Uns quatro mil onagros,
Muito magros
Vem trazer isto a
Vossa Senhoria.
Desculpe, senhor
Parocho, a ousadia...
A offerta
é bem mesquinha, é desgraçada.
Uns oitocentos moios
simplesmente
De milho, de
feijão, trigo e cevada.
E nós
sabemos que um tão mau presente
Para o seu dente
Não chega
a nada! não chega a nada!
Mas é boa a intenção:
Nós
reservamos para si o grão,
E para
nós a palha unicamente
Dar ao senhor Prior
Miseria assim,
é vergonhoso até...
Mas aceite este mimo
sem valor...
Senhor Parocho
aceite-o, por quem é!...
E agora, senhor
Parocho, a sua benção,
Porque os onagros pensão
Que ella salva das
chammas infernaes;
E em paga de tal dom, de tal carinho
Rogaremos ao
céo pelo focinho
Lhe permitta
engordar cada vez mais.
Boa pinga e bom
porco alentejano,
E sempre nedio e
alegre e satisfeito!...
Senhor Parocho, viva!...
até p'ró anno...
Até
p'ró anno... e muito bom proveito!...
O abade, vendo aquella espandosa
ovação,
Cresceu como uma torre e inchou como um balão.
E ao mirar-se com garbo heroico e triumphal
Surprehendeu-se de annel e cruz episcopal!
E, impando de vangloria e atonito de espanto,
Inchou mais meia legua e cresceu outro tanto!
Contemplou-se depois com magestade ufana,
E, oh céos! viu-se vestido em porpura romana!
Cardeal! cardeal! cardeal! que honra, que
posição!
E subiu de tal forma ovante na amplidão
Que o Himalaia, envolto em suas neves eternas,
Disse a um condor:—Vai ver lá cima aquellas pernas;—
—Cardeal! Não será sonho ou magico
feitiço?!
Eu Cardeal!!...—Apertou entre as mãos o tontiço,
E em logar d'um chapeu tingido com zurrapas,
Encontrou o diadema olimpico dos papas!
Papa!... E de tal maneira ergueu a fronte sua
Que com ella partiu os chavelhos da lua!
Em torno do nariz e á volta das orelhas
Zumbiam-lhe tremendo os astros, como abelhas.
Ser papa! ser rei do céo e o rei do mundo!
E lá do alto do abysmo esplendido e profundo
Lançou o mar e á terra a sua
benção sagrada.
E o mar mudou-se em vinho e a terra n'uma empada!
E o colosso voraz, de vêr coisas tão bellas,
Debruçou-se, agachou-se, escancarou as guelhas,
E enguliu d'uma vez o assombroso follar,
Bebendo-lhe por cima o vinho todo—o mar!
Depois empanturrado, inflado, um pouco torto,
Atirou-se a dormir mais pesado que um morto,
Arrotando trovões............................................
......................................................................
E em quanto o abade ronca e grunhe sem cuidados
Dobram plangentemente os sinos afinados,
Cortam o espaço os ais do estertor derradeiro,
E entre as germinações frescas do bom lameiro
A ègoa abacial c'oa respectiva cria,
(A quem, se fosse d'elle, o abade chamaria
Afilhada) lanzuda opipara, pacata,
Livre, sem albardão, sem freio e sem arreata.
Na monastica paz dos ventres satisfeitos
Com luserna viçosa e tenra até os peitos
Envolta no esplendor fulvo do sol poente,
Mansa, fitando o azul,—rincha orthodoxamente!
O GENESIS
Jehovah, por alcunha antiga—o Padre
Eterno
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapeu,
Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado.
Depois o Creador (honra lhe seja
feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo serrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assignaria,
E furioso escarrou no mundo sublumar,
E a saliva ao cahir na terra fez o mar.
Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo podesse inda d'essa maneira
Jejuar, sem comer de carne á sexta feira,
Jehovah fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida metteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas extranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos
Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte
Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte.
Depois, para provar em summa quanto póde
Um Creador, tirou dois pellos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que elle estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira
Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira.
...................................................................
Por fim com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginaes que o Creador faria?
Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Creador sentindo-se já fraco.
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou:—Deixem-nos de asneiras.
Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!—
Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó,
Pitadeou com delicia alguns trovões em pó,
Abriu, para cahir n'um somno repentino,
O alfarrabio chamado o livro do Destino.
E enflanelando bem a carcassa caduca,
Com o barrete azul celeste até á nuca,
Fez ortodoxamente o seu signal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz,
E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto,
Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito
N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.
FANTASMAS
I
O vigario de Deus na terra disse um
dia
Aos batalhões do clero:
Tragam-me o manto d'oiro e seda que
cobria
As espaduas de Nero.
E trouxeram-lhe o manto, um manto do
brocado,
Da purpura mais fina,
Com escarros de lodo obsceno, inda
empastado
No sangue de Agripina.
E o papa continuou:
«Preciso
armar o braço,
Para dictar as leis;
Fabriquem-me uma espada enorme com o
aço
Das espadas dos réis.»
E trouxeram-lhe o gladio. O papa
ficou
mudo,
N'um assombro d'espectro.
De subito exclamou: «Ainda
não é tudo;
Tragam-me agora um sceptro!»
Trouxeram-lh'o. E depois d'um
silencio
profundo
Rugiu como um leão:
«Tragam-me agora o
mundo!» E pozeram-lhe o mundo
Na palma da sua mão.
E sopesando o globo e arrancando o
montante
Enorme da bainha,
Bradou pela amplidão:
«Sou Jupiter-tonante!
Humanidade, és minha!
Eu tenho o gladio e o sceptro, a
excomunhão e a bulla;
Sou o Deus, sou a Fé.
Miseravel reptil, Humanidade, oscula
A ponta do meu pé!»
E sentando-se sobre o
coração da Italia
O satrapa romano
Para o genero humano!
II
N'esse instante um fantasma entrou
nos
regios paços.
Sereno e formidavel.
Encarou fixamente o rei, cruzando os
braços
No peito inabalavel,
E trovejou, deixando o papa sacrosanto
Livido, espavorido:
«Sou a Fraternidade.
Entrega-me esse manto
E essa espada bandido!»
Despedaçou-lhe o gladio e
a tunica purpurea,
E sahiu triumfal.
E o papa horrorisado, espumando de
furia,
Uivou como um chacal:
Guarda o melhor thesoiro.
Ficou-me ainda o sceptro. Era de
ferro a espada...
Prefiro o sceptro... é d'oiro!»
E o papa viu então, oh
tragica anciedade
Um vulto sobrehumano
Avançar e bramir:—O meu
nome é Egualdade;
Dá-me o sceptro, tyranno!—
Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa,
como um lobo
Sombrio respondeu:
«Na minha forte
mão ainda sustento o globo...
Ainda o globo é meu!...»
E desatou a rir... um riso sanguinario
De panthera. Depois
Surgiu novo fantasma herculeo,
extraordinario,
Maior que os outros dois.
E como o rebentar potente d'um
trovão
Que abala a immensidade
O fantasma rugiu:—Não me
conheces, não!
Chamo-me a Liberdade!
«Venho buscar o mundo.
Entrega-o, salteador!
É meu o globo, harpia!»
E arrancou-lh'o. Soltando um grito,
no estertor
Convulso da agonia,
Tombou por terra o papa. E
repentinamente
Viu surgir-lhe do lado
Um esqueleto a rir, todo fosforecente,
Podre, desengonçado,
Que he disse:—Morreu, ó
Papa, o nosso imperio,
Morreu o mundo antigo.
Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me
Tiberio...
Vem-te deitar commigo!...
E como um caçador
fantastico que leva,
Sangrenta e moribunda,
Uma hyena a gemer, de rastos, pela
treva
N'uma noite profunda,
O esqueleto levou para a crypta
sombria
O cadaver do irmão,
Indo dormir os dois na eterna mancebia
Da mesma podridão!
Post scriptum
Quando eu morrer abram-me o peito
E d'esta jaula, onde houve um leão,
Tirem, o carcere era estreito,
Meu velho e altivo coração.
Depois sem dó e sem respeito,
Sem um murmurio de oração,
Lancem-no assim, vai satisfeito,
Á valla obscura, á podridão,
Para que durma e se desfaça
No lodo amargo da Desgraça,
Por quem bateu continuamente,
Como um tambor que entre a metralha
Estoira ao fim d'uma batalha,
Rouco, furioso, ancioso, ardente!
Nota
Em seguida á
morte de D.
João comecei a escrever um novo poema—
A
Morte do Padre
Eterno,
[1]
cujo plano completo, até aos minimos
detalhes, estava de ha muito elaborado no meu espirito.
Mas em torno d'esta ideia principal germinou um grande numero de ideias
acessorias, d'onde nasceu um livro novo
A Velhice do Padre
Eterno,
collecção de 50 poesias, que são 50
balas que, partindo de diversos pontos,
vão todas bater no mesmo alvo.
Em 1879 estava adiantada a
Morte do Padre
Eterno e quasi concluida a
Velhice.
Uma enfermidade de quatro annos successivos interrompeu a obra.
Volvendo a saude, voltou o trabalho. O trabalho nasce espontaneamente
da alegria, como um fructo nasce
espontaneamente
d'uma flôr.
Publico hoje o 1º volume da
Velhice do Padre
Eterno. O 2.º, já na imprensa,
sahirá a luz com
brevidade. No 1.º volume predomina a satyra, no segundo a
epopeia. Os dois completam-se. A critica, só reunidos, os
poderá
julgar inteiramente.
Creio, se a saude me não faltar, que a
Morte do Padre Eterno dentro de um anno
estará impressa.
E depois de morto D. João e morto Jehovah, resta-me
resuscitar Jesus e desagrilhoar Prometheu.
Esse ultimo poema, o
Prometheu
Libertado, será o fecho da trilogia, o
complemento da minha obra.
Terei os annos de vida necessarios para escrever esse livro?
Não sei; no entanto rogo a Deus do fundo da minha alma que
me deixe terminar com um hymno de esperança e de harmonia
uma batalha de coleras e de sarcasmos.
O plano está concebido ha muito. A ideia é
simples e creio que bella. A primeira parte é a epopeia do
Trabalho, a
glorificação de Prometheu pela humanidade e pela
natureza.
Na segunda parte de Jesus Christo, levantando-se do seu tumulo, vem
fulminar o abutre e desacorrentar Prometheu.
O heroe é libertado pelo santo. A
crença e a sciencia, a rasão e a fé,
depois d'um combate do milhares
de seculos reunem-se finalmente n'uma paz luminosa, n'uma
communhão indestructivel.
A liberdade de Prometheu significa o desaparecimento de todas as
tyranias, e a resurreição de Jesus a
morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana,
e outro a
aspiração immortal para uma justiça
absoluta. O Caucaso e o Golgotha ficam sendo para a humanidade os dois
grandes altares da religião eterna
Futuro!
Julho—1885.
Guerra
Junqueiro.
Notas
[1] A
Morte de Jehovah era
o titulo primitivo.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se
listados todos os erros encontrados e corrigidos:
A
indicação da primeira
secção dos poemas "Como se faz
um
monstro"
e "Fantasmas"
foi adicionada, uma vez que existia referência a uma segunda
secção.
Foram efectuadas correcções no índice,
onde os títulos de poemas se encontravam omissos ou trocados
e onde as páginas indicadas não estavam
associadas correctamente.
Todos os n
e u trocados,
encontrados no texto, foram rectificados.
Os hífens "supostamente" em falta não foram
adicionados.