse da mulher esplêndida (que tambêm o aliciava a ele—e com que formidável intensidade! Então, enclavinhando a mão trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra si próprio.

—Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...

Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade inquebrantável e fidelíssima, a afeição cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua família, devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E êle, correspondendo a esta confiança, a êste afecto, a esta devoção, estava ali, naquele doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presença de Júlia no seu tálamo—um tálamo que a adoração mútua santificava e em que o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas novas e esperançosas.

—Não! Isto é verdadeiramente infame!—exclamava Frederico, acusando-se com rancor.

Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de Júlia perseguia-o; a inquietação permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quáse imputava a Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitação que o alucinava; mas logo caía em si, arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto! Ela não fizera nascer, por uma só palavra, por uma atitude suspeita, por uma irreflectida coquetterie, o sentimento funesto que o invadira. Frederico é que não pudera dominar-se, ser casto, ser nobre, ser refractário a um desejo vil. O culpado único do seu tormento era êle, certamente. E julgava que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tôdas as suas lágrimas não valeriam uma única das lágrimas que Júlia choraria, se êle tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela bondade, pela elevação moral, pela formosura, corpórea.

Em determinados instantes, o seu cérebro tinha uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos há muito olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por exemplo, de ter lido há muito tempo, num livro de que esquecera o título, esta sentença que agora solicitava particularmente a sua atenção:—«Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza é uma simples exteriorização da forma. Tudo é susceptível de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra. Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar tôdas as aspirações de beleza num sêr único, o segundo será o de preferir a beleza da alma à beleza físicamente