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Alexandre Herculano

Chapter 4: III
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About This Book

Apresenta o retrato de um paladino iluminado cuja ardente crença o leva à luta pela redenção da pátria: combate, derrota e exílio trazem sofrimento profundo, saudade e crise espiritual, mas também a resistência que transforma o soldado em poeta. Ao regressar encontra desilusão diante da corrupção, da ambição e da injustiça social, e abandona a espada pela ação moral e educadora, defendendo uma regeneração cívica e religiosa. O texto combina narrativa biográfica, análise de emoções e reflexão política, concentrando-se em temas de amor à terra, dor do desterro, perseverança e a tensão entre idealismo e realidade social.

 

I

Um paladino illuminado e moço, intemerato no ardor da juventude e na exaltação da crença que nem o martyrio lograria dominar ou perverter, sonhou a redempção da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela oppressão de tyrannias ávidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e degradações monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e de paz, de boa vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo austero e de religião sublimada, formosura e virtude, o resgate da miseria desalentada e tenebrosa em que se afundava um povo, outrora são e justamente altivo e agora debatendo-se por se salvar e erguer dos abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o paladino partiu a conquistar para a patria a fortuna revelada em visões de{VIII} claridade; e armou-se soldado, transpondo para exercitos do mundo aspirações divinas, a todos os perigos sujeitando a existencia ephemera, sem que algum fosse capaz de lhe turvar a fé.{IX}

II

Combateu. Foi vencido. Em vez de palmas de triumpho, recebeu as penas do exilio. Desterrado da «terra cara da patria», que saudou entre a dôr, verteu lagrimas de «saudade longiqua sobre as ondas do mar irriquieto», chorando o

«Berço do seu nascer, sólo querido,
Onde cresceu e amou e foi ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Seu pobre Portugal..................[1]

Proscripto e errante, entre as brumas do norte,

«.......................as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O fremito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De éccos, de sombras, de tristezas santas:»{X}

isso tudo que eram encantos da sua terra, trazia-lh'o ante os olhos, cruelmente, a memoria inexoravel[2].

«..................A dôr está no coração do profugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dôr aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada qual cobra peçonhenta
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.»[3]

Embora

«Sob as azas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo; o amor por elle
Nasce, cresce, avigora-se enredado
Com os beijos da mãe, com sorrir amigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O por do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.»[4]{XI}

Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prisões inexpugnaveis, e entenebreceu-lhe o espirito a turbação negra da impiedade e da duvida, a derrota da fortaleza do proprio coração, mais cruel para o crente do que a ruptura de todos os laços d'affecto imposta pela violencia estranha. Para o proscripto, quando tudo o que amava se converteu em sombra, a cada passo evocada pela lembrança desperta em mágoas,

«Quando em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissinio ou phantasma
Á meia noite visto, á luz da lua,
Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trevas
Pela antena da náu do vagabundo;
Quando a dôr sua em olhos d'ente vivo
Não achou uma lagrima piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrimas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam
Não sobre seio que as esconda e enxugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus sossobra e morre
Entre o bramir de maldições e pragas.»[5]{XII}

Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. Não a morte! Porque de toda a oppressão o sonho renascia. Para os loucos d'amor que por amor combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltação em vez de a suffocarem, e nem o nome de Deus jámais «sossobra e morre», nem as pragas e maldições respondem aos flagellos da desgraça, sem que logo as condemne e cale uma outra voz intima e soberana. Fortificam-se nas provações. Amarguras da alma e mortificações do corpo, pobreza extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da derrota, o insulto dos vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos, em vão passaram pelo vencido. Perdido na solidão de ilhas inhospitas para o seu coração a trasbordar de tristeza, não houve adversidade que lhe vergasse o animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiança da victoria.

E cantava, o peregrino! As tribulações incendiavam-lhe o genio. Esse mesmo sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos creava e alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O peso das armas não partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no seio, murmurando de continuo seus gemidos e preces. Nem o fragor das batalhas e as blasphemias atrozes{XIII} de luctas inhumanas lhe perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e não foi necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta deferisse apaixonadamente a voz grandiloqua.

Advinhava o «dia de ventura» que o destino lhe reservava.

O tempo justificou-lhe a aprehensão. Pela audacia heroica de guerreiros destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras pelejas, os desterrados voltaram «ás plagas da saudade e á terra dos seus sonhos», e de novo avistaram «os gestos tão lembrados, os campos tão risonhos, o tecto amigo da infancia, a fonte que murmura, o céu puro da patria», que no exilio haviam chorado, consumidos de saudade.{XIV}

III

Ah, a sua patria! A sua desvairada patria!... O poeta imaginava trazer-lhe legiões angelicas para a abençoarem d'infinitas bençãos, e trazia-lhe apenas um bando de homens, muitos quasi santos, todos denodados, e muitos outros fracos porque á intrepidez do braço não correspondia a generosidade do animo. E o paladino ingenuo viu rebentar d'esse mesmo sólo que a imaginação lhe cobrira de pomares umbrosos e doces, paradisiacos, os fructos mortiferos de seivas envenenadas. A furia das ambições agitadas, a desordem e o egoismo vilmente triumphantes, o delirio das obsessões afogueiadas dos fanaticos, ondas de impiedade céga e estupida, o fraco desprotegido contra o forte e a victoria degenerando em ferocidade, o misero recalcado na miseria pela cobiça infrene do opulento, a virtude insultada, o escarneo e o roubo, tudo quanto ha de infimo nas perversões humanas, tudo o poeta viu manchando o

«Berço do seu nascer, sólo querido,
Onde cresceu e amou e foi ditoso,
Onde a luz, onde o sol riem tão meigos
Seu pobre Portugal!................»{XV}

IV

Perante «as vagas d'esse mar de abjecção chamado o vulgo»[6], que assolavam a querida patria, cobrindo-a, apodrecendo-a e arrastando-a pelas praias turbidas da cobiça, não se quedou, desalentado e mudo, o sonhador. Não se «sumiram os cantos que lhe transudavam da alma», por se encontrar «n'um seculo sem vida, sem virtude e sem fé, em que desabavam as crenças todas do passado, e era sonho a constancia e o amor»[7]. Partida a espada, agora inutil porque os seus combates haviam cessado, o apostolo surgiu na tunica branca e rude da sua austeridade; e foi-se a missionar sua missão fraterna d'affecto e de grandeza, piedoso e confiado, empunhando um facho deslumbrante, a mostrar-nos a estrada por onde ha longos seculos vinha caminhando o povo eleito do seu genio, descerrando-nos os páramos da nobreza impoluta a que quereria conduzil-o, renovando-o á sua imagem, renascendo-o nos seus translucidos sonhos.{XVI}

Então, d'entre aquelles mesmos que elle amava e pelos quaes padecera, muitos lhe voltaram as costas, alguns lhe cuspiram injurias e anethemasiram-no, outros por timidez o abandonaram, e todos assim por diverso modo desconheceram ou negaram a luz que lhes trazia.

Mas elle venceria, na força invencivel dos fortes, alimentada d'emanações divinas. Pagavam-lhe os homens com ignominia e deserção o amor que prodigamente lhes tributava?!... O chão da sua patria o receberia, aquelle que todo o alento retribue e a nenhum mente. Resurgiria em lirios a formosura que se mirrava sob o halito pestilento de paixões funestas; o amor que o pó das baixezas occultava e repellia no rolar de suas nuvens escuras, pousaria na frescura salutar dos campos reverdecidos pelo suor do ermita.{XVII}

V

Distante dos homens para melhor os servir dando-lhes exemplo, foi o infortunado sonhador offerecer seu esforço e fadigas a um pedaço de terra que encontrou inculta, engrinaldando-a de rosas e nutrindo-a de cuidados, para que de seu seio uberrimo dimanasse a delicia do perfume, o refrigerio da sombra, a abundancia do pão e consolações do espirito. A enxada do cavador não se mostraria inferior, para remir de penas a humanidade, á bayoneta do soldado e ao verbo inspirado do apostolo; a todos santificaria igualmente o calor do coração que os ungia.

Agora, a recompensa era certa. Uma vez ao menos sentiria a realidade igual ao sonho. Antecipadamente o sabia, d'uma certeza intima, absoluta. Quando ainda no peito lhe borbotavam vigorosas as esperanças de regeneração dos homens pelas luctas e combates, já entrevia as bençãos ineffaveis da solidão, já o seu enlevo se lhe mostrára. E apetecendo-a, cantava-a, implorando da generosidade do destino a concessão d'essa magnifica e incomparavel{XVIII} riqueza, e imaginando, em um lance de antegozo e deleite, a plenitude de vida que ella importava para o seu divino anceio. Muito cedo a invocou e adorou, antes de a encontrar e possuir:

«...........oh, dae-me um valle
Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
E a larangeira em flôr, e as harmonias
Que a natureza em vozes mil murmura
Na terra em que eu nasci, embora falte
No concerto immortal a voz humana,
Que um ermo assim povoará meus dias»[8].

Rendido á visão que toda a vida o acompanhou, correu a abraçal-a.

No seu bemdito captiveiro viveu os derradeiros dias e n'elle morreu, curadas as feridas do mundo nos balsamos da natureza.

Amou sempre! A robustez inviolavel do coração havia de salval-o de toda a tormenta, retemperando-o continuamente em estos de amor a Deus e aos homens, por fim consubstanciado na terra mãe e nos filhos dilectos do seu doce ventre, a seára, a rosa e a arvore.{XIX}

VI

Esse paladino e sonhador, que tão gloriosa orbita seguiu e, perfazendo-a, nella consumou a existencia, tem na historia de Portugal o nome de Alexandre Herculano.{XX}

FASCINAÇÃO DO ERMO

{1}

FASCINAÇÃO DO ERMO

Uma apparente deserção da cidade, em que vivêra tantos annos, para se encerrar no retiro d'um tranquillo casal rustico em Val-de-Lobos, a dissolução abrupta de multiplicadas relações mundanas, litterarias e politicas, d'affectos, de commercio intellectual e de velhos habitos, serena e deliberadamente substituidos pelo isolamento e rudeza do aldeão, no seu aspecto e modo de ser externo, pois, sem embargo, no intimo não cessava nem podia cessar a superior distincção do espirito; esse acto de estranha energia, que alguns julgaram orgulho e desprendimento irritado, e outros tiveram por enigma indecifravel, foi o facto capital da vida de Alexandre Herculano. Os que na sua existencia anterior se tornaram notaveis e parecem designar marcos da jornada e os que se seguiram a esse golpe de soberano arrojo, não parecem mais em ultima conjuncção do{2} que a experiencia, primeiro, e depois a affirmação definitiva d'uma individualidade, homogenea na substancia e invariavelmente identica no movimento e nas tendencias, logica, seguida e firme, producto e revelação d'um caracter inalteravel.{3}

I

A solidão será eternamente o refugio dos fortes, d'aquelles que as tempestades do mundo não affeiçoaram á sua obra de descrença, de mesquinhez, de destruição, d'aviltamento, de frouxidão desalentada, de duvida resignada e de contentamento saciado nas commodidades d'uma vulgarissima animalidade e na trivial vaidade dos instinctos primitivos. Prophetas, santos e heroes, obscuros crentes e almas singelas, innumeraveis espiritos d'eleição que o isolamento atráe, conquista e salva de tormentos, dia a dia vão renovando essa perpetua pagina da historia da humanidade, que fórma alguma de civilisação pôde apagar ou corrigir.

«A nossa alma é progressiva, nunca se repete, mas em todo o acto procura a realisação d'um todo novo e mais bello»[9], mais{4} proximo da revelação intima: e assim o vidente se vae isentando pouco a pouco, no correr da existencia, de tudo o que constrange, e perturba e offusca a aspiração, para mais de perto se lhe unir e a contemplar. Pela propria necessidade da missão a que o destino o votou, gradualmente se desprende das cadeias que lhe tolhiam a liberdade d'expansão.

A critica, na interpretação e auctorisado exame d'um extraordinario e grande mestre, cujo saber e elevação foram dignos d'aquelle a que honrou, analysando-lhe a obra portentosa e prestando culto ardente ao seu caracter, viu no «solitario de Val-de-Lobos», como em respeitoso carinho o cognominou, um suicida. «Quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrages são profundos e agudos como os que expulsaram da politica—e tambem das lettras,—Alexandre Herculano, o stoico, repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o caracter apparece com toda a sua pureza. Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso d'uma imperfeita doutrina. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio não{5} entrasse o ferro, como entrou nos suicidios stoicos da antiguidade»[10].

Porventura seria porém mais justo ou, pelo menos, mais exacto considerar a attitude do ultimo periodo da vida d'Alexandre Herculano, não propriamente um suicidio, a morte voluntaria d'uma parte da sua individualidade, mas o perfeito remate, o termo ultimo da evolução natural do seu espirito desde o começo promettida, contida nas primeiras confissões da sua consciencia. Com o stoico coincidia no mesmo peito o poeta; e os poetas não se suicidam, a não ser por pressão de desordem physiologica grave ou no desvairamento de uma surpreza. O poder de crear, sollicitando-lhes de continuo a actividade de que carecem e são avidos, salva-os da tentação do anniquilamento; das visões que se esvaem e, perdendo-se, os deixam prostrados, reanimam-nos as que sem cessar se geram e de novo os inflammam: e caminham, caminham infatigaveis, d'amor em amor, tão depressa succumbidos como de subito arrebatados por energias mysteriosas e immortaes. Nem Camões, nem Dante, nem Petrarca se suicidaram, embora a dôr a nenhum d'elles houvesse poupado.{6}

Jámais se penetrará inteiramente, porque o genio sempre guarda para si certa essencia transcendente dos seus segredos, a natureza do impulso intimo que conduziu Herculano ao ermiterio de Val-de-Lobos; se foi desgosto do mundo e protesto contra as suas vilanias, se a seducção da paz dos campos e rendição aos seus encantos, se uma libertação que as exigencias do caracter austero ha muito reclamavam, se a doçura de bençãos que a terra prodigamente lhe offerecia e todo o seu ser lhe pedia. Sem duvida, diversos sentimentos se conjugaram na mesma tendencia, mas nas suas palavras ha signaes claros de que a corrente d'affectos teria prevalecido sobre rigores de condemnação; não será muito desvairada suspeita julgar que amou tanto as arvores e as rosas dos seus estreitos canteiros como a Historia de Portugal ou a promulgação de leis justas que engrandecessem a patria. Para elle, como para tantos outros da sua feição e estatura, até a tristeza e mágoa se convertem em belleza, pela serenidade de que as revestem, pela religiosa conformidade com que as acceitam e pelo objecto em que as transformam. O que nos fracos redunda em estereis contracções torturadas de desespero, é nos fortes o ensejo de subirem a maior altura.{7}

Eurico, que Alexandre Herculano modelou cedo e cedo amou, «era uma d'estas almas ricas de sublime poesia, a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendel-as»[11]. «O povo rude de Carteia não podia entender esta vida d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites». «Ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu coração pela soberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o christianismo se resume em uma palavra—fraternidade. Sabia que o Evangelho é um protesto ditado por Deus, para os seculos, contra as vãs distincções que a força e o orgulho radicaram n'este mundo de lodo, d'oppressão e de sangue; sabia que a unica nobreza é a dos corações e entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela»[12]. «Os virtuosos» não perceberiam os poemas em que o poeta lançava torrentes d'amargura, «como, tranquilla a consciencia e repousada a vida,{8} um coração póde devorar-se a si proprio, e os máus não criam em que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em suas cogitações d'além tumulo, curasse de males e crimes que roiam» a patria. Ignorariam a colera e maldições que podem dimanar e dimanam dos prophetas do perdão e do amor. «Era por isso que o poeta escondia as suas terriveis inspirações. Mostruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade corrupta em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o escutaria, ou, antes, ninguem o entenderia»[13]. «A força moral da nação tinha desapparecido e a força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavalleiros e dos saios dos peões das hostes, não havia senão animos gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do santo amor da terra natal. Com a profunda intelligencia do poeta, o Presbytero contemplava este horrivel espectaculo d'uma nação cadaver e, longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes d'aquella geração degenerada, ou derramava sobre o pergaminho, em torrentes de fél, d'ironia e de colera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos{9} tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia em lagrimas os hymnos de amor e de saudade»[14]. No coração de Eurico, que parecêra morto, porque havia procurado o ermo, o enthusiasmo e a virtude nem um só instante se tinham todavia apagado; um surdo labor da sua alma perpetuamente os alimentava. Apenas mudavam as vidas a que se applicavam e consagravam. O vulgo, na inercia propria do acanhamento do seu espirito, não podendo alcançar os voos do sonhador, desconhece-os e injuria-os, reputando-os insensatez, delirio, uma dissipação inexplicavel de faculdades preciosas; incapaz de prender o genio no circulo estreito dos seus interesses, imagina que o illuminado os despreza e atraiçoa, desamando-o, quando o viu elevar-se e perder-se n'uma atmosphera inaccessivel á debilidade commum das forças mortaes. O mundo nunca poderia entender plenamente o affecto que, «vibrando-lhe dolorosamente as fibras do coração», arrastou Eurico para a solidão, «quando os outros homens nos povoados se apinhavam á roda do lar acceso e fallavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos d'um instante»[15].{10}

De longa data, Herculano traçára a propria carreira na contemplação do filho do seu genio. Porque o conflicto da inspiração e do mundo é e será o mesmo, irreductivel, eternamente, heri et hodie, ipse et in secula. Se a inspiração veio alojar-se n'um pobre corpo humano, deixae-o, não cuideis mais do seu destino. É só o tempo de percorrer a via dolorosa pela qual tem de seguir seus fados. O termo da jornada está previsto, e será o unico que á sua condição convém, o isolamento e o espaço que a intensidade de irradiação reclama, provoca e determina nos astros ou nos prophetas, nas parcellas minimas da luz da materia ou do espirito.

Alexandre Herculano foi para Val-de-Lobos, não para morrer e sepultar-se ainda quente das palpitações do seu sangue, mas para viver inteiramente sua vida; não para deliberada cessação de actividade, mas para a sua mais perfeita expansão e mais lidima e bella applicação. Apenas eliminava relações e cousas que o atormentavam, estorvando-o de se manter continuadamente, face a face, na presença da aspiração intima. Entrou no claustro que a seu modo edificou, naturalmente porque os das antigas communidades estavam prostituidos e em ruinas. Não lhe regateiára o mundo, atravez das injurias, as lisonjas que{11} concede á inanidade vaidosa com a mesma insensatez e inconsciente impudor que usa na calumnia, na inveja e na flagellação do merecimento. Se não foi amortalhado em trajo de grande do reino, recamado de chaparia, foi porque constantemente repelliu de si esses symbolos de grandeza emprestada, cobrindo o mais das vezes uma real mesquinhez. O premio que buscava dos seus combates, aquelle que o alegraria, se os estranhos lh'o houvessem dado, era a communhão na sua fé, de que contrariedade alguma o arrancaria, e o fortalecimento nas suas virtudes, em cuja propagação se lhe figurava uma nova patria, rejuvenescida para a gloria. E como essa communhão e essas virtudes não encontrou, senão em raros companheiros, desventurados como elle, e da outra, da communhão na sordidez em que os demais folgavam, estava excluido por aversão da sua alma, viu-se expulso do banquete, e foi alimentar-se ao longe, n'um recanto obscuro e impoluto, do pão grosseiro e bemdito da singeleza incorruptivel, a guardar o sacrario que Deus lhe confiára. «Cantor da solidão, foi assentar-se junto do verde cespede do valle, e a paz de Deus consolava-o do mundo»[16].{12}

«Consolava-o», disse o poeta candidamente, imaginando carecer de consolo ao deixar o mundo.

Não era assim. Os resplendores enganosos do mundo por que passou, sómente para os aborrecer e desprezar, é que nunca poderiam furtal-o á fascinação do ermo. Na verdade, emquanto habitou esse mundo de torpezas é que necessitava compensação da violencia imposta ás suas tendencias e caracter, e compensação não alcançou.

«Céu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz intima, e saudade mas saudade
Que não dóe, que não mirra e que consola
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram»[17].

Essas riquezas abandonára o apostolo, para partilhar com os homens dos bens que no seu peito abundavam. Os homens desconheceram-nos. Para que pois privar-se de beneficios preciosos, sem proveito do sacrificio para os desvairados no tropel da ruindade impenitente?!... Não ignorava, quando desceu aos mercados da cidade, nem a fortuna incomparavel da solidão nem a profundeza do esqualido tremedal onde ia arriscar a saúde do corpo e{13} a paz do espirito, para estender a mão aos desventurados que n'elle se afogavam[18]; mas incitava-o e arrebatava-o a esperança de levar opulentissimos thesouros aos estranhos que tanta miseria soffriam. Destroçada a esperança pelos repetidos vendavaes da desillusão, voltava ao ermo a que jurára fidelidade antes{14} de se empenhar no combate[19]. Ao fim de incerta jornada, o peregrino vinha cumprir a promessa que ao partir fizera nos altares da sua crença, da verdadeira patria dos seus sonhos, onde tinha em recompensa a liberdade.

«Feliz ou infeliz, triste ou contente
Livre o poeta seja.»[20]

De facto, libertou-se. E, libertando-se, em toda a sua magestade se mostrou, na atmosphera a que anciosamente aspirava, fóra d'aquell'outra que o desfigurava pela incessante coacção das suas energias caracteristicas.{15}

II

Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso com os seus impulsos, a solidão e a vida rural não seriam para Alexandre Herculano isenção de fadigas physicas e desenlace d'aspirações naufragadas, adormecimento de mágoas e repouso n'uma animalidade cuidada, bem mantida, satisfeita e robusta. Não seriam uma festa lauta dos sentidos, por demais castigados da escuridão da cidade, mas uma devoção gratissima do espirito desonerado de temporalidades que o mortificavam, tão pesadas pelo tumulto e pressão ininterrompida, como estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o ermo e procurando-o, não o chamava a delicia pagã; se tanto lhe queria, era por obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a vontade do Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre da natureza, a contemplação da harmonia e belleza das formas que por si vivem como divindades independentes e distinctas, só por excepção prenderiam Herculano. É um accidente{16} raro, muito raro, que elle se quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em attentar nas crueldades e exaltações orgiacas das estações e dos astros. Se por elle passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos, voltou o rosto descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos céus, e outra não procuravam, não supportariam fumo e labaredas, ateiados com o sangue e erguidos dos infernos em que penam condemnados. Mal sorriu ao carvalho magestoso que encontrou em meio do valle.

          «Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda,»[21];

e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura, perfume e gentileza e côr! Outros eram, porém, os enlevos do poeta, que não esses, candidos, sem duvida, na sua graça, mas fugitivos e pereciveis, de perto vigiados pela enfermidade e pela corrupção. A fecundidade da imaginação, a riqueza de conhecimentos e a expontanea intensidade{17} da attenção todas as relações dos seres e todos os estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expansão; mas o arrebatamento religioso não lhe consentia identificar-se senão com aquelles que traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa vontade omnipotente e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo ordenava e a quem tudo obedecia, na verdade Deus e Senhor, como o poeta lhe chamou, invocando-a para o guiar e consolar, deus pela magestade e virtude infinita, e senhor pelo imperio sem limites na vida do universo.

«Ante o olhar do Senhor vacilla a terra!»[22]. E Alexandre Herculano renunciaria, por ignoto impulso, ao seu quinhão nas incertezas vacillantes da terra, para mais firmemente receber o olhar do Senhor, que era eterno e por isso lhe insinuava uma eternidade, inflamando-o no seu fulgor. A abdicação salval-o-ia da degradação inherente aos timidos e fracos que, acorrentando-se á caducidade das cousas mortaes, com ellas se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua substancia infinitas tendo visto ou amado, além d'essas mesquinhas e passageiras nas quaes se absorveram.{18}

«Entendimento bronco», tomando com adoravel candura por aspereza a fortaleza ingenita, «lançado em seculo fundido na servidão atraviada de goso, cria que Deus era Deus e os homens livres»[23]. Aos infieis clamava, para os defender de perdição, que «entrassem no templo e não temessem aquelle Deus que os labios negam e o coração confessa»[24]; «não escarnecessem do que em Deus confiou»[25]. Ahi se isentavam da morte, porque «o justo, chegando á meta extrema que nos separa da eternidade, transpõe-na sem temor e exulta em Deus»[26].

O apostolo tinha jurado a sua fé. «Louvaria o Eterno!» Embora humilde reconhecesse que os seus hymnos d'amor não eram dignos d'aquelle a que adorava, embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um tyranno barbaro, para assim dominarem o vulgo cégo e insano, o poeta passaria tranquillo entre os abrolhos dos males da existencia, guardado por essa Providencia, a cuja misericordia de todo se entregava[27].{19}

III

Antes porém da libertação extrema, o crente teria de experimentar as tentações da impiedade e n'esse combate succumbir ou armar-se, invencivel, para o ultimo triumpho.

Alexandre Herculano passou pelo baptismo pessimista. Não lhe poupou o destino o transe supremo, que é provação da grandeza, e perante o qual succumbiram ou se desvairaram nobilissimos espiritos do seu tempo. Sómente o soffre quem entreviu reinos sublimados de pureza e, para os alcançar, lançou o vôo que invariavelmente o mundo corta, na sua miseria eterna, com crueldade e escarneo. E então a dôr é tão aguda e funda que ainda os mais fortes muita vez lhe preferiram a rendição total e ultima desgraça, entregando-se, exultando, a quem os remisse do supplicio e lhes desse a paz, anjo ou demonio que se lhes apresentasse.

A «doce mãe do repouso» com o seu «amoroso aspecto», a «calumniada morte» tentou Alexandre Herculano, como sempre, invariavelmente, tentou quantos se enlevaram{20} em aspirações santas e, «sentindo-as morrer no fundo do coração», calcadas por «quanto ha vil no mundo», sonharam libertar-se do conflicto terrivel das visões celestes com as realidades terrenas. Tambem elle soffreu os negros anceios de anniquilamento que essa angustia provoca; tambem lhe entonteceu os sentidos a vertigem dos abysmos da inconsciencia, para se resgatar de contradicções intimas, pungentes, em que n'uma agonia infinda a negação das cousas respondia ás affirmações da alma, satanica e desapiedadamente, com irrisão e ludibrio. E implorou então o soccorro da «peregrina eterna» que, sendo temida em seu mysterio, a elle, infeliz e naufrago, lhe promettia a redempção de todo o mal:

«Oh morte, amiga morte! É sobre as vagas
       Entre escarceus erguidos
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
       Meus dias aborrecidos:
Quebra duras prisões que a natureza
       Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar por entre os orbes
       Aos pés do Omnipotente.

Doce mãe do repouso, extremo abrigo
       De um coração oppresso
Que ao ligeiro prazer, á dôr cansada
       Negas no seio accesso,
Não despertes, oh não! os que abominam
       Teu amoroso aspeito;{21}
Febricitantes que se abraçam, loucos,
       Com seu dorido leito!
Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,
       Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás azylo
       Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
       Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
       E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
       Já filhos teus nasceram:
Um dia accordarão d'esses delirios,
       Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida e já não sonho
       Gloria nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até ás fezes,
       O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
       De quanto ha vil no mundo,
Santas inspirações morrer sentindo
       Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
       De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
       Esta espinhosa senda?»[28]

Respondia-lhe uma voz intima, assegurando não só a necessidade de proseguir na jornada, atravez de todas as angustias, mas tambem a certeza da recompensa, se fosse em obediencia{22} á vontade divina e sujeito á sua inspiração.

A tentação da morte teria sido para Alexandre Herculano apenas um «pensamento infernal», gerado em meio da tempestade[29]. Ao seu rugir comparou o clamor da consciencia desvairada, quando, accordando para o conhecimento das cousas e dos homens e reconhecendo mentira nas esperanças cujos sonhos nos affagavam ao «despontar do dia», ao entrar na vida da aspiração, recua aterrada e endoidecida, sem saber que caminho a possa conduzir a salvamento. Mas a tempestade é de sua essencia transitoria, por muito violenta e assoladora que haja sido nos effeitos de destruição irreparavel; seguem-se-lhe horas de bonança, a serenidade reapparece e mantem-se, illuminando os destroços e atenuando-lhes a tristeza do aspecto; embora jámais deixemos de os vêr, duradouros, claros e manifestos, sobrevém reparações do tempo, lentas e imperfeitas, sem duvida, mas capazes todavia de nos trazerem momentos de calma e até de ventura; sobre as ruinas crescem verduras. Na propria terra ha poderes de renovação indestructiveis, eternidades cosmicas{23} que de toda a tormenta sáem illesas e intactas.

Do mesmo modo acontecia ao poeta. A angustia em que os primeiros golpes da desillusão o lançaram, a agitação de que nascia o desejo de se afundar n'essa noite sem fim da inconsciencia, dissipava-se como os bulcões varridos pelo vento que elles geraram e que o vento na sua violencia desfaz. Acalmada a tormenta, contemplando o que lhe restava da sua devastação e procurando unil-o e reanimal-o em novas creações d'uma fortaleza intangivel, precavida contra o assalto de toda a adversidade, o poeta encontrava «um consolo», e pressentiu que «nas trevas da existencia Deus lhe deixára doce amizade e amor». Por elle se ergueria para «passar sua noite a luz tão meiga até ao amanhecer, até subir á patria do repouso, onde não ha morrer»[30].

É que ás eternidades cosmicas correspondem eternidades do espirito, e n'ellas se formára e retemperava incessantemente a alma de Alexandre Herculano, defendida contra toda a traição da amargura, para todo o combate armada invencivel, em toda a contingencia.{24}
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APPARIÇÕES E ESPECTROS

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APPARIÇÕES E ESPECTROS

O poeta tinha uma missão na terra. O Deus que na consciencia se lhe revelava e elle adorava, não era um principio de puro extasi e absorpção contemplativa, uma corrupção da energia organica no arrebatamento e na abdicação de todo o desejo proprio, mas uma vontade determinando a acção, desenvolvendo-se de continuo nas cousas da terra, exigindo dos homens de fé que se subordinassem ao seu imperio, e lhe traduzissem a essencia nas realidades contingentes e mortaes.

Sentindo no intimo o dominio d'essa vontade suprema, Alexandre Herculano logo cogitou os modos de a cumprir, tão perfeitamente quanto em suas forças coubesse, e sem tardar se entregou á execução dos seus mandados com uma fidelidade absoluta.{28}

I

Ordenava-lhe Deus que servisse a patria, a gloria e a virtude.

Deus á poesia deu por alvo a patria
        Deu a gloria e a virtude[31].

Mas o que era a sua patria? Que queria ella do seu affecto? Como conhecel-a e concebel-a, para se identificar com a sua vida e encorporar o impeto do seu genio no pulsar d'essa vida maior que a sua, commungando-lhe da aspiração e n'ella se abrazando, immolando-se ao seu triumpho?

«Os annos e os seculos confundem-se e igualam-se deante da vida perpetua do universo»[32].

Ha uma eternidade no mover das cousas do mundo que Alexandre Herculano não ignorou; ha uma continuidade e repetição que apaga a distancia, o espaço e a individualidade, as distincções entre o dia de hoje e o dia de{29} hontem, entre o pólo e os tropicos, entre o rochedo e o homem, entre as raças, nações e epocas. Mas a repetição e a continuidade operam-se pela renovação successiva, pela dissolução e reconstituição incessantes; as distincções e as distancias, de cujo confronto e verificação ha de resultar a percepção da unidade, só se revelam nas creações ephemeras e, para bem servir o eterno, havemos de o sentir e amar na caducidade a que descer, no transitorio e momentaneo.

«Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam»[33], e só ligando a nossa geração áquellas de que procede, conseguiremos, por nossa vez, encarnar a vontade divina. Sendo a mesma atravez dos seculos, demanda para integridade da sua expressão a filiação estreita dos seres em que se mostra.

D'ahi vinha que o poeta, para se guiar no presente olhava para o passado, procurando descortinar-lhe as tendencias e a direcção, os affectos e as aversões, os beneficios e os damnos, a robustez e a fraqueza, a luz e as trevas, as bençãos e os castigos; e assim, por amor da «patria», mandamento da lei{30} do seu Deus, e á força de escavar, observar e meditar, viu-se cercado de apparições bemfazejas e espectros terriveis, surgindo das brumas que o olhar inflammado de sublimadas paixões penetrava, encaminhando-o «á gloria e á virtude», mandamentos tambem do seu Deus, e defendendo-o da queda em abysmos de ignominia e tortura. «Pelos becos tortuosos, sombrios e lodacentos» da cidade, embrenhando-se no «labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos, passagens, indelineaveis e enredados como meada a que se perdeu o fio»[34], Alexandre Herculano ia procurar no amontoado informe dos restos do passado a revelação do seu fausto e da sua miseria, das suas degradações e da sua nobreza, de todos os seus impulsos, para os exaltar no que tivessem de elevado e digno e para os condemnar no que encerrassem de vil. «Muitas vezes passava largas horas deante dum portal de capellinha carcomida como velha enrugada; deante duma hombreira partida, onde apenas se divisavam cansados e gastos lavores da arte da edade media»[35]. Interrogava as pedras, a saber se as suas confissões confirmavam as palavras dos homens; remexia{31} a poeira, sobre a qual pesavam annos innumeraveis, a experimentar se, posta á luz do sol, lhe descobria ainda particulas palpitantes da vida d'outras eras; e dos lichens e musgos, cobrindo ruinas, desprendia lembranças que alli se tinham abrigado de contrariedades, e redivivas lhe vinham contar desgraças infinitas e magnificas victorias, esperanças e desenganos, paixões ruins e ardor santo, penas e bemaventuranças. De tudo tirava ensinamento avidamente, confiado em que por seu influxo havia de se salvar ou perder, conforme o empregasse, e por elle tambem, a sua patria, o chão onde nascera e os seus irmãos que o habitavam, encontrariam a felicidade ou a desventura.

A riqueza que n'essas peregrinações amontoou e nos legou, é estupenda; e o uso que d'ella fez, os sanctuarios em que devotamente a enthesourou, as edificações que com ella ergueu e onde a recolheu, o espirito em que por toda a parte a purificou e ungiu, ficaram como monumentos de perpetua gloria do povo portuguez, attestando o poder mental da raça e a susceptibilidade, d'óra avante para sempre provada, da grandeza religiosa da sua alma.

A epoca de Alexandre Herculano favoreceu-lhe singularmente as inclinações do espirito. A exploração historica entrava no desenvolvimento{32} assombroso de que as gerações modernas são testemunhas, colhendo-lhe os copiosos e preciosissimos fructos. A Allemanha, paiz que Herculano considerou, «por via de regra, o fóco de toda a sincera e verdadeira sciencia»[36], chamava a attenção da mocidade para uma renovação da arte, «a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação servil das chamadas lettras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura franceza da epoca de Luiz XIV»[37]. E as formas em que esse renascimento se fundia e estampava eram abundantissimas, desde o trabalho de erudição rigida e analyse minuciosa até á novella opulenta de trajos resplendentes, palpitante de movimento e pujança no perpassar das multidões que desfilavam por deante dos nossos olhos atonitos, misturando lances dramaticos e gargalhadas comicas, placidez, heroismo e abjecção, generosidades e cobiças, ostentando sem reservas nem piedade todo o vigor e anceio do coração das sociedades nas conjuncturas infinitas a que a fatalidade o traz sujeito. O romance historico, ou a novella historica, como então se lhe chamava, iniciada na Inglaterra{33} por um talento de rara fertilidade e fascinação, espalhava-se na Europa inteira, abrindo caminho para desusadas concepções da litteratura e da arte. Associando as cousas vividas e as cousas sonhadas, a imaginação e a realidade, embora producto d'uma alliança hybrida perigosa que constrangia a imaginação pelas pressões da realidade e desfigurava a realidade pelas violencias da imaginação, o seu apparecimento assignala um fermentar de fecundidade inexaurivel e o descerrar de largos horisontes. Corrigiu com elementos sãos e de verdade os desregramentos da phantasia morbida, entontecida pela vertigem de liberdade infinita; conduziu á comprehensão das possibilidades, fundadas, logicas, acautelando-nos dos desenganos de ambições e esperanças insensatas; produziu salutares effeitos educativos. Na verdade, disciplinou e moralisou a imaginação, infundindo-lhe a consciencia do limite, obrigando-a a mover-se na esphera do facto e nos termos por elle marcados. Influiu até, em ultimo mas não menor resultado, no modo de comprehender e escrever a historia. Sem embargo, por virtude de influencias geraes contemporaneas mas um pouco, incontestavelmente, pela repercussão das tendencias da litteratura imaginativa, a historia começou a esquecer-se da narração dos feitos d'armas e{34} a emancipar-se do deslumbramento de façanhas heroicas e entrou com um esplendor sem precedente na resurreição integral dos seculos passados, tomando-lhes em conta todos os factores, apreciando e coordenando os multiplos poderes que collaboram na vida social dos povos e das nações, perante os quaes se reduz a proporções inferiores a efficacia da acção individual; dirigindo «as indagações historicas mais para o estudo da indole das sociedades do que para os actos dos individuos»[38]; verificando a concorrencia do clima, da situação geographica, das raças e dos accidentes do destino nos caracteres das diversas civilisações, representando-as e reconstituindo-as na plenitude da sua substancia. Coube á novella historica um papel de feliz equilibrio, accudindo por um lado áquella necessidade de exactidão e rigor scientifico que cada vez se exigia com maior instancia, annunciando a prodigiosa altura a que a ergueu a segunda metade do seculo XIX, e por outro lado deixando ainda livre curso e largo campo á liberdade da imaginação, que a ruptura e ruina da antiga ordem e de vinculos caducos provocava a reclamar os seus direitos. Todo o devaneio e ingenua falsidade do romance{35} historico, todos os seus exaggeros, correcções e corrupções, quasi invariavelmente motivados por desejos candidos de dar formosura e realce a muita cousa que merecia ser amada: os seus vicios e deficiencias estrictamente litterarios, porque para o produzir eram necessarios estudos aridos e, «no meio de estudos tediosos e positivos, é impossivel que o imaginar não descore, que o estylo não ganhe asperezas»[39], e obliteram-se faculdades creadoras essenciaes—todas essas faltas merecem prompta indulgencia, quando consideramos os beneficios de que elle foi vehiculo no progresso do pensamento humano. Que profundezas não cavou e abriu á nossa meditação a novella historica! Que clareza de visão do nosso ser não nos deu, como nos protegeu de fraquezas e errores dum imaginar sem lei, confiado a mero capricho, que estabilidade não nos infundiu! Com que delicia não nos insinuou o sentimento da immutabilidade das cousas e dos homens, a impossibilidade de nos esquivarmos a moldes, regras e sujeições, que se tornaram como ingenitas pela diuturnidade da sua influencia, e de que circumstancia alguma é capaz de nos isentar! Quanta vaidade desfez, que loucuras d'orgulho não dissipou, que{36} vigor não nos infundiu, que alma nova e bella não ajudou a crear e a alimentar, em logar d'aquell'outra, desnorteada e turva, formada nos turbilhões da poeira intellectual e moral erguida do ruir do velho edificio! Convertendo-se em propulsor energico do conhecimento da historia, em todos os aspectos da vida social, e simultaneamente sua filha e escrava, a novella alimentada n'esse riquissimo manancial foi, sem duvida, obra de grande proveito na jornada das nações e dos homens para os reinos luminosos de paz e felicidade, a que tão lenta e dolorosamente se encaminha. De todas as bençãos são dignos os trabalhadores pacientes e apostolos que lhe desprenderam de nuvens a claridade.

Teve Alexandre Herculano a incontestada gloria de desbravar na litteratura portugueza esse campo tão fecundo como saudavel. Elle mesmo nol-o confessa na Advertencia do primeiro volume das Lendas e Narrativas, cujos merecimentos se lhe afiguravam minguados pela inexperiencia, pela «singeleza da invenção, pouca firmeza no contorno de alguns caracteres e o menos bem travado do dialogo»; mas quiz colligil-as, tentando apenas preservar do esquecimento «as primeiras tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portugueza, mormente dos esforços do auctor{37} para introduzir na litteratura nacional um genero duplamente cultivado, n'aquelles tempos, em todos os paizes da Europa». «Na historia dos progressos litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho poude apparecer á luz do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole, como estupida na sua applicação e esterelisadora nos seus effeitos», n'essa historia, dizia, aquella nova edição, reunindo pequenos romances e narrativas, que andavam dispersos em volumes separados e em publicações periodicas, devia ser julgada principalmente com attenção «á prioridade das composições n'ella insertas, e á precisão em que, ao escrevel-as, o auctor se via de crear a substancia e a forma, porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos».

Desconfiava do talento com que produzia as primicias d'essa renovação litteraria, mas tinha certeza e fé na fecundidade e belleza dos resultados que promettia, sobretudo no resurgimento moral que nos infiltraria. «Fossem as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revocasse á energia social e aos santos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitavam para os graves e profundos{38} trabalhos da historia se dedicassem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mistér de recordar o passado era uma especie de magistratura moral, era uma especie de sacerdocio. Exercitassem-no os que podiam e sabiam; porque não o fazer era um crime. Que a arte em todas as suas formas externas representasse esse nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance fossem sempre um ecco das eras poeticas da nossa terra. Que o povo encontrasse em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus antepassados»[40].

N'esse «quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexediços»[41], em que por sua desgraça se via involvido e de cuja inanidade e degradação tremia, n'essa liberdade de especulação e impudor que foi a primeira das liberdades asseguradas ao fim de tantas batalhas e sacrificios, já aterrado pela ruina e devastação de toda a casta, material e moral, no meio da qual se debatia, tropeçando e ensanguentando-se a cada passo nos destroços de tanta cousa querida e digna de ser amada, clamava aos homens de espirito são e coração puro que corressem a defender e guardar o{39} patrimonio das nossas infinitas riquezas, desbaratadas pelas mãos ignorantes e sacrilegas de ambiciosos depravados e sordidos, e de imbecis não menos funestos do que os mercantes ingenuamente avidos e cynicos. «Com a rapidez da colera ou da peste corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os povoados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do futuro, se chamava illustração; que tendo por logica o escarneo e por syllogismo o camartello, se chamava philosophia. Deus a mandára ao mundo como mandou Attila e a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mistér era apagar todos os santos affectos da alma, e incarnar no coração, em logar d'elles, um cancro para o qual nossos avós não tinham nome, e que estranhos designaram pela palavra egoismo. Que se apressasse aquelle que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do futuro; porque a illustração do vapor e do atheismo social alli ia livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade do amor da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da historia gigante do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa historia presente, a obra artistica pelos algarismos do orçamento, o templo de Christo pela espelunca{40} do rebatador. Que se apressasse; porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e os terremotos nos deixaram, não nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo legado monumental para os seculos que viriam após elle seria um cemiterio immenso; mas cemiterio sobre o qual não se elevará sequer a humilde distincção d'uma cruz»[42].

Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que chamava os outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe votára uma energia e capacidade de todo o ponto raras, e copioso na abundancia com que desentranhava diamantes de filões obscuros e nunca encetados, e até muitas vezes desprezados, estando aliás bem patentes á luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade obtusa. Foi assim que nos deu o Eurico, o Monge de Cistér, Lendas e Narrativas, O Bobo e mil outras pequeninas joias prodigamente dispersas onde quer que o seu genio passasse, em qualquer assumpto sobre que discorresse.

Sem duvida, nem sempre o fez com perfeição. Muitas d'essas joias ficaram por lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que{41} não lhes poz em evidencia todo o seu brilho. As suspeitas de Alexandre Herculano quanto á sua obra d'arte imaginativa, eram fundadas. «A singeleza da invenção» tocou por vezes a pobreza de esqueleto; «a pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres» aqui e além se manifesta, enfraquecendo-os por insuficiencia d'accentuação, não lhes facultando ensejo de intervirem em situações tão multiplicadas e diversas que a diversidade de conjunctura, coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a invariabilidade das feições; e ao dialogo, embora habitualmente «bem travado», contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia encurtar-se e terminar muito áquem do desenvolvimento necessario ao pleno effeito de impressão. Mas todas essas faltas, que em outros seriam grandes, porque a magreza das creações não lhos dispensava cuidados de trajo, a debilidade da estructura carecia de se occultar na opulencia do adorno e só por si, sem o amparo e esmero do involucro, não se sustinha nem realçava, todas essas faltas em Alexandre Herculano somem-se na torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos confunde e avassala. Ou procure esboçar-nos o quadro d'uma epoca, como no Monge de Cistér, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes, como nas Lendas{42} e demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que as nutre, a intensidade de vibração psychologica que as anima e o grau de concentração em que tudo isso se nos revela, são um facto unico na litteratura portugueza, um limite nunca antes nem depois de Alexandre Herculano excedido ou sequer alcançado. O que nos fica na lembrança quando pousamos qualquer d'esses livros, por magia igualmente deliciosos e severos, é um torvelinho indescriptivel de objectos estranhos e não menos estranhos espiritos. Se a riqueza é grande em materia descriptivel, trajos, moveis, armas, habitações, combates, festas, jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e côr, não é inferior na prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no conflicto de dependencias e instituições, a violencia do drama, riqueza tambem e preciosa em todos os tempos, não cessa de jorrar um instante, agitando de ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em uma atmosphera de ambições, de cobiças, de hypocrisias, de traições, de heroismo e dedicação a par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de miseria, de todas as paixões emfim que constituem e eternamente hão de constituir o supremo mysterio e seducção suprema da nossa alma. Porque todas essas{43} cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou das cinzas, não para por si só reviverem mas para de novo se mostrarem nas suas relações com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas d'uma actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e vencem, rendendo-nos á apreciação e ao peso de forças immortaes, communs ao passado e ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente e o presente no passado. Esta unidade da historia realisada na unidade do coração humano atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a phantasia litteraria a tal altura que não podia perturbar-se-lhe a grandeza por escassez de adornos, de refolhos de expressão ou fertilidade de invenção—revestimento, tantas vezes enganoso, d'uma real e profunda inanidade, supprida por alimento succulento para os que por sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de faculdades.

Mas «no meio de estudos tediosos e positivos é impossivel que o imaginar não descore», dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por certo, dizendo-o tinha em lembrança a sua propria experiencia. Emquanto se afferrava a compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria lançára-o n'esse caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir{44} desvio, o espirito tornou-se cada vez menos indulgente com os errores da imaginação, menos docil para as suas exigencias, menos affeiçoado aos seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava affrouxar sem saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes a vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por muito e subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio abrigavam-se da rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando largo capital, sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos, perdidos em restricções obrigadas e concessões mutuas indeclinaveis. O novellista e o poeta tinham de abdicar nas mãos do historiador, para o deixarem livre de toda a coacção, não todavia tão absolutamente que lhe privassem as obras dos reflexos da presença de tão leaes servidores, nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o bastante para o dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor do passado. Desembaraçou-se do enleio em forças estranhas, e, desprendido das paixões e artificios que abalavam a affirmação e a impediam de accentuar-se e dilatar-se, foi então até onde o incitavam a chegar uma abundancia e valor{45} de materiaes desentranhados dos archivos e uma lucidez de interpretação, até aquella data ignoradas em terras portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito encantassem, estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade de revelação, justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor. Necessario se tornou ceder-lhe a preponderancia.

Singular fortuna! Exactamente quando a arte não buscava e só d'uma extrema exactidão historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua mais bella obra d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e é de notar que em toda a ordem do pensamento humano discorreu, alcançou a lucidez, a ponderação, a singeleza e a elasticidade de forma que attingiu na Historia de Portugal. Olhamos com temor para os seus quatro volumes bem providos de citações, de factos e referencias, tumidos de velharias extravagantes e termos obsoletos na linguagem e nos objectos que significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos enfados de repetições e minucias, de analyses prolongadas e discussões infinitas; e vamos encontrar uma suavissima lição, rapida sem insufficiencias levianas nem obscuridade de precipitações e lacunas, profunda sem oppressão e cansaço de dissertações{46} ociosas, sem a fadiga de esforços de attenção e applicação á destrinça de elementos agglomerados ao acaso e mal ordenados, lição tão segura quando tem motivos de affirmar como discreta quando pressente alguma duvida, infundindo-nos um encanto e confiança que d'um só golpe nos subjugam e nos arrancam applausos de admiração e de affecto sorridente e grato a quem nos concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e cultura, á custa d'um trabalho gigantesco.

Exemplifiquemos. É desnecessario escolher, ou antes, é inutil. O tecido é d'uma tão unida igualdade que em todo o ponto ostenta a homogeneidade e o bem ligado da trama, a constancia da côr e a suavidade e rythmo da ondulação:

«A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu habil ministro, o chanceller Julião, é na verdade admiravel, se attendermos aos multiplicados objectos pelos quaes naquella epoca essa actividade se repartia. No meio de uma guerra violenta com Leão tratavam-se as graves questões politicas de que procurámos acima dar uma ideia, bem que necessariamente imperfeita. Não era, porém, só isso. Na mesma conjunctura em que se promovia a povoação por uma e outra margem do Tejo,{47} entregando-se ás ordens militares, principalmente aos templarios, vastos territorios, onde estas corporações poderosas pouco a pouco iam estabelecendo aldeias e granjas e fazendo arroteamentos, saiam de Portugal agentes encarregados de conduzir das regiões centraes da Europa novas colonias que supprissem a escasseza das que desciam das provincias septemtrionaes do reino. Este encargo devia ser dado com preferencia aos estrangeiros já estabelecidos no paiz e cujas relações com a sua patria natural os habilitava para atrairem novas migrações á patria adoptiva. A doação de Pontevel feita em 1195 ás antigas colonias da Lourinhã e de Villa Verde, presuppõe um incremento de população mais rapido do que poderia resultar do seu desenvolvimento natural: e assim cremos que esses municipios haviam augmentado com os aventureiros que vinham buscar melhor fortuna n'este paiz hospitaleiro. Entre as providencias que se davam já em 1198 para tornar menos solitarias as provincias meridionaes, devastadas pela longa e variada lucta da conquista e pelas recentes invasões dos almohades, foi uma das mais importantes diligencias a vinda de novos colonos. Offerecia esta gente duas utilidades; porque, não só servia para ir desbravando os logares ermos, mas era tambem{48} seminario d'onde se podiam transplantar para os campos de batalha valentes homens de guerra. Guilherme, deão de Silves, que, segundo parece, ahi ficára com o bispo Nicolau na occasião da tomada d'aquella cidade aos musulmanos, expulso da nascente diocese pela terrivel reacção de Yacub, passou a Flandres, d'onde voltou com bom numero de companheiros, deixando muitos outros alistados para depois o seguirem. Era o chefe principal d'esta colonia flamenga um certo Raolino (Raulin?). Destinaram-lhes para se estabelecerem uma parte dos largos campos que se estendem entre Santarem e Alemquer, dando-se-lhes por termos as varzeas que o Tejo fertilisa com as suas enchentes e que já eram conhecidas n'aquelle tempo pelo nome de Leziras. Entre elles fundaram a villa-dos-francos (Villa-franca), designação que depois se mudou na de Azambuja. Raolino foi feito alcaide-mór do novo municipio e, homem talvez pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enriquecido agora pelo principe portuguez, viu prosperar no processo de uma dilatada existencia aquelle simulacro da patria que levantara para si e para os seus em terra estrangeira, mas amiga»[43].{49}

Passemos algumas paginas. Não teria sido esta lucidez e serenidade maravilhosas um momento de feliz disposição, e porventura toda a obra estará repassada de igual encanto? Experimentemos uma outra passagem:

«Aquillo em que o reinado de Sancho tem acaso mais subida significação historica é em ter então começado esse facto tão variado como complexo que se protrae por tres seculos e que constitue a principal feição publica da nossa edade-media. Falamos da alliança do rei e dos concelhos contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia. N'estas primeiras phases da lucta ha não só um começo, mas tambem um resumo ou, antes, um symbolo de toda ella. Os burguezes do Porto, acomettendo o seu bispo e o seu senhor com os officiaes da coroa, sequestrando-lhe os bens, expulsando-o coberto de ignominia e affrontando a colera dos membros da poderosa familia de Martinho Rodrigues, são o typo da resistencia e da má vontade que nos municipios e nos reis acharam geralmente as duas altas classes do estado, até a monarchia obter d'ellas final e decisiva victoria. Sancho, abandonando os habitantes do Porto, transportando, digamos assim, a sua força inerte de moribundo para o campo adverso, associando-se, até, ao clero para ajudar a submetter os burguezes,{50} dava um deploravel exemplo aos seus successores e entibiava os animos populares para as futuras contendas. Não póde, apesar d'isso, condemnal-o a historia, pois que tudo parece indicar que os ultimos mezes da sua vida foram uma dilatada agonia; e se ainda n'estes nossos tempos, em que o sentimento religioso se acha atenuado e frouxo, almas que se dizem rijamente temperadas vacilam ao aproximar-se a morte e se acurvam, não só aos terrores salutares e santos da religião, mas até muitas vezes ás crenças supersticiosas da infancia, que revivem então importunas, como deixaremos de desculpar um homem ignorante e credulo, nascido numa epoca ferrea, de sacrificar á voz dos remorsos, muitos dos quaes seriam legitimos, tanto as conveniencias como a lealdade politica?»[44].

Não foi, porém, esta arte incomparavel na subtileza de analyse, de conjuncção e de expressão, não foi esta virtude que os contemporaneos e a posteridade reconheceram mais promptamente na Historia de Portugal. A impressão do pasmo pela renovação da historia e pela fortaleza de verdade que a acompanhava e a tornava subsistente, esse foi o impeto que de subito lhe deu um logar de{51} excepcional proeminencia. Consideravamos a nação uma tarefa cavalheiresca do genio militar rematada com bom exito, questão de audacia militar e fortuna na peleja, de paixão da guerra e de conquista, consequencia dos dotes dos reis e principes, do seu temperamento e do seu querer, uma intriga de acções generosas e de cobiças vãs; raras arremetidas de justiça atropeladas por muita traição e vingança, revoluções e luctas saidas de roubos, violencias e especulações de senhores ambiciosos, despoticos, mais rudes ainda na alma insensivel e sem escrupulos do que no corpo prompto a toda a fadiga, dureza e excessos. Consideravamos a historia patria obra da vontade d'alguns homens, e Alexandre Herculano, sem lhes contestar a intervenção, antes examinando-a e verificando-a em toda a latitude, rasgava-nos caminhos novos para a descoberta de origens da vida nacional inteiramente occultas. Graças a processos de investigação e methodos de correlação aprendidos no estudo paciente dos mestres estrangeiros e por elle nacionalisados, importando-os e empregando-os com uma habilidade que o collocava a par dos maiores e mais destros n'essa ordem de conhecimentos e nos seus espantosos progressos, mostrava-nos a multiplicidade das forças que haviam cooperado na{52} constituição da nação portugueza, a influencia de tradições seculares e até da simples fatalidade, a pressão de massas anonymas da villanagem e do povo ao lado das façanhas dos capitães, o destino e o instincto das raças superior ás ambições dos chefes prepotentes, que em seu proveito proprio as guiavam e serviam, a surda e lenta elaboração do sentimento da collectividade, confuso e frouxo, sobrepondo-se, em uma ascenção penosa, á absorpção de tyrannias d'um ferino egoismo despotico, embriagando astuciosamente as multidões em fumos de gloria emquanto as acorrentava aos seus insaciaveis apetites. Collocando nas suas relações de existencia e dependencias logicas os factores da vida nacional, muitos dos quaes foi exumar do acervo informe de documentos e chronicas onde jaziam inuteis e suffocados no logar para que o acaso os atirará, juntando um trabalho colossal de investigação a um talento de organisação e interpretação sem precedentes na litteratura portugueza e entre os seus raros e apagados pensadores e philosophos, Alexandre Herculano fez para alguns seculos do passado o que mais tarde Oliveira Martins conseguiria para algumas decadas da politica contemporanea.

Note-se—a impressão de surpreza foi nos dois casos identica, como identicos foram o{53} louvor e a condemnação que se lhe seguiram; louvor dos que prezam a lucidez de entendimento e a clareza de consciencia; e creem na sua efficacia para a fortuna dos povos; e condemnação dos que, fanatisados e tresloucados pelo interesse de castas, de classes, dos bandos e das clientelas, só esses veem e sabem defender com acrimonia exaltada, quando o bem publico lhes exige o cerceamento e a quebra de regalias ou o espirito de justiça lhes denuncia as oppressões, os crimes e torpezas a que recorreram e recorrem para acrescentar e conservar o seu predominio nefasto.{54}