The Project Gutenberg eBook of Ás Mulheres Portuguêsas
Title: Ás Mulheres Portuguêsas
Author: Ana de Castro Osório
Release date: December 2, 2020 [eBook #63943]
Most recently updated: October 18, 2024
Language: Portuguese
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Ás mulheres
Portuguêsas
1905
Typ. a vapor da Emprêsa Litteraria e Typographica
178, Rua de D. Pedro, 184—Porto
INDICE
| pag. | |
| Prologo | 5 |
| Feminismo: | |
| I—Ser feminista | 11 |
| II—Uma resposta | 27 |
| III—A Instrução | 43 |
| As mulheres e a politica | 57 |
| Ser português | 67 |
| No anniversario duma escola | 85 |
| A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje | 101 |
| As pobres mães | 113 |
| A miseria do povo | 133 |
| A ignorancia do povo | 149 |
| Mulheres desnaturadas, mães desnaturadas | 161 |
| A proposito duma gréve | 177 |
| A mulher em Portugal: | |
| I—A mulher e o casamento | 193 |
| II—A mulher casada perante o codigo civil | 207 |
| III—A mulher solteira perante o codigo civil | 223 |
| IV—O trabalho da mulher | 241 |
Prologo
Na incerteza pelo futuro, caracteristica muito acentuada do actual momento historico, não ha ninguem, por mais ferozmente que se ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se não surprehenda, um dia, meditando, transido de duvidas, nalgum dos multiplos problemas que agitam a alma moderna.
São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta lagrima, evocam tanta dôr soffrida pela mísera humanidade—que em vão lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente goso, conforme é alevantada aos ares em triumfo ou mergulhada na indifferente desgraça—que o nosso espirito se detem e pergunta, no augusto silencio da propria consciencia—se vale a pena existir num mundo assim?!
Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de trazer, embora com o sacrificio proprio, alguma melhoria á sociedade; outros desanimam, a mesma dôr os mata ou anula para o trabalho paciente do futuro.
Mas o desânimo e a renuncia é uma dupla falta—pelo que deixâmos de fazer e pelo que consentimos que os egoistas e os sem escrupulos façam impunemente.
Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de muito crime e muita injustiça, um bello e salubre movimento se opéra por todo o mundo.
Ninguem se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que tanto cabe ao homem como á mulher, a esta mais ainda porque nas suas mãos, com a educação da infancia, que lhe pertence, está confiado o futuro.
Á mulher, pois, ou seja pobre operaria que mal ganha para o pão de cada dia, ou opulenta dama avergada ao pêso dos seus deveres sociaes; ás mães que têm filhos a entrar na lucta pela existencia e que ansiados esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem, dos labios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram os primeiros beijos; como ás raparigas que, mal iniciadas nos seus deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a comprehender as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem, ao menos um instante, a pensar no remedio a dar a tanto mal e a tanta iniquidade.
Por isso é ás mulheres, e principalmente ás mulheres do meu paiz—que tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães do homem moderno—que me dirijo.
Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo ás necessidades espirituaes da alma feminina, que desperta emfim para uma nobre e mais util missão social.
FEMINISMO
I
SER FEMINISTA
Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das proprias mulheres córam, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que ellas não são responsaveis, louvado Deus!...
E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua autonomia.
O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as despresa por vezes, as teme quasi sempre.
Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o isolamento como o ridiculo—que nem um nem outro atingem o verdadeiro mérito e a sã razão.
Tenha o coração alto e o espirito alevantado; não faça do amôr o ideal unico da existencia nem o seu unico fim. Pense no trabalho e no estudo, e deixe que as suas faculdades afectivas se desenvolvam livremente, ou se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente á sociedade. Cuidados de amôr devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e intimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudôr.
Tal não sucede, porêm. Toda a gente publíca os seus afectos, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais indesculpaveis que sejam, despertam mais simpathia e compaixão do que verdadeiras desgraças sociaes. Na vida real, como no drama, no romance, na poesia, ou na musica, só cai bem no gosto do publico o amavío voluptuoso do amôr sentimental.
Assim o quer a sucessão de seculos, em que a mulher foi a reclusa do convento ou da familia, tendo na vida um só fim—agradar.
Assim o estima o homem, que fez do amôr carnal o seu culto e da mulher a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava, deusa que se cobre de injurias e se lança ao monturo das velhas coisas inuteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo desfeito no céo sem nuvens.
O homem, passada a idade da poesia, segue triumphante o caminho da existencia, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal dos seus sonhos faz a cozinheira habil, a dôna de casa ignorante e util, mixto de costureira e governante, a mãe paciente e sofredora dos filhos que são o seu orgulho.
A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida banal e mesquinha—que nem por sombras deve abordar os graves pensamentos que preocupam o marido!...
Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuaes que o confraternisem com um individuo do sexo feminino, é rarissimo confessar que a sorte lho deu para companhia da sua vida.
Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira ignorante e inferior que procuram para seu descanço, não encontraram, hipocritamente velados por uma habil ingenuidade, todos os baixos instinctos dos seres inferiores?!
Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se poluiram com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de familia, destinadas a fazer prodigios de economias, de método e de arranjo, não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades, tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotencia para as realisar—a fantasia só presa nas galanices e módas, inuteis para os trabalhos caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os seus por não possuir o que deseja e vê ás outras, transformando os lares em gehenas onde féras da mesma raça se espesinham e abocanham?!
Quando ao homem fôr dado encontrar facilmente a mulher sua igual, comprehenderá quanto era louco preferindo-lhe esses pobres sêres que não têm assumpto para conversa fóra do ultimo figurino, da vida alheia e das criadas e seus costumes.
Comprehenderá então o que é o verdadeiro afecto entre esposos, e não mais preferirá essas que hoje diz amar, mas que no intimo despresa, como suas inferiores, que supõe.
E digo que supõe, porque está provado pela sciencia que intelectualmente não ha sexos privilegiados, mas unicamente individuos e, quando muito, raças.
Foram os sabios que desmentiram esse grosseiro e velho erro de que o cerebro feminino é menos pesado e consequentemente inferior ao do homem. Foram elles, os mesmos que lhe tinham levantado barreiras sobre barreiras e escreveram sobre cada porta da sciencia o fatal non possumus, os primeiros a desmentir-se e a penitenciar-se próbamente a cada manifestação da mentalidade feminina.
Foi a sciencia, fonte de toda a verdade e de toda a justiça, e na qual devemos pôr os olhos como na unica libertadora, que fez cahir por terra esse argumento tão falado da superioridade intelectual do homem, fundando-a no peso do cerebro.
Se a massa cinzenta contida no craneo feminino é menor, corresponde harmonicamente ao tamanho do corpo, em regra mais pequeno.
Foi esse o primeiro passo, o mais importante e decisivo, para o triumfo da ideia feminista. Até lá, quando a mulher pretendia estudar, trabalhar, ser um ente de razão e de luz, cahia-lhe como avalanche de gelo, a sufocar-lhe as aspirações, essa cruel e deprimente opinião. E a pobre, se não era um espirito de excepcional brilho ou um caracter de excepcional tempera, sentia-se amesquinhada aos seus proprios olhos e desistia do enorme esforço requerido para subir onde a multidão das suas pobres irmãs nem sequer se atrevia a pôr as vistas ambiciosas.
Ás vezes, ou porque fossem realmente excepcionaes, ou porque as condições mesologicas as favorecessem extraordinariamente, dentre as mulheres sahiam algumas que os proprios homens eram os primeiros a reclamar e incensar, mas passando-lhes cautelosamente o diploma de raridades, quasi fóra do sexo, sêres hibridos, masculinos pela inteligencia e só fisicamente femininos.
De modo que essas aclamadas, e afastadas do caminho trilhado pela turba-multa das ignorantes, exactamente porque eram superiores e se julgavam intangiveis, abandonavam a causa das suas irmãs, que já não era a sua, concedendo-lhes apenas, e isto nem sempre, a sua piedade diluida em conselhos de resignação e submissão para desempenharem o papel de escravas, nascidas sómente para a felicidade e regalo do homem. Desta maneira, a causa feminina perdia as suas mais legitimas defensoras, deixando nas mãos dos homens os melhores argumentos.
É como algumas esposas, que, por serem ditosas no casamento, porque tiveram a fortuna—que não digo rara—de encontrar para maridos homens inteligentes e justos, encolhem os hombros com indiferença á desgraça das que tiveram destino contrario.
É uma prova de egoismo, que é uma deploravel qualidade, e é, peor do que isso, o abandono duma causa justa que, se não toca individualmente a cada mulher, interessa colectivamente o sexo a que pertencem.
Acabar com os fenómenos, com os monstros femininos, julgar todos os individuos intelectualmente semelhantes sem distinção de sexo, aptos igualmente a estudar e progredir pelo trabalho, foi sem dúvida o passo definitivo para a libertação feminina.
As mulheres poderão, assim como os homens, distinguir-se pela sciencia, pela industria, pela arte, pelo comercio, pela pedagogia, ou ficarem tão-sómente dônas de casa,—mas fazendo do seu lar a primeira e a mais nobre escola dos filhos.
Haverá, decerto, tal-qual entre os homens, umas que se superiorisam num trabalho, outras em outro, mas serão todas educaveis, todas melhoraveis, todas uteis, laboriosas e conscientes obreiras, ajudando á melhoria da grande colmeia social.
As mulheres de hôje não têm desculpa se continuarem na ignorancia e na inactividade, tudo esperando do homem, que as hade procurar para a sua conveniencia.
As escolas estão abertas por igual aos dois sexos e não ha já quem, nesta hora alta da civilisação, se atreva a banir dellas um individuo que as queira frequentar sob o pretexto da diferença do sexo.
Tempos atrás, quando a mulher pensava em sahir do anonimato da sua missão caseira, tinha apenas por campo aberto á sua actividade, a literatura, visto que é a unica profissão onde o talento e o estudo individual dispensam a educação preparatoria.
Hoje não é assim. Toda a gente aceita uma senhora que tem a profissão de medica, pintora, esculptora, engenheira ou professora, tudo que requer habilitações e estudos publicos, e que lhe tinham ensinado a crêr que nunca poderia atingir por falta de genio criador e persistencia no estudo.
Não se sobresaltem os homens com a concorrencia, que é antes auxilio. Pequena, por mal da humanidade, hade ser sempre a percentagem dos cerebros verdadeiramente superiores em qualquer dos sexos. Não é, pois, justo que por falta de educação se percam aptidões que nem sequer chegaram a manifestar-se, talentos de que nem sequer se suspeita...
Se os mais ardentes sectarios dos velhos preconceitos já chegaram á conclusão egoista de que é preciso educar o povo para que se não percam tantissimos talentos que podem beneficiar a humanidade, não é justo—ainda que não seja senão pelo mesmo motivo—condenar á ignorancia, na mulher, metade dessa mesma humanidade.
Dever-se-ha pensar que Clemence Royer, honra e gloria da França, sabia entre os sabios, espirito todo precisão, clarêsa e método, não teria sido o que foi se, por um mero acaso, tivesse nascido em Portugal ou em outro qualquer paiz, onde, como no nosso, se descure a educação feminina.
As mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quasi total pelas conquistas que dia a dia vão marcando um passo de avanço para o triumfo definitivo do espirito sobre a materia, da inteligencia sobre a força, da educação sobre a ignorancia, embora doiradas pela fortuna ou pelos privilegios de classe.
Mas esperemos serenamente, porque á mulher portuguêsa hade chegar tambem a sua vez de comprehender que só no trabalho póde encontrar a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como castigo, mas no trabalho que enobrece o espirito, que dá o bello orgulho dos que só contam comsigo e nunca foram um peso para ninguem.
E desde que se torne independente pelo seu proprio esforço, desde que saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que veste, sem estar á espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que hoje a sustenta—seja como pai, como marido ou irmão—a sua alforria está decretada.
Uma vez será um artigo do codigo que se modifica (porque as leis devem seguir e não preceder os costumes); ámanhã um preconceito que cahe no desuso; depois um habito que se vence; até que obrigações e direitos se igualem entre as duas metades do genero humano, hôje em guerra sob a aparencia do amôr e do respeito social.
Os proprios homens as ajudarão nesse empenho, porque nenhum ha que não seja feminista se a mulher victimada fôr a sua propria filha, aquella para quem ambicionou maior soma de venturas e de bem estar.
Não ha pai que não aspire a deixar nas mãos de suas filhas, senão um dote em dinheiro—cada vez mais dificil de juntar honestamente, com as necessidades sempre crescentes da vida moderna—pelo menos um dote em educação e aptidões de trabalho que as pônha ao abrigo de toda a servidão.
Não haverá pai que se não insurja contra a lei, se vir o marido de sua filha pôr e dispôr da fortuna que lhe deu, e sem que a dôna possa sequer gastar o rendimento. Nenhum que se não indigne se o genro a despresar ou maltratar, se lhe prohibir qualquer intervenção na educação dos filhos, se a não atender nos seus conselhos e opiniões, se a não consultar para os negocios decisivos da sua vida, se por capricho ou vaidade se oposer a que exerça uma profissão honesta que a dignifique a seus proprios olhos, se, emfim, o homem fizer da esposa o que de facto a lei quer que seja—a menor sem vontade nem discernimento, a coisa de que o marido é o senhor, o ser humano pertença absoluta doutro sêr, que devia ser seu igual.
Os homens mais autoritarios e rotineiros como maridos, são, como pais, incapazes de apoiar um estado de coisas que apenas dá por garantia de felicidade á mulher que casa, a bondade, a inteligencia e a tolerancia do marido.
É evidente que, na maioria dos casos, mórmente no nosso paiz onde o homem é bondoso por temperamento, ninguem se importa com a letra do codigo feito para uma sociedade onde a esposa era ainda, ou apenas, uma escrava submissa, sem azas para grandes vôos de vontade nem ansias de libertação.
Nas mãos de um doido ou de um perverso, porém, o que poderá ser a vida da mulher que se volta para a lei e a lei manda-lhe simplesmente e implacavelmente: que obedeça! Que se volta para a sociedade, que lhe ordena hipocritamente: disfarce e submissão! Que se volta para a familia, e essa propria, temendo o escandalo, a violação das conveniencias sociaes, lhe aconselha: que se resigne!
Portanto, ser feminista é o dever de todos os pais. Porque ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a dignidade humana.
II
II
UMA RESPOSTA[1]
Não imagina V. Ex.a o prazer que me deu a sua carta, sabido como é que da discussão inteligente e sincera têm sahido as mais claras verdades, conhecido como é, por todos os propagandistas, quanto se ganha em fazer interessar pelas nossas opiniões, ainda os adversarios que mais as combatem.
E não sendo V. Ex.a um adversario, mas um confesso adepto, embora moderado, maior prazer o meu em lhe vir expôr serenamente as ideias feministas, tais como as comprehendo e preconíso. Diz V. Ex.a que é feminista, embora moderado, que o é como todos os ilustrados não poderão deixar de o ser, segundo a sua propria frase.
Eis o nosso primeiro triumfo, a nossa principal batalha vencida; tudo mais, creia, é questão de tempo, de paciencia, de serena e pertinaz energia, e de muito bom senso.
Ora aquellas qualidades não faltam ás mulheres, este é que ás vezes tem faltado, e não estamos longe de confessar que faltará ainda por largos annos á maior parte...
Mas, neste ponto, ninguem no nosso paiz poderá lançar á mulher a primeira pedra; culpados dessa falta somos todos e talvez mais o homem do que a mulher, talvez...
Voltando ao assumpto dizia eu, que está ganha a principal batalha do feminismo; efectivamente assim é desde que todos os homens, que se presam de inteligentes, reconhecem a mulher como um sêr quasi autonomo, com direito a pensar, trabalhar e luctar pelo seu proprio ideal. Nós não temos a fazer mais do que expôr ideias, e realisar pela prática as conquistas a que nos julgâmos com direito.
Que victoria imensa não representa essa sua simples frase! Que soma enorme de trabalho intelectual, que acumulação de esforços, para que os homens inteligentes nos concedam a outorga da sua restricta carta constitucional!...
E se pensarmos que esta primeira, mas definitiva conquista do espirito masculino, representa quasi o trabalho de meio seculo, temos vontade de dizer como o mais brilhante dos feministas francêses, Camille Mauclair:—que as mulheres apresentando as suas ideias e luctando pela educação que as superiorisa, lembram a paciencia das aluviões que fazem recuar o mar e mudam o aspecto de um paiz.
Se á geração que nos precedeu alguem falasse em feminismo, que apenas lá fóra começava a fazer-se perceber pela guarda avançada de exageradas e desiquilibradas, como adeante das procissões solemnes vem sempre o rapasío gralhando e correndo a foguetes, não haveria homem inteligente que não soltasse uma gargalhada escarninha, nem, com certeza, rapaz das escolas, que madrigalisasse pelos passeios publicos ou para os balcões floridos das vizinhas, que não encolhesse os hombros com desdem.
Os que não rissem, por temperamento sombrio e sentimentalesco, ergueriam os braços em clamôr chamando em auxilio da propria opinião a ignorancia das pobres mães e descrevendo, com enthusiasmo lamecha, o encanto duma carta amorosa com erros de ortografia como ironisava dôcemente Gonçalves Crespo, elle que na prática tão flagrantemente mostrou estimar o contrario.
Homens de incontestavel mérito não se pejavam de dizer—que só apreciavam as mulheres para os lavores caseiros, chegando a pôr em duvida a competencia intelectual do sexo feminino, não obstante as tradições gloriosas de excepcionaes, que tem vindo sempre a acompanhar a humanidade na sua evolução social através dos seculos.
Se a um dos mais bem organisados cerebros da geração a que me refiro, ouvi responder a quem citava o enorme talento de George Sand como prova da igualdade intelectual dos sexos—que essa não era mulher, era o diabo!...
Se é do meu tempo, se ouvi muitas vezes, eu mesma, a novos e a velhos, a homens e a senhoras, troçar das doutoras, citar por troça aquelle estupido dictado portuguez da mulher que sabe latim... já V. Ex.a vê o que representa para nós a sua simples confissão de que não ha hoje homem inteligente que não deva ser feminista.
Agora permita-me que explique o meu pensamento, que, certamente por deficiencia de clareza na fórma, não foi interpretado como desejava que o fosse.
O que entendo por—desenvolver livremente as qualidades afectivas na mulher,—é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente uma vergonha ou, pelo menos, um ridiculo.
Entendo que o ser humano que pertence ao sexo feminino, não deve ser coagido pela educação, nem pelos costumes, nem pelas conversas, nem pelos pais—que têm a mania de talhar muito discricionariamente o futuro dos filhos—a vêr no casamento um fim, um ideal completo e único, quasi uma obrigação.
Assim como o homem pode ser professor, jornalista, sabio, artista, empregado, operario, tudo emfim, sem que ninguem lhe pergunte pela certidão do matrimonio, sem embargo de serem quasi todos chefes de familia, não vejo inconveniente a que a mulher procure a sua colocação, tenha o seu curso scientifico, estude, trabalhe para si, para o seu futuro, para a sua vida autonoma, sem se lhe inquirir do seu estado...
Que essa mulher fique solteira, porque não encontrou o companheiro ao qual lhe seria grato ligar o seu destino, ou que, encontrando-o, seja sentimentalmente feliz, que temos nós com isso?
Por acaso nos preocupa a vida conjugal do politico A. ou do artista B.?
O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste principio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de modo tão contrario.
A mulher, como o homem, nasce para si mesma. Tanto um como o outro fazem parte da sociedade, de que são factores igualmente imprescendiveis, que se não comprehenderia nem sequer existiria sem a união dos dois sexos, mas na qual individuos isolados podem coexistir igualmente, decentes, honestos e respeitaveis—quando muito pagando maior contribuição, como querem alguns economistas francêses...
Quando digo que não temos nada com a vida sentimental de cada um, não quero dizer que a mulher case por ambição monetaria ou intelectual, se é exatamente para a livrar dessa baixesa que a desejamos independente pelo seu trabalho, quando o não seja pela fortuna, e mais independente ainda pela razão que a torne um ente de consciencia justa.
Diz V. Ex.a que é o amôr que salva a mulher?!...
Efectivamente, por muito amar se salvou uma—a biblica Magdalena.
Mas não é desse amôr que se trata, dirá, é do amôr puro e honesto da mulher honesta por temperamento, educada e instruida, que escolhe com toda a liberdade do seu coração e do seu espirito o homem que lhe agrada.
Ora não é esta mulher assim elevada, assim honesta, assim livre na sua escolha, a que, pelo mais futil motivo, irá mudar de afecto, enredar-se em aventuras galantes, para as quais geralmente não tem vocação, e que podem preencher a existencia duma frívola e ignorante criaturinha cheia de vaidades e que no triumfo dessas vaidades tem os seus unicos gosos intelectuaes.
O que não quer dizer que todas as mulheres instruidas sejam honestas—quem o pudésse dizer, que seria essa a nossa maior gloria!—mas tão sómente que a mulher, que por seu desgraçado temperamento, educação ou influencia de meio, é deshonesta, o é, tanto ou mais, quando ignara e frívola.
Um dos mais graves defeitos da raça latina é o de dar ao amôr a importancia maxima da vida. Os romancistas não sabem nem podem falar em outros assumptos, querendo ser lidos e comprehendidos. O theatro explora-o em todas as gamas, desde o amôr ingenuo e sentimental até ao amôr falsificado dos adulteros. Os poetas choram os seus e os alheios; os musicos dão-lhe a fórma ritmica; os pintores e os esculptores divinisam-no no marmore polido e na policromia das suas telas...
Rapazes e raparigas, antes mesmo de chegar á puberdade, não pensam noutra coisa, e uns e outros julgar-se-hiam inferiorisados se estivessem cinco minutos na mesma casa sem se defrontarem valorosamente num complicado tiroteio de olhadelas amorosas.
Não será muito pensar num assumpto que só interessa a duas criaturas e por um tempo relativamente curto na vida humana?! Sim, que não interessa nem póde interessar senão a quem o sente e com elle é feliz ou infeliz.
Senão vejamos: V. Ex.a, que leu e respondeu ao meu artigo, sabe porventura se eu sou casada ou solteira, feliz ou infeliz no casamento, ou pensou sequer em tal?
Porcerto que não, nem isso importaria para lêr o que escrevo e responder o que entende.
É a prova de que a vida psíchica de cada individuo é completamente autonoma do seu estado civil.
A independencia da mulher não pode importar o não reconhecimento da autoridade do marido, (um dos grandes receios de V. Ex.a) porque essa autoridade existe, senão de facto, pelo menos de direito, emquanto existirem as leis que hôje nos governam, leis que a mulher deveria conhecer quando vai casar, leis que a tornam uma menor sob a tutella directa do homem.
O que será o futuro não o podemos prevêr, de tal maneira a educação da mulher modificará a sociedade.
Diz V. Ex.a que a mulher independente poder-se-ha desafrontar do marido que a atraiçôa atraiçoando-o por sua vez.
Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse—que, infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.
A mulher independente que tal fizer, não terá por motor a independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.
Com respeito á proscripção da mulher erudita da familia, não é, não pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem intelectuaes, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.
Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.
Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas, tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a sujeição das mestras?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem instruir-se mais, nem se querem tornar independentes,—exatamente para não terem a maçada de trabalhar...
Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa—que para trabalhar escusava de casar!... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.
Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual são por esses motivos imperiosos afastadas dos filhos, com menos utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela retorta de um laboratorio?!
Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que tem a dita de lhe ser berço?
Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser uma proscripta do lar exactamente quando o nome de um homem e duma mulher, ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o retrato de Mr. e M.me Curie acompanhados muito burguezamente de seu filhito.
É possivel que eu esteja enganada e seja exatamente V. Ex.a quem tenha razão, mas como estamos de acôrdo em que se não regateie educação ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de prodigios e excepções que só á causa das mulheres tem prejudicado, é o principal.
Que o resto não nos deve preocupar muito nem devemos aventar hipóteses faliveis, como tudo que pertence ao futuro e que não temos base segura para julgar.
O homem de ámanhã hade procurar a sua felicidade e a maior porção de bem estar compativel com a sociedade do seu tempo. Como o fará não o sabemos, mas é certo que pensará de maneira diferente do de hôje, como o de hôje, como V. Ex.a mesmo, pensa decerto diferentemente do que pensou seu pai e seu avô sobre os mesmos transcendentes assumptos.
Acabe-se com todas as prepotencias e todos os privilegios, tanto de raça, como de classe, como de sexo, e deixemos que, individualmente, cada homem e cada mulher, procurem ser felizes a seu modo, organisem os seus lares como entenderem,—desde que esse conjuncto se harmonise numa sociedade de mais justiça e tolerancia.
III
III
A INSTRUÇÃO
É fundamental este assumpto, visto que a nossa civilisação se baseia não na força mas na inteligencia, não na rotina mas no progresso.
Todos sabem, e apregôam aos quatro ventos, que a mulher portuguêsa é ignorante e futil, que a mulher portuguêsa tem todos os defeitos dos incultos, não merecendo do homem a consideração que se tem pelos iguais, mas a tolerancia que se dispensa ás crianças irresponsaveis.
Coisas de mulheres, dizem por vezes os homens, mostrando o seu despreso; notando-se que os que mais clamam esta superioridade são, quasi sempre, os mais inferiores...
Não é isso, porém, o que nos interessa; é certo que o homem português tem tantos ou mais defeitos do que a mulher, mas se ella se transformar, facilmente o corrijirá.
A mulher tem, em si mesma, bastantes elementos bons para se modificar, sem se queixar do homem e esperar que lhe ensine o que elle mesmo não sabe nem é da sua competencia saber.
O homem tem culpa em não elevar a mulher, em não fazer della a sua companheira de trabalho e luctas, em temer a ilustração da mãe de seus proprios filhos; o homem faz mal, porque rebaixando a mulher não se lembra que se rebaixa a si proprio que nasceu della e dos seus labios escutou as primeiras lições da vida. Mas a mulher póde reagir, póde educar-se a si mesma, póde, pelo menos, mostrar desejo de progredir, de se igualar ao homem pelo trabalho e pela inteligencia cultivada.
A mulher falha de educação é muito mais inferior do que o homem, porque são os seus proprios defeitos que se tornam qualidades, elevados pela cultura, encaminhados pela educação. O que na mulher educada é espirito, é na outra grossería; o que numa é presciencia, é na outra desconfiança; o que numa é desenvoltura e graça, é na outra descaramento; o que numa é observação, é na outra bisbilhotice...
Vai-se a uma fabrica ou a uma oficina, passa-se por uma rua onde ha desenas de homens, principalmente se forem do povo, não se ouve um dito desagradavel, não se ouve um riso que moleste; mas onde estiverem duas mulheres ás quaes a educação não depurou os defeitos, ou cujos espiritos não estejam perfeitamente humilhados pela dependencia, temos dois intoleraveis animaesinhos que riem, falam, troçam, olham miúdamente, com o proposito ferino de irritar e de ferir.
Por isso, tanto ou mais do que o homem, necessita a mulher ser educada e ilustrada, e é, a meu ver, por onde deve principiar a remodelação duma sociedade que seja progressiva.
Educar a mulher—eis o problema maximo a desenvolver e pôr em prática.
A isso é que chamâmos feminismo, que não em pôr gravatas e colarinhos de homem, que se podem usar como prova de simplicidade ou de extravagancia, mas nunca como afirmação de opiniões.
Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o suficiente para a sua sustentação—quando é só—de auxiliar o homem, esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrencia e a carestia da vida moderna,—quando casada,—parece-nos a maneira mais prática de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o caminho a seguir direitamente na vida.
Não temam os homens que a mulher instruida, por mais liberta, quebre mais facilmente os laços de conveniencias com que a sociedade a prendeu. Nem sempre foram os conventos, com todas as suas grades e portarias, o mais puro exemplo da castidade feminina; ainda hôje os harens, com todos os seus guardas e eunúcos, são para o ciume do macho bem fragil garantia...
A mulher entregue ao seu proprio discernimento fará o que a consciencia esclarecida e o respeito proprio lhe ensinam, e não o que o mêdo lhe dictar.
Que mérito tem a criatura que não falta aos seus deveres porque está guardada á vista, como um doido furioso?
É certo que no nosso povo está tão enraísado o habito de fazer acompanhar as mulheres, como signal de grandêsa, que é mais uma nobilitação do que uma prova de desconfiança.
Andar só é, ainda hôje, em muitas terras de provincia, uma vergonha para a mulher, mostrando que o marido a não présa bastante para a fazer acompanhar.
Lá diz a cantiga: