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A Velhice do Padre Eterno

Chapter 23: I
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About This Book

Uma coletânea de poemas que alterna lirismo devocional e sátira mordaz, usando imagens bíblicas e litúrgicas para examinar a fé, o poder clerical, o sofrimento social, a mortalidade e o choque entre razão e tradição. Os textos variam entre endereços ternos aos fiéis simples e retratos irônicos de ritos e instituições religiosas, contrapondo memória pessoal e crítica pública. A linguagem oscila entre candura reverente e invectiva cáustica, recorrendo a parábolas, cadências hímnicas e apóstrofes diretas para expor hipocrisia, pobreza e anseios humanos, enquanto reflete sobre morte, crença e injustiça social.

Bemdicto Carlos sete e D. Miguel segundo.


s. ignacio

Bemdicto seja o tigre e o lobo carniceiro.


coro de santos

Bemdicto seja el-rei D. João terceiro.


s. ignacio

Bemdictas sejaes vós, ovelhas de Maria.


coro de santos

E mais a vossa lã, e mais quem n'a tosquia.


s. ignacio

Bemdictos os chacaes, bemdictas as toupeiras.


coro de santos

E a lingua da verdade e as linguas das fogueiras.


s. ignacio

Bemdictos os febris venenos orientaes.


coro de santos

E o Santo padre Borgia e muitos Santos mais...


s. ignacio

Bemdicta a nossa Fé, bemdicta a nossa Egreja.


coro de santos

Bemdicto o nosso ventre! Amen. Bemdicto seja!



COMO SE FAZ UM MONSTRO


I


Elle era n'esse tempo uma creança loira
Vivendo na abundancia agreste da lavoira,
Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados,
Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,
Atravessando á noite os solitarios montes,
Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes,
Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos,
No rijo e negro pão cravando os dentes brancos,
Radioso como a aurora e bom como a alegria.
Quando no azul do céo cantava a cotovia,
Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada
Transportava ao casebre o leite da manada,
Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,
Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos.
E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens,
Na fantasmagoria esplendida das nuvens,
Colorista febril, lança, desfaz, derrama
O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama,
Elle ia então sosinho, alegre intemerato,
Conduzindo a beber ao tremulo regato,
A golpes de verdasca e gritos estridentes,
N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes.
O seu olhar azul de limpidez virtuosa,
Onde brilhava a audacia heroica e valorosa
A candura infantil e a intelligencia rara,
O timbre da sua voz imperiosa e clara,
A linha do seu corpo altivamente recta,
Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta
Em miniatura.


II


Um dia o pae, um bravo aldeão,
Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:

«João:

Á força de trabalho e a força de canceiras
A moirejar no monte e a levar gado ás feiras,
Consegui ajuntar ao canto do bahù
Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu,
Além de ser mais novo, és mais intelligente.
Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente.
Hasde-me dar ainda um grande prégador.
Hoje padre é melhor talvez que ser doutor.
Aquillo è grande vida; é vida regalada.
Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada.
Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço!
Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço,
Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas,
Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,
E a missa seis vintens e doze os baptisados.
Depois independente e sem nenhuns cuidados!
Olha, João, vê tu o nosso padre cura:
É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura.
Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos;
Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos.
Isto é desenganar; padres sabem-na toda...
É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda,
É pinga da melhor, é tudo quando ha!
Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá.
Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não
Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição.
Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira!
É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira
Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova
Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»

III


N'uma tarde d'outomno a somnolente trote
Um macho conduzia em cima do albardão,
Já columna da egreja, o novo sacerdote,
O muitissimo illustre e digno padre João.
Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes,
Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito
Um velho recebeu nos braços paternaes,
Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito
Que acabava de vir das jaulas clericaes.
Que transfigurão! que radical mudança!
Em logar da innocente, angelica creança,
Voltava um chimpanzé estupido e bisonho.
Com o ar de quem anda hallucinadamente
Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho.
Seu corpo juvenil, robusto e florescente
Vergava para o chão exhausto de cansaço:
Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina
Já vai pesando mais que as armaduras d'aço.
A ignorancia profunda, a estupidez suina
A luxuria d'egreja, ardente, clandestina,
O remorso, o terror, o fanatismo inquieto,
Tudo isto perpassava em turbilhão confuso
Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto,
Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso.
Metida nas prisões escuras de Loyola
A sua alma infantil, não tendo luz nem ar.
Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola
Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.

IV


Como ninguem ignora, os sordidos palhaços
Compram, roubam às mães as loiras creancinhas,
Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços,
Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas,
E exhibem-nas depois nos palcos das barracas
Dando saltos mortaes e devorando facas
Ante o espanto imbecil da ingenua multidão;
E para lhes cobrir a lividez plangente
Costumam-lhes pintar carnavalescamente
Na face de alvaiade um rir de vermelhão.
Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,
Palhaço clerical, anda pelos caminhos
A comprar, a furtar, assim como um cigano,
As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos.
Vão leval-as depois ao negro seminario,
Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,
E escondem-nas da luz, assim como o usurario
Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro.
Dentro da estupidez e da superstição,
Casamata da fé, guardam-lhes a razão,
A analize, esse forte e venenoso fluido,
Que, andando em liberdade, ao minimo descuido
Poderia estoirar com tragica explosão.
O que o palhaço faz ao corpo da creança
Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,
Em logar do histrião que nas barracas dança,
O pobre missionario, o inutil manequim,
O histrião que nos prega a bemaventurança
A murros do missal e a roncos de latim.
As almas infantis são brandas como a neve,
São perolas de leite em urnas virginaes.
Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve
Cristalisa em seguida e não se apaga mais.
D'esta forma consegue o astucioso clero
Transformar de repente uma creança loira
N'um passaro nocturno estupido e sincero.
É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira
A marca industrial do fabricante—um zero!



CALEMBOUR


Ó Jesuitas, vois sois dum faro tão astuto,
Tendes tal corrupção e tal velhacaria,
Que é incrivel até que o filho de Maria
Não seja inda velhaco e não seja corrupto,
Andando ha tanto tempo em tão má companhia.



A AGUA DE LOURDES


Se ergueis uma capella á agua milagrosa,
Esse elixir divino,
Então erguei tambem um templo á caparosa
E outro templo ao quinino.

Se a agua faz milagre, o que eu vos não discuto,
E por isso a adorais,
Ajoelhemos então em face do bismuto
E d'outras drogas mais.

Façamos da magnesia e cloroformio e arnica
As hostias do sacrario;
Transformemos o templo emfim n'uma botica
E Deus n'um boticario.

Que a vossa agua opere immensas maravilhas
Eu não duvido nada:
É o Espirito Santo engarrafado em bilhas,
É o milagre á canada.

Desde que se espalhou pelo universo o echo
Do milagre feliz,
Tartufo nunca mais encheu o seu caneco
Em outro chafariz!



ANTONELLI


Uma loba emprenhou um dia de Tartufo,
E Antonelli nasceu d'este consorcio bufo.

O seu labio despresa; o seu olhar dardeja.
Cassagnac de Deus, guarda-costas da Egreja,

Redige as pastoraes brutaes de que se nutre
Co'um tinteiro de treva e uma penna de abutre.

Bossuet-Ferrabraz e Falstaf-Isaias.
Bebe petroleo negro e gim nas sacristias.

Não ha pomba mais tigre ou Santo mais demonio:
Fera,—como Caim! rato,—como Polonio!

N'aquelle olhar nocturno, inquizidor, que assusta,
Ha Nero a murmurar nas sombras com Locusta.

O cabeção que traz na batina de lilla
Erriçam-no punhaes: era d'um cão de fila.

O tigre deu-lhe o amor e o bode a castidade,
Para um dia expulsar do mundo a Liberdade

Fez um latego atroz, que corta e que esfarrapa,
Atando uma serpente ao baculo de um papa.

Quando observo esse monstro, essa alimária brava,
Hercules que talhou d'um hyssope uma clava,

Ao vêr-lhe os rins de bronze, e ao vêr-lhe a erecta fronte,
Creio estar contemplando ao longe, no horisonte,

Entre o rubro esplendor d'uma manhã sonora,
Um bufalo de treva ás cornadas na aurora!



O DINHEIRO DE S. PEDRO


De tal modo imitou o papa a singileza
Do martyr do Calvario,
Que á força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionario.

Tu hoje pódes vêr, ó filho de Maria,
O teu vigario humilde
Conversando na bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rotschild.

A cruz da redempção, que deu ao mundo a vida
Por te aver dado a morte.
Tem-a no seu bureau o padre santo erguida
Sobre uma caixa forte.

E toda essa riqueza immensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, oh Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros!



AO NUNCIO MASELLA


O Padre Eterno está coberto do masellas,
E tu, (teu nome o atesta, ó bonzo,) és uma d'ellas.
Masella, escuta:

Deus, o Deus em que acredito,
Essa luz que allumina essa noite—o infinito,
Esse efluvio d'amor que em tudo anda disperso,
Espirito que, enchendo o abismo do universo.
Cabe com todo o seu vastissimo esplendor
N'um olhar de creança ou n'um calix de flor,
Esse Deus immortal, unico, bom, clemente,
O Deus de quem tu es o hereje e eu sou o crente,
Esse Deus ó Masella, é um Deus plebeu e humilde,
Cuja firma não dá nos banqueiros Rotschild
Credito algum, um Deus descalço e proletario.
Que em vez de libras guarda em seu profundo erario
Montões d'astros, um Deus do tal maneira vil,
Que não tem cortezãos, não tem lista civil,
Nem bispos, nem cardiaes, nem sacristães, nem tropa,
Nem nuncios para dar pelas côrtes da Europa
Em doirados salões e esplendidas estufas
Festins onde se serve o Evangelho com trufas,
A Biblia com champagne, e a alma de Jesus,
Bem picada, recheiando os faisões e os perus!

Embaixador de quem? de Christo? não; do papa.
Quem é o papa?

Um Deus inventado á sucapa,
Um Deus para fazer o qual bastam apenas
Quatro coisas:—cardeaes, papel, tinteiro e pennas.
Deita-se n'uma saca uma lista qualquer.
Qualquer nome—Gregorio, ou Borgia, ou Lacenaire,
Ou Papavoine—e prompto! em dois minutos fica
Manipulado um Deus authentico, obra rica,
Tonsurado, sagrado, infalivel, divino...
Quer dizer, sahiu Deus d'uma bolsa do quino!
É um Deus por concurso, um Deus feitos por tretas,
E em cuja divindade ideal ha favas pretas!
Apezar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio
O Espirito Santo, esse pombo correio
Da Providencia. É elle o redemptor e o oraculo.
A humnidade vai adiante do seu baculo,
Soluçando, ululando, exhausta, ensanguentada
Pavoroso tropel de sombras pela estrada
Do destino fatal. O pensamento humano
É simplesmente um cão sabujo e ultramontano,
Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro,
Que o papa recolheu de noite n'um monturo,
E a quem ás vezes dá com parcimonia biblica
A pitança d'um Breve e o osso d'uma Enciclica.
Um papa é isto:—um juiz sem lei; omnipotente.
Czar das consciencias. Póde irremessivelmente
Chamuscal-as em fogo, ou torral-as em brazas,
Ou fazer-lhes nascer das costas um par d'azas.
O globo é para elle a bôla d'um bilhar.
Domina os reis. O Throno é o lacaio do Altar.
Seus templos são prisões e seus dogmas algemas.
Cingem-lhe a fronte augusta e nobre os tres diademas,
E na potente mão, invencivel harpeu,
Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu.

Masella, o theatro é velho, a receita é pequena,
E ha mil annos que está a mesma farça em scena.
Abaixo a farça! Abaixo o pardieiro divino,
O céo, que já não tem nem sombras de inquilino.
Serafins, cherubins, anjos, legião eterna
Dos eleitos, tudo isso andou, poz-se na perna,
Deixando lá ficar, ó cafila d'ingratos!
O cadaver d'um Deus roido pelos ratos.
Abaixo o inferno, aonde os démos, meus Irmãos,
Não têm fogo se quer para aquecer as mãos;
Porquê lá onde a curia os rebeldes despenha
Ha sobra do infieis, mas ha falta de lenha.
Já nem é forno; aquillo é adega sombria,
Onde o defluxo faz a côrte á pneumonia,
E onde não ha nariz precito que ande enxuto.
Cada heresiarca suja um lenço por minuto,
De modo que hoje o inferno (oxalá que m'o evites,
Masella!) é de temer por causa das bronchites.
Abaixo o purgatorio! Entre chamma ex-faminta,
Que reclama com ancia algumas mãos de tinta,
Gelam reprobos nus, reprobos em pelote,
Que precisam d'um fogo, ó céos, ou d'um capote!
Abaixo a farça! abaixo o entremez da paixão,
Porque o Christo é de gesso e a cruz de papelão.
Abaixo essa parodia infame em que agonisa
N'um Golgota de lona um clown sem camisa
Que, depois d'expirar convulso, de repente
Salta abaixo da cruz funambulescamente,
E arranca às multidões assombradas e mudas
A esportula—que cai no saquitel do Judas.

Não! o martyr que fez com o seu olhar sublime
O luar do Perdão para a noite do Crime,
E que abriu com a luz da bemaventurança
N'este carcere—a vida, esta janella—a Esp'rança,
O semi-deus que està, com um farol de gloria
No topo da montanha escalvada da historia
Contemplando o infinito e illuminando a terra,
Essa alma que a flôr da alma humana encerra,
Não é vossa, não é de qualquer confraria
Que dispõe d'uma adega escura, d'uma pia
E d'um padre, não tem o domicilio em Roma,
Não é vinho nem pão que se beba ou se coma,
Merendando, em familia. Ess'alma Universal,
Essa concentração divina do Ideal
É de quem soffre, é de quem geme, é de quem chora,
É de todos que vão pela existencia fóra
Tristes—santo, ou heròe, ou escravo, ou proscripto,
Calcando o lodo e olhando os astros no Infinito.
Quando Christo inclinou, morrendo, a fronte calma,
Foi a Egreja buscar-lhe o corpo e o mundo a alma.
A Egreja recolheu a cinza e nós a luz.
E, louca! julgou ser a esposa de Jesus,
Porque estreitava ao peito um cadaver gelado!
Dez seculos durou na treva esse noivado.
Dez seculos passou a funebre bacante
N'um sepulchro a oscular as gangrenas do amante,
Unido a cada chaga immunda um beijo em flôr,
Tentando reviver ao furioso calor
D'esses beijos um corpo inanimado e frio.
Que tragedia dantesca esse himeneu sombrio!
Pobre Heloisa da morte, o teu casto Abeillard
Nem para ti abriu o azul do seu olhar,
Nem murmurou baixinho uma palavra só!
E o Deus tornou-se em lodo abjecto e o lodo em pó!
E na campa nupcial, no talamo—sentina,
Da carcassa d'um Deus funebre Messalina,
Putrefacta expiraste ao pé da podridão.
É que um cadaver, seja ou d'um Christo ou d'um cão.
Materia morta, exhala a mesma pestilencia.
Só a alma é immortal; só essa pura essencia,
Jámais se decompõe ou jàmais se aniquila.
O corpo é simplesmente a alampada de argila;
A alma, eis o clarão. Por isso o Nazareno
Pertence ao mundo. Tu escolheste o veneno,
O cadaver, e nós o Espirito, a alvorada.
E foi com essa hostia esplendida e sagrada,
Com a alma de luz do Filho e Maria
Que o mundo celebrou a grande eucharistia,
Egreja!... O coração da victima innocente
Comungamol-o nós: diluiu-se ethereamente,
Cheio de paz e amor, no coração humano.
Foi um sol que expirou. Onde tombou? No oceano.

Mas como, p'ra poder explorar sem canceira
Com o inferno—essa mina, a terra—essa melgueira,
O velho Padre-Santo, o Redemptor-Tichborue,
Precisa d'um Jesus sangrento que lhe adorne
O altar, e aos pés do altar necessita que esteja
Toda banhada em pranto a noiva eterna, a Egreja,
E como o noivo e a noiva ambos tinham morrido,
O Padre Santo, que é um padre divertido,
Mandou escripturar então por um cornaca
Uma Egreja a um bordel e um Christo a uma barraca.

Fóra esse Deus! Abaixo esse Deus salafrario,
Deus com ramo de loiro á porta do Calvario,
Deus que marcha ao suplicio, á epopeia da Dôr
Com Cyreneu na frente a rufar n'um tambor,
Deus de quem Harpagão é caixeiro e Tartufo
Guarda livros, um Deus palhaço, um Christo bufo,
Um martyr de aluguel, ebrio, que se apregoa
Com guisos atinir nos espinhos da c'roa,
Um Deus a quem Mandrin passou folha corrida,
Um Deus que fez da morte o seu modo de vida,
Um Deus que representa a farça da Paixão
Pintado, ensanguentado a vinho e a vermelhão,
Um Deus que sobe ao céo, acrobata farnesio,
Em aerostato, a vai no banho d'um trapesio
A fazer o signal da cruz e a prancha com limpeza
Identica, arrojando á multidão surpreza
Bençãos anjelicaes variadas e embrulhadas
Em prospectos, e emfim descendo ás gargalhadas,
Para ir repartir em qualquer sacristia
Os lucros da função por toda a companhia!

Que regabofe! O Christo, um magro actor de fama,
Estropeado galan senil depois do drama,
Lava o gesso e o zarcão da tromoia sangrenta
Com a esponja do fel na pia da agua benta.
A Magdalena, vesga e sordida rameira,
Guarba os seios de estopa, o prato, a cabelleira,
Limpa a maceração do olhar, que causa asco,
Feita a rolha queimada e inutil d'algum frasco
De mercurio ou de absinto, e, como uma alcateia,
Atira-se esfaimada ao bacalhau da ceia.
O bom do Cyrineu, a transpirar, pragueja;
Manda aos quintos a cruz e manda ao diabo a egreja;
Despe a farpela, e bebe a rir alegremente,
D'um trago só, canada e meia de aguardente.
Pilatos o pançudo e calvo safardana
Ronca, dormindo. A vil soldadesca romana
Tira as barbas, e põe muitissimo pacata
N'um bahu—os morriões e espadagões de lata.
O bom e o máo ladrão jogam a bisca. O anjo
Que partira o sepulchro, um robusto marmanjo,
Desaparafusando as azas d'oiro e o nimbo,
Pede ao velho Caiphaz lume para o cachimbo
E grave e silencioso, a um canto o thesoureiro
—Judas—reparte, empilha em montes o dinheiro
Da recita, tirando o quinhão do empresario
—O Papa—a quem pertence o Theatro do Calvario.
E dividida a prosa e ruminada a orgia,
Ao sagrado e doirado alvorescer do dia,
Lá vai esse roldão de sevandijas podres,
Cambaleante tropel de ventres feitos odres.
Indo dormir talvez, oh pandega, oh delicia!
Jesus co'a Magdalena—á esquadra de policia.

Vamos! basta de farça, e basta de farçantes!
Mil bombas a vapor jorrem desinfectantes
N'esse velho bordel da Egreja—o vaticano,
Colera! faz-te mar, Justiça! faz-te oceano,
E inundae, submergi o Versalhes maldito
De Jehovah—Rei-sol macrobio do infinito.
Vamos, fogo ao covil! E emquanto os salteadores,
Nuncios, bispos, cardeaes, conegos, monsenhores,
—Truculenta manada obesa de hipopotamos—
Virgem-mãe dos heróes, ó Liberdade! enxotam'os,
E faze-m'os transpor, a grunhir, sem demoras
As fronteiras do globo em vinte e quatro horas!



LADAINHA MODERNA


S. Leão 13—dai-nos bons bispados,
S. Leão 13—que nos possam dar
S. Leão 13—vinte mil crusados.
S. Leão 13—fòra o pé d'altar.

Santo Antonelli—dai-nos confessadas
Santo Antonelli—novas, já se vê;
Santo Antonelli—é melhor casadas,
Santo Antonelli—bem sabeis porque...

Ó Santo Borgia—ha tanta gente avara!...
Ó Santo Borgia—ha tantos imbecis!...
Ó Santo Borgia—como se prepara,
Ó Santo Borgia—o tal xarope... diz!...

Santa de Lourdes—sois incomparavel!
Santa de Lourdes—muita agua deita
Santa de Lourdes—vossa inexgotavel
Santa de Lourdes—fonte... de receita!

Ó Santa madre—miseros, mesquinhos,
Ó Santa madre—vemo-nos atonitos,
Ó Santa madre—p'ra educar sobrinhos
Ó Santa madre que tem paes incognitos.

Ó Santa egreja mete-nos, no buxo
Ó Santa egreja—p'ra dár tom á fibra,
Ó Santa egreja—alguns te-deuns de luxo
Ó Santa egreja—e muita missa a libra

Santo Cinismo—chapa-nos nas faces
Santo Cinismo—um tal estanho emfim,
Santo Cinismo—que tu mesmo embaces
Santo Cinismo—ao vêr cinismo assim.

Santa Intrugice—entrega as almas toscas
Santa Intrugice—ás nossas artimanhas...
Santa Intrugice—Deus destina as moscas
Santa Intrugice—ao papo das aranhas.

S. Regabofe—dai-nos bambochatas
S. Regabofe—até rollar no chão...
S. Regabofe—pipa e sermonatas!
S. Regabofe—porco e cantochão!

Santa Barriga—unica santa nossa,
Santa Barriga—grande santa és!
Santa Barriga—alarga, estende, engrossa
Santa Barriga—e vai da boca aos pés

Santa Preguiça—Santa que consolas,
Santa Preguiça—não ha nada igual
Santa Preguiça—a um bom colchão de molas
Santa Preguiça—e mais etcet'ra e tal!...

S. Venha-a-nós—realisa este desejo,
S. Venha-a-nós—ingenuo e timorato:
S. Venha-a-nós—faz do universo um queijo
S. Venha-a-nós—e faz de nós um rato!



O MELRO


O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar d'entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro d'entre a horta
Dizia-lhe: «Bons dias!»
E o velho padre cura
Não gostava d'aquellas cortezias.

O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prasenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro;
Andava ás lebres pelo monte, a pé,
Livre de rheumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro despresava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente,
Até que ultimamente
O velho disse um dia:

«Nada, já não tem geito! este ladrão
Dá cabo dos trigaes!
Qual seria a rasão
Porque Deus fez os melros e os pardaes?!»

E o melro no entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara
Já elle andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apezar d'isto o rude proletario,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu augmento de salario.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;
E armando uns espantalhos
Disse o abbade comsigo:
«Acabaram-se as penas e os trabalhos.»
Mas logo do manhã, maldito espanto!
O abbade, inda na cama,
Ouviu do melro o costumado canto,

Ficou ardendo em chamma;
Pega na caçadeira,
Levanta-se d'um salto,
E vê o melro a assobiar na eira
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre cura andava enfermo,
Não fallava nem ria,
Minado por tão intimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarello dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura,
(Muito embora o leitor não me acredite)
Que o bom do padre cura
Perdera... o appetite!



Andando no quintal um certo dia
Lendo em voz alta o Velho Testamento
Enxergou por acaso (que alegria!
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros escondido
Entre uma carvalheira.

E ao vel-os exclamou enfurecido:

«A mãe comeu o fructo prohibido;
Esse fructo era a minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmittiu-se o peccado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho,
É doutrina da Egreja. Estou vingado!»

E engaiolando os pobres passaritos
Soltava exclamações:
«É uma praga. Maldictos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios os partam! andai lá que emfim...»

E deixando a gaiola pendurada
Continuou a ler o seu latim
Fungando uma pitada.



Vinha tombando a noite silenciosa;
E caia por sobre a naturesa
Uma serena paz religiosa,
Uma bella tristesa
Harmonica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um mysticismo heroico e salutar.
As arvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longiquos, solitarios,
Tinham tomado as fórmas rendilhadas
Das plantas dos herbarios.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginaes as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as creanças.
Ia subindo a escada o velho abbade;
A sua negra, athletica figura
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nodoa escura.
E introduzindo a chave no portal
Murmurou entre dentes:

«Tal e qual... tal e qual!...
Guisados com arroz são excellentes.»



Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, avelludado
Do sorriso dos martyres, dos justos.
Um effluvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da materia
Murmuravam dialogos gigantes
        Pela amplidão etherea.
São precisos silencios virginaes,
Disposições sympathicas, nervosas,
Para ouvir estas fallas silenciosas
        Dos mudos vegetaes.
As orvalhadas, frescas espessuras
Presentiam-se quasi a germinar.
Desmaiavam-se as candidas verduras
Nos Magnetismos brancos do luar.
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E n'isto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas pennugens doces como arminho,
Um feltrosito assetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:

«Foi aquelle homem negro.—Quando veio
Chamei, chamei... Andavas tu na horta...
Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!...
Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua aza!
Olha, já vão florindo as assucenas;
Vamos a construir a nossa casa
N'um bonito logar...
Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas
Para vôar, vôar!»

E o melro hallucinado
Clamou:

«Senhor! Senhor!
É por ventura crime ou é peccado
Que eu tenha muito amor
A estes innocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dôr, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida!
Filhos do coração!!...
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o céo para voardes,
E prendem-vos assim d'esta maneira!...
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o aguilhão, a fé que nos abraza...
Encarcerar a aza
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! quasi á noitinha
Parti, deixei-os sós ...
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguem!... Que atroz!
E eu devia sabel-o!
Eu tinha obrigação de adivinhar...
Remorso eterno! eterno pesadello!...
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Falta-me a luz e o ar!... Oh, quem me dera
Ser abutre ou ser féra
Para partir o carcere maldicto!...
E como a noite é limpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito...
Que noite triste! oh noite silenciosa!...»



E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heroes.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinoes.

Os vegetaes felizes
Mergulhavam as sofregas raizes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando á noite os peitos das leoas.
A lua triste, a lua merencorea,
Desdemona marmorea,
Rolava pelo azul da immensidade,
Immersa n'uma luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons e as flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitario
Jazia inerte, exanime, sereno,
Bem como outr'ora a mãe do Nazareno
Na noite do calvario!...
Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a biblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E resava a Deus Padre Onipotente
Varios trechos latinos,
Salvando d'esta forma juntamente
As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

—«Olé!
Dormiram bem?... Estimo...
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandissima ralè!
Então vocês, seus almas do diabo,
Julgavam que isto que era só dar cabo,
Da horta e do pomar,
E bico alegre e estomago contente,
E o camello do cura que se aguente,
Que engrolle o seu latim e vá bugiar!...
Grandes larapios!... Era o que faltava.
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me á fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Tem bico é certo, mas não tem tonsura...
E nas manhas um melro nunca chega
Ás manhas naturaes d'um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé!... Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!...
E então a Fortunata
Que tem um dedo e um geito para isso!...
Heide comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quasi que em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,