O seu Dom não vale nada,
Vai á fonte, vai ao rio,
Vai á missa sem criada.»
Ir á missa sem criada seria, realmente, para as nobres damas que abrigavam em casa uma legião de serviçais—criados e filhos de criados, como outrora tambem os escravos trazidos das terras conquistadas a moiros e a negros—a maior prova de miseria, ou de decadencia financeira.
A vaidade da fidalguia que é, ainda hôje, um dos caracteristicos do genio português, nesta terra em que todos se dizem filhos dalgo e se sentem com direitos de senhores para escravisar os mais pequenos, não tolerava á mulher que aparecesse em publico sem comitiva... ainda que constasse apenas duma pequena criadinha.
É esta fidalguia, mal interpretada, que faz com que o homem fuja ao trabalho, como á mais deprimente das servidões, reflectindo-se bem claramente na educação que se tem dado, até aqui, á mulher, convencendo-a de que se inferiorisa se trabalhar para ganhar dinheiro e auxiliar o homem.
O nosso paiz resente-se dum mal-estar e desiquilibrio que vem do conflicto entre o passado que se desmorona, com todas as suas velhas ideias e preconceitos, e o presente que ainda não conquistou todos os espiritos ligados ás convenções, que já despresâmos no fundo.
A nossa geração sofre duplamente pelo embate dos sentimentos que se entrechocam em nós mesmos e nas nossas proprias familias...
Todos apresentam as suas queixas, todos falam, mas tudo se diz no ar, sem provas nem proposito firme de conhecer o mal e enveredar pelo caminho que se nos afigura ser o melhor.
Quem quizer fazer alguma coisa entre nós é preciso revestir-se duma paciencia sem limites e ter uma coragem excepcional, por isso que tem de se defrontar com a indiferença de toda uma nação cançada de aventuras, exausta por um longo periodo de desilusão e enganos. Tudo contribue para o desleixo fisico e moral em que vivemos, desde o sol dôcemente enlanguecedor, até á ironia dissolvente com que se recebem todos os enthusiasmos e todas as emprezas que não tenham por fim o lucro material.
E no emtanto não devemos desistir da lucta, devemos pelo contrario ir juntando elementos e amontoando verdades até que a luz se patenteie a todos os olhos e seja visivel a todos os cerebros.
Uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente, é a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos analfabetos.
E ha ainda quem lhes diga que fiquem em casa a educar os filhos, em vez de pretenderem ganhar o seu pão honestamente pelo trabalho!
Mas ensinar o quê, se ellas não sabem o mais elementar, se muitas vezes nem sabem ler e escrever!?
Dirão que só a mulher do baixo povo é tão completamente ignorante, mas o que é certo é que pequenissimo é o numero das mulheres que, embora saibam ler, se preocupem com as questões intelectuais e possam, portanto, ser educadoras dos proprios filhos.
E todos sabem, principalmente os professores, quanto custa ensinar crianças que não tiveram a abrir-lhe o caminho da inteligencia, o cultivo amoravel da familia, principalmente da mãe.
Para ellas tudo é novidade, desde o que seja uma montanha até ao pão que metem na bôca.
Os professores, mesmo sem querer, o fazem sentir ás crianças, e é esse sem dúvida o maior castigo das mulheres ignorantes, que julgam cumprir o seu dever de mães de familia governando a casa e vestindo com elegancia os filhos.
Mas a triste verdade a confessar, e que é muito para meditar, é que—do milhão de portuguêses que sabem ler e escrever a sua lingua, apenas um terço são mulheres!
E ainda se queixam quando se diz que a mulher no nosso paiz é inerte, ignorante e frivola!
A unica superioridade admitida no nosso tempo, por mais que se queiram iludir os grandes da terra, é a da inteligencia. Os mais instruidos são, evidentemente, os superiores, os fortes, seja qual fôr a sua posição.
No tempo em que o mundo se levava á espadeirada, a força fisica era superior á intelectual e os homens podiam tornar-se senhores pelo poder musculoso do seu braço; hôje a força fisica vale muito como educação e muitissimo para produzir saudaveis criaturas, mas vale muito pouco para aferir superioridades. Aliás teriamos de acatar o moço de fretes, que pega numas poucas de arrobas como quem pega num braçado de flôres, e proclamá-lo superior, nosso indiscutivel chefe.
Ninguem irá buscar um hercules de feira broncamente estupido para o comparar e achar superior ao sabio empalidecido e enfraquecido pelas vigilias do estudo.
O que falta no nosso paiz é a instrução, principalmente a instrução prática que faz progredir um povo. Quando é preciso traçar uma linha ferrea, vêm engenheiros do estrangeiro; quando necessitâmos dum porto, lá estão as companhias estrangeiras; quando uma cidade quer abastecer-se de agua, lá estão os estrangeiros para lha fornecer; quando é preciso montar um arsenal ou uma fabrica, lá estão os especialistas estrangeiros.
Quasi tudo o que se faz no nosso paiz é práticamente dirigido por estrangeiros e estrangeiras. Ainda destas a quantidade não é tão grande, mas lá chegaremos, e quando quizermos utilizar as nossas mulheres em muitos e variados mesteres, que o futuro por força lhes hade entregar, já não encontraremos logares vagos.
Não nos deixemos embalar com o sonho do passado; pensemos no futuro, que é o trabalho e a educação.
Fomos ha tres seculos um punhado de aventureiros que realisou a maior aventura que ainda se havia visto, e imaginâmos que tudo será perdoado a quem tanto fez e a quem tão maravilhosamente o soube cantar.
Mas os tempos são outros, as necessidades muito outras, e a vida já se não leva a descobrir caminhos por mares nunca dantes navegados.
Hôje, que o nosso pequeno planeta está visto por todos os lados, achâmo-lo pequeno e temos fome e sêde de mais alguma coisa. O homem não se cança de saber, de procurar lêr o passado nas pedras fragmentadas dos monumentos soterrados, como de procurar o futuro nos espaços faiscantes de sóes; a tudo aspira pela inteligencia, tudo quer comprehender e possuir.
A mulher entre nós não póde, por deficiencia de educação e excessivo acanhamento, ser a util companheira de tal homem.
Na idade-média a mulher podia esperar o marido, que ia ás aventuras fabulosas, sentada ao bastidor ou á róda de fiar, tecendo com suas brancas mãos o linho que por si e pelas suas criadas fôra fiado. Ignorante e passiva, era a digna esposa do senhor brutal que só conhecia o direito da força.
No seculo XX a mulher tem de ser outra, porque outro é tambem o homem e muito diferente o seu ideal.
Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral para viver de si mesma, e para si, quando pertença á enorme legião das que ficam solteiras e portanto,—sem filhos a educar nem casa a governar, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos.
É este o verdadeiro feminismo.
AS MULHERES E A POLITICA
As mulheres e a Politica
A mulher não hade fazer politica? Então não hade ocupar-se, já não digo da sua, mas da sorte de seu marido, dos seus filhos, ella que é toda dedicação?!
Dr. Bernardino Machado.
Transcreve um diario radical,[2] não sei se irritado pelos ultimos casos da politica portuguêsa, um artigo de Urbain Gohier, publicado no jornal L'Action, em que as mulheres são verberadas violentamente, por isso que se prova que em politica só se obedece aos seus caprichos, e os seus desejos se antepõem aos mais urgentes negocios de estado, de que dependem os destinos duma nação.
Porventura é isso novidade para alguem? Julgaram os homens, por acaso,—tamanha será a sua ingenuidade?!—que podiam em vão dispôr de metade da humanidade, redusi-la ao papel farfalhudo de deusa do lar, nuvem, anjo, demonio, e todas quantas mais banalidades se têm dito e escripto ha seculos, e dizer-lhe:—fica ahi! o teu destino é agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?
Não penses; não queiras sahir dos meus braços, que é só onde podes encontrar o luxo, a alegria, a vaidade satisfeita, a preguiça que te pode conservar a belleza material, mas que te anúla por completo a vontade e a inteligencia, que dispenso... Salvo se precisar da tua graça e do teu espirito para chamar aos meus salões os que a minha energia não conseguir domar, mas é conveniente que esse mesmo espirito seja frivolo, feito de sorrisos e de frases do dia, facil para qualquer mulher, medianamente inteligente, posta num meio em que as emoções de arte aguçam os nervos, e o conforto, o luxo, e o convivio com pessôas distinctas, adelgaçam intelectos e limam as arestas plebeias, que denunciariam logo a humilde procedencia...
Pois a mulher que só vive de vaidades, que tem a sua orbita limitada a seguir o astro rei como palida lua sem luz propria; a mulher que geralmente só tem um nome respeitado quando o homem lho dá; a mulher que é educada para agradar ao homem, para arranjar pelo casamento uma situação definida na sociedade; a mulher sem um fim determinado na sua vida individual, sem um pensamento nobre a elevar-lhe as aspirações; a mulher escrava pela força e submetida pelas leis, vinga-se como sempre se vingaram os escravos—corrompendo.
O que desejam as mulheres auferir do homem que as não associou a nenhum dos seus pensamentos e actos, que a aceita como um presente e a conserva como um luxo? O que todo o inferior pretende tirar do que se lhe quer impôr como senhor, numa revolta amarga de impotencia—a maior soma de gôso proprio junto ao menor esforço para o conseguir; o seu prazer, a felicidade egoista de quem não tem um nobre ideal a orientar-lhe a senda da vida.
É pois criminosa a mulher, e muito, mas criminosa como a criança que inconscientemente empurrasse para o abysmo o seu proprio irmão.
Responsavel é só o homem, que, cheio de orgulho, não procura na mulher uma companheira, uma igual, mas uma inferior, embora finja endeusá-la para a conservar na rotina e no servilismo. Tira-lhe a instrução e a sciencia, como alimentos improprios para estomagos delicados, e deixa-lhe o sonho e a fantasia, que as tortura na ânsia louca de encontrar na vida real o imprevisto de sensações romanescas, que seduz principalmente os ignorantes.
Culpado é só o homem que afastou a mulher proba e culta de todas as luctas em que o destino de ambos se joga,—pois que a politica é, ou deve ser, a arte de bem dirigir uma nação, e a nação pertence tanto ao homem como á mulher—para se deixar governar por intrigantes quasi sempre deshonestas, as mais das vezes inconscientes instrumentos doutros ambiciosos.
Afastaram a mulher das altas preocupações do espirito, puzeram-lhe ao pensamento e á vontade uma barreira de preconceitos e de ignorancia, e queixam-se porque ella usa das armas que tem e gosa o fructo do orgulho masculino!
Indignam-se contra as mulheres e são os proprios homens cultos que transigem com ellas, nas suas crenças e prejuisos; elles, os que não têm pejo de dizer publicamente que—embora se sintam libertados, embora os seus espiritos pairem alto numa atmosfera de saber e de certeza que os orgulha—consentem que as esposas continuem a crêr o que elles descrêm, a vêr o que elles não vêem, a seguir o que elles não seguem,—porque querem ser tolerantes!
Não comprehendem, ou não querem comprehender, o que é peor, que a mulher representa mais do que o homem na constituição da familia, porque é a ella que pertence o filho nos seus primeiros annos, porque á mãe está confiada a filha até passar para as mãos do marido. E quantas vezes o homem, num ingenuo sorriso de criança, encontra os laços que no futuro lhe hão de manietar o espirito, ou, em caso de resistencia, o fundamento para luctas que lhe despedaçarão a felicidade se teimar em não se deixar vencer pela persistente e dôce propaganda das crenças femininas.
A mulher não póde cortar abruptamente com um passado, que é toda a sua vida espiritual.
É preciso que uma forte instrucção a liberte de caprichos infantis e lhe dê a lucida e precisa noção do que deve ser a sua força moral.
Torna-se preciso que o homem já educado eduque a sua companheira; que o homem livre escolha a mulher já livre; ou que o homem saiba transigir com os laços seculares que muitas vezes ligam a mulher solteira á familia e á tradição, mas só quando tiverem a certeza de que esses espiritos, momentaneamente libertados pelo amôr, não voltarão mais tarde, numa crise de fastio e abandono, aos ideaes com que fôram embalados os seus aureos sonhos de menina...
Não é negando e demolindo que se fórma a nova alma feminina, que, por sua vez, transformará o mundo; é elevando a consciencia e construindo um novo templo de amôr e bondade humana, irredutivel e forte, onde o espirito se inunde de luz e não possa mais mergulhar na treva.
O homem livre, o mais responsavel, aquelle que nos seus jornaes, nos seus livros, nas suas conferencias, mais clama pela educação da mulher, reconhecendo na sua falta toda a servidão das sociedades burguêsas; esse mesmo, falto de logica quasi sempre, não se faz acompanhar da sua esposa ou das suas filhas, não as póde apresentar como exemplo ás outras mulheres, porque, em geral, são ellas as primeiras a abominar as suas ideias.
Quando mesmo as não contrariem nem abominem, perfilhando-as algumas vezes, são raras as que o queiram confessar publicamente, sabendo muito bem que o homem português tem o terror instinctivo da mulher culta e intelectualmente independente.
E só assim ella deixará de ser a pedra atada ao pescoço do homem, que em vão se esforça por fugir á corrente da moda em que a maior parte dos espiritos masculinos vem a naufragar.
Não é a mulher educada e orientada na consciencia dos seus deveres e obrigações sociaes a que merecerá nunca a frase seguinte do jornal a que me refiro:—capricho que é um erro proprio da fórma de ser do espirito feminino.
O espirito da mulher não tem atributos proprios, como a sua inteligencia e as suas aptidões não podem ser limitadas autoritariamente, circunscriptas a um certo e inultrapassavel perimetro.
Ha mulheres caprichosas por defeitos de educação ou de temperamento, consumidas de mesquinhas invejas e pequenas revoltas de impotentes, como ha tantissimos homens sem energia, que nas suas proprias revoltas são irritantes, falsos e untuosos, como costumam classificar as mulheres.
Escolham os homens livres companheiras que egualmente o sejam; determinem-se os campos, forme-se a familia pelas convicções de cada um e não pelas convenções duma sociedade que não tem sinceridade nem nobrêsa, e a transformação será completa.
SER PORTUGUÊS
Ser português
«Como hade a mulher educar os filhos no civismo, se o não praticar?»
Dr. Bernardino Machado.
Conserva-se a mulher portuguêsa numa entorpecida indiferença pelas questões da actualidade, mesmo por aquellas que mais de perto a deviam interessar.
Alem dos cuidados, mais ou menos caseiros, deveria a mulher interessar-se pelas questões de civismo, como pelos varios problemas sociaes, que tambem de perto e profundamente a tocam, não só na sua vida individual como na sua influencia na familia.
O individuo pertence á familia, a familia á sociedade, e o que interessa esta por força hade interessar aquelle, numa sociedade bem organisada e equilibrada.
Não póde pois a mulher, principalmente quando é mãe, conservar-se na abstenção culposa em que tem vivido até aqui a mulher portuguêsa.
Ao seu espirito desocupado passa tão despercebido que um pedaço das colonias seja retalhado á patria, como um novo emprestimo ou uma sobrecarga de impostos—que venham agravar as condições geraes da vida, já de si tão dolorosas—sejam votados e postos em execução.
Qual a alma de mulher que vibra de enthusiasmo ao lêr uma pagina vehemente de patriotismo? Qual a que se desespera e indigna vendo a derrocada de caracteres que nos arrasta para um fim vergonhoso?!
Convenceram-na—e ella acreditou!—de que não deve pensar em politica, porque isso lhe tira toda a modestia e ductil graça tornando-a uma desagradavel Maria da Fonte; e, no entanto, não sendo ouvida quando se trata de novos emprestimos, despesas extraordinarias e desequilibrios orçamentaes, mais do que ninguem os sente e sofre ella, na sua qualidade de reguladora das despesas da familia.
A mulher, e, o que é mais, a mãe, não se interessa pelos trabalhos intelectuais que o filho tem a seguir, não estuda as questões pedagogicas, não impõe a sua vontade, só se fôr para lamentar a criança, que tem de se maçar com tantos livros... Não pensa nem dá importancia á educação dos rapazes, isto é, dos homens que hão-de ser os maridos das suas filhas, os pais educadores dos seus netos; não se indignam nem protestam contra as injustiças e prepotencias que a seu lado se praticam, como não se enthusiasmam por uma manifestação da arte nacional ou por um acto de coragem e hombridade que levante, ao menos por instantes, o nome português.
A mulher, a mãe, recebe com o mesmo sorriso carinhoso o filho que passou num exame por empenhos, como se elle fosse um consciencioso estudante; o que compra o emprego, sabendo que comete uma ilegalidade; o marido que por comodismo ou por interesse aceita todas as imposições dos superiores, sem um protesto de consciencia; o noivo que apresente mais valiosos titulos de renda, seja qual fôr a sua procedencia.
A mulher, que hade no futuro ser acusada por todas as faltas civicas do seu tempo, julga-se desobrigada porque delegou no homem todas as responsabilidades e todos os encargos da governança publica.
Ora isto não é assim, porque, de todos os crimes civicos do homem, é a mulher a verdadeira culpada.—«Deante da esposa e talvez ainda mais das filhas, quando civicamente educadas—diz o sr. dr. Bernardino Machado—ninguem se atreveria a aparecer depois duma má ação na sua vida publica.»
Grande é pois a responsabilidade da mulher no estado de depressão moral, que é a caracteristica da sociedade portuguêsa dos nossos dias.
Não posso crêr que seja isto falta de sentimento, essa flôr delicada que dizem ser apanagio do coração feminino e que é a ultima que nelle fenece; não posso crêr que a generosidade, o altruismo, a coragem, que em todos os tempos nimbaram de luz o espirito da mulher portuguêsa, a tenham abandonado de todo, para sómente se manifestarem em algumas almas masculinas.
Não, não é isso possivel, que seria contrariar todas as leis da natureza, falsear todas as tradições, duvidar de tantissimos factos que nobilitam a mulher do nosso paiz.
É que hoje, desinteressadas por educação e por habito das questões que tanto preocupam o espirito masculino, não pensam que—em todos os actos da vida nacional em que os seus nomes entrassem, protestando pelo direito e pelo dever contra a injustiça, a força e a intriga politica, seria uma afirmação dos seus sentimentos civicos e a próva de que comprehendiam as questões de que depende a felicidade da sua Patria, o futuro honrado dos seus filhos.
Com esse simples acto espontaneo da vontade, provariam que o seu sexo, embora afastada das luctas que se dirimem dia a dia no jornalismo e na politica de dize tu direi eu, que é a politica portuguêsa dos ultimos tempos, acompanha e apoia os homens, quando justa e nobre é a sua causa.
Mostrariam conhecer os deveres e os direitos que assistem a todo o cidadão livre, seja homem ou mulher, de protestar contra os actos que a sua consciencia repudía, embora praticados á sombra das leis.
Tendo dado essa prova de individualidade mostrarieis ser, senhoras, as mulheres que deveis ser para que os vossos filhos, no futuro proximo que os espera—quem sabe de que vergonhas e miserias tecido!—tenham a nobre coragem de se sacrificarem pelo resurgimento da Patria Portuguêsa.
Mas sabeis porventura o que é sêr português, vós que falais a lingua que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente entre pinhaes rumorejantes?...
Sabeis o que é sêr português, vós que pizais indiferentes uma terra tantas vezes embebida em sangue dos que luctaram até á morte para a tornar uma Patria livre?...
Sabeis o que é sêr português, vós que respirais o aroma das flôres que por toda a parte desabrocham em hilariantes coloridos, neste abençoado canto do universo?!...
Sabeis o que é sêr? português, vós que recebeis a dulcida caricia dum céo limpido, que passeais os vossos olhos sobre as aguas movediças que levaram os nossos antepassados á aventura gloriosa de descobrir novos caminhos e novos mundos maravilhosos, essas aguas que trouxeram, em paga de tanto esforço e tanta heroicidade, o oiro, as pedrarias, a riquêsa que deslumbrou o mundo e—ai de nós!—pela vaidade nos perdeu!?
Sabeis o que é sêr português, senhoras!?...
Pesa-me dizer-vos que, salvo algumas excepções, não o sabeis.
Que isto vos não cause enôjo, e que sobre a minha cabeça não cáiam as vossas ironias e odios!
Se vós o não sabeis, pouca ou nenhuma culpa tendes, que de longe vem o despreso pela vossa educação, que de bem longe vem o mal que nos está ligando como cadaver embalsamado prompto a entrar para o tumulo historico das nações que só vivem do passado.
Mas podeis ainda resistir. É tempo ainda de sacudir a apathia egoista em que vos conservaes ante todas as angustias colectivas do paiz, e mostrar ao mundo que o povo português não morreu ainda, porque as suas mulheres, as mães, têm sempre no coração a imagem estremecida da Patria, e ensinam os filhos a respeita-la, a ama-la mais do que á sua noiva, mais do que aos seus proprios pais.
A nação amada pelas mulheres não morre nunca na historia.
Martirisada, dividida, conquistada, não morre emquanto as mães transmitirem aos filhos, com o leite dos seus peitos, o sangue das suas veias, o fogo das suas palavras, o despreso aos vencedores e o amôr á terra que foi de seus avós, á terra onde existe a sua casa, que é o seu lar.
Começam por ensinar-lhes no berço, acalentando-os com ellas, as lendas e cantares da sua patria; acabam por lhes indicar o caminho por onde enveredaram os que sofreram e morreram contentes pela sua gloria.
Falo-vos ao sentimento, eu sei, mais do que á razão, mas prouvéra a Deus que fôsse o sentimento que guiasse ainda o nosso paiz! Quando uma patria é nova, crente, esperançada e forte, firmando-se no amôr e no enthusiasmo dos seus filhos, não se prende por conveniencias, não recúa ante o perigo, não sabe contar os inimigos que a atacam, para os vencer. Por isso avança, torna-se inolvidavel na historia, como nós o fômos!
Só na decadencia se aprende a transigir, decadencia que tanto póde ser material como moral, decadencia que é, a maior parte das vezes, filha só do egoismo, do desejo inferior de gosar sem que o gôso dos outros nos seja preciso para a felicidade propria.
E no nosso paiz transige-se para se estar bem com todos, transige-se por preguiça de discutir, transige-se por uma emaranhada teia de preconceitos, de pequeninas considerações que amolecem o ânimo, quebrantam as vontades, e fazem das oposições uma coisa ridicula, porque não têm éco nas almas, ou são, quando muito, um brado louco e desacompanhado de quem vê uma grande multidão correr para um abismo e nada póde fazer para a sustêr e salvar.
Mas não ensineis a vossos filhos essa excessiva transigencia, senhoras! Deixai aos moços o enthusiasmo e a fé; não estanqueis a fonte de coragem e energia e justiça que existe em toda a alma joven!
Levantai o espirito para mais nobres ideais, não vos amesquinheis numa abstenção que não é modestia mas ignorancia, indiferença, covardia das vossas almas que assim querem fugir á dôr forte e nobre do sêr que aspira—a ascender, na escala zoologica, de simples animal de instinctos para criatura de espirito e de vontade.
Não tenhais mêdo da dôr intelectual que retorce febrilmente os nervos em convulsões de agonia e aperta a garganta inchada de soluços num estrangulamento de desespero, vós, as mães, que sofresteis corajosamente a dôr fisica de ter um filho! Tornai-vos conscias da grande missão que é de vosso dever desempenhar, com a firme certeza de que não ha paiz grande onde a mulher seja inferior.
Vós, mães e educadoras, que tendes a vosso cargo pequenas almas em embrião a despertar para a luz, ensinai-lhes primeiro do que tudo, e antes de tudo,—a serem portuguêses.
E ser português é amar a sua terra entranhadamente, religiosamente, esta terra de que somos filhos e não podemos despresar sem nos despresarmos a nós mesmos.
Ser português é aprender a sua lingua antes de nenhuma outra; é lêr os livros que portuguêses têm escripto; é conhecer os seus artistas; não despresar as suas industrias; comer o producto da sua terra; amar as paisagens, ora recortadas em fundo grandioso de montanhas, ora espraiando-se em campinas onde as searas ondulam em marés verdes de esperança e os gados pastam com fartura; cantar as suas canções; folgar com as festas do seu povo; amar a sua flóra tão simples e graciosa; estudar a sua arte em todas as manifestações, desde a bilha de barro abrindo-se em duas azas, recordando a amfora romana, tão gentilmente posta sobre a cabeça da rapariga de Coimbra, até á magnificente fabrica do mosteiro da Batalha, sem esquecer o mobiliario severo e nobre dos nossos avós, a ourivesaria subtilmente trabalhada, os tecidos, a ceramica, as rendas, que, em tudo, houve tempo em que fomos alguem.
Se o não somos hôje, cuidais que os artistas e a patria é que são os responsaveis de tão grandes decadencias?
Não; uma, não póde nada, prisioneira do oiro nas mãos dos usurarios; os outros, sem estímulo nem público que lhes pague as fadigas e os empurre para o exito, ou lhes mostre pelo despreso a inferioridade do trabalho, retiram-se do campo onde a mediocridade dá leis. São poucos os que á força de vontade e coragem conseguem não esmorecer, trabalhando mais para satisfação propria do que pelos lucros materiais.
Que a Arte não dá hôje gloria em Portugal, e muito menos riqueza.
Se não sômos o que já fômos é que uma educação fundamentalmente portuguêsa falta por completo no nosso paiz.
A criança começa por interessar os olhos ingenuos nas estampas dos livros estrangeiros—ou vindas do estrangeiro para adaptar a coisas portuguêsas, o que é peor ainda!—por lêr traduções das historias que nos outros paizes se fazem para os pequeninos; por vestirem luxuosos vestidos cujos modelos vieram de fóra; por só apreciarem as flôres exoticas cultivadas com mimos de estufa, despresando a simples e honesta flora portuguêsa, tão espontanea e bella; por vêr as habitações dum tão duvidoso gosto de importação, os brinquedos, a loiça, os navios, os carros, os velocipedes, que tudo nos vem do estrangeiro e nos dá o aspecto banal e miseravel de povo sem nacionalidade.
Só vós, senhoras, podereis levantar-nos desta situação por demais incaracteristica e infamante!
Só vós podereis insuflar na alma dos moços o respeito pelo passado, o horror da situação presente, e a esperança consoladora num futuro melhor!
Num futuro que não está nos cursos complicados, nas repartições da burocracia, nos feitos das vanglorias militares com sobados africanos, mas nas oficinas, nas fabricas que nos poderão criar industrias exportadoras, no cultivo da terra que nos dá o pão do nosso sustento, o linho da nossa roupa, as fructas mais delicadas, o arroz, a cortiça, o vinho, as conservas, e tantissimas coisas que já hôje se exportam a mêdo e que poderão ser outras tantas fontes de riqueza, se a ellas se dedicarem inteligencias e dinheiro que mal parados andam umas e outro.
E nós, as mulheres, que temos nas nossas mãos a alma dos nossos filhos, que é como quem diz o futuro e a esperança, ensinêmos-lhes a despresarem o caminho das transigencias acomodaticias e a fugir do fatalismo musulmano com que temos acolhido, de braços cruzados, todos os desastres e toda a decadencia da nossa nacionalidade.
Preparêmo-los para que entrem na vida cheios de coragem e energia para o trabalho, renegando as miserias e as vergonhas de agora, e façam resurgir das ruinas duma sociedade que se anulou a si mesma, um Portugal novo, conscio de si, altivo e digno.
Nas vossas mãos, senhoras, está a rehabilitação das humilhações e vergonhas que ha dois seculos formam o triste fundo da nossa vida pública.
Nas vossas mãos está a morte definitiva da Patria Portuguêsa ou o seu resurgimento para o trabalho e para a vida.
Ponhâmos de parte as frivolidades que nos ensinaram a crêr que são a maior graça do nosso sexo, e sejâmos mulheres como o devemos ser:—criaturas conscientes e autónomas, companheiras e aliadas do homem, as verdadeiras educadoras de seus filhos.
Como a dama romana que mostrava os filhos como as unicas joias de preço que possuia, tiremos nós mais gloria em mostrar os nossos como cidadãos livres, sobrios e honestos, em vez de lhes darmos exemplos de ostentação e grandêsa que se não coadunam com a modestia da nossa terra e só provam a decadencia moral da sociedade em que vivemos.
Pensai nisto, senhoras, e ensinai-o a pensar a vossas filhas, porque tem mais interesse para o seu futuro e para o dos seus noivos do que o ultimo figurino, ou a ultima valsa tocada de ouvido ao piano.
Fazei de vossos filhos homens saudaveis de corpo e de alma, e das vossas filhas as companheiras dignas desses homens, capazes de os auxiliar no trabalho, alegres nas privações como modestas na grandêsa, e tereis cumprido a mais bella missão da mulher, dado a mais alta lição de verdadeiro e salutar patriotismo.
NO ANNIVERSARIO DUMA ESCOLA
No anniversario duma Escola
Pela descripção da festa realisada este anno[3] na «Escola 31 de janeiro» deveis saber que alguns homens dos mais notaveis pelos seus talentos e caracteres se referiram a nós, mulheres, em varias passagens das suas orações eloquentes. E para frisar essas passagens vos escrevo, porque é do vosso interesse, do interesse de nós todas que se trata,—e todas deveis saber o que valeis e quanto a sociedade espera e tem direito a esperar da vossa cultura e ação inteligente.
Foi-me grato encontrar nas palavras da luminosa e bondosa alma que é o dr. Manuel de Arriaga, um apêlo á mulher portuguêsa—que tem sido até hôje, no seu proprio dizer, o maior auxiliar da tirania.
Mas um auxiliar inconsciente, dizemos por desculpa, se a inconsciencia a póde ser, não o sendo a ignorancia das leis perante o delicto a punir.
Apraz-me conhecer a opinião do infatigavel batalhador sr. Heliodoro Salgado, porque essa opinião coincide com a minha, expressa em muitas paginas destas mesmas cartas, espalhada por artigos e correspondencia particular que sobre o assumpto ha muito tenho escripto.
Comoveu-me o pedido do sr. dr. Teixeira de Carvalho, o energico e brilhante espirito, feito ás Mães Portuguêsas.
Não fômos esquecidas, nessa manifestação de quanto póde a inteligencia e a vontade aliadas no bem—exercicio de força que não tem por campo de manobras os montes e as encostas duma região, mas o espaço infinito do pensamento. Não tem horizontes que se fechem em recorte de montanhas agrestes, é campo aberto a todas as energias e vontades, esplendente de luz que não queima em fantasmagorias dolorosas de febre, mas que ilumina as almas e aclara os espiritos, fazendo-os ascender ás regiões superiores da verdadeira e pura Consciencia.
Se pudessemos ter assistido a essa reunião em que festejou a criança—a pobre criança portuguêsa, tão tristemente educada, tão despresada mesmo!—o amoravel apostolo da educação dr. Bernardino Machado, mortificar-nos-ia o sentimento da propria inferioridade, que não nos deixaria responder com a confissão das nossas culpas, mas tambem com o nosso libello acusatorio aos homens livres, que têm consentido em que as mulheres sejam as mais ardentes adversarias dos seus ideais, o auxiliar passivo e inconsciente da tirania e do retrocesso.
É justa, se bem que implicada de censura amarga aos homens, a frase do sr. Heliodoro Salgado:—resgatêmos a mulher da ignorancia a que a temos condenado e ella será a nossa cooperadora na revolução.
Educar a mulher; torná-la util a si e aos seus, pelo trabalho remunerado; escolher cada homem livre esposa que o seja, não só do corpo mas tambem do espirito, não só humilde e paciente dôna de casa, mas nobre e inteligente educadora, fóco de luz e de bondade superior, irradiando na familia, como sol por onde se norteia a alma caminhando para o futuro.
Se assim fosse, a revolução deixaria de ser um facto brutal e rude para ser tão sómente uma evolução triumfante para a humanidade que marcha e se resgata...
Não ha homem que se possa dizer livre, e que afoitamente possa responder pela sua propria consciencia, em todas as horas de desfalecimento e de dôr, quando a seu lado tenha—ignorante, mas teimosa na crença; sem brilho na palavra, mas cheia de convicção no olhar; sem convencer pela razão, mas abalando pelo comentario de cada hora—a mulher que é a sua companheira, que foi talvez a sua paixão, que é a mãe dos seus proprios filhos.
A mulher, sempre atrazada, por mingua de educação, no evolucionar das aspirações e das novas crenças sociaes é o agente mais importante do retrocesso e da rotina.
É ella que em politica, como em sciencia, como em tudo mais, é sempre pelos velhos preconceitos, pelo estatuído, pelo comodismo egoistico e enervante do seguro, pelo que ouviu tradicionalmente e não discute nem quer ouvir julgar nem discutir...
Ora a tradição e o respeito pelo passado, se é uma virtude e um estudo indispensavel para o conhecimento perfeito dos costumes e reconstituição historica de uma época, como norma de vida e como crédo intangivel é a negação de todo o progresso e de toda a civilisação.
Conversando ha dias com um pobre barqueiro, de rio acima, ouvimos-lhe, no limitado e pitoresco vocabulario do seu chão estilo, esta observação que é curiosa, pelo que nos revela mais do que pelo que nos diz:—agora—dizia—está tudo mais esperto. O que antigamente só podia fazer um homem velho no oficio e cheio de experiencia, fa-lo hôje, quasi sem custo, um rapaz de dezeseis annos. Os senhores haviam de vêr como rapazinhos governam ahi barcos, rio acima, conhecendo todos os esteiros e manobrando dentro dos canaes das marinhas, como os velhos só o faziam dantes ao cabo de muitos annos lidarem por aquelles sitios. É que está agora tudo mais esperto!—Repetia, concluindo, a frase que era o seu bordão.
Não é porque esteja tudo mais esperto, como queria o homensinho, comprehendem muito bem, mas é porque está tudo um pouco mais instruido. Um rapaz de dezeseis annos que sabe lêr o seu roteiro é incomparavelmente superior ao velho ignorante que só na memoria póde armazenar conhecimentos e esses mesmos com lentidão e insuficiencia adquiridos pela prática.
A mulher portuguêsa tem vivacidade de espirito e assimilação facil; não lhe falta o enthusiasmo nem a paixão; bastaria pois que a educassem e a orientassem.
Mas de quem póde esperar esse forte impulso libertador, unico capaz ainda de levantar a alma portuguêsa a toda a altura da exigente vida moderna? Dos pais que não educam as filhas como criaturas humanas e sim como bonecas de corda, de que é preciso vigiar o maquinismo, e que em vez de lhes fornecerem educação que lhes garanta o futuro pensam com afinco em lhes amoedar o dóte, que mais facil lhes torne o casamento? Das mães, que não comprehendem o que hôje se chama educação feminina e ainda se surprehendem e assustam com inovações de que ouvem falar vagamente? Do homem, já amezendado na vida, comodista, defendendo por egoismo o que lhe satisfaz as aspirações de senhor; querendo a esposa muito sua humilde companheira, hôje prompta a servi-lo, ámanhã a ser a criada dos seus filhos?...
De nenhum desses póde receber o salutar influxo que a torne a companheira condigna do homem civilisado, que a sociedade prepara no seio revoltoso das luctas e desesperos de hôje para um ámanhã mais justo.
É dos rapazes novos—não daquelles que entraram na vida tarados para o ramerrão comodista dos empenhos e empregos públicos, numa covardia mórbida para a revolta e para a lucta—mas duma pleiade de moços a sair das escolas, cuja alma sentimos palpitar numa aspiração perfeita das suas responsabilidades, como disse o Snr. Teixeira de Carvalho. São esses os que as podem encaminhar para a emancipação intelectual, esses os que devem colocar-se ao lado das suas irmãs e, tornando-as as suas verdadeiras companheiras, prepararem o seu proprio futuro de serenidade e confiança no lar.
Então o homem póde entrar com segurança na vida e ferir as batalhas mais sangrentas sem o receio de ver atraiçoada a sua obra na propria casa, na sua familia, pela companheira da sua vida, e pelos filhos educados no despreso e no odio ás suas ideias.
O que em Portugal se tem feito pela mulher é pouco e máu, mas o que se tem feito pela criança é ainda menos e peor, se é possivel.
Por isso nos consola uma festa como a da Escola 31 de Janeiro, iniciativa de rapases das escolas, sustentadas em annos consecutivos de lucta pela esforçada coragem de dois ou três que não debandaram nem desanimaram, passado o primeiro momento do arrebatado enthusiasmo da alma meridional.
Era isto, que fizeram alguns rapases das escolas, isto que fazem hôje e sempre os snrs. Luiz Derouet, Santos Franco e outros, não afrouxando nunca na propaganda, não esmorecendo na campanha contra a indiferença do público; era isto o que eu desejava que as mulheres fizessem. Não as casadas, que têm a sua vida, os seus filhos, os seus encargos, mas as raparigas que estudam e pensam; senhoras novas e inteligentes que do pouco fizessem muito á força de energia e amôr pelas crianças, raparigas modestas que desejassem fazer obra de honestidade e proveito e não especulação caridosa para arranjar noivo mais depresa.
Seriam essas, as futuras mães e educadoras, quem desejariamos á frente de escolas e institutos infantis, criados pela sua iniciativa, vivendo do seu benefico influxo.
Ahi, no convivio da alma da infancia, tão obscura e complexa, aprenderiam o seu papel de mulheres na familia.
Na créche, ellas aprenderiam a enfachar um pequenino corpo leitoso e mole, que mais tarde a natureza lhe porá ao seio e que as suas mãos inhabeis mal poderão tocar com mêdo de que se despedace. Aprenderiam quais as doenças que mais adquire a primeira infancia; qual a maneira de as evitar e combater, o que se chama a hygiene propriamente infantil.
Na escola maternal, aprenderiam, ensinando, como é facil educar e instruir crianças de menos de seis annos, conservando-as sempre na atmosfera alta da curiosidade e da aprendisagem.
Na escola primaria comprehenderiam quanto é agradavel e facil ensinar crianças, quando a familia ou a primeira escola as enviarem já com o raciocinio desabrochado e com certas noções da vida e da natureza que as rodeia.
Nos hospitaes adiquiririam aquella prática de tratar os pequeninos doentes, que tão custosamente obtêm as mães quando a alma lhes sangra pelo soffrimento dos seus filhitos.
Nas escolas-oficinas, nas escolas práticas de cosinha, de costura e de governo de casa, em toda a parte onde se trabalhasse pela criança, a mulher solteira poderia formar o seu caracter, conhecer e fortalecer as suas aptidões, fazer a si mesmo a educação que a tornasse util a todos e lhe desse para o futuro a certeza de poder contar comsigo para provêr á propria subsistencia.
A menina solteira no nosso paiz tem uma vida sem responsabilidades sociaes e a maior parte das vezes sem utilidade nenhuma.
Anda na escola ou no collegio—as que não vão para os internatos—até a saia lhe descer do joelho e roçar no cano da bóta. Aos primeiros signaes da puberdade, os pais atarantam-se, num pánico de grandes perigos a recear, e a pequena recolhe a casa.
Depois, se a fortuna o comporta, vem o professor particular ensinar o que póde a quem não estuda nem deseja saber, desde a pintura sem desenho até á musica sem rudimentos. As que não pódem ter professores ficam em casa com o pouco que aprenderam, a esperar que os annos, na sua fugitiva carreira, lhes tragam o noivo correspondente.
Vestem com elegancia, mas não sabem fazer os seus vestidos; sabem pôr sobre os seus cabellos frisados o mais disforme e complicado chapéo, mas não o sabem enfeitar por suas proprias mãos; não costuram nem bordam a roupa da casa; não talham as suas camisas; não cosinham ou sabem dirigir o jantar da familia; não tomam a si o encargo de criar e educar os irmãosinhos mais novos. As mães poupam-nas o mais possivel. É o seu bom tempo—dizem. Deixá-las, lá virá época em que tudo aprendem á sua custa!...
Pobres dellas! Não viram, no seu exemplo, quantas amarguras representa essa aprendizagem á propria custa, desde o mau humor do marido que vê tudo feito por mãos inexperientes até ao desrespeito das criadas por quem não as sabe mandar nem ensinar.
A rapariga portuguêsa não é um sêr util e respeitavel, de que os rapazes sejam fraternaes companheiros, lendo os mesmos livros, interessando-se pelos mesmos assumptos, conversando naturalmente em qualquer ocasião e com qualquer pessôa que se encontrem.
Não, ella é uma criatura no papel passivo de pretendente, esperando vagamente o numero da loteria—que lhe dê o premio.
Depois, conforme este seja, grande ou pequeno, isto é, marido rico ou pobre, terá então que adaptar a trouxe-mouxe as suas qualidades assimiladoras e resignar-se ao trabalho ou pavonear-se soberbamente no luxo e na inactividade.
Para tudo está preparada, não estando habilitada para coisa alguma.
A rapariga portuguêsa é, em resumo, uma criatura encantadora, que veste com garridice, que passeia nas horas de musica, que vai ás praias, aos theatros e ás reuniões, que ás vezes lê os folhetins dos jornaes e tem ataques de nervos, de quem os rapazes desdenham e troçam—mas que, por fim, virão a ser as suas mulheres.
Quantas não têm o desejo de se tornar uteis, de ganhar para os seus alfinetes, de terem uma ocupação que as enobreça aos seus proprios olhos e as habilite a serem mais tarde livres pelo seu trabalho?!
Mas, entorpecidas pela educação, deprimidas pelos estreitos habitos da vida portuguêsa, resignam-se a não serem mais do que as outras—umas eternas aspirantes ao casamento.
Inteligente e dedicada como é, em geral, a mulher portuguêsa, que grande e bella obra social não faria, quem a pudesse interessar pelas duas questões capitaes de que depende o resurgimento da nossa patria e o futuro da nossa raça:—o trabalho livre e remunerado para a mulher, a educação, fisica e intelectual, da mísera criança portuguêsa.
A MULHER DE HA TRINTA ANNOS E A MULHER DE HÔJE