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Ás Mulheres Portuguêsas

Chapter 14: A ignorancia do Povo
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About This Book

A series of essays examines the social position of women in Portugal, arguing for feminist reforms through expanded education, legal and economic rights, and public participation. The author critiques traditional domestic roles, marital and civil-code constraints, and social vanity that limits female autonomy, analyzes motherhood, poverty, and the effects of ignorance, and considers women's labor and political engagement. Science and reason are invoked to dispute claims of intellectual inferiority. Across prologues and topical chapters, the text blends social observation, legal critique, and moral appeal to encourage responsibility, improved instruction, and structural change to enable women to contribute equally to family and society.

A ignorancia do Povo

Não ha ninguem que não tenha ouvido, pensado, ou dito centenas de vezes—que o maior mal do nosso paiz é a ignorancia, que o analfabetismo é a causa mais flagrante da nossa decadencia moral.

É realmente a verdade, a triste verdade que nos envergonha e inferiorisa aos nossos proprios olhos.

Mas são sómente os governos os grandes responsaveis d'este atraso vexatorio do nosso paiz?

Não corresponde o desleixo em que os governantes têm deixado cahir a instrução publica, á criminosa indiferença individual dos governados por essa instrução geral, que é o orgulho dos paizes cultos?!

Não são os governos que fazem os povos, mas os povos que fazem os governos; e estes, forçosamente, hão de promulgar e cumprir as leis que a consciencia colectiva e fórte duma sociedade reclama, porque correspondem a uma necessidade ou a uma aspiração nitida da alma popular.

Assim o prova o pouco mais de interesse que a instrução do povo vae despertando entre nós, mercê das reclamações e lamentações que de ha poucos annos a esta parte se vem ouvindo, numa propaganda lenta, mas fructuosa, de alguns espiritos dedicados.

O governo deve auxiliar a iniciativa individual, deve, por assim dizer, sancioná-la e impulsioná-la; mas ser elle sómente o encarregado de nos dar todos os progressos e todos os melhoramentos, é inadmissivel para espiritos que aspiram a ser livres e desejam uma patria livre.

Nos paizes cultos, sob os governos mais inteligentes e progressivos, o que vêmos? A iniciativa particular realisar tudo ou quasi tudo, e os governos adoptarem os melhoramentos, auxiliarem-nos, serem como que o vigia dos actos individuaes, não o tutôr, a Providencia, que nós pretendemos que seja, por preguiça de pensar e trabalhar.

Depois duma senhora fundar em Paris a Maternidade, a instituição que mais eleva o espirito altruista do nosso tempo, é que a municipalidade resolveu imitá-la, criando por seu turno outra casa similar.

Foi depois de miss Nightingale educar e apresentar as suas enfermeiras modelos, livres de todo o espirito de sectarismo e instruidas segundo todas as regras da higiene moderna, que o governo inglês as enviou á Crimeia, onde déram as suas primeiras e brilhantissimas provas, e as adoptou nos seus magnificos hospitaes, onde são exemplo para todo o mundo.

Por toda a parte se fundam institutos, se realisam obras de solidariedade, protectoras e pedagogicas, que os governos sancionam depois, que ajudam a manter e a espalhar, se o resultado corresponde aos sacrificios exigidos.

Decretar no papel sem que a prática mostre que a inovação está de harmonia com o caracter etnico do povo, corresponde a uma necessidade colectiva ou foi precedida duma propaganda inteligente e conscienciosa, dá o triste resultado que produzem no nosso paiz as reformas, em geral, e a da instrução em particular.

Senão, vejâmos. Como todos sabemos, estão criadas escolas e decretada a instrução obrigatoria ha tempo bastante para que a actual geração fosse filha, e até neta, de gente sabendo lêr.

E o que sucede?

O numero de analfabetos é enorme, e os que sabem alguma coisa é tão pouco, e tão mal aprendido, que mais se póde dizer que igualmente nada sabem.

Isto porque o professor é, em geral, uma pessoa que arranja esse oficio como podia arranjar outro qualquer, sem vocação, sem comprehensão do que seja o ensino e da responsabilidade com que vai arcar, tomando sobre si o encargo de iniciar pequenos cerebros obscuros no luminoso cultivo intelectual.

É muito grave e delicado o oficio, e não sei de quem o possa tomar de ânimo leve, só com mira nos magros proventos.

O verdadeiro professor é o sacerdote das ideias, que levantam e comovem hôje a humanidade.

Por elle, a criança deveria ter do estudo a ideia prática e util que é a base de toda a educação moderna, mórmente se é dada a pobres, sem tempo para perderem em inutilidades e bonitos. Por elle, a criança deverá receber uma noção simples, mas geral, de tantissimas descobertas com que dia a dia se augmentam os conhecimentos humanos, e saberem a maneira de utilisarem pràticamente o que aprenderam.

Mas não sucede assim. Os professores, miseravelmente remunerados como são, sem coragem nem iniciativa para luctar, alguns educados por processos archaicos, sem uma feição prática e utilitaria no seu método; como hão-de ensinar o que não lhes foi ensinado e não podem aprender por si, pela carestia da vida, e até pela falta de pequenas bibliotécas de vulgarisação e ensino? Por isso elles se não interessam senão por um ou outro dos seus discipulos mais inteligentes, que irá a exame e lhe dará honra e lucro, se a familia é abastada.

Os outros, a turba-multa, quando o trabalho os reclama para fóra da escola, mal sabem soletrar, escrevem a custo os seus pobres nomes obscuros, e não chegam a comprehender que vantagem lhes pode advir d'esse favôr da sociedade.

E estes são ainda os que vão á escola, que a grande maioria, principalmente nos campos, nem sequer se incomoda a frequentá-la.

É verdade que ha leis que obrigam os pais a mandar os filhos á escola; mas que monta se essa mesma lei exige dos pequenos estudantes o uso de sapatos, e os pais, não tendo para comer, dispensam muito bem essa exigencia da civilisação?

Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos para as escolas; mas que importa isso se para aprenderem precisam de comprar livros, que são carissimos, e elles não têm que lhes sóbre para pão?

Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas como poderão estar as crianças umas poucas de horas sem comer, visto que os pais lhes não podem dar merenda e cá por fóra sempre vão apanhando dez reisitos em troca de pequenos serviços, rebuscando, farejando, pedindo como cães vadios, mas comendo afinal?!

Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas de que serve isso se a escola é de dia como a oficina e a fabrica, e os pobres não podem dispensar o trabalho das crianças, já ganhando o seu pequeno salario, já ficando em casa com os irmãositos, emquanto as mães vão moirejar por fóra?!

Segue-se pois que a criança do povo está condemnada a uma eterna penitenciaria de ignorancia, se antes da escola não houver a créche, não houver o hospital para parturientes, e, antes do hospital, não houver a maternidade, que é a casa onde a mulher pobre passa com descanço salutar os ultimos mêses da gravidez; se, ao lado da escola, não houver a oficina escolar, o asilo modelo donde a criança, rapaz ou rapariga, sáia preparada para entrar desassombradamente na vida, sabendo ganhar a sua subsistencia pelo oficio que escolheu. Da escola, assim acompanhada, deverá a criança sahir sabendo lêr, escrever e contar, sabendo sobretudo trabalhar metodicamente e com nobre orgulho da sua profissão.

Ora é isto o que os governos, só por si, não pódem fazer se os não auxiliar a bôa vontade e iniciativa particular, já fazendo propaganda entre o povo, já distribuindo livros gratuitamente, fundando escolas e bibliotécas, dando premios ás crianças aplicadas, contribuindo para tornar a casa de estudo artistica e agradavel, ensinando mesmo os professores e fornecendo-lhes maneira de se educarem nobilitando o ensino, por assim dizer.

É da iniciativa particular que devem partir as bôas ideias exequiveis, que o governo será obrigado a auxiliar e adoptar, quando a opinião pública as impônha.

É isto o que é preciso fazer e é isto o que esperâmos vêr realisado em breve no nosso paiz. Porque, ao lado de muitos que usam a caridade mirabolante como orchidea de fantasticas fórmas para espanto das gentes rastejantes, ha lucidos espiritos que fazem o bem pelo bem, como um dever, como um simples acto de justiça.

Porque dever, porque justiça, é pensar nos que têm fóme, nós que nunca lhe sentimos os tormentos; é pensar nos que são ignorantes porque não têm maneira de se educar, nós que nascemos num meio em que nos instruimos sem querer; é pensar nos que sofrem vendo os filhos fenecer e morrer por falta de alimentação e higiene, nós que podemos criar os nossos em melhores condições.

É pensar em todos os que sofrem, sem razão para sofrer,—só porque o acaso os faz nascer num pobre albergue em vez de casa rica ou remediada—mas não para lhes dar a esmola que deprime e desmoralisa, que habitúa o espirito aos favôres do acaso, e que é injusta porque obedece ao arbitrio individual, mas para dar sem distinção nem favôr, a todos, porque todos o merecem, a educação que enobrece, a luz que vivifica, o alimento, o ar, a agua, a casa, a saúde e a alegria emfim, a que todo o ser humano tem direito.

Não é o luxo, não é o superfluo, que é forçoso dar, é apenas o necessario, apenas o que é justo.

E se todos, principalmente as mulheres, puserem nesta campanha a energia do seu querer, a nobrêsa da sua dedicação, temos o direito de esperar uma hora breve de mais justiça e de mais alacridade para este miseravel povo português, amortecido pela ignorancia e pelo sofrimento.


MULHERES DESNATURADAS, MÃES DESNATURADAS



Mulheres desnaturadas, Mães desnaturadas

É vulgar encontrar-se na leitura diaria dos jornaes titulos assim alarmantes, sob os quais os reporters juntam á pressa meia dusia de adjectivos ferozes, na narração detalhada de qualquer crime, ou simples tentativa, de infanticidio.

Não ha muito ainda que dois jornaes dos que se dizem mais livres encimavam umas vulgares noticias do genero com os titulos que reproduzimos.

Numa, era a criada de servir que voltava da terra com o filho recem-nascido dentro duma canastra e que o atirára pela janela do vagon em que viajava, se um empregado não evitasse o medonho crime.

A outra era um simples caso de engeitamento, por miseria, tambem por parte duma criada de servir.

Ora quando jornaes avançados, que se dizem desprendidos da rotina e do preconceito, usam para tais casos de tão violentos epítetos, o que não dirão os outros, os arbitros triumfantes do convencionalismo burguês, os fartos interpretes duma sociedade hipocrita, que nas prégas do seu manto de pudicicia abriga crimes mais revoltantes do que os cometidos por esses monstros moraes descriptos com tanto asco!?

Mães desnaturadas, essas miseraveis, decerto! Mas com quanta desculpa a atenuar-lhes a brutalidade do delicto!

E a justiça a que aspirâmos, a justiça nobre e alta que é o objectivo supremo do nosso ideal de nova sociedade melhorada e feliz—quanto é licito ao homem sê-lo, sem cuidados de sobre-posse nem exigencias loucas—a justiça que não se cobre com leis, nem venda os olhos para não discernir, não póde castigar todos os casos pela mesma rigorosa interpretação dos codigos, não deve julgar sem atender ás determinantes e, sobretudo, ao gráu de responsabilidade do delinquente.

Poderemos, acaso, esperar do ignaro e rude trabalhador—que de sol a sol tira dos musculos o esforço que produz o pão do seu alimento e o dos filhos, e á noite, extenuado e brutificado, adormece pesadamente, até que novo sol lhe traga novas canceiras, e alegrias tambem, mas rudes e vulgares como a sua alma deseducada—poderemos, repito, exigir a esse a mesma visão clara, a mesma responsabilidade moral que deve existir no homem culto que no recesso da sua alma pesa e mede os seus actos, conhecendo leis, conhecendo direitos e deveres?!

Poderemos chamar a essas mulheres mães desnaturadas, porque abandonam um filho, que já fôra abandonado pelo pai? Um filho que não seria mais do que um tropeço para a sua vida de trabalho; que hôje lhes custaria a sustentar com a escassa soldada de criadas de servir e ámanhã lhes custaria mais, infinitamente mais, a vestir, a alimentar e a educar?!...

—Queria matá-lo, sinistramente, arremessando-o á linha a toda a velocidade do comboio, por uma noite escura e tragica, como quem alija demasiado pêso na lucta de um naufragio, como quem num esforço se alevanta e sacode dos hombros um fardo com que não póde...

E não era esta exactamente a verdade? Quem ensinou a essas mulheres de vinte annos, abandonadas á propria sorte, pontapeadas pela sociedade, enganadas pelos homens, servindo quem as despresa e maldiz, só toleradas porque são uteis—bestas de carga para criarem e servirem os filhos alheios—quem lhes ensinou a ser mães?

Quem lhes ensinou sequer a ser mulheres, na acepção nobre e alta da palavra, e não tão sómente a femea brutalisada e despresada pelo homem, quando o saciamento matou o desejo carnal?

Quem lhes disse que o fructo que de seus efémeros amôres lhes ficou nas entranhas é um ente crédor a todo o seu respeito—já não digo ao seu afecto, que se não póde obrigar—de que são apenas as depositarias e sobre o qual não têm direito de vida ou de morte, embora da sua propria vida se alimente?!

Quem lho terá ensinado?

A lei, mandando-as depois do crime feito para um presidio ou para uma penitenciaria? Não, porque a lei não ensina os ignorantes, vinga nos culpados os sentimentos conservadores da sociedade que a fabricou.

A lei, cahindo rígida e inexoravel sobre a cabeça de um condemnado, que lhe não conhece o alcance, não converte um criminoso, cria um hipocrita ou um revoltado.

Quem ensinou essas desgraçadas que hôje choram no segredo do aljube,—não de remorso, que não podem sentir, mas de pavôr—que era um crime menor aos olhos da sociedade, que só cura de aparencias, em vez de abandonar ou matar um filho nascido, tê-lo desfeito misteriosamente, quando ainda mergulhado na noite da sua vida uterina, mas com tanto direito á luz e á existencia consciente como depois de nascido?!

É de presumir que tenham tentado primeiro esse crime como tantas que se vêem a braços com uma situação tão absurda e condemnada, quanto é vulgar e desculpavel.

Alguem lhes incutiu na consciencia essas simples noções de sã moral?

Certamente ninguem em tal pensou.

E se o que ellas praticaram, ou tentaram praticar, é um crime abominavel, o outro não o é menos. A diferença está em que um é conhecido, impõe-se pela brutalidade do facto; o outro é ignorado, não se prova facilmente e é praticado a sangue frio por muitas mulheres que se dizem honestas e para as quais a sociedade não ajunta pedras com que as lapíde, nem escancara aljubes onde as sepulte.

—São peores do que as féras—dizem os moralistas que se não pejarão, talvez, de deixar outras mulheres na mesma situação embaraçosa—porque todas as femeas têm o instincto da maternidade e todas, em geral, se sacrificam pelos filhos.

Opinião já feita e que não representa mais do que uma vulgar figura de rétorica, que a sciencia desmente a cada passo.

O instincto não é igual em todos os seres, pois os mais infimos na escala zoologica como os mais superiores individualisam-se no seu modo de sentir.

Se ha caracteristicos proprios a uma certa raça, entre essa mesmo salientam-se individuos cujas qualidades e defeitos são uma negação de todas as regras.

É certo que o instincto da maternidade é um caracteristico de todas as femeas, e, no emtanto, ha muitas, entre os animaes, que matam e até comem os filhos.

Ha mulheres que fazem pelos filhos os mais inacreditaveis sacrificios, tudo lhes dando, tudo achando pouco para elles; como o pelicano, arrancam de si proprias as pennas com que lhes afôfam a existencia. São as instinctivamente mães aquellas que se deixariam matar antes do que vêr maltratar um filho. A javarda ama tanto as suas crias, que persegue até á morte o caçador atrevido que lhe rouba um bacorinho da ninhada; e, no emtanto, algumas ha que os comem, quando a próvida natureza lhes deu mais do que podem aleitar.

Estas tambem obedecem ao seu instincto, forçando a lei que nos dá, naturalmente, a seleção da especie.

E o que é o homem sem educação mais do que um animal de instinctos baixos, dotado de faculdades imitadoras para simular os gestos e a voz dos outros homens?!

A superioridade do ser humano não consiste em andar com a espinha direita e em poder erguer a cabeça para a luz, não! A sua superioridade está em comprehender a justiça e ter a consciencia do bem, coisas que sómente a educação póde incutir no espirito dos que não têm comsigo a bondade instinctiva dos doceis.

Condemnar sem defêsa nem atenuantes a mulher desprovída de recursos, exposta ao escarneo e ignominia da sociedade, quando abandona ou mata um filho, é impiedoso.

Se fosse uma criatura heroica poderia reparar o que se convencionou chamar falta, tirando do seu trabalho, miseravelmente pago, a sustentação do filho. Mas não é heroi quem o quer ser, e o egoismo individual é por vezes tão imperioso, que a criatura se ergue num desespero bruto de féra que quer viver, despedaçando tudo quanto lhe embaraça os movimentos e lhe pêa a satisfação das suas necessidades materiaes.

Sentimentos, afectos, inteligencia, tudo se obscurece e oblitéra perante as exigencias materiais da vida, que a sociedade, á força de querer melhorar, transformou em lucta sangrenta em que sucumbe a maior parte.

—É preciso castigar—dizem ainda os moralistas, na velha teoria inquisitorial e barbara—é preciso dar o exemplo, atemorisar...

Mas, para quê, perguntâmos?!... Se o acto criminoso depende da tára fisiologica que dispõe determinada criatura á loucura do crime, como tornar um doente responsavel pelo seu mal?

Se o delicto fôr determinado ocasionalmente, pelas condições especiais da existencia, o mal tem remedio, e deve remediar-se, acabando com os factôres que concorrem na sociedade para que tantas desgraçadas sofram o que essas pobres estão sofrendo agora.

Conheci uma criatura que, estando a servir, lançou um filho recemnascido numa cloaca, como quem, enojado, deita fóra um trapo imundo. O que a não impedia de que fosse uma pobre criatura humilde e inofensiva, e de ser para os outros filhos, senão uma bôa mãe no sentido completo da palavra—o que a ignorancia e a pouca inteligencia lhe não permitiam—pelo menos amoravel e dedicada, sacrificando-se para os alimentar e vestir.

O que determinou essa mulher a cometer tão repugnante crime? A circunstancia ocasional de estar bem numa casa donde não queria sahir e da qual seria fatalmente expulsa, conhecido que fosse o seu estado.

O instincto maternal existe, certamente, mas a miseria umas vezes, outras a educação, o egoismo e as exigencias brutais da vida, têm-no obliterado em grande parte das almas femininas. Como se explicaria por outro módo o horror ao filho, que existe, que é flagrante, em quasi todas as mulheres casadas?!

A alegria com que muitas proclamam não terem filhos que lhes dificultem e atropelem a existencia, estarem assim socegadas nos seus lares sem crianças, é uma bem clara próva. A indiferença com que a mulher pobre vê ir para o céo o filho que a sua incuria, quasi sempre, mata, é bem conhecida dos medicos para precisar ser mais frisada.

E isto não é um mal dos nossos dias nem da nossa sociedade, é hôje como hontem, como será sempre.

Á proporção que o individuo se civilisa, isto é: tem a noção mais clara do bem-estar que lhe póde advir não se sobrecarregando com responsabilidades, que nem sempre tem a certeza de cumprir, começa o horror ao casamento e consequentemente aos filhos que o embaraçam.

Isto que nos parece um facto peculiar dos nossos dias, e tanto sobresalta a França, já se deu na Grecia, já se deu em Roma, com maior intensidade ainda, não obstante todas as leis e costumes que compeliam o homem a constituir familia e a dar filhos á republica.

Apesar de tudo, o horror ao casamento manifestava-se, principalmente nas mulheres, que fugiam, pelo celibato, aos encargos da maternidade e ao captiveiro do lar.

Depois, se chamarmos a essas mulheres, que a ignorancia e a miseria desculpam, mães desnaturadas, que palavras achariamos no dicionario para as ricas e ociosas, que ao nascerem os seus filhos os atiram para os braços duma ama, que depois os entregam aos cuidados problematicos das criadas de acaso, e mais tarde os afastam do lar e do conchêgo da familia, como espúrios, para a solidão moral do collegio; não para que estudem e se habituem cedo ao trabalho, mas para que as não incomodem com suas traquinices e turbulencias, nem as envelheçam aos olhos dos estranhos?!

Essas não os matam, porque a carnicería do acto repugnaria aos seus nervos susceptiveis e seria tão repulsivo, para os seus finos dedos scintilantes de joias, como matar uma galinha ou estripar um coelho, coisas no emtanto que as suas cosinheiras fazem com a maior indiferença. Alem disso, não lhes faz mingua o dinheiro para os alimentar e vestir, e mais tarde—passada a idade do garridismo pessoal—é um gosto continuar a figurar por elles e com elles.

Pobres filhos, os destas mães!...

Para as outras reclamariamos, em vez de cadeias, oficinas e casas honestas que as recolhessem com piedade, e as ensinassem com desvelo a amar os filhos que a sociedade tem todo o interesse em recolher e educar para a alegria de viver e de ser util, porque na terra não ha muito quem o seja e menos quem o saiba ser.

E esses pequeninos seres, que tanto pesam hôje ás pobres mães sem marido que lhes ajude a criar e educar, não arrastariam pela vida fóra a vergonha de não ter nome de pai, antes fariam recahir sobre o covarde que fugiu á responsabilidade dos seus actos todo o despreso das almas honestas.

Então, a sociedade, melhor orientada, não terá tanto despreso pela mulher iludida e atraiçoada no seu amôr, que a miseria e ignorancia tanta vez desculpa, como pela calculista maliciosa que procura o casamento como emprego, como posição, que a livre de situações equivocas, legalisando-lhe todos os desvarios.



A PROPOSITO DUMA GRÉVE



A proposito duma gréve[4]

Não obstante a quasi geral indiferença da mulher do nosso paiz pelas questões sociaes e de intelectualidade, tenho ainda confiança na alma feminina, tenho ainda esperança de que em breve, envergonhadas de tantos annos gastos em futilidades, voltarão a ser as dignas descendentes dessas mulheres portuguêsas, que fôram, entre as mais damas das côrtes brilhantes da Renascença, das mais cultas e espirituosas, aliando ás graças de espiritos educados a nobrêsa e a energia de verdadeiras patriotas.

Escrevo hôje para denunciar, aos seus corações de mulheres e de mães, uma dôr que não roça pela epopeia, mas que na sua humildade é talvez mais aguda, que na rasteira obscuridade em que se gerou e cresce é talvez mais amarga para as almas criadas, como as nossas, para a alegria e para o amôr.

É adentro das nossas fronteiras, como quem diz em nossas casas, neste lindo paiz que nos viu nascer, debaixo da caricia dulcida deste sol que nos agasalha e alegra, que essa miseria subsiste:—mulheres e crianças que se extenuam trabalhando, e não ganham, com o seu trabalho, o quanto lhe baste para matarem a fome.

Sabemos nós todas, as mulheres:—que não pertencemos á galeria das privilegiadas, que dispensam, por abundancia de meios, conhecer e discutir o orçamento das suas casas—quanto se gasta em nossos lares modestos, comendo sem intemperança, vestindo sem luxo.

Pensemos, pois, o que seja trabalhar uma semana inteira e chegado o sabado encontrar entre os dedos, que o trabalho violento deformou, meia duzia de vintens que mal chegam para um dia de fome.

É costume dizer-se para acalmar sensibilidades em sobresalto, que os pobres, habituados a comer mal, não fazem com isso sacrificio.

Certamente que uma mulher rude dos campos, de pequenina acostumada ao seu caldo de couves e ao feijão, com pão grosseiro por conducto, um bocado de porco pelas festas do anno e galinha quando ha doença, passará admiravelmente sem fois-gras, ragouts, mayonaise, vol-au-vent e toda a algaravía saborosa e complicada da comida francêsa, indispensavel a paladares aguçados por estimulantes, a estomagos gastos e que jámais se encheram com verdadeira fome.

Concordo em que uma dessas solidas camponezas felizes, que do amânho das suas terras tira o pão caseiro que seus rijos braços fabricaram numa nuvem de poeira e por suas mãos foi na pá atirado ao forno aquecido; que do leite das suas cabras tira o queijo salgado, que é um mimo para os seus paladares deseducados; que das suas oliveiras tira a azeitona, que sabe curtir para a fartura do anno; concordo em que esta mulher se riria desrespeitosamente se á sua merenda chamassem lanche e em vez destas simples iguarias comidas á mão, lhe apresentassem um prato de porcelana fina com brioches e um bule de perfumoso chá.

Talvez deitasse o liquido fóra cuidando que devia comer as folhas, e levasse os bolos para o folar das crianças.

Mas o que é cérto é que bem poucos têm essa abundancia, e que a maioria, principalmente aquellas que a industria apanhou na sua febril engrenagem e na oscilação das suas altas e baixas de trabalho; não têm esse bocado de pão grosseiro, nem esse saboroso queijo salgado...

Não comer manjares poderá ser justo, mas passar sem comer é intoleravel.

Ninguem se habitúa á desgraça e á dôr; ha no organismo humano uma revolta ináta ao sofrimento, que nos faz chorar e estrebuchar a cada nóva vergastada do destino.

Existem criaturas resignadas e passivas, seres embrutecidos pela miseria ou fracos por temperamento e nos quais a revolta não explúe; mas condensada em lagrimas ella hade surgir um dia, quando os famintos, os miseraveis, os despresados de todos os tempos, vierem reclamar o seu quinhão de felicidade e de fartura.

Ninguem se habitúa á dôr, ninguem!, dígo-vo-lo eu, que tenho olhado com mais curiosa piedade para os que em baixo sofrem e maldizem a vida, do que tenho invejado e admirado os que em cima cantam a sua gloria e triunfo.

Pois bem, para debelar ou minorar o mal de que sofremos todos, os filhos duma sociedade que vive num perpetuo desequilibrio de elementos economicos e moraes, a missão da mulher, irmanada ao homem, libertada pela inteligencia, pelo trabalho e pela educação, é bem clara! O dever impõe-se-lhe de maneira indiscutivel e manda-a entrar resolutamente em acção.

Passaram, de todo, os tempos cavalheirescos. Presentemente ninguem se lembraria de nos exigir que arrancassemos das panoplias as espadas dos antepassados para armarmos os nossos filhos e mandá-los vencer qualquer sóba indisciplinado e bravío...

O perigo não será menor nas luctas que hôje sustentam os nossos soldados; a porção de coragem necessaria para tais campanhas, nos longinquos sertões ultramarinos, será a mesma ou mais talvez; mas a guerra deixou de ter para nós o mesmo sentido moral porque deixou de ter o imprevisto de duelo, em que era factor importante o valôr e a força individual, para ser uma carnificina de que são executores certos os que melhores e mais numerosas armas apresentarem, os que disposerem de mais conhecimentos e de mais dinheiro, tal como no comercio.

Quando as nações se degladiam hôje, escusâmos de esperar milagres e prodigios dos homens; os mais fracos serão fatalmente esmagados, embora com elles esteja a simpathia das almas enthusiastas, como aconteceu á desgraçada Polonia, á França enfraquecida pelo Imperio, á Grecia atolada na ultima decadencia, e ao Transvaal apesar do epopaico heroismo dos seus filhos. Embora como a Hespanha espere muito do orgulho e valentia dos seus soldados; como a China confie na incontavel multidão dos seus habitantes, ou como a Russia se iluda com a força ficticia do seu colossal territorio, povoado de analfabetos e de revoltados.

Tudo mudou com o tempo—ideias, costumes, maneiras de vêr e de proceder. O que aos nossos olhos parece hôje rasoavel e justo, seria aos olhos de nossos avós o mais absurdo dos atentados ao senso comum, o mais completo despreso pelas leis e convenções sociaes.

E, como tudo mais, a missão da mulher mudou tambem. Já não é de passividades e resignações como dantes! Da espectadora indiferente passou a ser figurante; entrou definitivamente na lucta—no trabalho de preparar a alegria e o socego do dia de ámanhã.

Não admira que assim seja porque, quando os campos de batalha são a propria sociedade em que vivemos e as armas são as ideias, a mulher tem o direito, mais, tem o dever de entrar na lide, e, ao lado do oprimido, do fraco, pugnar pela felicidade ou pela menor desgraça dos que sofrem.

No caso especialissimo que me impulsiona agora, ainda mais justa é a nossa intervenção, por isso que são mulheres as que sofrem e reclamam uma migalha para a sua fome.

No direito de solidariedade que nos assiste temos o dever de pensar em que ha centenas de familias sem trabalho e que para essa terra socegada e pitoresca nas abas da Estrella se mandam soldados quando se pede pão, se responde com ameaças quando se desespera com fome.

Sem lume, sem fato, sem dinheiro, como se anuncia prenhe de desesperos e luctas para esses miseraveis que não pedem esmola e sim maior paga ao seu trabalho, o inverno que se aproxima cantando a tragedia das suas dôres, nas ventanias que destelham casebres e arrancam arvores, nas chuvas que se despenham em torrentes engrossando os rios que regorgitam em cheias devastadoras, levando as sementeiras e trazendo a agonia nas dobras da sua mortalha de neve...

Não nos importa saber se é exequivel a pretensão desses operarios que usam do seu direito da gréve para discutir com os patrões como combatentes legais, sofrendo heroicamente dias e semanas de fome, para obter um pequeno augmento, que já lhes parece fortunoso.

Não nos importa tambem saber se é atendivel a defesa dos fabricantes de panos baratos, que dizem pagar miseravelmente aos operarios porque miseraveis são os seus ganhos.

Não discutimos nem julgâmos—que não nos compete fazê-lo—mas ainda menos duvidar da convicção e da justiça dum povo que se resigna a luctar tendo por armas a fome e o proprio sacrificio, unicas que lhes deixamos nas mãos.

O que simplesmente nos interessa é a questão feminina, que este incidente põe a descoberto. Foi pelo pequeno salario da operaria que a gréve se originou, é para obter uns miseros reais para ellas que todos os proletarios de Gouveia sustentam uma lucta heroica, porque é heroismo, e até loucura, entrar numa gréve sem bolsas de trabalho, sem caixas de reserva, sem meio algum de lucta e de resistencia.

Não terão razão, essas pobres criaturas ás quais se exige umas poucas de horas de trabalho, e ás quais se dá em troca sessenta reis por dia?!... Talvez, mas pensemos em que são como nós mulheres, que pertencem, como nós, a um sexo que os homens chamam fraco e ao qual cercearam todos os meios de ganhar a vida—desde a falta de trabalho até á miseria da paga—excepto um que as inferiorisa e torna despresiveis aos seus proprios olhos!...

É pois dever nosso, daquellas a quem a educação deu um criterio mais elevado, pensar nessa multidão de desgraçadas que a miseria e a ignorancia predispõem para o crime e que, não tendo familia nem homem que as sustente legalmente, por força hão-de procurar no erro o que o trabalho e a honestidade lhes não garante.

Emquanto individuos da nossa especie se rebaixarem tanto, inferiorisâmo-nos tambem reflexivamente, porque a mulher não será completamente liberta emquanto houver desgraçadas que se prostituam por miseria.

Outras, as que têm marido, e serão por certo a maior parte dessas operarias, precisam de auxiliar a familia com o seu trabalho, porque é pequeno o ganho do homem para as necessidades da familia.

Pensemos nesta desgraça a remediar e se houver alguma dentre nós que encolha os hombros com indiferença, por superior e de diferenciação de sangue que se julgue; se houver coração de mãe, que se não confranja pensando em suas filhas; espirito tão privilegiadamente temperado que ouse escarnecer de tamanha desgraça; essas que me não leiam nem atendam, porque não é a ellas que me dirijo, mas tão sómente áquelas cujo espirito e cujo coração as superiorisa e faz elementos civilisadores na sociedade.

É urgente que essas entrem na lucta gigantesca contra a fome, a miseria e a ignorancia das suas irmãs, mas não na lucta de guerrilhas e surprêsas que por ahi vamos vendo, ora obedecendo á bondade individual de uns, ora ao capricho da móda, ora ao desejo de ter o seu nome reclamado.

O que primeiro ha a fazer é a junção de todas as vontades e de todos os esforços para um fim unico e comum.

É urgente, sobre tudo, reclamar uma ou mais créches para cada terra onde a mulher tenha que trabalhar fóra de casa, deixando os filhos pela rua, ou fechados e sujeitos a mil eventualidades, entregues a quem dessa maneira explora a miseria das mães.

Créches que não sejam filhas da caridade, nem entregues a ignorantes, sujeitas a vaidades e caprichos, ás altas e baixas do fluctuante coração humano, mas créches ordenadas por lei, obrigatorias a todas as terras industriaes, sujeitas a inspecção rigorosa, com rendimento tirado da propria industria que emprega a mulher. Em França ha uma lei que obriga todas as industrias que empregam mais de vinte mulheres a ter uma créche para as suas operarias entregarem os filhos durante as horas de trabalho; em Portugal nada temos que se compare com isso; os governos não fizeram ainda as leis e os governados não lhes comprehenderiam o alcance.

Depois da créche, que é a mais necessaria das instituições numa população operaria, deve seguir-se a escola maternal, onde a criancita, que já não é admitida na primeira, se conserva até aos seis annos, em que entrará para a escola gratuita, com livros de graça, oficinas e professores que saibam ensinar pobres seres que nas familias não têm quem os norteie no caminho do estudo e do dever.

A criança apanhada nesta verdadeira engrenagem social, deixará de ser o vadio, o atrevido garoto que povôa as ruas das cidades operarias, para se tornar uma pequena criatura que se prepara com serenidade para a travessia dolorosa da existencia, com as suas lagrimas e as suas alegrias compensadoras.

Que a mulher possa contar com a maternidade, a casa onde passe descançada o ultimo e custoso periodo da gravidez, para dali seguir para o hospital onde a esperam os cuidados prescriptos pela higiene e o conforto que em casa lhe não seria facil obter.

Emfim, ha tudo a fazer neste sentido, desde a escola de criadas e dônas de casa, até á caixa economica, obrigatorias para as mulheres, que assim teriam, em caso de gréve, doença, ou falta de trabalho, com que resistir algum tempo á fome.

Ha pessôas que imaginam tudo resolver pelo estardalhaço festivo da chamada caridade, e o que é certo é que a caridade é muitas vezes uma exploração e quasi sempre um meio impotente para defrontar a desgraça, sempre maior do que a generosidade individual.

Seja pois o esforço colectivo, cumprido como um dever, a base da nossa lucta contra a miseria, e alguma coisa bôa e profícua, estou certa, se conseguirá.

Ás mulheres compete conjurar o perigo que ameaça a sociedade de hôje, remediando quanto possivel as suas injustiças. Á mulher culta e sciente da sua nobre missão cabe o primeiro logar na empresa de cuidar um pouco no futuro do paiz e na melhoría social, acumulando para o porvir a maior soma de alegrias na maior soma de deveres cumpridos.

E o nosso dever é—parece-me bem—ouvir as queixas de todos os infelizes, principalmente das mulheres e das crianças, que são ainda hoje as maiores victimas da sociedade.


A MULHER EM PORTUGAL



I

A MULHER E O CASAMENTO

...Instruir a mulher, dar-lhe ao nosso lado o seu verdadeiro logar de igual e de companheira, porque só a mulher libertada póde libertar o homem.

Émile Zola.

Como companheira do homem e educadora dos seus filhos, a mulher é o factor mais importante para a reorganisação completa da sociedade.

Ora a mulher, entre nós, como toda a criatura sem educação, é retrógrada e timorata, influindo com os seus pavôres e ideias velhas no espirito das gerações, que assim se tornam, sem dar por isso, cobardes para as rasgadas iniciativas do futuro, prêsas ao passado pelo sentimento do mêdo que lhes incutiram, com o leite, as crendices maternas.

É o sentimento que nos fere em toda a nossa geração, neste culto fetichista que não temos, mas fingimos, pelo passado, e que, em vez de nos ser lição, se torna em obsessão. Não se respeita um monumento que se não comprehende; não se póde vangloriar a alma por actos que já não entende; mas nos ultimos tempos começou a ser móda falar do passado, das nossas glorias, dos nossos feitos; e esta gente, que não vê vantagem nenhuma positiva para as suas necessidades de hôje nesses feitos heroicos dos nossos antepassados, acha cómodo pendurar ao peito a venera honrosa de povo historico e apresentar-se com ella no grande concerto das nações...

Os nossos rapazes de agora nascem velhos, ponderados e graves como conselheiros de estado. Não é preciso reprimi-los em seus ardôres e alegrias de rubra mocidade; elles reprimem os velhos e comentam com acerto, quando lhes contam as revoltas e independencias dos moços de outróra—que hôje os tempos são outros...

E é a mulher, permitam-me que tenha esta triste vaidade, a culpada deste estado deprimente do espirito juvenil, mas a culpada inconsciente, porque a maior culpa recái sobre o homem que assim a tem querido para sua esposa e para mãe dos seus filhos.

É um grande principio educativo procurar no passado ensinamentos e estimulos para o futuro, mas é tristemente depressivo para o espirito esta obsessão do que fômos, martelando na alma das crianças como dobre a finados...

—Isto não é o que fazem os povos mais adiantados e mais cultos; não é o que convem á sociedade de hôje; mas é o que faziam os nossos avós, o que acreditavam os nossos antepassados...

E nestas crenças nos amortalhâmos, e nellas morreremos, se não sacudirmos esta letargía da alma, se não higienisarmos moralmente a educação da mãe, que hade educar a criança.

A mulher da nossa raça é naturalmente bôa e inteligente, mas em geral é profundamente ignorante e duma convicta preguiça para entrar na lucta pela vida, motivo porque se tem deixado ficar na rectaguarda de todas as dos mais povos de civilisação similar.

Ha quem afirme, e tenha isso como consolação, que a hespanhola é muito mais futil e vaidosa, muito mais ignorante e inutil. Não temos dados para estabelecer o confronto, mas o que é certo é que nada nos devem consolar tais opiniões. Se são verdadeiras, pesa-nos que haja um paiz na Europa no qual a mulher, ainda mais do que no nosso, se esqueça de que deve ser a companheira e auxiliar do homem, sua igual e sua amiga. Se são mentiras, não nos lisonjeia o engano.

O homem português, por bondade, por indiferença, e tambem por esta sublime inconsciencia, que fez de nós um povo de conquistadores sem vantagens práticas nas suas conquistas, não incita a mulher a trabalhar, nem procura no seu labôr o auxilio que lhe seria licito esperar, quando as necessidades crescem, dia a dia, assustadôramente, encarecendo a vida sem proporcional augmento nos ganhos.

Tambem a não hostilisa francamente, é verdade... embora pela educação, e talvez por hereditariedade, seja ferozmente arreigado a velhos preconceitos, muito desconfiado e temendo o ridiculo das inovações; nunca a mulher do nosso paiz, que quiz estudar e trabalhar, encontrou no homem séria oposição.

Desconhecemos as luctas violentas que lá fóra tornaram a questão feminista uma verdadeira guerra, com adeptos apaixonados em ambos os campos, e até com sacrificios e com mártires.

A nossa mulher, essencialmente passiva, sem ambições que vão alem da satisfação que as pequenas vaidades do luxo trazem, não aspira senão ao casamento, para elle se cria e engalana, nelle põe a unica esperança do seu futuro.

Não é o casamento, segundo a natureza, pela necessidade fisica de amar e ser amada; não é o casamento superior de dois espiritos que se comprehendem e juntos podem viver felizes, fisica e intelectualmente ligados; não é mesmo o casamento comercial—chamemos-lhe assim—em que duas fortunas ou dois nomes se ligam pelo interesse monetario, formando para o futuro uma só firma... O casamento português é, na maioria dos casos, pura e simplesmente uma arrumação para a mulher, o amparo, como que o asílo, para a pobre invalida, incapaz de ganhar pelo trabalho a subsistencia e o conforto.

Dado que se não realise o almejado casamento, embora para isso se tenham procurado todos os meios, ei-la uma criatura sem posição, infeliz, arrastando uma existencia miseravel, se tem de trabalhar para viver, com as aptidões quasi nulas com que a educação a preparou.

Se não sabe trabalhar, ou tem familia que se envergonha desse trabalho, torna-se um fardo pesado e aborrecido, cheia de resentimentos e amargurosas censuras á vida, invejosa da felicidade alheia, um elemento de discordia na sociedade.

Ainda algumas vezes é victima de todos os egoismos, tornando-se a criada dos proprios seus, curtindo despresos e vexames de toda a ordem, de grandes e pequenos.

Só quando rica, o quadro se torna risonho; mas não é dos raros felizes que se trata quando se fala em generalidades. Alêm disso, as raparigas com dote raro ficam para tias, porque o assédio é de tal maneira apertado que o triumfo heroico do casamento não se faz esperar.

Falando pois na mulher sem fortuna, repetimos:—a sua educação não a torna superior pela inteligencia cultivada, nem apta a ser independente pelo proprio trabalho. Alêm da educação, é a preguiça que a conserva—mais do que as leis e a vontade dos homens—na mais completa dependencia.

Quantas vezes os pais, que querem dar uma educação prática ás filhas, não têm que desistir do seu proposito, vendo nellas só pendôr para festas, namoricos e futilidades, apoiadas pela mãe que conserva da missão do seu sexo as ideias mais amesquinhadoras da dignidade feminil?...

Só por excepção se dará o caso duma mulher do nosso paiz querer estudar e ter, para o fazer, de luctar com grandes oposições.

Nem o codigo o permitiria, porque as nossas leis, apesar de más e discutiveis, como todas as leis, são melhores do que as de outros paizes mais cultos, como teremos ocasião de o mostrar e provar.

Tratando a questão, sobre todas urgente, do trabalho da mulher, não nos referimos, é claro, á mulher do povo. Essa é no nosso paiz, como em todos, laboriosa e util; nem que quizesse poderia deixar de o ser, porque a familia reclama o auxilio do seu braço e os cuidados da sua atenção. No povo trabalha sempre, e muito, e só excepcionalmente é ociosa, porque a necessidade e a lucta pela vida são poderosos incentivos para azorragarem os pobres. É só no povo que encontrâmos, entrando como valôr dotal, as aptidões de trabalho da noiva.

Quando um homem da classe média pensa no casamento, ou, mesmo que não tenha pensado, se resolve a fazê-lo porque lhe agradou um rostosinho pálido que assomára a uma janella, ou pegou o namôro encetado por brincadeira, não tem como o homem do povo a frase consoladora que vale por um dote:—é uma mulher de trabalho.

No nosso paiz, como em todos os outros, a mulher do povo trabalha sem reparar se os serviços são ou não proprios do seu sexo, mas deixando que os outros olhem... para darem menor salario.

Não é pois a essa que precisâmos recomendar o trabalho como fonte de todas as alegrias e licita liberdade! Estudaremos, sim, em outra ocasião, as condições desgraçadas em que é feito, mas não neste capitulo dedicado á classe média, onde a educação é menos util e menos prática, e onde, pelo contrario, deveria ser mais cuidada e bem dirigida para um fim de segurança futura.

Já o temos dito varias vezes, mas não é demais, repeti-lo,—que é nos outros paizes a mulher da burguezia aquella que mais e melhor procura educar-se.

Isto porque a civilisação, tornando a vida cada vez mais cara e mais exigente, já fez lá o que não tardará a fazer entre nós. A mulher inhabil e pobre não casa.

Por egoismo e maldade do homem?!

Não nos atrevemos a condemná-lo.

O seu egoismo é filho da necessidade, que faz pensar com horror nos encargos duma familia nas circumstancias em que a sociedade coloca hôje o individuo.

Não espere a mulher portuguêsa que sejam os homens que a empurrem para o futuro e para a independencia pelo trabalho, porque isso será a confissão tacita da sua incapacidade e preguiça.

Antes que chegue a hora em que o homem—até hôje bastante sentimental e imprevidente para o triste dia de ámanhã de todos os casamentos pobres—ache que as alegrias dum noivado não valem os encargos, cada vez mais pesados, de um lar, e procure no celibato a emancipação, é que a mulher se deve precaver, preparando-se para esse proximo dia em que só terá de contar comsigo.

Isto que ainda nos parece uma monstruosidade e que repugna ao nosso sentimentalismo, é já um facto na sociedade francêsa, onde a rapariga sem dote tem noventa e nove probabilidades, contra uma, de ficar solteira.

Dahi a situação angustiosa dos pais, que vêem crescer a familia e pensam com amargura nos filhos a colocar e nas filhas a quem é preciso arranjar dote.

Não obstando a este mal com uma séria e util educação, que ponha a mulher ao abrigo da miseria e da dependencia, não tardará que cheguemos ao caminho por onde a França vai para a despopulação, para a inferioridade egoista do numero.

Se a mulher latina não seguir o caminho largo que lhe indicam, com o exemplo, as fortes raças do norte, ai da familia e das nações a que pertence!

As que primeiro se decidirem a entrar na lucta sofrerão por certo muita contrariedade e verão cahir sobre os seus pobres hombros, mal vesados á responsabilidade forte do trabalho e da liberdade, todo o peso dos preconceitos e das costumeiras, toda a malquerença invejosa e malévola dos rotineiros, numa sociedade ignorante, que só cultiva com amôr a má lingua tradicional.

Mas o numero faz a força e o habito fará o resto. Quando a mulher, que procure numa profissão honrosa o seu sustento e a sua independencia, não fôr uma excepção, mas uma legião, facilmente poderá aguentar o embate dum passado que se desmorona, vendo brilhar um futuro que mal se esboça ainda num sorriso longinquo.


II