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Alexandre Herculano

Chapter 11: II
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About This Book

Apresenta o retrato de um paladino iluminado cuja ardente crença o leva à luta pela redenção da pátria: combate, derrota e exílio trazem sofrimento profundo, saudade e crise espiritual, mas também a resistência que transforma o soldado em poeta. Ao regressar encontra desilusão diante da corrupção, da ambição e da injustiça social, e abandona a espada pela ação moral e educadora, defendendo uma regeneração cívica e religiosa. O texto combina narrativa biográfica, análise de emoções e reflexão política, concentrando-se em temas de amor à terra, dor do desterro, perseverança e a tensão entre idealismo e realidade social.

ESCUDOS DE FORTALEZA

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ESCUDOS DE FORTALEZA

Abrigava-se sob escudos impenetraveis a fortaleza de Alexandre Herculano. Não se segue no mundo caminho recto, como elle seguiu, sem o auxilio continuado de armas proprias para remover os obstaculos infinitos que se nos deparam, sem o bordão em que o peregrino se apoia para vencer asperrimos fraguedos. Não se mantem a firmeza de animo, que foi talvez a maior gloria da sua auréola, sem a protecção de um nimbo de sentimentos inaccessiveis a toda a corrupção e assalto de fraquezas. Em torno da sua figura humana de athleta, adejam legiões angelicas, baixando invariavelmente em seu soccorro, se as contingencias da sorte transitoria, a que o seu ser mortal andava exposto, ameaçavam prostral-o, feril-o ou desvial-o da derrota luminosa do seu sonho.{112}

I

Guardava-o Deus de cair em tentação. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos a harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se ás modulações das suas cordas. Cria que «Deus era Deus e os homens livres». «A terra vacillava ante o olhar do Senhor». «Louvaria o Eterno!» Quando se ergueu a voz d'aquelle moço «velador de angustias», pallidas as faces, nas veias a febre, alagada a fronte de um suor frio, os olhos humidos de pranto e dentro do peito a dôr que o ia roendo; quando a poesia lhe murmurou na alma a «ultima nota de quebrada lyra», «o triste adeus do trovador que expira», que hymnos cantou, que visões perpassaram

«No delirio febril d'aquella mente
Que, balouçada á borda do sepulcro,
Volve apoz si a vista longamente?»

Turvou-o a Desesperança; segredou-lhe maldições do Deus que «por insania» adorára. Aos pés do seu throno não chegavam os{113} gemidos da terra. A Providencia era uma crença vã, e mentia quando apontava ao poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o Anjo da Guarda impôz silencio á rebeldia blasphema. Se o misero agonisante podesse comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a perdição no amor terreno, e a doçura que ha no affecto do homem aos mensageiros de Deus, despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, «para aspirar o goso celestial do amor sem termo». E logo, sem tardar, respondendo á voz do anjo, a Graça ungiu o moribundo. Era uma «harmonia suave», perante a qual a sombra da morte se aclarou e o coração, alliviado do peso da dôr, pediu «o hymno da oração em vez do canto irado». O poeta sentiu então de novo o que o «revocava a Deus». Inspirava-o a esperança. E adormece na Resignação, contricto, rogando ao anjo bom que não o abandone na «hora fatal», e lhe repita aquelles segredos de doçura onde aprendera

«Que é o céu a patria nossa;
Que é o mundo exilio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é principio, não é fim»[68].{114}

A successão dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a constituição ultima, a religião, «abrigo extremo», consolação de toda a miseria terrena, da deshonra, do exilio ou da injustiça, essa formação progressiva do seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada, estampada, na pintura da morte do trovador, de resto apenas um incidente e exemplo, porque toda a sua obra poetica é uma profissão de fé quasi ininterrompida. Em toda ella prevalece o cantico religioso sobre o anceio mortal; resume-se em louvor, adoração e abdicação do homem em face do principio divino, embora considere esse principio nas modalidades transitorias, como convém ao poeta, embora o encontre e veja com os olhos do corpo e da lembrança, extasiando-se em delicia, nas capellas, nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos desertos, pelos adros, pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias, nas tradições e nos momentos ingenuos disseminados pela terra patria.

O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de José Estevão poderá talvez definir melhor do que qualquer outra explanação os attributos proprios de cada um.

Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam em qualquer{115} epoca, culminantes. Resumem as duas formas mais nobres da dignidade humana. E, todavia, quanto são differentes! Alexandre Herculano procede por principio religioso; José Estevão por humanitarismo. Um tira a sua força da obediencia a uma Vontade suprema, que n'elle vive e se realisa mas que não é d'elle; o outro é arrastado por sympathia e inspiração fraterna, basta-lhe para razão de heroismo o sentimento da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justiça entre os homens. D'ahi, d'essa reducção essencial da sua natureza psychologica, conjunctamente synthese e centro de derivação da vida de cada um d'elles, as consequencias praticas diversas da expansão das respectivas individualidades. Amaria José Estevão a vida civica e a vida urbana, até mesmo caprichos e complexidades mundanas, o calor de carinhosas amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais estreitamente e é filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre Herculano á solidão, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo, a tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade do divino e a relatividade das relações do contingente e do infinito. Este nunca trocaria pela glorificação de faculdades humanas o culto do{116} Eterno, como era corrente nas revoluções do seu tempo que trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razão. Ás tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplação, e para o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do seu vigor e dilatação na edade-media, corresponderia em José Estevão a paixão politica e a actividade impetuosa, e o sentimento da justiça fundada, não em determinação divina, mas na imposição dos principios abstractos concebidos e affirmados pela intelligencia humana e em seu nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a distancia que medeia entre uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma religião de amor que, ainda por amor, algumas vezes será rigida em excesso, nada propensa á indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio a diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles dois genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e á fascinação do ermo, porque para elle de prompto se purificava n'esse estado e se mantinha illesa a crença religiosa, a consciencia da presença de Deus no universo e os estimulos de obediencia á sua vontade, emquanto José Estevão, atravez de todos os desenganos e recobrando animo de{117} todos os desalentos, voltava constantemente á interferencia nos combates das multidões, porque assim sentia de perto effectuar-se a aspiração humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada, fóra d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adoração e abdicação, o amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poderá encarnar em toda a materia e em todo o orbe; não percebe quebra do principio divino ou infidilidade aos seus mandados consagrando-se ás arvores e fugindo dos logares em que o convivio dos homens é activo. Porém para o humanitario, o amor, symbolisado em justiça e acção, só nos homens teria o seu principio e não podia, por uma logica instinctiva e imperiosa, desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela ausencia de objecto que o consubstanciasse. José Estevão vivia cercado de amigos em todas as contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias e mágoas do seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem teve amigos, e exaltados na admiração e no affecto, aliás retribuindo com infinitos carinhos do seu coração, era facil em se refugiar no isolamento e consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da vida ingenua, onde por certo acharia realisada e integra a aspiração de serena e plena conformidade{118} com a vontade do destino. Não valeria tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das rosas como o sorrir de labios humanos, e não mentiria menos á missão divina?

Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religião que para Alexandre Herculano era uma força intima, immanente, inflexivel, e por isso essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a ordem mundana, para José Estevão podia sem difficuldade acceitar-se em termos de compromisso entre necessidades presentes, tradições e principios eternos, resolvidos os antagonismos, quando se declarassem, a beneficio da paz publica e dos interesses da sua causa. O caso de consciencia, intransigente na primeira d'essas duas concepções religiosas, admittia na segunda concessões mutuas e limites convencionaes, formulas de conciliação politica, subordinada por momentos á salvação da republica, e por contradicções estranhas, mas afinal beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero, a egreja constituida, não quiz mais a José Estevão do que a Alexandre Herculano, mas por differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos milagres, atacava-o na capacidade intrinseca e arguia-o de traição a Christo: o outro deixava-lhe a liberdade dos milagres e não o{119} incommodava nas relações divinas, e apenas se esforçava por lhe restringir o despotismo e as cobiças terrenas, cerceando-lhe regalias e reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispôr, e accusando-o de infidelidade aos interesses do povo e da nação[69].

O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres não significará, todavia, que a religião de Alexandre Herculano fosse inactiva, e muito menos deshumana. Revelará apenas que a sua alma, religiosa por essencia, dependente conscientemente de uma outra alma infinita e eterna, da qual se reconhecia mero instrumento e frouxo reflexo,{120} encontrára, por virtude d'essa constituição e prisão, as obrigações supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor, imposto pela abdicação no principio divino. O humanitarismo não seria n'esse systema de deveres uma religião, como de facto foi no sentir de José Estevão; consubstanciaria sómente a summula dos deveres religiosos, e manifestamente aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com extremo ardor se consagrou. O mundo estava subordinado a Deus; e não seria absorvido pela humanidade, renegando a subordinação, posto que na humanidade tivesse a obra de Deus mais bafejada do seu alento.{121}

De resto, a emoção religiosa em Alexandre Herculano, sendo christã e demais educada na tradição do christianismo latino, tão rematadamente caridoso e, por concreto, distante da abstracção cruel em que redundou no espirito oriental, não poderia tender ao extasi, esteril e mortifero além do resgate individual, mas logo se transfundiria na objectivação pratica, na traducção do seu principio dominante em forma e movimento, em acção. Não resultaria em ascetismo, mas na moralisação de todas as energias organicas, aliás livres em sua esphera, reconhecendo-se-lhes a legitimidade da expansão. Assim como lhe impunha entre os impulsos iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o consequentemente ao amor dos homens que a povoam e á intervenção em toda a complexidade das suas relações, tão extensas na multiplicidade de manifestações e aspectos como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e rege.

Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre Herculano no «clarão do Evangelho triumphante». Toda a consolação e todo o saber encontrou no «Verbo que renovou o mundo corrompido». Os arrebatamentos do poeta, as affirmações do publicista e os combates do soldado e do apostolo, toda a sua vida e toda a sua obra estão{122} repassadas de christianismo. Vibra em cada palavra e em cada gesto, nas victorias e no desalento, na ira e nas bençãos, na lucta e no repouso. Até a propria historia e a obra d'arte imaginativa, não menos que a contemplação da natureza, seriam para elle desenvolvimento de verdade religiosa do christianismo e ensejo da sua propagação. A visão da cruz e a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os passos do sonhador; os seus poemas são uma floresta espessa de cruzeiros e templos onde de continuo perpassam murmurios de orações e canticos de louvor. Toda a enredada architectura do Monge de Cistér parece erguida, quando no conjuncto a observamos, para inscrever alli, em traços d'uma fulguração diamantina, a sentença do Evangelho que lhe serve de fecho:—Se não perdoardes, tambem Deus te não perdoará.

Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura, amortecendo os rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela uncção da suavidade, que a cada passo vae derramando entre os homens. Mais do que isso: soube como ninguem, pelo poder do genio, trazel-o á terra, infundil-o em todas as cousas creadas, vividas e sentidas, infundil-o em a natureza inteira por uma insinuação cheia{123} de mysterio, que todavia nos arrebata em encantos de doçura e luminosidade intraduziveis. Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam como pergaminhos da nobreza de uma geração e seu orgulho, maravilha da união subtil mas vigorosa do amor divino e do amor terreno, do amor das cousas da terra santificado pela presença de espiritos angelicos, será perpetuamente o espelho da candura religiosa. «Um dia santo; um dia santo!...» disse o poeta comovido, deixando transbordar os seus affectos. «Assim juntas, estas duas palavras são as mais sonoras, as mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao menos. De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de homem me tem alastrado pelo coração, uma sei eu que vive ainda n'elle fresca e viçosa, e que me parece morrerá só quando eu morrer. É a lembrança dos dias santos dos meus tenros annos. Um domingo de então ainda me sorri suavemente quando deito olhos longos para o caminho tortuoso e agro, por onde já derramei, sem saber como, um terço de seculo da vida. Na orla d'esse horisonte crepuscular do passado avulta-me a capellinha da habitação da infancia ao dia santo, e o altar com os seus castiçaes de talha dourada e as jarras de flores, que lá se punham{124} no sabbado á noite, e o alevantar cedo para todos e tudo estar lavado, espanejado, escovado e ordenado para a missa. Sabe Deus com quanta fé e devoção a minha alma tenra se balouçava na toada monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e macilento, cujo burel desapparecêra debaixo das vestes variegadas do sacerdocio! Atravez da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de vidro amassado com pó de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos degraus do altar. As luzes trémulas das velas, cuja claridade se annulava no esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a presença real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de longe, do convento de Ribamar ou da Boa-viagem, almoçava e jantava. E todos estavam contentes; porque era um santo mas jovial frade o bom do arrabido, e contava historias que era um pasmar. N'aquelles dias abençoados juraria eu que a folhagem das arvores era de um verdor mais vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais transparente, o ceu mais azul, e até as alfaias da casa mais novas, e o caio dos muros mais alvo. Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava{125} nos jogos e brinquedos que são proprios d'aquella edade; mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que n'elles bailavam. E alli me achava á noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto; mas ficava-me cá a saudade... Domingos dos doze annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno eterno da natureza, salvé! A gloria litteraria, o amor da independencia, e talvez até o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambição dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos; porque os outros, esses, se não eram palidos como os de hoje, eram acres, dolorosos, inquietos. As paixões fervidas e insensatas da mocidade vinham chegando; e como que já sentia rugir a pouca distancia as tempestades que iam agitar e devorar-me os annos mais bellos da vida... Não tenho saudades dess'outros dias. Não tenho. Deixal-os ir. É pelos meus ricos{126} dias santos de então que eu hei de sempre chorar.

«Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e ignora-o. É o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na escala das reputações de sinos, os da minha freguezia occupam logar modesto, e todavia, quando repicam antes da missa do dia, sinto passar em volta de mim uma como aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o sol illumina-se da luz d'aquelle tempo. O repique, por estes sitios, é ainda patriotico e tenaz: ainda não o perverteu a peste da civilisação. Nem as cantigas populares, nem as harmonias do theatro se atreveram a pôr pé sacrilego nos degraus do campanario. Abençoado sineiro, que me parece has de morrer abraçado com as tradições do teu antecessor. Oxalá que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal sabes tu, quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as fazes vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vão ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa distancia, no alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias, e fica abstracto e immovel a aspirar as harmonias que lhe{127} mandas frouxas, sacrosantas, ricas de saudades da infancia! Mal sabes tu quantas cogitações profundas, quantas dôres do espirito tens suspendido com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses restituir a capella, e o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e o murmurio que tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques, e a sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou Satanaz.

«Ai, não pódes; não pódes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidadão, jurado, eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro, governador civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as minhas ambições, e Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.

«Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel, uma realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer ante mim, para te pôr um pé sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas faces! Só isto me consolava das saudades dos dias santos infantis e d'este viver miseravelmente desbotado.»[70]{128}

Esta interpenetração das cousas e da alma, esta vibração unisona da essencia etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta harmonia religiosa da consciencia e de toda a creação terrena, marcarão a orbita da qual nunca se affasta a alma de Alexandre Herculano.

Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A religião carecia de symbolos, e reclamava para si um pedaço de terra onde os guardasse e fossem invocados e venerados. N'elles se havia de encontrar e integrar a adoração de Deus em espirito e nas visualidades tangiveis. O idealismo germanico e o symbolismo romano juntavam-se e completavam-se fundindo aspirações do espirito, absolutas na sua abstracção, e tradições da ordem terrena, essenciaes tambem pela permanencia e pela vitalidade historica, e captivantes pela belleza sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para olhar os homens, seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vêr a Deus.{129}

II

Ha no Monge de Cistér «um filho das Hespanhas» em que «a côr, o gesto, o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe»; e as cartas de Alexandre Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no Reporter, quando se fez a transladação dos restos do historiador para os Jeronymos, referem-se a «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao occidente.»

Porventura, estão alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes que se associaram na formação do genio de Alexandre Herculano, meio romano e meio germanico na indole e na raça, com o espirito dum godo na idealisação da vida e o senso pratico dum romano na concepção da sociedade, por vezes sonhador e ethereo como um bardo errante das margens do Rheno, a espaços accordando e rompendo em impetos dum cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do islamita, e de{130} repente recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico que distinguiu e tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sêde de liberdade, a consciencia da responsabilidade, a paixão da sinceridade, a febre de apostolado e a tenacidade de combater caracteristicas do sangue anglo-saxonio, e possuia ao mesmo tempo aquelle espirito de sequencia, lucidez e justa distribuição, aquelle horror do desequilibrio e do incerto e indefinido, a percepção penetrante das realidades e a arte de as sujeitar á regra e á lei que engrandeceram o mundo latino.

A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital. Sabia que «Deus era Deus e os homens livres». O reconhecimento de Deus implicava a liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos de obedecer, revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a anniquilação de todo o estorvo á contemplação da sua grandeza e á insinuação e execução da sua vontade.

Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de fé. Sobre todos os demais prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a encontraram, ahi se esforçaram por lhe assegurar a soberania. E assim deram a precedencia á{131} revolução politica sobre quaesquer outras, e n'essa collocaram os principios de liberdade acima de qualquer outro principio ou conveniencia.

Seguiu-se ás esperanças d'essa geração um periodo historico adverso. É certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os homens e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma sciencia que se reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade, sorriu das crenças dos paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as sinceramente por illusão de romanticos generosos, aliás com a mesma candura que tinham posto em as amar aquelles de quem os novos prophetas immediatamente descendiam, apressou-se a desvanecer o erro e deu a mão ás arremetidas de um despotismo renascido e vestido em trajos desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante do absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal á felicidade dos homens.

A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas conclusões logo trouxeram, porém, o desengano. Pela segunda vez a supposta illusão de nossos paes se revela a verdade fundamental do progresso. Contradictou-se a religião da liberdade com a legitimidade da oppressão, a aspiração individual{132} com a razão d'estado; mas a ideia imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos de triumpho, parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila de baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepção biologica das sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppôz a força á justiça e ao direito e nos imbuiu na convicção de que a base de toda a aggremiação animal era um estado de lucta interior permanente e essa lucta significava um bem, factor essencial do desenvolvimento da sua capacidade. A victoria do mais forte e a subordinação do mais fraco seriam consequencias de leis naturaes indeclinaveis e beneficas, ás quaes nos cumpria prestar reverencia, auxiliando-lhes a execução em toda a extensão da vida physica e moral do individuo e da communidade. Os interesses materiaes, levados já por circunstancias economicas a um subido grau de concentração e anceiando por se constituirem n'aquelle estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu e sobretudo o capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram habilmente as instigações crueis de uma sciencia alheia a inspirações moraes; se a lei da vida organica consistia na victoria{133} dos fortes e na escravidão dos fracos, as instituições sociaes, para serem salutares, logicas e efficazes, haviam de respeital-a, e a divisão entre servos e senhores seria tambem condição natural de boa ordem. E entretanto, emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e captivavam os espiritos mais puros e os melhores corações, a guerra franco-prussiana e a formação do imperio formidavel que ella creou e consolidou, antepondo ao cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo disciplinado, rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e apregoava de modo pratico, com esplendor, o principio, então por excellencia scientifico, da força brutal. Para o effeito da boa administração o mandavam acatar as boccas dos canhões e os sabres dos guardas do estado, convencendo por esse meio os menos promptos em lhe descobrir as virtudes. Homens d'estado e multidões fanaticas, governantes soberbos e doceis governados, uns por ambição, outros por cegueira, uns na avidez do mando e outros na esperança de ventura, e todos victimas dos vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as sociedades e as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de rebellião{134} insensata contra o despotismo da natureza, e, preferindo o gendarme ao sacerdote, desconfiando da crença para se renderem ás armas, trocaram a reverencia da justiça e da caridade christã pela desapiedada glorificação da caserna.

Não cessavam, todavia, os estudiosos na observação e cogitação das leis intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religião desthronados não tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evolução, que parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido; por ella deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermiço, de que foram acoimados, para se reduzirem a uma comprehensão exacta de lei organica das sociedades, producto e derivação do proprio desenvolvimento evolutivo. Um dos mais notaveis espiritos do mundo scientifico vinha a concluir o exame da doutrina evolutiva pela demonstração de que a resistencia e o progresso da especie resultavam, não da lucta mas da sua atenuação, não da força mas da união e auxilio mutuo; a livre cooperação substituiria pois a sujeição oppressiva dos fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos, como deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos trabalhadores, precipitados{135} na escravidão do capitalismo pela torrente dos interesses materiaes, accelerada e engrossada pela abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em toda a sorte de relações, desde as de amo e creado até ás das nações e estados, o clamor dos servos tornou-se uma ameaça e uma dôr, para as quaes os piedosos procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram prevenções attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo periclitante a estabilidade e a propria vida do corpo social, e cumprindo-lhes defendel-a.

Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge, inscrevendo nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos homens, da igualdade de opportunidade, como modernamente se diz, corrigindo a phantasia do absolutismo igualitario de outras eras. Nos corações restaurou-se o culto da liberdade. E n'este renascimento da luz que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a figura de Alexandre Herculano, protegida pelas sagradas paixões que o animavam, reapparece no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Além-mar[71], Alexandre Herculano, sentindo{136} a onda de imperalismo que nos seus derradeiros dias avassalava a Europa, poderia exclamar:—«Triste, desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se volte todo o mundo, hei de eu ser-te fiel!» Na sua adoração da liberdade havia laivos de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam todos os seus temores em acceitar normas de organisação social que de toda a parte lhe apregoavam efficazes para salvação de angustias. Na ordem moral, o socialismo estava justificado. Não o contestava; «não se lhe afigurava que chamar socialista a quem discute, que impôr um labeu mais ou menos affrontoso desfizesse um argumento, nem que fosse demonstração concludente e irresistivel o affirmar que taes ou taes theorias são más porque são socialistas, e que o socialismo é mau porque propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que nem elle já sabia quantas eram então), teem doutrinas positivas e critica negativa. As doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos; a critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vêr uma coisa seria. Havia ahi indicações de males profundos e dolorosos no corpo social, que faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar tristemente os espiritos liberaes e sinceros»[72].{137} Mas apavorava-o sómente o perigo que em cada explosão de socialismo ameaçava a democracia de se converter gradualmente em uma burocracia ou em uma oligarchia, perigo que a violencia despotica do espirito de partido e o odio das classes expropriadas temerosamente asseguravam, inevitavel.

Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no encadeamento logico da sua crença espiritual e religiosa, seria o que actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer á primeira vista uma tal classificação applicada a um tradicionalista fervoroso;—anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina philosophica, temperado, ou, digamos melhor, limitado pela visão historica e sua demonstração da força de organisação inherente a toda a vida em communidade, mas, sem embargo, suspirando por toda a sorte de libertação, crendo no resgate da humanidade em Deus e aborrecendo todo o constrangimento imposto pelas vontades humanas isoladas ou colligadas. Aquelle socialismo de que mostrou signaes na presidencia da camara municipal de Belem, não se lhe teria figurado traição ao principio{138} da liberdade; tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades de despotismo a descentralisação extrema em que se realisava. E são de notar os compromissos a que no presente veio a ideia socialista para se conformar com o principio de liberdade,—as restricções que a si mesmo vae impondo, o desamor das grandes aggremiações, tão promptas em degenerar em tyranias, o valor cada vez maior attribuido á communa como instrumento da distribuição das commodidades elementares da vida. O socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua caracteristica insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio, essa concepção da sociedade renovada, tão diversa do socialismo continental facilmente propenso á restauração cesarista, está mostrando até que ponto a intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano era a voz do propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia combater-lhes o advento.

Essa crença na liberdade que obrigações não importava aos que passavam no mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a Deus, facultar aos homens a inteira sujeição aos seus mandados. A responsabilidade perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia, em que elle se revelava,{139} não podia tornar-se effectiva senão pela liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma offensa á divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da egreja, nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestéres, na altivez dos capitães de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.

A religião determinava uma politica. Mandava desembaraçar o caminho que conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e as guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para sua defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam. Mas a religião determinava sobretudo uma moral, o exame constante da conducta da actividade humana, em toda a extensão, e a sua conformidade com a essencia divina, até aos movimentos minimos, até ao mais pequeno objecto em que da nossa vontade dependesse.

Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa não foi difficil a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de prompto muito estorvo ao proposito de servir em acção os principios que adorava em espirito. Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das escravidões vulgares do{140} commum dos homens, e até das de muitos que se elevam não pouco acima do commum.

Riquezas? Não o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a aversão a negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da sua intelligencia[73].

Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre e Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no Jornal do Commercio deu as razões do seu procedimento. «Pertenço», dizia, «a uma classe obscura e modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambição solapada. No meio do immenso consumo que se está fazendo e que se tem feito, ha trinta annos, de distincções,{141} insignias, uniformes bordados, de titulos, gráus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o homem do povo, que queira e possa morrer com esta classificação, deve adquirir em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... Não sou commendador da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem comsigo, procurou-me um dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o de acceitar a commenda da Torre e Espada. Recusei; e com a sinceridade, que elle sempre encontrou em mim, expuz-lhe amplamente os motivos da minha recusa. Aquelle grande espirito, complexo de extrema doçura, de alta comprehensão e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as ponderações, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz. Concluiu por me dizer que cada um de nós podia proceder n'aquelle assumpto em harmonia com as proprias convicções. Que elle cumpria o que reputava um dever de rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciar mal as pessoas e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a commenda valia nada. O que valia muito, apezar do seu innocente erro, era esse moço de vinte e quatro annos, esse filho de João I, D. Duarte extraviado no{142} seculo XIX, vindo pedir como favor ao filho do povo que lhe acceitasse uma mercê, porque entendia que o dever a isso o obrigava».

Não quiz mais á lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e á ostentação das honrarias. Por não perder uma liberdade de critica sempre severa com a propria pessoa e com as estranhas, não o atemorisou a fama de impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de excellente pessoa «que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as suas opiniões, quer absurdas, quer judiciosas»[74]. Ouvindo, invariavelmente e exclusivamente, as indicações e o conselho da sua consciencia, desacatou com frequencia e por completo a opinião publica, «o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo embuste d'este mundo».

A intuição moral não se limitaria, porém, á imposição de regras adoptadas na vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao julgamento de quantos as offendessem e á apreciação de toda a circunstancia em que fosse offendida.

O amor da patria, inspiração de Deus, levou Alexandre Herculano ao estudo da historia, e da conjuncção do historiador e do poeta e{143} crente devia resultar, e resultou, um moralista profundo e ardente.

O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a historia lhe revelou, posto em presença da aspiração divina, que mais cedo ainda se lhe revelou no coração, fatal tambem por inspiração da consciencia religiosa e por demonstração das civilisações e das raças, imperativa e absoluta por essencia, obrigava o poeta a cogitar e a estabelecer as formas de existencia dos homens e das sociedades nas quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os elementos diversos que a intelligencia e a observação lhe apresentavam.

Isso preferia mesmo á concepção de systemas, que para o fim pouco adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relações e dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior. Compadecendo-se mal a nitidez descarnada e fria das systemathisações com o prisma multiface dos factos concretos e as suas penas, o seu peso na ventura e na desgraça dos homens, a philosophia cederia a primazia á regra da vida, porque a instancia intima de crear belleza sob o poder de visões era evidentemente em Alexandre Herculano superior á sêde de saber{144} por mero orgulho ou simples curiosidade. A satisfação do dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vêr e comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de aprehensão e exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita o seu destino e fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e indifferença que o apostolo de uma missão divina não acceita sem correctivo. Se é philosopho, e não pode deixar de o ser em alto grau quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das cousas, logo aproveitará a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno, para instrumento e maior efficacia da sua missão, sem muito cuidar do mais que ella encerra ou se esforçar por o definir com clareza, em quanto não aproveita á fortuna dos homens e á elevação da sua dignidade. Só n'estes termos convém, e d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano o moralista seguisse de perto o historiador, como este seguiu o poeta, deixando ambos a grande distancia e em manifesta obscuridade o philosopho e sua impassibilidade, a cujos dotes e companhia nunca mostraram grande afêrro, naturalmente porque lhes pareciam debeis na substancia, de caracter por demais altivo, insensato e vaidoso, e mesquinhos em beneficios,{145} se os referiamos á desmedida presumpção com que pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.

Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os outros pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros, crimes e fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer que os encontrou. Costumes, instituições, processos politicos, religiões e crenças, tudo apreciou e julgou com uma severidade indomavel, a que os impetos illuminados do seu genio e a isenção da sua vida deram uma auctoridade tremenda.

As intrigas politicas e occupações analogas, «que são o recreio, o comodo, o alimento, a respiração e a vida do estadista e do cortezão»[75], em que Alexandre Herculano andou «extraviado», não por «culpa da vontade mas do entendimento», serviram-lhe para comprehender toda a abominação de taes manejos e fins, astuciosamente occultos em verdades graúdas, porque «em cada seculo ha uma verdade graúda que predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores da vida á custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidadão, para cujo consolo vieram á terra as bruxas, a therapeutica,{146} os fundos publicos, a ontologia, os duendes, as infusões, a esthetica, as petas e o palavreado»[76].

Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias haviam-no «baldeado no charco da vida publica», mas «a Providencia, que provavelmente não o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de estado, deu-lhe uma hora de contricção em que podésse desempegar-se, escorrer o lodo dos vestidos, lavar o rosto, e voltar ao gremio do mundo moral»[77].

Não foi debalde, como debalde não foi a sua passagem na côrte e a approximação das classes nobres, quer consideradas no convivio immediato, quer observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto e aborrecido «a etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as vaidades inquietas de todas as supremacias e eminencias politicas, litterarias, agiotas, artisticas, da impertinente aristocracia burgueza, mirando-se, escarnecendo-se, detestando-se»... «o egoismo das pequeninas vanglorias, as pontualidades parvoas e a sensaboria de convencional contentamento»[78].{147}

Tudo isso e a repulsão do espectaculo de miserias ainda maiores levaria deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a viver entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e adorava. «As fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor aliás se achava enfraquecido pelo cansaço, haviam-nas rareado os annos, e os novos não tinham braços assaz robustos para o combate. Então chamava-se á tibieza tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillaminidade civilisação. Os velhos interesses e as velhas preoccupações tinham voz e voto, preponderante ás vezes nas cousas publicas. Os tumultos, as luctas das facções, as guerras civis, eram ainda possiveis: as revoluções não. Para isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue, no coração crenças, e na sociedade seiva moral»[79].

Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os senhores do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de paz, não só pelo anceio de se banhar em summa candura mas tambem, decerto, pela alta sapiencia de collocar em ambiente adequado o poder de meditação do seu espirito, affastado assim das distracções{148} e constrangimentos que sem repouso o irritavam; «envelhecido antes de tempo pela contensão do espirito em comparar, conjecturar, deduzir»[80] e sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada a uma continua febre de acertar; a affastado pelas illusões de um momento das occupações litterarias a que se dedicára com intimo affecto e reconduzido por asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saido; concebendo como, no desabar do imperio romano, tantas almas severas e energicas, desesperando do futuro de Roma, iam buscar os ermos, onde o christianismo nascente lhes indicava um refugio, e alli, a sós com as suas cogitações, cerravam os ouvidos ao importuno ruido de uma sociedade gasta e podre que esboroava, não tanto ao impulso dos barbaros, como pelos effeitos da propria dissolução interior»; convencido emfim de que «luctar com a Providencia não é esforço, é loucura»[81]:—uma fadiga mortal lhe reclamava horas de repouso, a defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de aspirações, contrariedades e desillusões, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu então na alma o vigor amortecido{149} e quebrado em luctas vãs; e deu-nos o exemplo da nobreza na derrota quem primeiro nos mostrára dignidade e gloria nos combates.

Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e nos actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que no seu peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as profundezas fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e alcançou remir-se da sua atracção depõe uma existencia inteira de dignidade.

O trovador prisioneiro, «á vista dos homens, saberia esconder o seu delirio e morrer com firmeza; mas, na solidão, a saudade de uma existencia cheia de amor e d'esperanças, a vergonha de supplicio affrontoso, e o temor da morte lhe não consentiam velar-se deante de si proprio com a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana ainda nas suas mais terriveis situações, para que a vida seja uma continua farça, da qual o coração é o actor mentiroso desde o berço até ao sepulcro»[82]. E Alexandre Herculano, tambem trovador e prisioneiro dos ferros das contingencias e convenções mundanas, teria{150} soffrido as angustias do seu irmão do romance medieval; mas, mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o rosto perante as multidões atonitas de tão estranha fortaleza, provocando, sem duvida, a aversão e escarneo da debilidade vulgar, para a qual estabelecia um confronto accusatorio.

Essa sinceridade, essa facilidade e até sollicitude em patentear em todos os actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da rectidão do proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de estranhos, indifferentes, amigos e inimigos, constitue um dos mais finos traços da delicadeza o escrupulo da moral de Alexandre Herculano. A cada passo se confessa. Voluntariamente, com uma corajosa franqueza, expõe-se á affronta e á calumnia que da revelação do seu intimo lhe possam derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas acções dava a Deus, sem temer a injustiça do mundo que tantas vezes lhe ignorou e menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade, filho dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a julgar-se frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na apreciação dos actos alheios, e até mesmo, não{151} raro, com a severidade que por indulgencia e amor não tinha com os outros.

As relações de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que nol-as expõe no prefacio da terceira edição da Historia de Portugal, são testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza moral, que pode coroar as faculdades portentosas de um talento peregrino. Nem amesquinha o proprio valor nem o isenta de confronto e subalternisação ao valor alheio; não cede um palmo do que lhe pertence e não regateia uma pollegada do que deve a outrem. Reconhece a propria força, sem jactancia, descobre com uma serena e firme justiça os escudos da sua fortaleza; e sem pejo, sem córar por se sentir vulneravel e fraco á semelhança dos communs mortaes, é o primeiro a apontar os golpes com que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.

Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educação do principe. Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a situação isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado trabalho da compilação da historia. Levára o estudo quasi até ao fim da primeira epoca da monarchia, quando a parte publicada suscitou a «animadversão d'aquelles que{152} querem accomodar a historia ás crenças do vulgo, ás preoccupações nacionaes e aos interesses que n'ellas se estribam.» Abriram então na imprensa e no pulpito uma campanha contra o auctor de tão estranhas revelações, e os seus inimigos encontraram adeptos até nas regiões do poder. Difficultaram-lhe a edificação da sua obra. Inhibido de proseguir sem sacrificio de dignidade, abandonou-a.

Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nação de conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e politica, «demonstrações incessantes e sempre crescentes dentro e fóra do paiz»[83],{153} obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os homens do poder, «se não respeitam, geralmente fallando, a moral e a justiça, quando estas tão sómente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em qualquer genero de força e quando, portanto, significam um risco. Por isso e só por isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fôra tirada, a possibilidade de continuar a Historia de Portugal foi emfim indirectamente restituida» a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na lucta contra a torpe estupidez que o assaltára, «a ambição litteraria, a confiança no futuro, a energia e o vigor da alma, o habito dos penosos estudos e das meditações, a perseverança no trabalho, e, até, a robustez physica tinham em grande parte desapparecido».

Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforço para proseguir no trabalho. Se porém o tentou, ingenuamente confessava que «não fôra para servir o seu paiz.» Só por uma grande amizade o fazia. «Emquanto alheio, não ao estudo dos homens e do mundo, mas ás suas ambições vulgares, consumia os{154} melhores dias da vida em trabalhos a cuja sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justiça, um acontecimento impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia, fôra destinada a Historia de Portugal. Devera-lh'a por mais de um titulo; mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigação desapparecia. Fôra, todavia, por elle, e só por elle, que ainda uma vez tentára o que a razão lhe representava como quasi impossivel.»

«Na procella em que naufragára o seu pobre livro o nome do soberano fôra murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reacção, calumniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em negocio mais grave. Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que vinha, deu-lhes o asco que pediam e volveu a face. O facto tinha uma significação e um valor bem sabidos.

«Malquistar o soberano com o cidadão era nobre e grande; mas era incompleto: completava-se malquistando o cidadão com o soberano. Infelizmente a tentativa falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem attractivos para as almas novas de profundo e energico sentir; para as intelligencias juvenis e robustas que a ambição da ideia devora e que, impacientes, forcejam por se precipitar nas vastidões do{155} mundo moral para lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o e desceu, como diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiões do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. Movia-o, além d'isso, o instincto proprio da sua edade e da sua indole. Queria sondar o abysmo de orgulho, de odios implacaveis, de impiedade, de paixões tempestuosas de que lhe fallavam com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o abysmo, eram de dimensões menos amplas. Verdade é que os precipicios e abysmos fascinam e atraem: póde tambem ser que fosse isso. Que, porém, se illudisse ou que acertasse, o rei achára que todas essas negruras do feroz plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade, ainda rude, tinha para elle o attractivo do novo, do impensado. Achava onde retemperar o animo lasso do incessante espectaculo da condescendencia interessada, do applauso grosseiro que vale o insulto, da devoção requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se de avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se arrastam porque são lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava já saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso irresistivelmente a{156} dureza da linha perpendicular, recta. Aquella alma, tão rica de abnegação de si, quanto o era de affectuosa sympathia para com todos os opprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se em fitar a vista em olhos que não se abaixassem deante dos seus, em encontrar na ideia alheia a resistencia á propria ideia. Não tinha ciume de uma soberania superior á sua, a da razão, nem o humilhava a dignidade humana, que equivale no subdito á magestade do rei. O que repugnava profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil, infusorio em grande, inquieta-nos, tenta a nossa fé na immortalidade com o dogma horrivel da geração espontanea, da omnipotencia do fermentescivel: o homem, que é homem, esse é que prova Deus.

«Foi na affeição de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou alentos para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham despenhado; foi animado por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, não para levar a cabo os ambiciosos designios concebidos na edade das grandes audacias, mas para concluir o quadro sincero da epoca mais obscura da nossa deturpada historia; para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. Expressa apenas como desejo, a sua vontade tinha-se tornado para elle irresistivel:{157} nem se pejava de confessar que elle começava a exercer já sobre o seu espirito aquella especie de absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, sobre o geral dos animos; singular especie de absolutismo, que encerrava a esperança da regeneração dos costumes publicos e, conseguintemente, a unica esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade; autonomia e liberdade que foram para elle crença e culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma consciencia virgem e as revelações de uma poderosa intelligencia.»[84].

Que alma segredava essas confissões! Que essencia sobrehumana as animou! Que resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do crente abdicaram perante a personificação candida da justiça. Não temeram degradação no desprendimento. Conscientemente o tributavam, pesando sem impostura o proprio valor e sem aviltamento depondo-o no altar do affecto que o reclamava, devido por gratidão e não offerecido pela livre generosidade do devoto. O crente engrandeceu-se{158} renunciando á altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.

Nem sempre, porém, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa esphera religiosa de adoração, e não raro de indignação, a que tão altos impulsos o erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades terrenas, benignamente as viu e lhes sorria.

Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos da multiplicidade dos seus prismas, objecto de justiça e simultaneamente desenfado de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia ou escarneo e ao mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da falta, jocoso sem insolencia e agressivo, por corrigir, sem durezas de expiação ou vindicta; esse humorismo caracteristico do sangue anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre Herculano e nos seus prolongados combates de polemista. E é de vêr a doçura, salpicada de ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambições e cobiças barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora sejam pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.

Exemplifiquemos.

Na côrte de D. Thereza, mãe d'Affonso Henriques, ricos homens, cavalleiros e clerigos{159} discutiam acremente, entre si e ao sabor de cada um, a legitimidade das pretensões do filho á posse do reino e o direito da mãe em lh'a negar. «As injurias voavam de parte a parte, os ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha, quando dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as scenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem theatro. Quasi ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir treguas em nome de Deus. Era D. Tello, arcediago de Coimbra, um d'elles: o outro: Fr. Hilarião, o bom velho abbade do mosteiro de D. Muma. Áquelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato lhe seria vel-o bispo da sua sé, a qual então se achava orphã de pastor; a este, a predilecção que sempre mostrára ao seu mosteiro e a elle em especial o moço principe, fazia crêr com bom fundamento que não eram vãs de todo varias palavras que uma vez lhe ouvira soltar ácerca não sabemos de que doação ao santo asceterio de Guimarães, de certa villa ou herdade, com cincoenta homens de creação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, exitos e regressos.{160} Não os moviam na verdade estas circunstancias que apontámos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a favorecer a justiça da bella infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Affonso Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do mundo. Mas é indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o outro seguia uma causa má e affligiam-se profundamente de verem assim a virtude desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na virtude dos cultores de politica: sabemos por experiencia que a maior parte das vezes as suas expressões são singelas e nascem de crenças mui fundas; sabemos tambem que as suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jámais é o medo que os incita a prégarem a concordia e a paz. E se isto é assim n'estes tempos de perversão moral, com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenções d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. É certo, porém, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavalleiros, que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu as debeis vozes dos{161} varões apostolicos. Finalmente foram ouvidos. A reputação de santidade de que ambos gozavam,—no seu bando já se entende,—porque em epocas de odios civis as reputações facilmente tocam o extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essas reputações, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanções e cavalleiros vieram emfim a uma conclusão razoavel; isto é, sairam d'alli cada vez mais afferrados ás suas opiniões e sem concluirem nada»[85].

Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os considerar sem impaciencia.

Se necessario fosse descobrir a couraça de ferocidade dos fundadores de dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa tarefa que sorrimos, quando aliás poderiamos sem injustiça voltar a face indignada pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo, que sacrilegos aggravos não se teriam feito ao conde D. Henrique, duvidando-lhe da bondade! Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque «devemos crêr, ao menos piamente, que o conde D. Henrique,{162} na epoca em que alevantou o castello de Guimarães, não lançou nos fundamentos do seu edificio soberbo um carcere seguro e vasto com os intuitos de rapina que guiavam o commum dos senhores n'estas tristes edificações. Ainda que algum documentinho de má morte provasse o contrario, cumpria-nos pol-o no escuro, ou contestar-lhe francamente a authenticidade, porque o conde foi o fundador da monarchia, e a monarchia desfunda-se uma vez que tal cousa se admitta. Assim é que se ha-de escrever a historia, e quem não o fizér por este gosto, evidente é que póde tratar de outro officio»[86].

Muitas vezes castigava rindo. É certo. Não cessava todavia atravez do riso a tenacidade de combater, a intuição e o ardor apostolicos, caracteristicos, como o humorismo, do sangue germanico. Sempre se uniam na alma do poeta aquella visão exacta das realidades e sua ordem, propria da educação romana, e o espirito de missão religiosa que nunca abandona os povos de origem septentrional. Se alguem representou por completo, resumindo-as nas tendencias e altos talentos de um só individuo, «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na{163} indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao Occidente», foi Alexandre Herculano, foi exactamente quem melhor as definiu na historia. O polemista manteve-se inquebrantavel até ao final da sua vida. De facto nunca abandonou as armas. Os derradeiros annos da sua existencia, as condições de desprendimento em que os passou, e a voz que de longe em longe nos vinha do ermiterio de Val-de-Lobos, foram pelo exemplo e pela affirmação explicita uma exortação ininterrompida á virtude, e um clamor instigando a contricção e emenda as gerações corrompidas cuja degradação presenciava com amargura. Corria-lhe nas veias a febre de exame intimo constante e de ambição de conquista moral e religiosa peculiares áquelles que deram á humanidade a renovação fecunda do protestantismo. Chamaram-lhe lutherano os que suspirariam por o levar ás fogueiras da Inquisição, se ainda as houvesse, porque lhes arruinava os milagres e a consequente exploração de estupidas crendices populares. Havia qualquer cousa de verdade n'essa designação. Sómente o honrava, em vez de ser pejorativa. Traduzia o reconhecimento de uma independencia rebelde a toda a seducção e lisonja de sensualidades satisfeitas e vaidades saciadas, a confirmação da posse de faculdades raras{164} entre latinos, commodamente conciliadores, a verificação da revolta insubmissa do combatente, inimigo jurado e exaltado de todas as oppressões, do despotismo dos homens e da escravidão da consciencia. Por erro o julgaram desalentado e vencido. Jámais o foi. Reagiu sempre, nunca tolerou ambiente que lhe repugnasse ao coração. Defendeu-se constantemente, de reducto em reducto, levando intactos e intangiveis seus escudos. Onde achou terreno ingrato para a sua alma, logo a transpôz para logar em que podesse offerecer-lhe resguardo conveniente. Deixou as armas, deixou a politica, deixou as lettras, deixou o seu minguado mundanismo da cidade, mas não por fraqueza; deixou-os, para renovar com uma energia inexaurivel as condições da sua vida apenas se convencia de que as não tinha adequadas á preservação da sua pureza.

Vicente Ferrer diz-nos que Alexandre Herculano «gostava de questionar e discutir». Presente-se, com effeito, nas suas polemicas certo prazer de se defender e flagellar a matilha que o assaltava latindo raivosamente. Com facilidade acceita o duelo, não mostra pressa de o rematar, e, muito ao contrario, procede com tal pausa na destituição do antagonista, arrancando-lhe uma a uma as suas{165} armas, que, se não lhe foi deleite a tarefa, pelo menos não a houve por enfadonha ou penosa. Sendo o combate instrumento de propagação da verdade, logicamente não poderia desamal-o, antes deveria apetecel-o quem tinha a verdade em conta de missão suprema. Combatendo reconheceria, não só a constituição vigorosa das proprias forças, o que o alegrava, mas tambem a expansão e derramamento da sua crença, o que lhe satisfaria a consciencia e lhe premiava o esforço.

Tornou-se materia corrente que o dominava o orgulho.

Não é exacto. Confundiu-se o orgulho com a defeza attenta e prompta da dignidade, com a justificação vigilante dos seus actos em que a salvaguarda da propria honra se juntava á necessidade constante de exame de consciencia. Na polemica que mais fundamente deveria feril-o, porque lhe contestava crenças religiosas, e nenhumas tinha mais arreigadas em seu peito, vinha adduzir com exactidão e vigor os factos em que na vida patenteára, muito mais do que generosidade com os vencidos e perseguidos, verdadeiro amor da egreja e do clero. «Como procedera elle sempre ácerca de egreja e do clero?» perguntava, indignado pela offensa que um catholicismo estreito de intelligencia e de{166} coração fazia á nobreza cavalheiresca do seu caracter, n'este caso inflamada pela fé religiosa, e pelo respeito e encanto da tradição e por toda a poesia do culto. E respondia, com uma serenidade em que se advinham tremores de mágoa e mal contidos impetos de desaggravo: «As ideias do seculo, recalcadas por uma compressão violenta, a que, força é confessal-o, a maioria do sacerdocio se havia associado, tinham reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado quando eu entrei no campo de imprensa, no campo das batalhas do espirito. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade que fôra, e no meio d'elles o clero, disperso, empobrecido, coberto d'affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situação da egreja portugueza n'essa epoca, e sobretudo a situação dos regulares, sabemos todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja sangue. Os homens das velhas opiniões politicas, no meio do terror, vergados pelo desalento de uma queda tremenda, duplicadamente dolorosa pela desesperança, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava n'esta terra de Portugal a favor da egreja batida pela tempestade. Ainda então esse grupo de mancebos{167} cheios de talento, de inspirações grandiosas e de crença fervente na liberdade humana, e pela liberdade na eterna justiça; essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem novos soldados, e que não se envergonhava de Deus nem do seu Christo, não tinha ainda começado a surgir para ser generosa com os adversarios das suas ideias, quando a desventura os santifica. Na imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, só eu, tive por muito tempo palavras de affeição e consolo para a desgraça; só eu tive animo para accusar os homens do meu partido de espoliadores e insensatos; para tentar revocal-os á poesia do christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mão que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre os symbolos da sua religião de affectos, eu guardo para mim, e só para mim, mais de um papel escripto por mãos tremulas de velho monge, e talvez regado por lagrimas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas ideias que não fosse absolutamente um malvado. É sobre estas reliquias que eu{168} quero encostar a cabeça para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar»[87].

Havendo, porém, fallado d'este modo, que a leviandade tomaria por altivez aggressiva ou desdenhosa, logo se apressa a esclarecer e dissipar por palavras de humildade essa impressão, como suspeitando-a, temendo-a, e não querendo que subsistisse tão mal pensado e calumnioso conceito. «Trouxera para o campo da historia», dizia elle então, «o mesmo amor da verdade singela, que tinha mostrado n'uma das mais graves questões sociaes. Não se arrependera do que fizéra. Cumpria um dever que lhe impunham Deus e a sua consciencia. Não esperava arrepender-se do que fazia. Cumpria uma obrigação litteraria, e estava certo de que bem merecia da terra em que nascêra escrevendo a verdade». Só hesitava «sobre a legitimidade das suas queixas; sobre se, no que suppunha um dever de honra, não haveria um pouco da obcecação da vaidade. Quando Roma que parecia ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo, crucificava no seu Index nomes como os de Chateaubriand e Lamartine; nomes como os de Gioberti e{169} Ventura, teria elle, verme que passava á sombra do seu nada, direito de offender-se porque de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus ou ignorantes lançavam sobre elle o vilipendio das suas palavras? Quando a egreja, involvendo a fronte no véu da sua immensa tristeza, e sentindo humedecer-lhe os pés o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal, contempla aterrada o futuro, havia dôr de individuos a que fosse licito um brado»[88]?

A victima de um odio estupido defendera-se do aggravo, mas o christão, dominado pelo desprendimento divino e pela abdicação na vontade do Senhor, duvidava não só do direito de defeza mas até da legitimidade de accusar a injuria e se queixar. Na hesitação do combatente revelar-se-ia um eterno problema de consciencia; na apreciação do facto accidental transpareceria o conflicto, porventura insoluvel, da religião da honra e da religião de Deus. Mas o que, com certeza, se sumia e dissipava era o ultimo vestigio de sentimentos de orgulho.

No fundo, não poderia tel-os quem se sentiu presa de arrependimentos porque expontaneamente reconheceu, desconfiando de haver{170} caido em erro, «não ser dos menos sujeitos a ceder ás vezes aos impulsos da vivacidade»[89]. Em ultima analyse, bem ponderados todos os elementos que entravam na sua constituição moral e de que elle nos deixou bastas indicações, Alexandre Herculano não seria orgulhoso nem humilde. Quem tão singela e modestamente confessava gratidão e, pelo facto, se mostrava commum mortal, fraco e sujeito á bondade do auxilio estranho; quem, longe de alardear independencias mentirosas e estultas a que a comprehensão do proprio valor o poderia sem estranheza tentar, declarava dever á intelligente previdencia de um rei a situação isenta de encargos pesados que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado trabalho da composição da historia e haver emprehendido o estudo da Historia de Portugal para educação do principe, pagando ao filho a divida que contraira com o pae e tributando em troca do pão e do socego que lhe concederam a fortuna immensa de talentos assombrosos: quem pretendia collocar-se n'esse terreno chão da fraqueza e do affecto vulgar, não seria nem orgulhoso nem humilde, seria apenas um justo, pedindo justiça para si pelos impulsos da mesma rectidão em que aos estranhos{171} procurava fazel-a, tendo reclamado o seu logar entre os da sua graduação moral, sem ignorancia ou preterição dos que por qualquer titulo lhe estavam acima, e muito menos sem desprezo dos que lhe ficavam inferiores, sem prescindir dos direitos que possuia e sem regateiar as obrigações que lhe cabiam ou occultar fraquezas a que se reputava exposto. Julgaram-no orgulhoso, porque alliando a força á justiça, uma virilidade intemerata a um sentimento indefectivel do dever, abominando a impostura, a hypocrisia, toda a ostentação de falsa modestia, não cedendo a incentivos do proprio capricho, se é que por elle passaram, affrontando valoroso toda a contingencia, disse de si e dos outros com uma energia superior toda a verdade. É singular até que seja quasi estranha ao caracter de Alexandre Herculano a melancolia, esse suave desfallecimento e queixume proximos da voluptuosidade na mágoa; no seu peito sómente responderiam á dôr a tristeza, os soluços ingentes e as lagrimas abundantes e francas de vencidos. A magnitude da reacção, o grito de mortificação denunciava a valentia do opprimido, as contracções gigantescas em que se debatia antes de succumbir, e nunca a morbida debilidade de quem se allivia renunciando ao seu querer e entregando-se ás fluctuações do destino.{172}

A robustez inviolavel no combate, na crença e no soffrimento consentiu-lhe a sinceridade e a largueza na ternura. Sómente os verdadeiramente fortes a possuem. Demanda profundezas taes de desprendimento, tão larga vibração de sympathia, que só a confiança de uma perfeita fortaleza intima as admitte. A bondade e o affecto vulgares, justamente porque são fracos, não ousam sujeitar-se a perdas, guardam sempre com avareza, em toda a expansão carinhosa, certa reserva de um egoismo que nem por instantes descura os seus pequeninos interesses. Mas Alexandre Herculano, porque era forte, pôde ser terno sem pusillanimidades de uma acanhada prudencia. Podia amar esquecendo-se por completo no amor; instinctos vigorosos o afoitavam, assegurando-lhe que em toda a abdicação o seu ser se enriquecia em vez de alienar e depauperar-se. As suas relações com D. Pedro V e as cartas intimas á esposa, das quaes com muita razão se tornou famosa a que vem publicada no Estudo Critico-Historico de Alexandre Herculano, de D. Antonio Sánchez Moguel, lido na Real Academia de Historia de Madrid, são testemunho eloquente de como o amor sublimado d'aquelle inspirado apostolo baixou intacto e perfeito das regiões em que é um poder divino, universal e soberano, para o{173} conforto do lar e para o respeito e dedicação de homem a homem, em que se torna doçura, encanto e lenitivo da vida mortal dos miseros seres ephemeros onde habita a consciencia eterna. Esse homem, que não podia ignorar a sua estatura herculea porque as rudezas das batalhas e dos trabalhos lh'a punham em prova e em evidencia aos olhos dos estranhos e aos proprios olhos, não temia aviltar-se, ou sequer amesquinhar-se, publicando que o rei, um moço, começava a exercer sobre elle «aquella especie de absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, no geral dos animos»; não tinha pejo nem admittia desdouro em se confessar vencido pela vontade e pelo entendimento alheio, satellite do prestigio d'aquelle deante do qual, pela edade e pela experiencia, ainda que por mais não fosse, poderia sem offensa allegar superioridade. E, ao mesmo tempo, as mãos que votou ao trabalho da terra e n'elle endurecera, para as purificar e avigorar n'aquelle salutar mestér e sacerdocio, guardavam doce flexibilidade de ternura, capaz de proteger e amaciar o ninho em que abrigava a companheira e de a amar com carinho, interessado e collaborando de continuo nas suas fainas, indulgente para os seus appetites e sollicito em lhe alliviar enfermidades.{174}