Da grandeza stoica reservou para si sómente a força de supportar contrariedades e dôres, remindo-se das suas feridas pela propria energia. Mas o que de frieza, impassibilidade e orgulhoso isolamento e desprendimento houvesse n'aquella doutrina, isso dissipou-o, apagou-o no fogo das emoções affectivas, na expansão ingenita de sympathia o de dedicação, nos apetites e doçura de aturado commercio com os homens. Val-de-Lobos consolou-o de muita amargura; collocou-o a salvo do desgosto de muita vilania, a distancia sufficiente para lhe não sentir continuadamente as picaduras irritantes; libertou-o na contemplação e beatitude dos mundos da infinita ingenuidade. Mas não foi sem lhe fazer pagar seu preço, sem lhe impôr enfados da soledade, vaga saudade. Alguma cousa alli lho faltaria que a rigidez estoica não podia supprir. O stoicismo, quando traduzido na existencia concreta, tinha suas tyrannias. A Val-de-Lobos não chegava o tumulto da cidade, o rumor das suas infamias, das suas dissipações e das suas depravadas demencias; mas calava-se tambem, no affastamento dos homens, o murmurio de amizades, aspirações e crenças, que todo o coração amoravel escuta e repete, distinguindo-o no meio de pragas e discordias, alimentando-o e alimentando-se por esse pulsar{175} de harmonia que incessantemente funde a sua vida na vida estranha. Sequioso d'esses filtros d'amor, d'esse sustento que fôra a paixão de toda a sua existencia, para dar e receber o qual combatera, estudára e se exaltára em esperanças, em combates, e em fadigas de apostolado e na febre das creações do genio, não lhe supportou sem lamentos a privação, quando os muros da voluntaria clausura em que se encerrára o impediram de o possuir em abundancia, de todo lh'o roubando até durante longas horas. Na Advertencia que precede o primeiro volume dos Opusculos, explicando porque começara a ajuntar os retalhos dispersos do seu passado intellectual, Alexandre Herculano, com a habitual e irreprimivel senceridade de todos os seus passos, não nos occulta como e quando o ermo lhe fôra tambem pesado. Nem só o espectaculo e a vozeria infernal dos odios e atropelos das cobiças da multidão importavam magoas. Outras se encontravam na sua ausencia, ainda que inspirada por uma sagrada repulsão. Eram differentes de caracter mas identicas na essencia: ou um rumor de sympathia nos falte em absoluto e o substitua um frigido silencio, ou o nosso coração sinta e chore a divergencia e opposição entre os seus anceios e os impulsos alheios, em qualquer caso{176} deplora a separação dos homens, o apartamento moral ou physico dos nossos irmãos, e suspira pela sua proximidade.
Procurando allivio a semelhantes males, proprios da ternura do seu temperamento e caraterisando-o fundamente n'esse ponto, para lhes moderar os effeitos começou Alexandre Herculano a colligir e ordenar nos ultimos annos da vida os seus escriptos dispersos. «Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de evitar nas cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada força sobre o espirito. Para o velho do ermo, n'esses intervallos da vida exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o acaricia, porque os livros novos são raros. A decima visão da mesma ideia, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o distráe. As convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as coleras e indignações que inspiram e que, na mocidade e nos{177} annos viris, enchem a cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrimas não sentidas, de amargo sorrir, cousas são que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da existencia... para o velho não ha a febre da alma que devora o tempo... É verdade que a natureza compensa o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado pôr do sol, que se refrange no espectro da sepultura já visinha e o illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso enleio, exige o movimento externo e as singelas occupações e cuidados da vida campestre. Sem isso, e é isso que falta muitas vezes nas interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia no indefinito sem o norte da realidade, vae-se convertendo pouco a pouco em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que seja da cellula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande criminoso é entregue, sósinho, á eumenide da propria consciencia. N'esta extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido, é preferivel, cem{178} vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo»[90].
O stoicismo bastaria para infundir na alma de Alexandre Herculano uma robustez inviolavel; mas não teria sido sufficiente para lhe facultar um contentamento indefectivel e povoar de alegria a soledade. É que o stoico commungára do amor de Christo, e esse annuncia desgraça a quem se encontrar sósinho. Mandava-lhe amar a Deus sobre todas as cousas, e esse bem o encontrava no ermo; mandava-lhe porém simultaneamente amar o proximo como a elle mesmo se amava, e esse preceito não dispensava a presença constante dos homens, desvairados ou santos que elles fossem, para lhes minorar a desgraça ou para lhes seguir o exemplo, em todo o caso para correr seu destino e o partilhar. O stoico pôde fortalecer o seu adepto com uma disciplina mas não pôde supprir o alento humano que anima o christão, esse anceio de dar e receber constantemente que é a sua razão de ser. Por isso, sentindo que lhe faltava, corria a juntar-se em espirito aos homens e a partilhar das suas preoccupações quem pela pressão cruel de sua sorte fôra pessoalmente lançado fóra dos turbilhões do mundo.{179}
Sem duvida, pela firmeza de animo e mais pelo exemplo do que por qualquer tentativa de systematisação philosophica ou defeza intencional de doutrina, a vida de Alexandre Herculano abunda na conformidade com os preceitos do stoicismo. Em grande extensão, poderia Seneca descobrir n'elle um discipulo. Acceitou-lhe leis fundamentaes. Confiou na virtude, teve-a «pelo maior dos bens»; «n'ella se alegrou e desprezou os accidentes da fortuna». Attingiu a «invulneravel grandeza de espirito que não se eleva nem abate com a boa ou má sorte». Sentiu que «em todo o homem bom habita um deus», um espirito sagrado, indicador e guarda do que é bem e do que é mal, «um ser divino e razão que reside no mundo e em todas as suas partes». Pela temperança, pela paciencia, pela coragem e pelo culto vigilante da integridade do caracter moral, saccudindo todas as servidões, e sobretudo as servidões dos sentidos, da cobiça, do luxo e da avareza, dominando as paixões e submettendo-se puramente aos mandados da razão, ensinou-nos eloquentemente como se enriquece «não augmentando os bens mas diminuindo as necessidades». Mostrou-nos assim como a virtude é accessivel a todos e até como a adversidade se converte em benção, porque «conheceu{180} a sua propria força e valor pondo em prova a virtude», quando a desgraça lhe bateu á porta.
Mas esse stoicismo que podia ser e foi alicerce de fortaleza, não tinha o calor bastante para fóco de irradiação, para inundar de luz e conforto a alma estranha. E inflamou-o então no evangelho de Christo, ungindo-o de piedade e por ella o convertendo á humildade, supplicando dos céus para os outros a indulgencia e auxilio que por intangivel capacidade de soffrer não carecia de pedir para si.
Abrangendo d'este modo todos os gráus da dignidade humana, da acção á contemplação, da firmeza á caridade, do humano ao divino, do heroismo á santidade, Alexandre Herculano a todos honrou igualmente, engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do povo portuguez.{181}
[1] Alexandre Herculano, Poesias. Lisboa, 1860, pag. 165.
[2] Poesias, pag. 172.
[3] Poesias, pag. 178.
[4] Poesias, pag. 182.
[5] Poesias, pag. 182.
[6] Poesias, pag. 56.
[7] Poesias, pag. 208.
[8] Poesias, pag. 169.
[9] Emerson, Essays (Grant Richards, London, 1902). Pag. 199.
[10] Oliveira Martins, Portugal contemporaneo. Lisboa, 1881, tom. II, pag. 305.
[11] Eurico, 5.ª edição. Lisboa, 1864, pag. 10.
[12] Eurico, pag. 15.
[13] Eurico, pag. 19.
[14] Eurico, pag. 22.
[15] Eurico, pag. 30.
[16] Poesias, pag. 57.
[17] Poesias, pag. 51.
«E eu comparei o solitario obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpetuo ruido que sussurra
Pelos palacios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo que só cura
De honras, haveres, glorias que se compram
Com maldições e perennal remorso.»
«Oh cidade, cidade que trasbordas
De vicios, de paixões e de amarguras!
.........................................
Soberba prostituta alardeiando
Os theatros, e os paços e o ruido
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa e o tropeiar continuo
De fervidos ginetes que alevantam
O pó e o lodo cortezão das praças
.........................................
Braqueado sepulcro, que misturas
A opulencia, a miseria, a dôr e o goso
Honra e infamia, pudor e impudecicia
......................................... »
Poesias, pag. 52, 53 e 54.
«Bello ermo! Eu hei de amar-te emquanto esta alma
Aspirando o futuro além da vida
E um halito dos céus, gemer atada
Á columna do exilio, a que se chama
Em lingua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei de amar-te, oh valle, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardal-a-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu unico thesouro.»
Poesias, pag. 50 e 51.
[20] Poesias, pag. 112.
[21] Poesias, pag. 27.
[22] Poesias, pag. 20.
[23] Poesias, pag. 4.
[24] Poesias, pag. 31.
[25] Poesias, pag. 61.
[26] Poesias, pag. 49.
[27] Poesias, pag. 81, 85 e 86.
[28] Poesias, pag. 89 e seg.
[29] A Tempestade, é o titulo, bem caracteristico, da poesia em que o exprimiu.
[30] Poesias, pag. 92 e 93.
[31] Poesias, pag. 111.
[32] Monge de Cistér, tom. I, pag. VII, (Lisboa, 1859).
[33] Monge de Cistér, tom. I, pag. III.
[34] Monge de Cistér, tom. I, pag. VIII.
[35] Monge de Cistér, tom. I, pag. XI.
[36] Opusculos, tom. V, 3.ª ed., pag. 294.
[37] Opusculos, tom. IX, pag. 278.
[38] Opusculos, tom. III, 2.ª edição, pag. 70.
[39] Monge de Cistér, tom. II, pag. 376.
[40] O Bobo, pag. 31 e 14.
[41] Monge de Cistér, tom. I, pag. XII.
[42] Monge de Cistér, tom. I, pag. IX a XII.
[43] Historia de Portugal, 3.ª ed., tom. II, pag. 93 e 94.
[44] Historia de Portugal, tom. II, pag. 137 e 138.
[45] Monge de Cistér, tom. I, pag. 61.
[46] George Bernard Shaw.
[47] Opusculos, tom. III, pag. 65 e 66, 2.ª edição.
[48] Opusculos, tom. II, pag. 217 e seg., 2.ª edição, Lisboa, 1880.
[49] Monge de Cistér, tom. I, pag. 73 e 76.
[50] Vid. o prologo da Historia da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal.
[51] Monge de Cistér, tom. I, pag. 262.
[52] Monge de Cistér, tom. I, pag. 243.
[53] Monge de Cistér, tom. I, pag. 219.
[54] Monge de Cistér, tom. I, pag. 227.
[55] Monge de Cistér, tom. II, pag. 70.
[56] Monge de Cistér, tom. II, pag. 152.
[57] Monge de Cistér, tom. II, pag. 137.
[58] Monge de Cistér, tom. II, pag. 78.
[59] Historia de Portugal, tom. III, pag. 223 e seg., 8.ª edição.
[60] Opusculos, tom. II, Mousinho da Silveira.
[61] Opusculos, tom. III, pag. 111.
[62] Opusculos, tom. III, pag. 113 e seg.
[63] Opusculos, tom. III, pag. 121 e 122.
[64] Reporter, n.º 178, 28 de junho de 1888. Cartas de Alexandre Herculano a Oliveira Martins.
[65] Stuart Mill viveu de 1806 a 1873, antecedendo portanto Alexandre Herculano quatro annos no nascimento e na morte.
[66] Mes Mémoires. Trad. fr.; Paris, 1874. Pag. 221 e seg.
[67] Alexandre Herculano. Opusculos, tom. I, pag. XV. 4.ª edição. Lisboa, 1897.
[68] Vid. Poesias.
[69] É singular e significativa certa frieza que transparece no elogio, quando José Estevão apreciou a pouca fortuna de Alexandre Herculano no parlamento. Dizia o tribuno na Revolução de Setembro, em um pequeno artigo que o meu erudito conterraneo Sr. Marques Gomes transcreve no seu José Estevão, Apontamentos para a sua Biographia:
«Coube a palavra ao Sr. Alexandre Herculano, litterato conhecido e deputado debutante. O discurso d'este senhor foi modelo em dicção, mesquinho na intenção e falho nos meios. Este senhor deputado, tendo-se declarado opposicionista, não proferiu uma palavra de censura contra o ministerio, e querendo inculpar as administrações da Revolução mostrou que nem sempre os bons desejos supprem a escassez de recursos. O senhor deputado é um talento, e póde vir a ser um bom orador applicando os encantos da sua dicção aos termos logicos das questões.»
Ora José Estevão era de uma generosidade e largueza d'animo com os adversarios verdadeira e superiormente nobre. Se escreveu com semelhante leveza de Alexandre Herculano foi porque em consciencia a tinha por merecida, e nunca por qualquer sombra de mesquinhez partidaria ou pessoal, de que de todo e sempre se achou isento. E desconheceu-o, ou melhor, talvez o conhecesse mal n'aquelle tempo, porque a diversidade de temperamento tornava embaraçosa e lenta a mutua comprehensão dos caracteres, que de resto veio a mostrar-se. É sabido como esses dois homens acabaram por se estimar profundamente, como o exigia a conformidade da grandeza moral de um e outro.
[70] Monge de Cistér, tom. II, pag. 57 e seg.
[71] Ernest Howard Crosby.
[72] Opusculos, tom. II, 2.ª edição, pag. 141 e 142.
[73] A carta em que propunha a Bertrand a edição da Historia de Portugal é sobre esse ponto sufficientemente elucidativa. Encontram-se publicadas pelo Sr. Dr. José Pessanha as suas passagens principaes, no Boletim da Real Associação dos Archeologos Portuguezes, em o numero especial com que recentemente aquella aggremiação commemorou o centenario de Alexandre Herculano. Todas as condições commerciaes da empreza confiava á experiencia e probidade do editor; nem sequer se importava de as determinar; e gracejava da propria incapacidade para semelhante ajuste e para materias do negocio em geral.
[74] Monge de Cistér, tom. I, pag. 122.
[75] Monge de Cistér, tom. II, pag. 9.
[76] Monge de Cistér, tom. II, pag. 170.
[77] Monge de Cistér, tom. II, pag. 331.
[78] Monge de Cistér, tom. II, pag. 246 e 247.
[79] Opusculos, tom. IV, 2.ª edição, pag. 102.
[80] Monge de Cistér, tom. XI, pag. 377.
[81] Historia de Portugal, tom. IV, pag. 5 e 6.
[82] O Bobo, pag. 261.
[83] Graças ainda á generosidade do Sr. Marques Gomes, foi-me possivel lêr a representação das pessoas d'Aveiro pedindo ao governo que a Alexandre Herculano se facultassem todos os meios de continuar a Historia de Portugal. A representação está publicada no Campeão do Vouga, n.º 536, de 16 de julho de 1857. Conheci a maior parte dos homens que a assignaram. São tudo o que em Aveiro havia de superior pela intelligencia e situação social; e encontro alli, a par dos liberaes mais exaltados, os nomes de catholicos severos e intransigentes, legitimistas ferrenhos, cabralistas, padres e seculares de todas as classes.
Diz-me mais o Sr. Marques Gomes que a representação foi promovida por José Estevão, o que de resto logo suspeitei porque não falta alli a assignatura de nem um só dos amigos mais dedicados do tribuno, dos que cegamente o seguiam. Mas, se duvidas houvesse a tal respeito, estavam tiradas em a nota que o Sr. Marques Gomes encontrou nos apontamentos de seu pae, o dr. Francisco Thomé Marques Gomes. Este apontou o dia em que assignou a representação, e accrescenta que o fez a pedido de José Estevão.
[84] Vid. toda a Prefação da 3.ª edição da Historia de Portugal.
[85] O Bobo, pag. 89 e 92.
[86] O Bobo, pag. 254.
[87] Opusculos, tom. III, pag. 30 a 32 da 2.ª ed.
[88] Opusculos, tom. III, pag. 83 e 84 da 2.ª ed.
[89] Opusculos, tom. III, pag. 63.
[90] Opusculos, tom. I, pag. IX a XII da 4.ª ed.