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Cidades e Paisagens

Chapter 6: INDICE
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About This Book

Uma coleção de cartas de viagem e reflexões produzidas durante uma rápida jornada pelo norte da Europa e África, em que o autor prefere analisar impressões morais e sociais a descrever pormenores topográficos. Expõe modos de viajar — estudo, curiosidade e um meio-termo erudito — e comenta ordens políticas e costumes, apontando a disciplina e o fetichismo do dever observados em Berlim. Inclui diálogo intelectual com Tolstoï sobre progresso, propriedade e organização social, admiração pela vida humilde do pensador e várias meditações sobre cidades, paisagens e o exercício do olhar do viajante.

E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso, como uma onda negra espumando sangue.

N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.

D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima tudo lhes deu: uma alimentação variada, abundante e sã, e as alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo plena expansão de vigor.

Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.

Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza—a obesidade. É ahi que vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados, desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á sexagenaria informe.

Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos musculos, palrando com grandes gestos, saracoteando-se e cantando, constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.

A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser sensual.

Para que tudo esteja d'harmonia—e esta harmonia é para mim o mais bello da Andaluzia—a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia; adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de belleza. Não foi a Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os povos. Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.

Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense, tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um boulevard?

Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.

Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos Pyrenéos e dos Alpes.

A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra tremula e fria do vidoeiro e do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de primavera rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o perfume do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando palpitar d'um crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é ardente e ampla, um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.

Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!


INDICE

Pag.
DedicatoriaV
AdvertenciaVII
Modos de viajar2
O Minho4
O Douro6
Entrada em Hespanha7
Salamanca9
Miranda do Ebro12
Os Pyrenéos13
Paris14
Liège23
Lavoura por cavallos24
Campos de Liège25
O Hanover26
Prados e florestas27
O snr. G. Saunders28
Berlim29
De Berlim a Varsovia; a alfandega russa33
A paisagem da Polonia34
Varsovia36
A paizagem do norte da Russia38
A aldeia da Russia39
Moscow40
Visita a Tolstoï44
S. Petersburgo53
A Finlandia55
A paizagem56
A Scandinavia59
Copenhague64
A industria moderna67
O domingo em Paris72
Seducções de Paris73
Paizagem do Rhodano75
Marselha76
Caminho d'Argel77
Argel80
Paizagens87
Os monumentos arabes91
A Andaluzia97

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